12 de setembro de 2021

11/09/01, 20 anos.

   
   Foi há precisamente 20 anos, mas poderia ter sido ontem. As memórias permanecem nítidas. Tinha faltado ao primeiro dia de aulas por capricho. Ia almoçar com os meus pais quando se deu o primeiro embate. Julgou-se um terrível acidente. No momento em que nos preparávamos para nos sentarmos à mesa, já com os olhos postos na televisão, surge um segundo avião que nos deu a certeza de que tudo fora deliberado.

   Mudou o mundo e o nosso entendimento sobre ele. O 11 de Setembro, tão dramático que se apropriou de uma data do calendário, deu início a uma nova era no dealbar do século XXI. Uma era securitária, de guerras preventivas, de choque entre civilizações e religiões, de incumprimento dos preceitos do direito internacional. Todos passámos a ser potenciais vítimas e suspeitos. Os seus efeitos prolongar-se-ão por tempo indefinido.




10 de setembro de 2021

Jorge Sampaio (1939-2021).


   Em Portugal, quem morre perde todos os defeitos. Os erros eliminam-se, apagam-se das biografias pessoais. Jorge Sampaio, falecido hoje, não era uma figura que inspirava antipatia. Não era, efectivamente. Consta, do seu percurso político, o activismo contra a falta de liberdades na fase final do Estado Novo, a luta pela implementação e consolidação da democracia e, décadas depois, o empenho na defesa dos direitos humanos. A César o que é de César. Entretanto, moveu-se por interesses de natureza partidária e afinidades políticas. Fez um juízo, já si discricionário, de instabilidade em 2004, quando havia uma maioria parlamentar favorável. A sua actuação conduziu à vitória do PS, o que é normal em democracia, porém, à ascensão de uma figura sinistra chamada José Sócrates. Esse feito, que leva a assinatura de Sampaio, em grande medida, tem sido assinalado hoje, e é bom que o seja.

    O seu segundo mandato conheceu períodos conturbados, desde logo em finais de 2001, quando Guterres pediu a demissão (na sequência da derrota nas autárquicas) e a dissolução do parlamento levou à vitória do PSD de Durão Barroso e, três anos depois, o já citado episódio com o governo de Santana Lopes. E se é certo que as análises à distância e quando não se ocupam cargos de responsabilidade são mais fáceis, Sampaio abriu um precedente inédito, que tentou justificar, ou explicar mais tarde, e que ele soube, e nós sabemos, que a bem ou a mal escreveu a página das suas memórias, que são as nossas, que melhor recordaremos pelos piores motivos.

9 de setembro de 2021

Aquashow.


    Durante a minha estadia no Algarve, um amigo levou-me a um parque de diversões aquático pela primeira vez. Eu não sou nada aventureiro, nada. Ver aquelas atracções todas, com escorregas, montanha russa, pistas etc, encheu-me de medo. Não queria ir, mas com tanta insistência acabei por aceitar. Além disso, e embora não seja nada aventureiro e corajoso, sou tremendamente curioso, e há um lado em mim que quase me obriga a viver certas experiências para ter o que contar.

    O parque fica situado em Quarteira. É enorme, e eles dizem -o meu amigo corroborou- que é o mais completo do país. Está dotado, a par das atracções que o tornam apetecível, de piscinas: tropical, para nadar e uma que, de tempos a tempos, gera ondas artificiais. Dispõe ainda de uma piscina-jacuzzi de água quente com tempo cronometrado, senão muitos (incluindo eu) não sairiam dali.

   Das ditas atracções, umas são pistas individuais sem bóia, ou seja, lançamo-nos sem qualquer acessório; depois há aquelas individuais com bóia e algumas que permitem duas ou mais pessoas numa bóia. Escusado será dizer que eu não me atrevi a entrar em nenhuma individual, por medo, e fiz praticamente todas a dois ou mais (éramos três). E fui à montanha russa.

    O que mais receio me provocou foi a velocidade que as bóias atingem. Impulsionadas pela água (algumas com jactos), aquilo vai por ali afora de modo descontrolado. A bóia gira, inclusive pode-se virar, e nós no meio. Não houve nenhum momento em que me tenha sentido em perigo -é um parque moderno, concorrido, com fiscalização. É aquela sensação de descontrolo e desgoverno, aliados à novidade, que me fizeram ficar apreensivo. Longe vão os tempos daqueles parques aquáticos em Portugal que levaram à morte de duas crianças.

    Em que atracções andei? Pois bem, foram elas: o Riverslide, o Shark Slide, a Montanha Russa, o Thunder Cruise, o Mammothblast e o Lazy River, mais as piscinas. Houve alguns em que, mesmo acompanhado, não tive coragem de me meter. Para mim e para uma primeira vez, foi mais do que poderia esperar (acreditei que nada faria).

     Uma vez que andamos pelo parque, que é extenso, e deixamos os nossos pertences por ali mesmo, nos vários jardins habilitados para o efeito, não levei o telemóvel, por precaução. Assim mesmo, eles têm um staff encarregue de nos tirar fotos (que depois vendem a um preço escandalosamente elevado para o que é). Porque foi um inédito e provavelmente não me meterei de novo em algo assim, comprei as minhas fotos na montanha russa e na piscina de ondas. Duas recordações.

6 de setembro de 2021

Férias (V) - O Algarve e a inquietação.


   Fica desde já prometido que esta é a minha última publicação sobre umas férias que começaram nas Canárias, passaram pela Finisterra e terminaram, como vem sendo habitual desde há uns anos a esta parte, no Algarve, em Vilamoura, onde estive praticamente quinze dias. E já temos planos para uma viagem, no final de Outubro, a Roma, Florença, Atenas ou Amesterdão, que o M. ainda tem quinze dias por gozar. Tenho andado a pensar acerca da cidade a escolher, com ligeira preferência pela capital italiana.

   Cada vez se torna mais difícil para mim ir a Portugal. O único que me liga àquele país é a minha mãe, e eu diria também o meu pai (porque fica bem), se bem que, em verdade, há anos que não lhe ponho os olhos em cima. Falamos diariamente pelo chat. Não necessito de mais.

    O Diesel ficou no apartamento. O M. cuidou dele como pôde, que a vida de um médico com plantões de 48h não lhe permite muito mais. Levava-o a passear quando chegava a casa ou nas horas mortas, uma a duas vezes por dia, o que é pouco. O cãozinho também é outra fonte de preocupações quando me ausento, e a última vez fora há precisamente um ano. Não o deixei de novo no hotel para animais porque o M. me garantiu que ele ficava bem. E ficou. Alguma solidão passou, mas ficou bem, na sua casa, na sua cama.

    Quando estou , a cabeça e o coração ficam cá. A sensação, ao regressar, é a de um dever cumprido, e é assim que encaro todas as minhas idas a Portugal. Não é um prazer. É um dever. Um dever que, espero, só se imporá de novo dentro de um ano. Agora, quero desfrutar de novo da minha casa, do Diesel e do M., que tanto me necessitam e que são, em rigor, a minha família.

21 de agosto de 2021

Afeganistão.


     Quando soube o que ocorrera, julguei ter recuado a 2001. Julgámo-lo todos, e mais ainda os afegãos, que de pouca liberdade gozaram para, ainda assim, lha tirarem. Os talibãs tomaram a capital, que o país nunca o deixaram de todo, e agora? Vamos ter de novo mulheres proibidas de sair à rua, pessoas açoitadas por usarem uns jeans, homossexuais executados impiedosamente?

   Ouço dizer que "os talibãs talvez não venham a ser o que foram". Há quem esteja disposto a reconhecê-los. Parece mentira. Apoiados pelos EUA durante a guerra com a União Soviética, que também se posicionavam por detrás do governo fantoche que estava em Cabul, creio que o menos importante será discutir de que lado se está. Só pode haver um lado aqui: o dos direitos humanos. É esse que me move, é esse o de qualquer pessoa interessada em lutar pelo bem-estar e pelos direitos dos afegãos, das mulheres afegãs, das minorias afegãs.

    Se para a salvaguarda desses direitos for necessária uma intervenção no país, que seja decidida pelas Nações Unidas, a única que o pode fazer. O que não podemos é calar, ignorar, transigir, fazer deste caso mais uma moda de redes sociais. Pensemos que podia ser connosco, se tivéssemos tido a pouca sorte de nascer por ali. E pensemos também nas minorias doutros países da região que não desfrutam do alarme social que o governo talibã gerou no ocidente. É que as violações dos direitos humanos estendem-se àquela região do globo, são comuns a vários países, praticadas por vários governos internacionalmente reconhecidos. Evidentemente que derrubar os talibãs é imperioso. É salvar vidas. Não nos podemos é ficar por aí. Como venho dizendo, o respeito pelas religiões e pela soberania dos estados cede perante a defesa dos direitos humanos, da vida, da integridade física, do livre desenvolvimento da personalidade. Sempre.

19 de agosto de 2021

Férias (IV) - A Finisterra.


   Finisterra, em latim, finis terrae, ou seja, “o fim da terra”. Isso pensavam os romanos quando a baptizaram assim. Julgavam que tinham chegado ao ponto mais a oeste do mundo, mas afinal enganavam-se: esse estava no Cabo da Roca, em Portugal, o ponto mais ocidental da Europa continental.

    A Finisterra é um munícipio galego na província da Corunha, e foi ali que as nossas férias seguiram após termos regressado das Canárias. O avião aterrou em Santiago de Compostela, e no dia seguinte partimos em direcção ao nosso destino. Umas poucas horas de carro.


As águas, límpidas


    O clima daquela região espanhola não poderia distar mais do das Canárias, de forte influência oceânica, que se reflecte na aragem, fresca, e na temperatura da água, gélida. Pude constatá-lo na agreste e perigosa Praia do Mar de Fora, de mar revolto, extremamente impróprio para banhos. A Praia da Langosteira, todavia, é mais conhecida e convidativa.


A Finisterra está intimamente ligada à arte da pesca


    Ficámos hospedados numa casa rural, lindíssima, com piscina e um jardim extremamente agradável. Os seus proprietários eram um casal de dois senhores homossexuais de meia idade. À propriedade, imprimiram-lhe uma faceta antiga na decoração das divisões principais e dos quartos. Sentimo-nos em casa, é um facto. Além disso, tinham uma biblioteca recheada que nos fez as delícias enquanto desfrutávamos daquele sol não tão escaldante quanto o canário. São excelentes anfitriões, e um deles ocupa-se da parte culinária. Os pequenos-almoços, à discrição, eram requintadíssimos. 

    A vila é recomendável a quem quer descansar. Ainda assim, culminando ali o Caminho de Santiago, são de esperar muitos peregrinos.

Todas as fotos foram captadas por mim. Uso sob permissão.

10 de agosto de 2021

Férias (III) - As Canárias.


  Seguindo no nosso roteiro, outra das praias que nos ficou debaixo de olho foi a dos amadores, um pouco depois da praia de Puerto Rico. A Playa de los Amadores é parecida à de Puerto Rico: tranquila, numa baía, onde uma vez mais testei os meus limites. Fui, a nadar, até à zona que delimita a área reservada aos banhistas e a que fica para lá dessa linha marcada por pequenas bóias amarelas.


Esta foto foi tirada por casualidade, e é uma das que mais gosto das férias



   Na sexta-feira, julgámos por bem passar o dia na capital das Canárias, Las Palmas (de Gran Canaria). Las Palmas tem perto de 340 mil habitantes, o que, em Portugal, a tornaria na segunda cidade mais populosa. A sua área metropolitana ascende aos 600.000. Para variar, literalmente, não fizemos praia. Conhecemos a zona histórica, fomos à sua catedral -a Santa Iglesia Catedral-Basílica de Canarias-, que é lindíssima. Conseguimos, a dois minutos de encerrar o elevador que nos leva à torre, subir e apreciar as vistas sobre a cidade. No Patio de los Naranjos, que fica situado ao lado da catedral, visitámos o Museu Diocesano de Arte Sacra. Por último, o Museu Canário, que, honestamente, foi o que me deixou mais na expectativa (ainda na fase anterior à viagem, de pesquisa), pela colecção assombrosa de fósseis humanos, de aborígenes, ou seja, de povos autóctones da ilha que a habitavam aquando da chegada dos exploradores espanhóis e portugueses.


La Plaza Mayor de Santa Ana

  As férias nas Canárias estavam prestes a terminar, mas seguiriam no dia seguinte, após uma breve passagem por Santiago de Compostela, noutro local igualmente encantador. 

Todas as fotos foram captadas por mim. Uso sob permissão.

4 de agosto de 2021

Férias (II) - As Canárias.


   A viagem durou duas horas e meia. Quando chegámos, dirigimo-nos imediatamente ao hotel. Depressa constatámos que se tratava de uma estância predominantemente homossexual pela quantidade de casais compostos por membros do mesmo sexo e bandeiras arco-íris que decoravam janelas e varandas. Demos um pequeno passeio pelas imediações, e desde logo um homem ofereceu-nos uma massagem aos dois. Foi a primeira vez que tal nos sucedeu, e a nossa reacção, em uníssono e imprevista, foi um “no, gracias”. Foi o meu primeiro confronto directo e inequívoco com uma sociedade muito mais aberta do que a portuguesa. Há inclusive, na zona, um centro comercial dedicado exclusivamente ao público homossexual e inúmeras lojas gay; dentro delas, lojas para bears, por exemplo. Vi um pénis em formato de vela, com as cores arco-íris, que tentei adquirir mais tarde, sem sucesso porque a loja estava fechada.


As vistas desde a varanda do nosso quarto


   No primeiro dia, ficámo-nos pela praia do inglês, ou seja, a praia que corresponde à zona do hotel. É uma praia imensamente frequentada, de areia escura. A ilha tem origens vulcânicas. De manhã, deixámo-nos ficar na piscina a relaxar. O hotel dispunha de piscinas de hidromassagem, além de solário, sauna e ginásio. Apenas experimentámos a hidromassagem. À noite, estávamos tão cansados que não saímos.


Uma pomba no areal


    No segundo dia, e uma vez que não estávamos distantes, fomos conhecer as dunas de maspalomas, e o nome já indica que são dunas, mas umas dunas totalmente distintas daquelas que conhecemos na península. São dunas que mais se assemelham a um deserto. Um microssistema com interesse, que termina numa praia. Se visitarem a ilha e eventualmente as dunas, não aconselho a que o façam à hora de maior calor. A temperatura da areia é verdadeiramente escaldante.


As Dunas de Maspalomas


   No terceiro dia, invertemos “o esquema”: começámos pela praia, desta feita na praia de Puerto Rico, uma praia formada por uma baía. As águas eram muito mais calmas que as da praia do inglês. Alugámos o chapéu e as espreguiçadeiras, como de resto fizemos sempre que as praias os tinham, e passámos uma tarde agradabilíssima.


A Praia de Puerto Rico


     No quarto dia, dirigimo-nos bem cedo ao norte da ilha, uma viagem que nos levou três horas, mas que considerámos essencial, até porque nunca havíamos visitado piscinas naturais. Fomos às piscinas naturais de Agaete, um paraíso natural formado pela erosão das rochas de origem vulcânica. O oceano foi esculpindo fossas e transformando-as gradualmente em piscinas. A única acção do homem foi dotar as piscinas de escadas para que os banhistas possam subir e descer.


As encantadoras Piscinas Naturais de Agaete



     Os restantes dias ficam para publicação ulterior.

Todas as fotos foram captadas por mim., Uso sob permissão.

2 de agosto de 2021

Férias (I) - As Canárias.


   Decidi-me a dedicar algumas publicações espaçadas às nossas férias. O M. queria uma viagem não tão distante, mas, por insistência da minha parte, lá aceitou; comprámos as passagens, reservámos os hotéis (dividimos as férias em dois locais, para variar) e esperámos um mês. As férias de um médico são marcadas com antecedência, e de certa forma também me quis assegurar de que tudo corria bem. Para tal, faz-se mister que tratemos dos assuntos atempadamente.

  Fomos ao arquipélago das Canárias, um conjunto de sete ilhas principais e mais alguns ilhéus que pertencem à Espanha. Ficam geograficamente situadas no norte de África, ao largo da costa do Saara Ocidental, um território a sul de Marrocos que até 1975 esteve sob a soberania espanhola. Com tantas ilhas à nossa disposição, por assim dizer, Tenerife talvez fosse a escolha mais evidente, entretanto, a preferência recaiu sobre a Gran Canaria, justamente onde se localiza a capital, Las Palmas de Gran Canaria. Não ficámos na capital, senão no sul da ilha, numa zona turística conhecida como Playa del Inglés.

   Por curiosidade, quando reservámos o hotel, um dos factores que tomei em consideração foi escolher um que não aceitasse crianças, por uma questão de maior tranquilidade. As crianças podem ser um tormento nos espaços de uso comum (e eu sei do que falo). Não sabíamos nós que nos encaminhávamos para uma das principais estâncias gay da Europa, a praia do inglês. Relativamente ao hotel, imaginei que os hóspedes fossem sobretudo gays e lésbicas, que os casais heterossexuais têm filhos, regra geral.


Costa marítima de Agaete


   Como calculam, o clima do arquipélago é subtropical, seco, o que se reflecte na paisagem, árida. As águas são cálidas e agradáveis. As temperaturas oscilam todo o ano entre os 20ºC e os 25ºC, nesse sentido, as Canárias são um excelente destino para quem gosta de fazer praia e não pode tirar férias no Verão. 

    Durante a nossa estadia, tivemos o cuidado de jamais repetir uma praia. Todos os dias fizemos piscina no hotel e reservámos as restantes horas para conhecer um local distinto, uma praia diferente. A ilha está longe de ser uniforme no que respeita às suas características. Se o litoral é seco, com dunas escaldantes, o interior é mais húmido, com bosques e serras que se elevam em altitude. Por uma questão de gestão do tempo, afastámos a ideia de conhecer o interior, cujas paisagens nos remeteram muitíssimo à Galiza. O nosso principal objectivo foi por um lado fazer praia e piscina, que adoro, e pelo outro, considerando esse objectivo, variar o mais possível. Sendo uma ilha, a Gran Canaria tem uma extensão territorial apreciável, 1.560 km2, o que a torna na terceira maior do arquipélago, suficientemente grande para ter autoestradas com três faixas de rodagem e inúmeras carreiras de autocarro. Em termos de comparação, a área metropolitana de Lisboa, conhecida por Grande Lisboa, tem uma área de 1.381 km2, um pouco menos que a Gran Canaria. Conseguem, então, ter uma ideia aproximada da extensão, que é significativa. Geralmente, nós, continentais, ou peninsulares, como lhes chamam os espanhóis aos seus nacionais que vivem em território continental, temos um conceito errado de ilha. Há ilhas maiores do que Portugal: Cuba, a Islândia, a Grã-Bretanha, Madagáscar, e outras muitíssimo maiores, como a Gronelândia, por isso, nada mais errado do que aquele dito jocoso de que numa ilha corremos o risco de cair da cama e acabar no mar.

    Na próxima publicação, começarei então a relatar mais pormenorizadamente a nossa passagem pela Gran Canaria.


Todas as fotos foram captadas por mim. Uso sob permissão.

13 de julho de 2021

Euro 2020, a final, e férias.


    Na minha opinião, as equipas mais estáveis ao longo do torneiro, exceptuando a Dinamarca, eliminada pela Inglaterra nas meias-finais, foram a própria Inglaterra e a Itália. A Itália ganhou todos os jogos, não deixando por isso de sofrer alguns percalços ao longo do seu caminho até à final, o mesmo que se dizer da Inglaterra.

   Esta edição do Euro 2020 teve a particularidade de ser disputada em várias cidades europeias. Por acaso do destino, ou não, a Inglaterra jogou sempre em casa, em Wembley. Somente nos quartos-de-final defrontou a Ucrânia em Roma, goleando-a, a propósito. Sabemos que, nestes torneios, os factores jogar no país de origem e com público favorável nos estádios podem ajudar ao desempenho das selecções ou equipas que têm essa sorte do seu lado. A Inglaterra, à semelhança de Portugal em 2004 e da França em 2016, começou a padecer de um excesso de confiança que a prejudicou. Houve, além disso, um certo desdém e desrespeito dos adeptos ingleses, já de si pouco conhecidos pela moderação, pelos seus adversários, primeiro assobiando a Dinamarca durante a apresentação do hino e de seguida propagando mensagens que davam como garantido a ida da taça para Londres. Apesar do efeito aparentemente galvanizador, há a outra face da moeda: a responsabilidade acrescida. A Inglaterra ficou como que obrigada a ganhar, por um conjunto de circunstâncias que a beneficiavam, ao passo que a Itália, que nas duas últimas grandes competições nem se conseguiu apurar, ainda que tivesse perdido ontem, seguramente que os adeptos reconheceriam o esforço da squadra azzurra de passar da surpreendente ausência das fases finais dos campeonatos da Europa e do mundo para uma disputa do título. O saldo seria sempre positivo. 

    Após a derrota de Portugal e de Espanha, passei a torcer pela Dinamarca, uma selecção que foi colhendo o carinho de aficionados de todos os cantos da Europa também pelo trágico episódio com um dos seus atletas logo no jogo de estreia frente à Finlândia. Não considero que a derrota com os ingleses tenha sido justa, se se pode falar de justiça num desporto, em todo o caso, chegar às meias-finais e morder os calcanhares de selecções teoricamente mais fortes evidencia uma excelente participação dos dinamarqueses.

     Já em 2022, teremos o Campeonato do Mundo de Futebol, no Qatar, para nos animar o Verão. Eu sigo de férias, por quinze dias, rumando a um local a mais de 2.000 quilómetros de distância de onde me encontro. Até ao meu regresso.

8 de julho de 2021

Samuel, somos todos.


   España se despertó con la noticia de un crimen tremendo: Samuel, homosexual, fue víctima de una paliza hasta la muerte. Testigos del bárbaro crimen afirman que el asesinato tuvo su origen en la orientación sexual del chico. Os acuerdo de que España es el país del mundo más tolerante con el colectivo LGBT+. ¿Qué pasó, entonces? La policía tampoco lo sabe. No está claro que su homicidio se deba a motivaciones homófobas. Aún así, la comunidad LGBT se animó a salir por las calles exigiendo que todo sea aclarado, que la muerte de Samuel no haya sido en vano y que la gente empiece definitivamente, todos, a respetar la diferencia.

  El asesinato coincidió con la semana de la marcha LGBT. Un poco por toda Galicia hubo manifestaciones públicas. Samuel fue muerto en La Coruña, una de las principales ciudades de la comunidad.

   Todos nosotros, personas LGBT, podríamos haber sido víctimas de tamaña atrocidad. Ahora más que nunca, alzamos la voz y denunciamos la violencia a que fuimos sometidos en el pasado: las ofensas, las agresiones, las humillaciones. Ya no podrán callarnos. Gritemos por Samuel y por la infancia -la vida- que nos han robado.



3 de julho de 2021

Oitavos-de-final e passagem aos quartos.


    Tivemos jogos fantásticos na fase dos oitavos, particularmente o França x Suíça, com a eliminação da França nos pontapés da marca de grande penalidade, e o Croácia x Espanha, com o afastamento da Croácia. Em ambas as partidas, assistimos a várias reviravoltas no marcador. A Suíça esteve a ganhar, falhou um penalti, desmoralizou e deixou-se ultrapassar e depois conseguiu tornar a marcar para arrastar a França  para os penáltis, onde se saiu melhor. O mesmo com a Croácia. Estando a perder por 3x1, empatou, e no prolongamento Espanha fixou definitivamente o resultado em 5x3. 

   A eliminação de Portugal pela Bélgica, não sendo tão evidente, surpreende na medida em que a selecção nacional teve mais oportunidades de marcar, não tendo sido eficaz nos sucessivos remates feitos à baliza do adversário. As derrotas da Alemanha e dos Países Baixos frente à Inglaterra e à República Checa, respectivamente, são igualmente desfechos em que provavelmente não apostaríamos, ambos por duas bolas. Por fim, a Dinamarca goleou o País de Gales, e tem sido a equipa sensação. A Itália ganhou à Áustria com algum sacrifício, embora seja, na minha opinião e na dos especialistas em futebol, a equipa que apresenta um futebol mais espectacular, com um meio campo e uma linha de avançados de exibições que enchem a vista. A Suécia sofreu um revés no prolongamento com a Ucrânia, que marcou o segundo e a pôs de fora dos quartos.

   Ontem, Espanha enfrentou a Suíça em mais um emocionante jogo de futebol que terminou com a derrota dos helvéticos nos penáltis, depois de 120 minutos de um extraordinário desempenho do seu guarda-redes, que por várias vezes evitou que a Espanha invadisse a portería do país dos Alpes. Assim mesmo, com a Espanha numa tendência desfavorável nos penáltis e um guarda-redes galvanizado, os suíços não foram mais eficazes e caíram em São Petersburgo perante a selecção tricampeã da Europa (1964, 2008 e 2012).

   Mais tarde, a Itália conseguiu encurralar os belgas, vencendo por 2x1. A melhor selecção belga de sempre desperdiçou mais uma oportunidade de dar um título aos seus adeptos.

    Hoje, sábado, terão lugar os dois últimos jogos dos quartos-de-final entre a Ucrânia e a Inglaterra e a República Checa e a Dinamarca. Apuradas para as meias-finais estão já a Espanha e a Itália, que se defrontarão em Londres, no dia 6. Quem não está a seguir esta edição do Campeonato da Europa e gostaria, ainda vai a tempo de conhecer o campeão do velho continente para os próximos quatro anos.

24 de junho de 2021

Fim da Fase de Grupos e passagem aos Oitavos-de-final.


   Eu creio que, sem muitas surpresas, se classificaram para os oitavos-de-final as selecções mais talentosas. Teremos, então, os seguintes jogos:


- Itália x Áustria (primeiro do grupo A com o segundo do grupo C);

- País de Gales x Dinamarca (segundo do grupo A com o segundo do grupo B);

- Bélgica x Portugal (o primeiro do grupo B com o terceiro do grupo F);

- Países Baixos x República Checa (primeiro do grupo C com o terceiro do grupo D):

- Croácia x Espanha (segundo do grupo D com o segundo do grupo E);

- França x Suíça (primeiro do grupo F com o terceiro do grupo A);

- Suécia x Ucrânia (primeiro do grupo E com o terceiro do grupo C);

- Inglaterra x Alemanha (primeiro do grupo D com o segundo do grupo F);


   As surpresas verificaram-se, sim, na quase eliminação da Alemanha, que durante o jogo com a Hungria esteve a perder (o que a afastaria da passagem à fase seguinte); também no parco desempenho da Espanha nos dois primeiros jogos, recuperando no último frente à Eslováquia com uma goleada de 5x0; talvez se esperasse mais da Rússia e da Polónia, mas, no que concerne à Rússia, a equipa demonstrou não conseguir lidar com os reveses no marcador, ou seja, quando se vê a perder, dificilmente conseguem dar a volta ao jogo, ao contrário de selecções como a dinamarquesa ou como a escocesa. Embora eliminada, a Escócia debateu-se até ao final. Ao fim de tantos anos afastada das grandes competições internacionais, a chegada a uma fase final de um campeonato da Europa não deixa de representar um grande feito. Evidentemente, sendo uma das selecções mais antigas do mundo, a Escócia espera sempre mais. O mesmo se pode dizer da Macedónia do Norte, apurada pela primeira vez para o Euro 2020, o que por si só representa uma vitória.

    Quanto a Portugal, perdeu por quatro bolas com a Alemanha, uma derrota pesada para a ainda campeã da Europa em título, e conseguiu o acesso aos oitavos-de-final a duras penas, dependendo não apenas de si, senão também do resultado da Alemanha com a Hungria. Ontem, diante da França, não podemos de todo dizer que Portugal foi mais fraco, uma vez que se bateu bem na presença da campeã do mundo e talvez grande favorita à conquista deste título europeu. No próximo jogo de domingo, com a Bélgica, não afastando um certo favoritismo da selecção portuguesa, diria que tão-pouco há razões para temer os belgas. Portugal tem grandes jogadores, capazes do melhor (e às vezes do pior). Estamos acostumados aos resultados fracos, à tangente, e a exibições pouco padronizadas.

    A partir de agora, é o tudo ou nada. Há que vencer cada jogo, sem margem para erro.

22 de junho de 2021

Novo membro da família.


   Não, não decidimos adoptar uma criança, o que está completamente fora de questão -eu e o M. detestamos crianças.

     Já no ano passado, depois da adopção do Diesel, eu tentei convencer o M. para que acolhêssemos um gatinho cá em casa; acolher não no sentido de nos tornarmos numa família de acolhimento: acolher enquanto tutores, adoptando-o como o fizéssemos com o cão. Após alguma insistência da minha parte (de início, o M. rejeitava a ideia de termos outro animal, e menos um gato), decidimos recentemente, em conjunto, começar a procurar um gatinho. Tentei-o na associação de protecção de animais da vila e disseram-me que não tinham de momento um gato domesticado que pudesse conviver facilmente com um cão. Procurei, então, na associação em que adoptei o Diesel. Têm imensos animais, sobretudo gatos. Escolhi um animalzinho de 1 ano de idade com uma característica especial: debaixo do focinho branco, o Bigotes (o seu nome) tem uns pêlos negros que lhe dão o aspecto de um bigode desenhado. Segundo a senhora da associação, ninguém o quis precisamente por isso, por o acharem diferente. Apercebo-me de que a maioria das pessoas adopta animais perfeitos e pequeninos.

    O Bigotes, que ganhou um nome que lhe antecede o que já trazia, em jeito de nome conjunto, Señor Bigotes, é totalmente saudável, isto é, não padece de FIV ou de FeLV, os vírus, respectivamente, da imunodeficiência e da leucemia felinas. Já o trouxemos vacinado, castrado e desparasitado, ao contrário do Diesel, que não tinha nada.

   Até ao momento, o período de adaptação ainda decorre. Ele estava entregue aos cuidados de uma família de acolhimento desde os três meses, convivendo com outros animais. Estranha-nos, evidentemente, bem como ao cão, à casa, às rotinas. Tudo é um universo novo para si. Assim que chegámos a casa, no domingo, quando o fomos buscar, saiu do transportador e refugiou-se debaixo da cama do quarto de hóspedes, num canto entre a cabeceira e a mesinha, e só ontem à noite começou a querer sair. Equipámos a casa com todos os artigos essenciais: o seu sanitário, um arranhador, uma caminha, e foi com agrado que percebi que durante a madrugada, logo na primeira, soube usar correctamente a caixinha das necessidades. Sai de vez em quando, achega-se ao nosso quarto, explora a casa, mas ao menor ruído corre para debaixo da cama. Sente-se protegido ali. Já sabemos que os gatos lidam com estas mudanças de outra forma. Respeitamos o seu espaço e o seu tempo.

     Bom, e apresento-lhes o Bigotes... perdão, Señor Bigotes.




16 de junho de 2021

Primeira jornada da fase de grupos - Euro 2020.


    O campeonato da Europa de futebol começou no sábado passado, no dia 11, com uma disputa entre a Turquia e a Itália que se saldou numa vitória da squadra azzurra por três bolas a zero. Uma vitória folgada que Portugal igualaria no resultado, ontem, com a Hungria, e que nos mostrou uma Itália igual à de outros tempos, disposta a recuperar a moral e o prestígio. O País de Gales e a Suíça defrontaram-se no dia seguinte por uma bola cada. No dia 12, tivemos até agora o jogo mais dramático da competição. A queda em relvado do número 10 da Dinamarca, Eriksen, interrompeu a partida e provocou consternação geral. Durante mais de uma hora, desconhecia-se o seu estado de saúde. Mais tarde, soubemos que se tratou de uma paragem cardíaca que os médicos que o socorreram prontamente em campo conseguiram reverter. O que não se reverteu, infelizmente para o país nórdico, foi a derrota face à Finlândia, uma equipa mais fraca, uma das mais fracas do europeu, que desfrutando do impacto da tragédia no país vizinho, terminou os 90 minutos com uma vitória por um golo. Para finalizar aquele que foi o segundo dia de Euro 2020, a Bélgica, uma das favoritas à conquista de Wembley, derrotou a Rússia, uma selecção com inúmeras dificuldades, por 3x0.

   O jogo entre a Inglaterra e a Croácia terminou com uma vitória da Inglaterra por um golo. Esta selecção croata pareceu-me diferente, menor em qualidade, comparativamente àquela que ameaçou conquistar o título mundial em 2018. No segundo jogo do dia, a Áustria derrotou a Macedónia do Norte por três a um, na estreia do país dos Balcãs numa competição internacional de futebol. O grande jogo do terceiro dia da copa da Europa travou-se entre a Holanda e a Ucrânia. Uma disputa acesa com 5 golos, três para os Países Baixos e dois para a Ucrânia, selecção que procurou contornar o favoritismo do país das flores, com um segundo tempo recheado de bom futebol.

   No dia 14, a República Checa protagonizou o golo mais bonito e bem executado até agora na prova, um chapéu sem possibilidade alguma de defesa ao guarda-redes da Escócia, selecção que há muito tempo não entrava numa fase final de uma competição desta envergadura. Pela tarde, a Eslováquia, que se estreou no Euro 2016, derrotou uma surpreendente Polónia (pela negativa) por duas bolas a uma. Espanha e Suécia encontraram-se em Sevilha, com um favoritismo espanhol que não se verificou frente a uma Suécia que, jogando à defesa, criou um muro impenetrável à selecção orientada por Luis Enrique.

   Já ontem, Portugal derrotou a Hungria por 3x0. A equipa das quinas foi a que mais oportunidades criou. Em 45 minutos, não vi um remate húngaro à baliza de Rui Patrício. Na segunda parte, continuando a demonstrar competência e vontade de ganhar o duelo, Raphael Guerreiro inaugurou o marcador, que Cristiano Ronaldo enriqueceu com mais dois golos, o primeiro dos quais por pontapé da marca de grande penalidade. No grande jogo desta fase de grupo, o França x Alemanha, confirmou-se o favoritismo dos gauleses no jogo e à vitória final. Sendo ambas selecções de incontornáveis talentos individuais, a França acaba por se afirmar como a melhor. Desde o Mundial de 2014, que ganhou, a Alemanha vem perdendo em qualidade, que se reflecte depois nas suas acções em campo. Em todo o caso, o golo sofrido foi marcado por um jogador alemão na própria baliza, após um lance iniciado pelos franceses. 

   Gostaria de destacar a garra com que selecções tidas como mais fracas têm lutado. Por vezes, a perseverança, a garra, o espírito de entreajuda e o amor à camisola do país que se representa podem fazer surgir pequenos milagres nas quatro linhas.

      A segunda jornada começa hoje.

14 de junho de 2021

Bullying e abusos, a minha experiência.


    Cada vez mais são os que denunciam, nas redes sociais, episódios de violência, ou bullying, como lhe chamam actualmente. Quase todos os que fugimos ao padrão comum da normalidade, da apregoada normalidade, sofremos agressões verbais, físicas, emocionais, psicológicas. No meu tempo, que não foi assim há tanto (cresci nos anos 90 e 00), não havia um nome para o fenómeno, ao menos em Portugal. Éramos maricas, para usar um termo mais “simpático”. A solidariedade era pouca ou nenhuma.

    Eu, como quase todos os homossexuais, sofri abusos. Fui vítima de bullying durante anos a fio, quer na escola, quer onde morava. Era alvo de comentários, piadas e chacotas praticamente desde que entrava no colégio até que saía. Tinha, e tenho, um lado feminino que sobressai, e de que sempre me orgulhei, mas que na altura me tornava facilmente detectável. Não andava atrás das meninas, a quem via como amigas, não me interessava pelo desporto, não era viril, e por aí fora. Recordo-me apenas de uma ou duas situações em que alguém me defendeu, precisamente uma moça guineense, a Edna. Ironia.

   Esses anos de sofrimento, de que à época não me dava conta, moldaram-me o carácter. Hoje falo abertamente do assunto, mas durante muito tempo preferi negar que existira, embora sabendo que o que sou passa mutíssimo por aquilo tudo. Claro está que, à hora de se tirar ilações sobre a personalidade e a conduta de outrem, ninguém procura saber, ou pensa sequer, no que estará por detrás de tal comportamento. Sem subterfúgios, a pessoa má, egoísta, desconfiada, com falta de empatia pelos demais, excessivamente voltada sobre si vem de um processo gradual e inconsciente de afastamento do meu eu face aos outros. Excluí-me da sociedade, não através da adopção de comportamentos criminosos, senão em procurar socializar o menos possível. Eu não sei conviver com pessoas, não gosto de conviver. O meu mundo reduz-se a um núcleo mui restrito de gente que me quer bem e me aceita como sou e à minha personalidade antissocial.

   Felizmente para todos, os comportamentos abusivos e os seus autores estão progressivamente mais isolados. Hoje fala-se das agressões, temos as redes sociais (que ajudam às denúncias) e grupos e pessoas especializadas no acompanhamento das vítimas. Naquele tempo... naquele tempo nada havia. Apenas as quatro paredes onde recalcávamos tantas dores.

10 de junho de 2021

Euro 2020.


   O campeonato de futebol de selecções da Europa está prestes a começar, no dia 11, com o primeiro jogo, e como sabeis, os que me acompanhais, eu sou um verdadeiro fanático -digo-o sem pejo- destes torneios internacionais de futebol. Sigo atentamente los partidos, como dizem aqui em Espanha, todos, ou pelo menos procuro vê-los a todos. 

   Apesar de estar longe de Portugal, a minha mãe é cliente de uma operadora de prestação de serviços de televisão que oferece a possibilidade de podermos visualizar os canais através de uma aplicação que instalei no meu telemóvel, ou seja, trocando por miúdos, posso ver a televisão portuguesa como se estivesse em Portugal, e isso inclui os canais de desporto (porque a minha mãe os tem subscritos, pagando por eles).

    Este ano, pela primeira vez, terei duas selecções. Sendo sincero, o coração bate sempre por Portugal, mas torcer por Espanha aumenta substancialmente a possibilidade de poder comemorar a vitória final. Duas selecções, o dobro de chances de ganhar a grande final de Wembley, no dia 11 de Julho (cinco dias antes de embarcar no aeroporto de Santiago de Compostela rumo a...). Um mês em que me manterei ocupado. Isso também me ajudará a controlar a ansiedade diante das férias.

    Adquiri a revista oficial (chamam-lhe libro, embora seja uma revista de 120 páginas) da UEFA, com todas as informações necessárias, pertinentes, sobre as selecções em competição, os estádios, os jogadores e um calendário para que possamos anotar os resultados dos confrontos. Nada de novo. É o que faço em todos os europeus e mundiais. Comprei um cachecol oficial da selecção espanhola, e o português, que a minha mãe me comprou em 2006, por ocasião do campeonato do mundo daquele ano, que já tem quinze anos, foi-me enviado pelos correios. Estarei bem apetrechado, portanto.




    O campeonato da Europa de selecções comemora o seu sexagésimo aniversário. A bem dizer, foi no ano passado, no entanto, devido à conjuntura sanitária, a UEFA viu-se obrigada a adiar o torneio para data posterior, daí que este ano a competição mantenha o ano transacto na sua denominação, Euro 2020. Num inédito, os jogos serão disputados em várias cidades do continente. Não teremos, portanto, um ou dois países anfitriões.

    No jogo de preparação de Portugal de ontem frente a Israel, vi uma equipa coesa, disposta a lutar pela renovação do título. A fase de grupos que tocou a Portugal por sorteio não é favas contadas: Hungria, França e Alemanha. Nesta edição do Euro, à semelhança do que ocorreu em 2016, também passam os melhores terceiros lugares de cada grupo. Apenas um desastre afastaria Portugal da competição antes dos oitavos-de-final. A Hungria, sendo manifestamente a selecção mais fraca do grupo em que também está Portugal, provavelmente não oferecerá tantas dificuldades à equipa das quinas. Temo pelo desempenho de Portugal no jogo inaugural. Nem sempre entramos com o pé direito.

   Não direi “que ganhe o melhor”, mas sim que ganhem Portugal ou a Espanha, os meus países de nascimento e acolhimento, respectivamente. E rode a bola!

7 de junho de 2021

La Casa de los Espíritus.


   He terminado en este momento el libro que me ocupó las últimas semanas. Obra más conocida de Isabel Allende, La Casa de los Espíritus es una ficción ambientada aparentemente en el Chile del siglo XX, lo que incluye los períodos de democracia y dictadura, después del golpe del general Pinochet. El nombre del país y los nombres de los protagonistas políticos jamás son mencionados, pero suponemos que Allende se refiere a Chile.

  Hay un misticismo que acompaña la existencia de Clara, un personaje decisivo en la narrativa, principal protagonista de la obra. Clara, con su capacidad visionaria, contacta con los espíritus e imprime a la historia su carácter realista mágico y fantasioso.

  Allende hizo un abordaje al Chile de aquellos tempos, e identifiqué semejanzas de fondo con el libro que leí antes de este en la crítica social y política. La Casa de los Espíritus es un cuento de desigualdad social e injusticia, menosprecio y violencia, supremacismo y subyugación, con fragmentos de excentricidad.

  El encuadramiento político y social es imprescindible para sustentar la narrativa. La fortuna de Esteban Trueba tiene su origen en la explotación de los nativos en el pasado, aunque él haya trabajado para rehacerla después de la pérdida provocada por una mala gestión. Lo mismo se puede decir de los sufrimientos por los que han pasado Pedro Tercero García, Jaime, Amanda, Alba o incluso Esteban García, producto de la violación, del rencor. Como Allende ha explicado en el final, hay una sucesión de “eslabones” en una cadena de hechos. Allende, a mi parecer, no se apoderó del destino de sus personajes. El tiempo, y este libro atraviesa prácticamente un siglo, construye y merma a los malos, da a los buenos su puesto de héroes, pero sorprendentemente, quizás por haber sido escrito en 1981, no nos da esperanza.

6 de junho de 2021

HIV/SIDA, 40 anos.


   Foi há exactos quarenta anos, a 5 de Junho de 1981, que o governo dos E.U.A através do boletim MMWR (Morbidity and Mortality Weekly Report) informava os seus cidadãos e o mundo de que cinco pacientes, dois deles entretantos falecidos, haviam sido internados com uma variante rara de pneumonia, a pneumocystis jirovecii, que afectava sobretudo doentes imunodeprimidos. No final do mesmo mês, dado o avanço progressivo e rápido no número de casos, o CDC (Centre for Disease Control and Prevention), entidade responsável pelo estudo de controlo e prevenção de doenças, avançava com uma profunda investigação tendo em vista a descoberta do potencial vírus que estaria por detrás das misteriosas infecções. Como sabemos, somente em 1983 se isolou o HIV, primeiramente em França e de seguida nos Estados Unidos. 

   Os primeiros casos visaram homossexuais e usuários de drogas intravenosas, porém, não demorou muito para que a comunidade científica percebesse que qualquer um poderia ser infectado, incluindo crianças que nasciam de mães seropositivas. Passámos inicialmente da doença dos homossexuais (Gay-related immune deficiency) para a doença dos 4H (homossexuais, hemofílicos, haitianos -comunidade fortemente afectada- e heroínomanos (consumidores de heroína intravenosa). Actualmente, a expressão grupos de risco é rejeitada, por inexacta e incorrecta, e foi substituída por comportamentos de risco: qualquer um se pode contagiar ou contagiar terceiros se não adoptar determinadas medidas de protecção sobejamente conhecidas.

   Avançou-se gradualmente com o surgimento dos primeiros medicamentos que atrasavam a replicação do vírus. Primeiro o AZT, em 1987, ineficaz, até ao primeiro cocktail de drogas, em 1996, que contudo não permitia uma qualidade de vida digna e acarretava, devido às sequelas físicas, um estigma social que isolava os seropositivos, não lhes permitindo trabalhar ou conviver, tamanha a discriminação e a ignorância que existia acerca do HIV e das suas formas de transmissão. Vinte e cinco anos depois, conseguimos que o vírus fique indetectável numa análise sanguínea; reduzimos o número de medicamentos diários e grande parte dos efeitos secundários.

    Desde 1981 a 2021, morreram 35 milhões de pessoas vítimas da acção do HIV, que não é uma doença nem provoca uma doença. É um vírus que destrói os linfócitos CD4, responsáveis pela defesa do nosso corpo frente a infecções oportunistas. Quando essas defesas estão de tal forma comprometidas que já nos encontramos altamente expostos a uma dessas infecções, diz-se que estamos no estágio SIDA, que tão-pouco é uma doença, mas uma síndrome, como o nome indica, ou uma condição, que sem tratamento acarretará a morte por uma qualquer infecção que sobrevenha e que o nosso organismo se veja incapaz de combater.

  A esperança de vida dos seropositivos, com uma detecção precoce do vírus e a toma diária e responsável dos antiretrovirais, ronda os 50 anos após o diagnóstico. Uma vitória da ciência sobre um vírus que, pelas suas mutações, nos tem trocado as voltas no objectivo de se conseguir uma vacina eficaz. Hoje como antes, a palavra mágica passa pela prevenção. 

4 de junho de 2021

Chile, 1973.


   Nos últimos dias, influenciado pelo livro que leio de momento, La Casa de los Espíritus, de Isabel Allende, surgiu-me um interesse inesperado pelo golpe de estado de 1973 no Chile, que derrubou Salvador Allende, presidente eleito democraticamente, e impôs ao país, por longos dezassete anos, uma ditadura com a benção dos EUA. Com o apoio dos yankees, Pinochet ordenou directamente o assassinato de milhares de pessoas, outras tantas desapareceram para sempre ou foram sujeitas a torturas.

   Allende ganhara as eleições e propusera-se a implantar um regime de inspiração soviética, é certo, mas distinto do que vigorava na U.R.S.S. Se o faria ou se assistiríamos ao despontar de uma nova Cuba na América do Sul, nunca o saberemos, mas sabemos, sim, que o regime de Pinochet arruinou com a classe média, favoreceu a burguesia mercantil e, naturalmente, os militares, que governaram com total impunidade. A inflação disparou e a maioria da população não se podia permitir à aquisição e consumo de determinados produtos. A Igreja Católica, aí, desempenhou um papel fundamental ao dar leite aos meninos, abrigos aos que tremiam de frio e pão aos famintos.

   No momento em que Portugal deixava para trás as longas décadas de repressão, o Chile conhecia a tirania. Em 1990, Pinochet foi afastado, mantendo, porém, prerrogativas que abandonaria muito mais tarde, como as de senador-vitalício. As investigações que lhe foram dirigidas culminaram em nada. O antigo ditador morreu tranquilamente. Não foi o único, como sabemos.

31 de maio de 2021

Castro Caldelas.


   Ayer M. y yo estuvimos en un pueblo cercano a donde vivimos, exactamente a unos veinte y pocos kilómetros. Se llama Castro Caldelas, tiene una superficie más grande que nuestro pueblo, pero menos población. Según mi entendimiento, es un pueblo más hermoso y luminoso, con su castillo medieval y su atmósfera fría y gris por las mañanas. Se situa en medio de un valle.


Las vistas del pueblo


    Por la mañana, hemos visitado el castillo y su casco histórico, sus dos iglesias, una de ellas en el interior del cementerio. Por la tarde, comimos en un restaurante de posada, un cocido gallego que yo tampoco había comido ninguna vez, muy semejante a nuestro cozido à portuguesa: las mismas carnes, las patatas, el repollo, el chorizo, pero con garbanzo, como se hace y se come en el norte del país y Alentejo.


La plaza De Castro Caldelas


   Después del almuerzo, visitamos algunas calles más, con sus casitas antiguas, y descubrimos un inmenso y espléndido mirador hacia el castillo y el pueblo. Por la tarde, una amiga vino a recogernos con su coche y nos llevó a su finca, mostrándonos sus flores, sus animales -tres tiernos perros, con los que a Diesel seguramente le encantaría jugar-, y así nos quedamos unas horas charlando, riendo, hasta el anochecer, que aquí en Galicia ocurre más allá de las 22h.

Las fotos han sido sacadas por mí y su uso necesita previa autorización.

29 de maio de 2021

Dias.


   Há dias, eu e o M. marcámos o local das nossas férias de Verão e comprámos as respectivas passagens que nos levarão até lá. Estou imensamente entusiasmado, por dois principais motivos: viverei experiências únicas até então, e essas mesmas experiências vivê-las-ei na companhia do M. Serão momentos especiais com alguém especial.

  Conto os dias para que aconteça. Sabem quando temos um evento com data marcada e parece que todos os nossos pensamentos nos conduzem a esse dia? Assim estou eu, expectante, ansioso, combatendo a languidez com ávidas leituras (de momento, La Casa de los Espíritus, em castelhano, a minha primeira leitura nesse idioma), reflexões fugazes e tardes amenas com o Diesel.

24 de maio de 2021

Eurovision Song Contest 2021.


   Eu nunca gostei da Eurovisão. Não sou bicha festivaleira. Em pequeno, gostava das votações dos países. Nunca prestei atenção às músicas, ao brilho, embora, já no plano interno, recorde algumas das canções mais emblemáticas que Portugal levou àquele que é o maior certamente musical europeu. Lusitana Paixão, Amor d’Água Fresca, A Cidade (até ser dia) Chamar a Música são quatro das que fizeram parte da minha meninice, a par, claro, dos velhos clássicos dos anos 70 e 80, que não vivi e que todos conhecemos.

     O meu marido gosta e até fui eu quem lhe propôs assistir à Eurovisão na noite de sábado. Vimo-la na cama, através da televisão do quarto, que o M. estivera de plantão na noite anterior e se encontrava bastante cansado. Surpreendentemente, não foi um frete. As prestações dos países sucederam-se de modo dinâmico, assim como as votações. E gostei de algumas canções. As do Chipre, da Grécia, da Alemanha, da Rússia, etc., ficaram devidamente guardadas na minha biblioteca da Apple (depois de ter conseguido mudar a loja da Apple Store da portuguesa para a espanhola, que há quase um ano e meio moro aqui e continuava com a Apple Store configurada para Portugal, num processo que me impossibilitou de aceder à minha conta da Apple Music por uns dias).

    A última vez que vira a Eurovisão foi justamente em 2017, quando o Sobral ganhou, num bar de ursos no Príncipe Real, e já mal me lembrava do quão inesperada era a votação do público, que no sábado provocou uma tremenda reviravolta no resultado: a França e a Suíça, as duas grandes favoritas, ficaram atrás da Itália, que arrebatou assim a sua terceira vitória, feito que lhe escapava há trinta e um anos (1990 foi o último ano em que Itália empunhou o troféu).

   A prestação de Portugal, longe de ser das que me caíram no goto, foi equilibrada, em inglês, e conseguiu um azedo 12º lugar, pouco num país que já saboreou a vitória e razoável considerando a história das participações do país no festival europeu. Portugal obteve sempre lugares maus e modestos. Nos anos 90, posicionou-se algumas vezes entre as dez melhores, e presumo que o mesmo tenha ocorrido excepcionalmente antes disso (em 1980, por exemplo, José Cid, com Um grande, grande amor, saiu de Haia em 7º).

   Sinto uma mudança a nível europeu no que respeita ao prestígio da música e dos intérpretes portugueses, o que acompanha a evolução na qualidade da música nacional. Temos uma música que se aproxima mais do melhor que se faz lá fora, e já nos conseguimos igualar na disputa. Os Black Mamba, goste-se ou não do género ou da decisão de se levar um tema em inglês, passariam por um grupo internacional. É bem verdade que a Eurovisão deveria ser o festival da variedade cultural, que se reflecte na música, nas danças e nos trajes que se apresentam em palco, mas não devemos ignorar a tendência para se obter um padrão que vende, que vence, e esse padrão geralmente obedece a determinadas características: cantar-se numa língua franca internacional ou adoptar-se a um estilo que esteja de moda. São as regras informais do jogo. Depois, claro está, cabe a cada país optar por se manter fiel às raízes ou apostar em algo mais mainstream. Portugal ganhou não sendo comercial, eurovisivo, festivo, um feito que não sei se se repetirá com frequência independentemente do país. Naquele caso em concreto, pesou mais, quanto a mim, o facto de Salvador se apresentar como anti-vencedor e de ter interpretado, mais que cantado. A música, como é de idioma universal, chegou aos europeus, que o escolheram em massa. Foi, de certa forma, a fórmula que a França levou, sem sucesso. A França não é aquele pequeno país do sul da Europa que jamais havia ganhado e que levava uma canção meio jazz, meio bossa nova, numa língua amplamente desconhecida no continente. Houve um conjunto de causas que levaram Portugal ao primeiro lugar.

   O factor surpresa torna a Eurovisão num espectáculo aliciante: pode ganhar uma Netta (com uma interpretação totalmente eurovisiva), um Sobral ou uns Maneskin, contrariando-se apostas e preferências.

21 de maio de 2021

La crisis de Ceuta.


    La crisis de Ceuta me recuerda la de Oriente Medio. Ocasionalmente, Marruecos e Israel, o más bien el Hamás, inician un nuevo conflito, hasta que todo se tranquiliza. De verdad, me parece que la primera es de más fácil resolución, aunque no sea simple. Además de las corrientes migratorias, hay el problema del Sahara Occidental, antigua colonia española que Marruecos reivindica como parte de su territorio y que España abandonó a su suerte en 1975, tras la muerte de Francisco Franco.

   Los españoles argumentan que Ceuta, que fue conquistada por Portugal en 1415 y decidió no seguir con el reino en 1640, es una plaza legítimamente suya; que el Reino de Marruecos tampoco existía en el siglo XVII cuando, después de 1668, con el tratado de reconocimiento de la independencia de Portugal, Ceuta se quedó en sus manos. Hay unos cuantos ultranacionalistas que retroceden más, defendiendo que el norte de África hizo parte de la antigua región romana de Hispania en un momento determinado de la historia. En mi opinión, es toda una clase de argumentos supremacistas y anacrónicos. Ceuta está en el territorio norteafricano, es decir, naturalmente es marroquí, y Marruecos seguirá “acosando” la ciudad. Un día, logrará reunir Ceuta, y probablemente Melilla, a su territorio. Otra cosa es la autodeterminación del Sahara, que defiendo sin reservas. Además, España, con alguna hipocresía o crisis amnésica, reclama el cumplimiento del derecho internacional relativamente a Ceuta, infrigiéndolo al no devolverle Olivenza y sus pueblos promiscuos a Portugal, ocupación nula desde el Congreso de Viena (1815).

   Una solución política y pacífica para Ceuta (y Melilla) es poco probable en un futuro inmediato. La Unión Europea reconoce la soberanía de España. Posiblemente, Marruecos esperará la confirmación de sus derechos hacia el territorio saharaui para, después, dirigir su atención a las dos ciudades autónomas españolas, amenazando, quizás, el propio territorio peninsular, haciéndose la guerra. Un pronóstico terrible, pero no imposible con esta escalada de tensión.

17 de maio de 2021

Día das Letras Galegas e Día Internacional Contra a LGBTfobia.


   Creo que hoxe é o día adecuado para escribir a miña primeira publicación en galego normativo, ou sexa, o galego que é ensinado nos institutos galegos e que a Real Academia Galega recoñece. Fixen, incluso, un vídeo que publiquei nas miñas redes sociais e que obtivo eloxios entre alguns galegos que coñezo. 

  Todos os anos, o Día das Letras Galegas, que ademais é festivo en Galicia, é dedicado a unha personalidade galega que se distinguiu polo seu activismo en defensa do galego. Este ano tocoulle a Xela Arias, falecida precozmente no 2003, con 41 anos. No meu vídeo, con todo, eu quixen alertar os galegos para a necesidade de protexer o galego, se posible achegándoo ao portugués. Neste momento, a sociedade galega padece unha diglosia que cada vez máis puxa o galego para a desaparición. Os nenos falan menos en galego e incluso nos medios rurais comezamos a verificar que o galego e o castelán se mesturan. A fronteira entre cada un queda máis tenue, e o prexudicado é o galego, a lingua máis fraca nesta relación de supremacía. Para axudar a incrementar o uso e dominio do galego, poderíase cumprir coa Lei Paz-Andrade, do 2014, que, por exemplo, promovía a difusión da televisión portuguesa en Galicia. Ata agora. Non hai vontade política.


   O Día Internacional Contra a LGBTfobia segue facendo todo sentido en países nos que as persoas LGBT son perseguidas. Miramos o Oriente Medio e alí mesmo atopamos países que condenan homosexuais e transexuais á morte. Por aquí, pola Europa Occidental, a discriminación desapareceu dos ordenamentos xurídicos, pero frecuentemente manténse no cotidiano de mozos, e menos mozos, vítimas de acoso e agresións verbais, emocionais e ata físicas. A loita contra a LGBTfobia faise diariamente, previndo, axudando, denunciando.

16 de maio de 2021

Eva Wilma (1934-2021).


   Este obituário será, porventura, pior que o de há dias. Hoje despertei-me com a notícia da morte de Eva Wilma, uma das actrizes brasileiras por quem mais carinho sentia e talvez a que maior impacto teve na minha infância. Em 1997, Eva Wilma encarnou uma personagem que, pelas suas características, ganhou um lugar de destaque na teledramaturgia brasileira, tal qual a própria Eva. Falo-lhes de Altiva, ou Maria Altiva de Mendonça e Albuquerque, a vilã da novela ambientada na cidade fictícia de Greenville, em A Indomada. Uma antagonista pérfida, porém cómica, num estilo que já nos é conhecido de Aguinaldo Silva, que mistura, na própria ficção, um universo surrealista e fantasioso, assente frequentemente no exagero do religioso e nos estereótipos e folclore do povo brasileiro. No colégio, para procurar atenuar vivências não tão positivas ou até, quiçá, dar azo a uma faceta artística, imitava os trejeitos e bordões de Altiva.

   Dois anos antes, Eva Wilma interpretou a desajeitada, tresloucada, Zuleika, em História de Amor, de Manoel Carlos. Outra das suas personagens que recordo particularmente.


Eva Wilma enquanto Altiva, em A Indomada (1997)


   São das minhas memórias mais vívidas de uma artista que, entre televisão, cinema e teatro, teve uma carreira de quase setenta anos.

   Eva Wilma estava bastante doente sobretudo desde o último ano. Não sendo a sua morte um facto inesperado, nem por isso nos merece menos pesar. Perdemos, portugueses, brasileiros, africanos, uma grande actriz, daquelas cujos papéis, pelo carisma que Eva trazia em si, são inesquecíveis.

13 de maio de 2021

Maria João Abreu (1964-2021).


    Para as pessoas da minha geração, a Maria João representava uma das actrizes mais queridas. O seu semblante era sempre de uma enorme doçura. Contrariando o vedetismo tão comum na classe artística, mostrava-se com um sorriso aberto, convidativo. Se há facetas e qualidades que transparecem, a humildade da Maria João era uma delas.

   Parte uma mulher demasiado nova, com imenso para viver e para dar ao teatro, sobretudo ao de revista, aquele que mais a preenchia como actriz. Entretanto, Maria João Abreu era completa, abrangendo a comédia e o drama. Recordá-la-emos assim, multifacetada. Dos papéis que interpretou, eu destacaria dois que recordo particularmente: Lucinda de Médico de Família, com o seu inesquecível bordão, de sandálias de salto alto e meias, e Anabela, personagem secundária de Jardins Proibidos (2001), a grande produção portuguesa para a televisão que foi uma pedrada no charco na ficção nacional e destronou, pela primeira vez, as novelas brasileiras.

   Reutilizo as palavras que recentemente escrevi a respeito de Cândida Branca-Flor: morrer jovem escandaliza-nos, deixa-nos revoltados. Tratando-se de gente boa, a perplexidade extravasa.

     Até já, Maria João.

12 de maio de 2021

Sporting, campeão 2020/21.

 

    Sportinguista, fiquei bastante feliz com a vitória de ontem do Sporting, que lhe permitiu, ainda antes do fim oficial do campeonato, consagrar-se campeão. Acompanhei o jogo, estando no estrangeiro, através de uma aplicação da NOS (operadora de televisão) da minha mãe, e o rescaldo, com os efusivos festejos, pela RTP Play, que instalei na minha televisão. Podia tê-los visto pela dita aplicação, que me possibilita visionar a televisão portuguesa tal qual como se estivesse em Portugal, conquanto disponha ainda da RTP Internacional, proporcionada pela minha assinatura de televisão com uma operadora espanhola. Enfim, tenho demasiado, mais do que preciso.

    Aquelas multidões que ignoravam o quadro de contingência sanitária em que estamos preocuparam-me e provocaram-me o assombro, mas não culpabilizo a PSP ou a DGS, como uns por aí. As pessoas têm de ser as primeiras a tomar a responsabilidade pelos seus actos. Não sendo a pandemia uma novidade, que há ano e meio que conhecemos as restrições que nos provoca, inclusive comprimindo direitos e garantias, tão-pouco podemos aludir à ignorância. O que se deu foi uma incúria generalizada, fomentada sobretudo pela nossa extraordinária capacidade de viver na negligência e transgressão constantes. Os anos em que o Sporting esteve à espera do primeiro lugar na liga não o explicam igualmente. Fossem o Benfica ou o Porto campeões e veríamos exactamente o mesmo. Enfim, o futebol é uma modalidade extremamente competitiva. Nestes momentos de vitória, há não somente uma descarga de energia contida como a necessidade de afirmação e provocação diante do adversário. Eu iria mais longe: estas rivalidades têm até um certo efeito catártico, afastando-nos do confronto directo. As massas focalizam a sua necessidade de guerrear para estes desportos de ampla aceitação social.

   Parabéns ao Sporting, e não se esqueçam do quão feliz estaria (ou estará) a Maria José Valério, falecida há pouco tempo sem poder ver o clube que levou ao coração (e no cabelo) e cantou como campeão nacional de novo, vinte anos depois.


As Vinhas da Ira.

 

    Terminei de ler neste exacto momento as mais de quatrocentas páginas de um dos aclamados romances do século XX, e parece que levei um murro no estômago. As Vinhas da Ira é o mais duro retrato da exploração do homem pelo homem que li, aquela que cava miséria tal que nos trespassa a alma, inimaginável. Desde logo, apresenta-nos uns EUA diferentes daqueles a que estamos acostumados, mergulhados na Grande Depressão que forçou ao êxodo de milhões para a Califórnia, sujeitando-se a condições de subsistência indignas.

     O autor foi acusado de colaborar com os socialistas, os vermelhos, como no livro se lhes chama. Eu não vejo a apologia do socialismo, senão um retrato vívido da desigualdade social gerada por um capitalismo que devasta tudo quanto toca, do pequeno proprietário ao assalariado rural. Oitenta anos depois, continuamos a discutir o tema que Steinbeck considerou pertinente em 1939. Naquele tempo, a URSS era relativamente recente, Mao ainda não havia tomado o poder em Pequim. O sonho de um socialismo utópico pairava. Como idealizado, assenta numa ideia de igualdade e distribuição da riqueza e da terra que nos parece justa. Este modelo, o que temos, de economia de mercado, falhou, como falhou, no início dos 90, o regime soviético. As terceiras vias, encarnadas por regimes como os de Oliveira Salazar, mostraram-se igualmente incapazes de cumprir com o arquétipo cada vez mais inatingível de igualdade que, sim, é imperiosa e desejada. Não encaro a desigualdade como uma condição inevitável de haver dois homens com características e capacidades diferentes, porquanto sabemos que as oportunidades não são iguais para todos, que muito há a fazer para se cumprir com aquilo com que os Estados da Europa Ocidental, nomeadamente, se comprometeram. Nos EUA, tudo muda de figura. Por lá, a noção de Estado social é encarada com profunda desconfiança. 

    A meritocracia é uma falácia. Sabemos, hoje, que crianças nascidas em meios pobres se ficam aquém nos estudos comparativamente àquelas que nascem em meios favorecidos, ou seja, já se nasce inquinado, quase fadado a determinada sorte, salvo em raras excepções, que contudo não contrariam a regra.

    Provavelmente, as Vinhas da Ira é aquela obra a que não se deve chegar aos trinta anos sem ler. Redimi-me. Parece-me mais que aconselhada: obrigatória.

11 de maio de 2021

Miniférias... em Santiago de Compostela.


   Depois dos dias que passámos na Corunha, rumámos a Santiago, a poucos quilómetros, que é a capital da Galiza e que eu conhecera no ano passado, em Março, ainda antes do primeiro confinamento, e cujo relato poderão encontrar aqui. Faltou-me, daquela vez, ir à Cidade da Cultura, um espaço novo em Compostela inteiramente dedicado a exposições. Um polo cultural. 


Um dos blocos da Cidade da Cultura, empreendimento polémico aquando da sua feitura 


   Soubemos através de terceiros que a Cidade da Cultura albergava uma exposição do Egipto com peças que lhe chegaram do British Museum. Os britânicos, como se sabe, estabeleceram um protectorado no Egipto. Suponho que muito daquele espólio pertença legitimamente ao povo egípcio. Enquanto não se faz justiça e não se devolve a César o que é de César, vamos desfrutando destas maravilhas sem termos de nos deslocar ao Norte de África.


Fragmento da tapa do sarcófago de Ramsés VI, c. 1143-1136 a. C.


  Uma vez na Cidade da Cultura, visitámos a exposição no terceiro piso, de arte moderna, que sinceramente não nos diz nada, e a do primeiro andar, essa sim com mais interesse para ambos, sobre Isaac Díaz Pardo, por ocasião do centenário do seu nascimento (1920-2020). Díaz Pardo faleceu em 2012. Foi um escritor, desenhador, pintor e inclusive ceramista, que ajudou a impulsionar as cerâmicas Sargadelos, deixadas de produzir em finais do século XIX, recuperando as antigas fábricas e o prestígio do selo Sargadelos.


Sempre digna de uma visita


    Passámos pela zona histórica, uma vez mais, encontrando a famosa Catedral ainda em obras, sendo que já é possível apreciar alguns dos trabalho de restauro no interior. 

   Tratou-se de uma visita curta, sempre agradável. Santiago de Compostela não é tão cosmopolita quanto A Corunha. Tem menos população, é mais recatada, e sente-se essa ausência de stress que na Corunha marca o dia-a-dia dos seus habitantes. Pareceu-me uma cidade com relativamente as mesmas dimensões do Porto. Viver entre ambas, tendo acesso a uma e a outra, ser-me-ia o ideal. Quem sabe.

Todas as fotos foram captadas por mim. Uso sob autorização.



7 de maio de 2021

Miniférias... na Corunha.


   Nunca soube de alguém tão dedicado à sua profissão como o M. Sai às 8h30 e regressa não raras vezes depois das 20h. Se chega e se lembra de que deixou um domicílio por fazer, uma consulta telefónica por efectuar, torna a sair, fá-la desde casa. Com trinta e dois anos e uma responsabilidade enorme sobre si, não é difícil imaginar que tirar férias não é das suas prioridades. Sendo sincero, tira-as a pensar em mim e na necessidade que tenho de sair. Geralmente, vemos os trabalhadores ansiando pelas férias, pelas viagens. Não é o seu caso. Férias, tirando-as, passá-las-ia a dormir.

    A nossa ideia inicial (já é uma estória antiga...) era ir até Madrid. Pelas restrições ao turismo, ficámo-nos pela Corunha. O M., sendo galego, conhece a cidade. Para mim, sim, foi uma novidade. Dada a sua localização costeira, tem praias, um farol romano -a Torre de Hércules-, um aquário. É uma cidade de tradição marítima.


A Avenida da Marina


   Como de costume, fiz um roteiro que procurei cumprir. Conhecemos as principais atracções. Esta viagem teve a particularidade de coincidir com o meu aniversário. No dia em que chegámos, a 28, ficámo-nos pela zona histórica -o casco vello- (incluindo a famosa Praça Maria Pita) e visitámos o Castelo de San Antón, que na prática foi um forte. Fizemos ainda o percurso do passeio marítimo, indo conhecer o jardim dos menhires. No dia do meu aniversário, começámos cedo pelo Aquário Finisterrae, que é uma versão mais humilde e discreta do Oceanário de Lisboa, ou mais bem do Aquário Vasco da Gama, porém, com mais espécies do que o último, que perdeu muita da sua afluência e popularidade com a abertura do Oceanário. Dispõe, todavia, de focas, que no Aquário Vasco da Gama deixaram de existir, e de várias espécies de peixes, incluindo tubarões, que fazem as delícias dos miúdos, e não só. Antes disso, estivemos na Torre de Hércules, um farol romano, como havia dito, mas cuja fachada remonta ao século XVIII, ao reinado de Carlos III. É património da humanidade desde 2019 e o único farol romano que se mantém em funcionamento. À tarde, passámos pela praia, fazendo tempo para ir ao Planetarium, na Casa das Ciências. Importa referir que todos os bilhetes foram reservados antecipadamente.


O deslumbrante edifício do concelho na Praça Maria Pita


    Não ia a um planetário desde os dez anos, quando estive no de Lisboa, para os lados de Belém, através do colégio. É uma experiência interessante, desprovida do fascínio da infância, mas de repetir.


A Torre de Hércules, magnífica


    De presentes, o M. deu-me livros, o melhor presente que posso receber, e uma peça de vestuário. Entrámos numa loja de antiquidades e quinquilharias no centro da cidade, que funcionava também como alfarrabista. Foi na FNAC, entretanto, que comprei os que mais me interessaram.


A rosa dos ventos vista desde o alto da Torre de Hércules


     Na sexta-feira, 30, fomos ao Museu de Belas Artes. Comprámos ainda uma porcelana de Sargadelos, as melhores de Espanha, uma representação da Torre de Hércules.


O Castelo de San Antón

 
   No sábado, 1, seguimos para Santiago de Compostela, que dista poucos quilómetros, sobretudo movidos pela vontade de visitar a Cidade da Cultura e a sua exposição do Egipto com peças vindas directamente do British Museum. Deixarei o capítulo final das férias para outra publicação.

Todas as fotos foram captadas por mim e não podem ser utilizadas sem prévia autorização.