4 de dezembro de 2021

A heteronormatividade e a perseguição pelo modelo masculino ideal.


   Andava eu ontem, no meio das minhas insónias, a divagar pelo Youtube, e deparei-me uma vez mais com o que não é uma novidade naquele país, embora se torne rotineiro: a ridicularização, inclusive por LGBTQi+, no caso gays, de pessoas mais femininas. Em Portugal, já se aceita que um gay o seja, mas que não o pareça. Um homem mais feminino é alvo de constantes piadas e achincalhamentos.

   É um dos grandes problemas que a comunidade gay tem. Continuam, muitos, eu diria a grande maioria, a idealizar um protótipo de homem perfeito: sem trejeitos, desportista, musculado, e por aí fora. Aqui mesmo, no mundo dos blogues, vemos como publicam fotos de homens que preenchem esse estereótipo de masculinidade ideal. A comunidade LGBTQi+ é diversa. Não obedece a um padrão. Cada qual pode ter as preferências que quiser, mas deve ter em conta de que o que distingue a comunidade LGBTQi+ dos heterossexuais é isso mesmo: a fuga, consciente ou não, desse modelo de postura e comportamento.

   Imagino que para muitos rapazes e homens seja mais fácil viver a sua sexualidade dentro do padrão heteronormativo. Uma vez mais, não podemos querer que seja a norma, e temos ainda de ter presente que assim favorecemos a que não nos vejam dentro da nossa histórica diversidade.

   A minha experiência foi talvez distinta da da maioria. O meu pai, nos idos anos 70/80, trabalhou no mítico Scarllati, o primeiro bar com espectáculo de transformismo. Sendo heterossexual, não é machista. Da mesma forma, a minha mãe não tem preconceitos com os LGBTQi+. Isso favoreceu a que tivesse crescido sem armários. Nunca tive nenhum. Cresci espontaneamente, sujeitando-me à ignorância, à maldade e à intolerância alheias. Facilmente se deduz que não sou masculino -ou o que quer que signifique essa construção social. Sou como sou. Tive, como muitos, acredito, paixonetas por rapazes masculinos, pretensamente heterossexuais, desportistas, o que considero ser normal na adolescência. Quando crescemos e continuamos a alimentar esse ideal, provavelmente frustramos as nossas expectativas. Tornamo-nos infelizes. Esse estigma da masculinidade heteronormativa, tóxica, como lhe queiram chamar, continua a atravessar a comunidade LGBTQi+ e a condicionar a luta pela igualdade na diferença, pelos direitos civis e pelo respeito. Se não nos vemos a todos com bons olhos, se continuamos a desejar o que não somos e não podemos ter, qual o sentido de tudo isto?

2 comentários:

  1. Marc, considerei interessante o que escreveu sobre o modelo masculino ideal.
    Tanto mais que nunca me governei por esses ideais, mas fiquei farto de encontrar gente que os persegue. São muito vulgares.
    Creio que as minhas paixões mais acesas foram pessoas com capacidades intelectuais mais acesas, um nível de conhecimentos profundo e tiveram sempre que ter esses conhecimentos muito diversificados, para que houvesse algo para dizer no final. Gente culta, sempre, não consigo sequer pensar em conseguir gostar de quem não o fosse.
    Dizia-me há algum tempo um conhecido meu, que para ter sexo não é necessário saber quem foi Nietzsche ou perceber de arte. "Despejá-los", como esse meu conhecido escolheu classificar a situação, está aquém da cultura que se possui.
    Eu discordo, nunca o consegui, fosse lá porque fosse, havia sempre um entrave, um desmerecimento do outro, que nenhum de nós merece. Assim, mantive-me afastado de gente que não poderia apreciar. Por muito grande que fosse a vontade.
    E depois há o mundo dos fetiches, que cada um alimenta no seu interior, e que raro o confessa em público, sob pena de ser criticado ou escarnecido.
    Eu tenho os meus ... devo confessar, mas nunca os subverti em função da cultura de uma pessoa. Primeiro tinha que haver comunicação interior, e exterior, e depois, se o fetiche fosse satisfeito, seria um bónus acrescido.
    Por acaso, e foi efetivamente por acaso, no meu caso, as poucas vezes que o Cúpido me feriu, tive a sorte de me ter saído também a sorte grande, quanto aos meus fétiches ...
    Mas creio que os homens da minha vida nunca seriam escolhidos pela maior parte dos gays que conheço, o que até nem é mau, eram meus. Não, não creio ter uma grande dose de ciúme, talvez o q.b. Pelo menos é o que me dizem.
    O meu lema é nunca querer saber mais do que aquilo que sei. Saber em demasia conduz a situações pouco recomendáveis para o nosso stress e capacidade de nos angustiarmos. Talvez por isso, as pouquíssimas relações que tive duraram dezenas de anos. Acabaram, é verdade, mas de uma forma tranquila, com amizade a restar e a permanecer, por forma que ainda hoje os posso contactar de forma normal. E continuamos a divertirmo-nos quando sucede o nosso reencontro.
    No hard feelings.
    Gostei deste seu escrito. Interessante.
    Espero que tudo esteja bem desse seu lado, é o que vos desejo
    Manel

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    1. Olá, Manel, como está?

      Obrigado, uma vez mais, pelo seu comentário.

      Eu creio que foi devido a tendências destas, que são comuns na comunidade LGBTQi+, que me afastei durante anos. O fenómeno conhecido hoje em dia como “body shaming” -a ridicularização de uma pessoa pelo seu físico- se existe na sociedade como um todo, entre os gays ainda mais, sem prejuízo das subculturas, como os “bears”, nomeadamente. Mas, lá está, as pessoas têm de se agregar em grupos para ser aceites. É algo que abomino, que me revolta. E depois há o velho preconceito dentro da comunidade para com as pessoas mais femininas. Não vou referir o nome, mas tanto eu como o Manel conhecemos um senhor aqui da blogosfera, muito conhecido, que gostava muito de uma determinada ave das zonas mais frias do globo, que se manifestava frequentemente contra o José Castelo Branco e as pessoas mais femininas, argumentando que elas davam um “mau ar” aos gays. O que seria isso do mau ar? Manter um relacionamento a quilómetros de distância baseado numa farsa se calhar daria um “ar” pior, digo eu que nada sei. Adiante.

      Estamos cheios de preconceitos. Continuamos a desejar os machos, os viris, e a revermo-nos nessas construções porque julgamos que assim nos aceitarão melhor. Felizmente, cada vez mais são correntes que perdem o apoio entre as pessoas LGBTQi+. Acompanhando a emancipação definitiva da mulher, o feminino deixa de ser visto como debilidade, fraqueza, bem assim como o feminino num homem.

      Eu tenho um lado feminino que nunca escondi, de que nunca me envergonhei, embora não o exaltasse. Actualmente, exalto-o com imenso orgulho, desde a minha voz, mais suave, aos meus traços delicados. Que bom que sou assim!

      Um abraço forte, e obrigado pelos votos.

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