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20 de abril de 2013

Preconceito.


    Associamos a tacanhez às pessoas naturalmente desinformadas, aquelas que na maioria das vezes não tiveram acesso à educação, porém, nem sempre é assim. Convenço-me de que o espírito liberal e igualitário faz parte da índole de cada um, apesar de acreditar que pode ser estimulado. Quando o preconceito vem de professores universitários que o expõem em forma de piada infame, a revolta assume contornos diferentes. Poderá o núcleo ser comum, mas a desculpabilização é bem menor. Não posso compactuar com alguém que, valendo-se da sua posição, brinque com os sentimentos e os direitos de terceiros. Todos podemos ter a nossa opinião, sem dúvida. E bom senso. O bom senso, na dose certa, faz toda a diferença.

     Esta breve introdução para relatar um episódio que ocorreu numa aula de quarta-feira. Infelizmente, por ética, não posso revelar o nome do professor, nem a disciplina em causa, porque o mesmo poderia levar facilmente à sua identificação. Oportunamente talvez o faça; não enquanto for seu aluno.
      Aproveitando-se de um exemplo relativo ao casamento (estava desatento, não conseguindo perceber como a conversa chegou a tais parâmetros), o docente em causa referiu, em tom cómico, que o casamento continuará a ser um contrato entre um homem e uma mulher, pese embora, e cito, "existam para aí umas leis esquisitas", aludindo claramente à lei que aprovou o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, a Lei 9/2010 de 31 de Maio. Fiquei perplexo e, por momentos, pensei que estaria a ouvir vozes. Depois, tomando consciência de que era real o que ouvira, consegui suster uma reacção de indignação, que sairia em tom de murmúrio ou algo semelhante. Ainda bem que assim o foi. Sabe-se - é público - de que a pessoa em causa pertence a um partido da direita ultra-conservadora, comungando, certamente, da sua ideologia. É um homem austero, não deixando de ser simpático, apesar de identificar uns tiques de autoritarismo em algumas das suas acções.

      Não vivemos em ditadura. Ele pode, mais, deve ter as suas opiniões e ninguém o impede de as exprimir. Nesta situação em concreto, os direitos das pessoas estão sujeitos a opiniões? Será lícito questionar o direito de alguém a contrair matrimónio com outra pessoa, dirigindo-se a esse facto jurídico pejorativamente como "lei esquisita"? Afastando-nos da ordem jurídica, na ordem moral e dos valores, esta opinião numa aula, desconhecendo se está perante algum/a aluno/a homossexual, será aceitável? Questões facilmente respondidas por um qualquer leigo.

     Se já não gostava daquele sujeito, a minha consideração por ele diminuiu em muito. Para o meu júbilo, teremos uma relação aluno-professor por pouco mais de um mês. Difícil será ouvi-lo e olhar para si, mas com esforço e alguma paciência tudo se consegue.

5 de fevereiro de 2013

Os homens não choram.


    A prima pediu-me para ir com o menino a uma pastelaria comprar-lhe um bolo. O Martim tem cinco anos, mas é muito apegado à mãe, sobretudo. Na educação que lhe dão, revejo a minha infância, em parte. Começa, claustrofobicamente, a ser mantido na redoma de cristal, desconhecendo, a sua mãe, por incúria ou distracção, que o mundo lá fora não permite uma alienação tão grande da realidade.

    Há dias caiu ao chão. Fez um arranhão - ou um dói-dói - como ele diz, no bracinho e no nariz. Chorão, segundo me contaram, berrou durante imenso tempo, não acostumado que está a nenhum revés. Aliás, se quer um brinquedo e não lho dão, fica uma fera que em nada se coaduna com a sua idade!...

    A senhora da pastelaria veio ao nosso encontro e atendeu-nos. O Martim tem uns olhos enormes e é muito esperto, atraindo as atenções. Não tardou em querer uma série de artigos expostos perto da caixa...
   Ao vê-lo, a senhora interpelou-o, achando graça à birra. Perguntou-lhe como é que tinha feito aqueles arranhões. Eu contei sucintamente, enfim, conversas de circunstância. Contudo, quando menos esperava, e num tom audível, disse-lhe que "os homens não choram", provocando manifestações de anuência em outras pessoas, homens, na sua maioria, e algumas mulheres. Discorreu as suas ideias pré-concebidas, não se limitando a essa frase emblemática. Por educação, controlei o que no momento quis dizer, mas não pude deixar em branco. 

    Claramente, os homens choram. Choram como sempre choraram. Choram porque têm sentimentos, porque se sentem tristes, felizes, desesperados, apaixonados. São livres de exprimir as suas emoções, não estando vinculados à lágrima apenas permitida no nascimento de um filho, num funeral ou numa partida de futebol. 

    Em frases, à primeira vista inocentes, esconde-se um preconceito enraizado, cujas raízes, profundas, custam a extrair.

13 de março de 2011

力、日本!(Força, Japão)


Que os japoneses são um povo empreendedor e empenhado creio que não existem muitas dúvidas.
Apesar da sua má opção estratégica durante o século passado, nomeadamente a aliança com a Alemanha que os conduziu ao sonho imperialista e à II Guerra Mundial, o Japão soube recuperar das cinzas provocadas pelo armistício e pela derrota na Guerra. O lançamento de duas bombas atómicas sobre Hiroxima e Nagasaki e o desastre económico que sofreram, foram rapidamente ultrapassados pela árdua tarefa que levou todo um povo a lutar diariamente por dias melhores. O sucesso desta empreitada foi tal que mereceu - e bem - o nome de Milagre Japonês - e assim ficou para a História.
Atualmente, o Japão enfrenta uma das mais duras provas desde o final da Guerra, um terrível terramoto que atingiu toda a sua costa oriental e provocou uma das maiores tragédias da história do país. Um terrível tsunami, curiosamente um nome japonês, destruiu tudo à sua passagem deixando um rasto de morte, dor e sofrimento. O número de vítimas mortais e de desaparecidos é incerto, mas seguramente ultrapassa a casa dos muitos milhares.
Tenho a certeza de que esta grande prova será ultrapassada pelo povo japonês. Confio na sua sabedoria e na sua capacidade de sobrevivência. O Japão tem revelado ao mundo uma extraordinária capacidade de enfrentar o perigo e as adversidades do destino. Outrora foram os homens; desta vez a implacável mãe Natureza.
O Japão mostrará, de novo, que é capaz, que tem coragem, que aprende e fica mais forte a cada desafio.
Pergunto-me o que seria de Portugal se tivesse o mesmo trilho de luta pela frente...
Força, Japão!

26 de fevereiro de 2011

Gisberta


Há uns dias perfizeram cinco anos desde a morte violenta e brutal do ser humano Gisberta. E destaco a condição de ser humano por um motivo muito específico: não há transexuais, homossexuais, heterossexuais, bissexuais, etc; há seres humanos. As pessoas não são embalagens passíveis de serem rotuladas.
Gisberta morreu barbaramente assassinada por jovens delinquentes a quem foi perdoado o homicídio. Sofreram umas advertências por parte da Justiça e pouco mais. A vida de Gisberta nada significou para as autoridades judiciais portuguesas. Para além disso, depois de assassinada, vários órgãos da Comunicação Social referiram-se a Gisberta como sendo um homem, apesar de todos saberem que Gisberta era uma mulher e gostava de ser tratada como mulher. Nem nesse detalhe aparentemente insignificante Gisberta foi respeitada. Para Portugal e para a generalidade dos portugueses tratava-se de um brasileiro, paneleiro, seropositivo, drogado, prostituto e ignóbil. Mas Gisberta não era isso. Gisberta foi uma mulher linda, amiga do seu amigo, solidária, que infelizmente passou por duras provas durante a sua vida. A Justiça, aquando da sua morte, tratou-a como o povo a tinha em consideração: como lixo. Para alguma comunidade LGBT - ou que raio é isso - Gisberta foi alguém que não merecia consideração porque desprestigiava os gays. Gisberta não era gay, era uma transexual - e já referi que abomino rótulos.
A vida de Gisberta nada contou e da sua triste história nenhum ensinamento se retirou, afinal, pouco mais de um ano depois, outra "transexual" foi encontrado assassinado em Portugal (Luna).
Hoje poucos se lembram de Gisberta. Já não era a estrela de outrora, já não era jovem, já não era bonita. Vivia envelhecida pela precocidade da sua dependência das drogas, afetada pela SIDA e pela discriminação de que era alvo. Passava fome e frio. Vivia num prédio abandonado. Foi espancada e deitada para um poço - viva. Morreu afogada, segundo a autópsia. Os assassinos foram os autores da proeza.
Quem quis saber dela? Afinal, quem quer saber de um "paneleiro"?
Todos nós poderíamos ser uma Gisberta.
A Gisberta não era mais, nem era menos.
E tu, serás a próxima Gisberta?





Descansa em paz, amiga.

1 de fevereiro de 2011

Um Rumo Para Portugal


Podia ser um slogan promocional de uma qualquer campanha política populista, nomeadamente de José Sócrates, Paulo Portas ou Pedro Passos Coelho, no entanto, é mesmo o título de uma prioridade, a meu ver.
Portugal encontra-se numa situação bem mais difícil do que aquela que encontrou nos inícios do século XV. Viviam-se, então, tempos de escassez alimentar, fomes, pestes e guerras pela Europa. Portugal tinha à sua frente um sem número de desafios, muitos dos quais bem ousados para um pequeno reino do ocidente europeu, escassamente povoado e pobre. O maior desses desafios era manter a sua independência e a integridade territorial. Castela afirmava a sua hegemonia e prometia para breve a reconquista do sul da Península, o que se veio a verificar com a Queda de Granada, em 1492. Portugal iniciou a sua diáspora algumas décadas atrás, em 1415, com a tomada de Ceuta. Era a única hipótese que dispunha perante a força de Castela, uma Europa fragmentada e em guerras e uma aliança débil com a Inglaterra. O mar surgiu como a saída possível.
Nos territórios descobertos e tomados em nome da Coroa, Portugal subsistiu ao tempo e ao avançar dos séculos. Estabeleceu o seu Império Colonial e expandiu as fronteiras do reino a todos os continentes do planeta.
Assim o foi até ao século XX, quinhentos anos depois. Com o advento da descolonização, o território reduziu-se à parcela territorial na Europa e essa passou a ser o alvo de todas as atenções dos portugueses. Estávamos na era da integração europeia. Com a entrada nesse mercado comum, Portugal entregou parte da sua soberania às instituições europeias, abriu as fronteiras aos seus recentes parceiros europeus, recebeu fundos estruturais e iniciou o processo de desenvolvimento há tanto ansiado. Mas que Europa é esta?
Esta Europa unida por interesses económicos é um continente composto por variados mosaicos culturais. Jean Monnet sonhou, lançou o rastilho e os seus sucessores tentaram federalizar países que não têm absolutamente nada em comum. Países com culturas, línguas, tradições e mesmo religiões distintas. Não é possível uma Federação, um Estado Federal, à boa maneira norte-americana. O processo ocorrido nos E.U.A trata-se de uma união de soberanias de forma a constituir um estado unido e forte, capaz de enfrentar a metrópole descontente e a renitência dos países europeus em aceitar a Declaração de Independência. Foi - e é - um caso de federalismo perfeito. Mas esses estados federados, sem prejuízo do multiculturalismo americano, têm uma história, língua e tradições em comum.
Na Europa pretende-se fazer o mesmo, apesar de todos saberem que se trata de uma mera utopia. Nenhum país abdicará da sua soberania em nome de ambições de uma União Europeia que ninguém sabe bem o que será. Os mais conceituados economistas mundiais garantem que o euro irá acabar. Não é viável a longo prazo. A nosso velho aliado, o Reino Unido, olha com desconfiança para a integração europeia - e legitimamente - diga-se. Em que lugar está Portugal no meio desta Europa moribunda?
Portugal, agora como dantes, e devido a más opções estratégicas dos governantes pós-25 de Abril, está refém da velha e caquética Europa. Vive de esmolas e de ordens vindas de Bruxelas como se fosse um mero protectorado da União Europeia. Todavia, há soluções. E a única solução é aquela que Portugal encontrou em 1415: a sua vocação atlântica. Portugal dispõe de condições de que não dispõem a Grécia e a Irlanda. Portugal tem os seus irmãos onde pode investir e criar boas e sólidas alianças. O irmão mais velho, o Brasil, o quinto maior país do mundo, a sétima maior economia mundial e que, sem dúvida, verificada a reforma no Conselho de Segurança da O.N.U, ocupará o lugar devido de membro permanente. O Brasil, sim, pode ajudar Portugal. É para o Brasil que Portugal deve olhar. Não é tudo. Angola, um país em franco desenvolvimento, uma futura potência regional e com um subsolo rico em minerais. Portugal pode e deve olhar para o seu irmão mais novo. Também Moçambique e, por inerência, todas as restantes ex-províncias ultramarinas podem ajudar Portugal. A maior prova dessa solidariedade real veio de Timor-Leste, o irmão mais novo, que quis comprar parte da dívida portuguesa. Portugal, orgulhoso como dantes, qual orgulhosamente só, refutou discretamente essa intenção timorense. E porquê? Porque sente-se diminuído. O mesmo que sente em relação ao Brasil e a Angola. Ajudas familiares? Não, obrigado. Europa, Europa, Europa!
Contudo, a Europa nada nos dará. A Europa não gosta de cada país em concreto. A Europa usa os países de forma a aumentar essa farsa que é a União Europeia, esse sonho federalista carregado de anti-americanismo francês e alemão. Napoleão ensinou-os bem, é certo. A Europa não fala uma língua, nem duas ou três. Fala dezenas. Qual é a relação de Portugal com, por exemplo, a Finlândia? Nenhuma. O mesmo em relação aos restantes países europeus, com a honrosa excepção de Espanha, com a qual, de facto, dividimos um passado comum.
Cidadania Europeia? De que se trata? 
Porque motivo Portugal e os sete países lusófonos não criam um Espaço Comum Lusófono, sem fronteiras, à semelhança da porcaria, permitam-me a expressão, do Espaço Schengen? Porque não oficializam uma Cidadania Lusófona, da qual já se vai falando, mas que ninguém ousa avançar efectivamente? Já que gostamos tanto do Reino Unido, porque razão não aprendemos com eles, que após o processo de descolonização criaram a Commonwealth? Hoje, mais de uma dezena de países estão unidos numa união pessoal, na pessoa do monarca inglês, e sob a égide desta organização que mantém a tradição britânica e os laços de amizade entre o mundo anglófono.
Sou totalmente eurocéptico e assumo-o confortavelmente. Sonho com o dia em que a União Europeia não passará de uma piada de mau-gosto. Concordo inteiramente com um quadro de cooperação institucional entre os países europeus, mas não posso aceitar um controlo total da Europa sobre a vida do país.
Concluindo, o rumo para Portugal está à frente de todos.
Haja a ousadia de fazer o certo, tal como outrora se fez.

15 de janeiro de 2011

Presidenciais


Uma vez que as eleições presidenciais se aproximam rapidamente, creio que é necessária alguma reflexão sobre os candidatos e o futuro do país. Sempre me interessei imenso por política, não só devido ao contexto familiar em que estou inserido, mas também porque me provoca uma enorme avidez por mais informação. Afinal, é o cargo mais importante e de maior responsabilidade em Portugal  (apesar da figura omnipresente do Primeiro- Ministro).
Bom, vamos aos candidatos.
Aníbal Cavaco Silva. Abomino. A mãe e toda a família materna veneram o homem, considerando-o eficaz e imprescindível para o país. Para mim, é uma pessoa demasiadamente conservadora, daquele conservadorismo saloio e despropositado. É daquelas pessoas para as quais "o amor" é feito de luz apagada e sempre na velha posição do missionário. Será imprudente julgá-lo por mais do que a sua mera actividade política, no entanto, tenho a sensação de que se o conhecesse não gostaria dele. Antipatizo fortemente com a sua cara. Para além de todos os motivos enunciados, defendo a renovação política nos cargos e, sobretudo, de rostos. Cavaco Silva foi Primeiro-Ministro de 1985 a 1995 e Presidente da República Portuguesa de 2006 até ao dia de hoje. Já chega.
Manuel Alegre. Era o meu candidato desde o início. Senhor de uma Esquerda liberal e democrática, parecia-me o homem indicado para o cargo. Contudo, ao reflectir melhor, o que é que um poeta percebe de política? E quando chegar a hora de tomar decisões? Será que vai rezar ao Luís de Camões e ao Fernando Pessoa? É melhor que se deixe ficar pelos manuscritos...
Fernando Nobre. Não sei o que esse senhor é ou pensa. É de Esquerda, é de Direita, é o quê? Em que campo se posiciona? Eu sei que a dicotomia "Esquerda - Direita" está ultrapassada, mas ainda é a que se utiliza. Quais são as suas opiniões e convicções nos assuntos cruciais e decisivos? A mim, surge-me como um grande ponto de interrogação. Quer, no fundo, agradar a todos; não vai agradar a nenhum, pois vai ganhar nada mais do que juízo.
Quanto ao candidato comunista, lamento mas não me pronuncio. Na minha modesta e franca opinião, o Partido Comunista Português devia ter passado por uma enorme reestruturação à semelhança dos partidos comunistas de outros países europeus: nuns, extinguiram-se; noutros, mudaram de nome. A União Soviética já acabou oficialmente há vinte anos e Cuba aguarda pela morte de Fidel para seguir o seu caminho. O tempo do PCP já era.
Ainda existem outros candidatos, mas são tão insignificantes em ideias e em percentagem eleitoral que nem merecem qualquer observação. É verdade, nem sei bem quem são.
Perguntarão: "Vais abster-te?" Não, não vou. O dever de todo o cidadão é votar nas eleições do seu país logo que possa. Só assim adquirimos legitimamente o direito de poder criticar. Quem não escolhe, deixa que escolham por si.
É evidente que irei votar. Irei contemplá-los com um lindo e maravilhoso voto nulo. Vou desenhar uma borboleta fantástica no boletim e perfumá-la com um toque de Hugo Boss. Está decidido... Hum, surgiu-me uma outra ideia: mando-os, a todos, para um sítio que eu cá sei. É de ponderar, é de ponderar...
Cambada de inúteis. Mais cinco anos de razia e infortúnio.

11 de janeiro de 2011

Desassossego


Desde sábado que não tenho estado muito bem. Este caso do homicídio do Carlos Castro marcou-me imenso. Eu já sou muito sensível a situações análogas, embora os contornos macabros do crime tenham sido decisivos para o meu estado actual. Volta e meia, o caso surge-me no pensamento: estou a estudar, lembro-me; estou a comer, lembro-me; estou a falar com alguém, lembro-me.
Há várias coisas que continuam por esclarecer. O que terá levado aquele rapaz com cara de ingénuo a assassinar cruelmente um homem idoso? Sim, idoso (relembro que tinha sessenta e cinco anos, o que no nosso quadro legal corresponde ao início da terceira idade). Mesmo que tenha sido aliciado pelo Carlos com promessas de mundos e fundos, não há nada, relembro, nada, que justifique um homicídio, salvo o caso de legítima defesa contemplado na lei portuguesa e, creio, norte-americana.
Outra questão: é gay, não é gay? Parece-me relevante. Segundo o que ouvi, a amputação do membro sexual de alguém revela repugnância por um acto de cariz sexual praticado. O furar a vista poderá significar o querer cegar alguém devido ao facto de saber de uma possível relação homossexual entre ambos, neste caso, a própria vítima.
Da parte da família e dos amigos do indivíduo, sinto uma preocupação em limpar a sua imagem de uma possível homossexualidade. Desde o padre que fala, passando pelo treinador da equipa de basquetebol que, veja-se!, disse que o rapaz é heterossexual porque, e passo a citar, "envolveu-se com duas raparigas em cinco dias". Se o caso não fosse tão grave, eu dava uma risada. O senhor deve desconhecer a bissexualidade ou até mesmo o armário!... Terra pequena, todos se conhecem, qual seria a melhor opção? Compreendo que a família o defenda. Se fosse o meu irmão, defendê-lo-ia até morrer, mas a populaça? Haja paciência! Foi um ser humano que sucumbiu a uma hora de tortura, um portátil na cabeça, órgãos sexuais amputados e um olho furado!
As recentes declarações do rapaz em sua defesa não me merecem qualquer comentário. Fica à consciência de cada um.
Espero que a justiça americana seja célere como é hábito e que julgue equitativamente este caso, não caindo na vergonha que é a justiça portuguesa.
Em relação ao Carlos, mais uma vez, tenho uma imensa pena do homem, fosse o que fosse ou tivesse a língua que tivesse. Não consigo imaginar o sofrimento daquele ser humano.
O caso mexeu comigo e, pese embora o facto de ser macabro, a imaginação humana é fértil e esta história dará, com toda a certeza, um bom livro ou um bom filme. Deixemos isso nos E.U.A, que eles são especialistas.
Espero recuperar nos próximos dias. Eu sinto-me bem e isto não é uma novidade em mim. Quando a Amália morreu era pequenino e lembro-me de matutar na sua morte durante mais de uma semana. Sucedeu o mesmo com o Michael Jackson.
Sou mesmo assim.

8 de janeiro de 2011

Carlos Castro (1945 - 2011)



Só os homens com tomates é que os podem perder!

E se há homens que os tiveram, o Carlos foi um deles.
Que descanse em Paz!













lots of love for all eternity,

mark

23 de outubro de 2010

Os Perigos de Uma Grande Cidade


Viver numa grande cidade tem inúmeras vantagens, pese embora o facto de ter imensos inconvenientes. Fala-se muito da poluição, do trânsito, da violência, mas há situações insólitas que, ao mesmo tempo, não deixam de ser perigosas. Lisboa já não é a cidade pacata de meados do século XX.
Ontem, ao falar com uma colega da faculdade, apercebi-me que estava triste, preocupada e cabisbaixa. Consegui que me contasse o que a preocupava. Então, disse-me que no dia anterior tinha ido jantar com umas amigas conterrâneas que, tal como ela, tinham vindo estudar para a capital. Como o jantar acabou tarde, apanhou um táxi que não a deixou bem à porta de casa. Fez o restante percurso a pé. Ao entrar numa rua escura, reparou que um carro seguia ao seu lado de forma lenta. O carro abrandou e alguém abriu o vidro da janela. Era um homem de meia idade. Ela, inexperiente, parou. O homem, então, perguntou-lhe: «quanto é que levas?». Apercebendo-se da situação, ela começou a correr, aflita, até chegar à porta do prédio. Ao cair na cama, chorou durante muito tempo porque pensou que o tinha provocado por andar com uma saia mais curta.
Fiquei perplexo, não com a situação em si, mas sim com o estado em que ela estava. Estava com medo de que o homem a começasse a perseguir e que lhe fizesse mal. Perguntei-lhe em que zona tinha arranjado casa. Intendente, foi a resposta. Tive de lhe explicar que, embora vivam pessoas de bem e honestas em tal lugar, é uma zona associada à prostituição, proxenetismo e consumo de estupefacientes. Ela não sabia. A falta de informação que dão aos estudantes é gritante. Também lhe disse que o homem nem sabe quem ela é e que, provavelmente, a associou a uma prostituta. Aconselhei-a a não andar na rua sozinha, principalmente à noite e, caso se sinta mais à vontade, a arranjar uma casa noutra zona da cidade. Uma rapariga que veio de uma aldeia em Trás-os-Montes a passar por isto!... Tive realmente muita pena dela. Estes homens são nojentos.
Claro que nós, habitantes da cidade, conhecemos as zonas proibidas. Aquelas que convém evitar. Para a tranquilizar, contei-lhe uma história que se passou comigo quando tinha quinze anos. Era raro andar na rua sozinho. Aconteceu de dia. Tinha ido a casa da avó e ao regressar apanhei o metro. Quando saí do metro, comecei a caminhar na rua. Um carro abrandou e parou. Um homem, também de meia idade, ofereceu-se para me dar boleia. Ora eu, que de tolo não tenho nada, continuei a andar, ignorando por completo a interpelação do sujeito. Continuou a caminhar em velocidade reduzida. Voltou a desafiar-me para o acompanhar. Parei, olhei para ele e só lhe disse o seguinte (sensivelmente por estas palavras): "Olhe, se continuar a incomodar-me, eu vou à polícia e dou o seu número de matrícula que até já fixei. Se sair do carro, começo a gritar e olhe que eu grito mais alto e agudo do que uma menina!"
Estávamos numa zona com pessoas por perto. O carro saiu disparado de tal forma que levantou poeira. Ahahahahahah. Hoje dá vontade de rir... :)
Bom, diga-se de passagem, eu era um perigo com quinze anos. :) Os meus jeans justos coladinhos ao rabito, a gravatinha do colégio que me dava um ar angelical, o cabelinho à emo que já usava (sim, sou um dos precursores dessa moda!) e as minhas t-shirts com o umbiguinho saliente faziam furor. Ai, saudades!... Não é que hoje não o seja (perigo), mas os tempos são outros, sou mais velho e menos ingénuo. Ahahahahahahah. :)
Voltemos aos assuntos sérios. Espero que a minha colega se decida pelo melhor. Ela é uma querida e não está habituada a situações semelhantes.
Lisboa tem encantos. Tem, vários. Mas também tem perigos, oh se tem.

12 de outubro de 2010

Comunismo, Capitalismo, Abismo


Que a Europa e o mundo, de um modo geral, caminham para o fim não é novidade para ninguém, creio. Os modelos estão esgotados, as sociedades estão desgastadas, o Estado Social morre a cada dia, os extremismos ressurgem vindos do nada...
O Comunismo idealizou uma sociedade sem classes, igualitária, assente no predomínio estatal, na propriedade comum e no controlo efectivo de todos os meios de produção. O comunismo em si, a sua génese, começou antes do seu grande impulsionador, Karl Marx. Robert Owen e Saint-Simon já preconizavam um modelo assente nestes moldes socialistas. Mais moderado, é certo, Saint-Simon (1760-1825) defendia um socialismo de base cristã, a propriedade privada e até mesmo o bem estar social. Como podemos observar, o extremismo veio depois. A verdade é que o socialismo e a sua concretização ou o seu ideal - o comunismo - tiveram aplicações práticas já no século XX, com a corrente marxista, nomeadamente no Império Russo em 1917, posteriormente URSS, assim como em todos os países que adoptaram o modelo soviético ou se inspiraram nele.
O Capitalismo nasceu com a Revolução Industrial Inglesa e assenta predominantemente no domínio da propriedade privada. Com a Revolução Industrial, a economia mundial mudou. Surgiram fábricas, o sistema bancário moderno, o operário e as suas condições de trabalho, a extrema valorização da moeda como motor da Humanidade. As trocas comerciais ganharam um ritmo nunca antes alcançado com a liberdade dos mercados e o liberalismo económico. As antigas ordens sociais deram lugar às novas classes sociais com mobilidade dentro da própria sociedade. Já não importa em que seio nascemos, mas sim que patamar de poder e prestígio atingimos. É o domínio socio-económico da classe burguesa, quadro que se mantém até aos dias de hoje no mundo ocidental.
Com a queda do modelo soviético, a supremacia do Capitalismo vingou. Porém, o modelo está a esgotar-se mais rápido do que o imaginado. As estruturas de suporte ao sistema moderno ocidental dão sinais de ruína. Podemos dizer que o Capitalismo enfrenta a sua mais dura crise de que há memória.
Pois bem, se os modelos estão esgotados, qual será a saída para a crise de valores que atravessamos? Não sou optimista por Natureza, mas também não sou pessimista. Apelido-me de realista. A Humanidade caminha para o abismo. Que engraçado: o sufixo é o mesmo. É a ruptura, o verdadeiro fim. Não me peçam datas. Não sei quando acabará, mas seguramente não será com uma invasão alienígena ou com um terramoto planetário. O Homem basta-se para se destruir a si próprio.
Que se comecem a escrever livros sobre o nosso próximo modelo económico: o Abismo.

30 de setembro de 2010

Um Simpático Velhinho



Ultimamente tenho ido lanchar a uma pastelaria simpática perto de casa. É um sítio calmo, tranquilo e bem frequentado. Além do mais, dá para estudar e ler um pouco. Nos últimos tempos, reparei que um velhinho vagueia pela pastelaria todos os dias, uma vez que o encontro todos os dias. Ora se levanta, ora se senta, ora dá a volta à pastelaria, ora sai, ora torna a entrar... Por vezes, reparo que se senta e coloca a cabeça sobre os braços, cerrando os olhos já por si tristes. Um destes dias, tomei coragem e perguntei à senhora da pastelaria quem era o velhinho. Disse-me que era o seu padrasto e, devido ao facto da sua mãe, também idosa, ter sido internada, ficou a tomar conta dele. Dá-lhe as refeições e pouco mais.
Porém, o que me suscitou mais a atenção foi constatar que ninguém se importa verdadeiramente com o velhinho. Há atitudes que revelam imenso sobre as pessoas. A senhora quando tira uns minutos sem movimento para lanchar, senta-se numa mesa no lado oposto ao lugar onde está o velhinho. Nunca a vi dirigir-lhe uma palavra, perguntar-lhe se queria alguma coisa, prestar-lhe algum auxílio... O mesmo se aplica ao marido dela. Anda por ali, bebe e bebe, senta-se com amigos e nem tem a dignidade de convidar o pobre do velhinho para se sentar na sua mesa. Tenho muita pena dele.
Hoje foi o limite. Vi o velhinho a chorar disfarçadamente na mesa, ocultando as lágrimas com as mãos enrugadas e cansadas. Fiquei tão revoltado!... Pedi o meu chá, pedi-lhe licença e sentei-me na mesa do velhinho. A mulher e o marido ficaram perplexos, para mais quando lhes lancei um olhar de reprovação. Reparei que o velhinho ficou feliz por falar com alguém. Perguntei-lhe o nome, falei-lhe da faculdade, até de futebol (tentei...) falei porque soube que era um tema que o agradava. Foi uma hora que não fez diferença para mim, mas que certamente fez toda a diferença para ele. Quando, por fim, disse-lhe que me ia embora, os seus olhos ficaram tristes, quase adivinhando a solidão que o esperaria de novo. Prometi-lhe voltar amanhã e lá estarei de certeza.
Os idosos não são um pedaço de lixo, um pedaço de algo que não serve para nada. São pessoas que viveram as suas vidas e que chegaram a uma idade que lhes deveria conferir algum respeito. Uma sociedade que não respeita os seus idosos não merece ser respeitada.
Eles já lá chegaram. Nós, se tivermos saúde, também chegaremos. Aquilo que eles sofrem, se tudo continuar assim, é aquilo que nós sofreremos.

20 de setembro de 2010

Anti-Praxes



Hoje foi o dia das praxes na minha faculdade. Como escrevi anteriormente, eu sou totalmente contra essa tradição que considero obsoleta e arcaica. Mas, desafiado por uma amiga que vai para o mesmo curso que eu, decidi ir para assistir a uma (uma vez que nunca tinha visto) e, se quisesse, talvez participar. Ela disse-me que tinha ouvido dizer que era tudo muito soft...
Pois bem, aqui vão as minhas considerações sobre o «soft» (direito que me assiste no meu blogue): vi um ritual de humilhações consecutivas, em que «caloiros» eram sistematicamente abusados pelos «veteranos» (da falta de educação e respeito...). Obrigados a fazerem coisas que não queriam, coajidos com ameaças de idas a «Tribunal de Praxes» (ridículo!). Ao obterem o diploma que certifica a aprovação nas praxes, ainda são obrigados a assistir a uma cerimónia dispensável, com discursos lidos por «veteranos» que mal sabem ler!... Entretanto, há um Corredor da Morte (figura sinistra), em que «caloiros» são sujeitos a perguntas indiscretas e a sevícias que me indignaram, nomeadamente o acto de beber uma bebida duvidosa por uma concha de sopa que passou por dezenas e dezenas de bocas (imaginem-se as doenças). No meio disto tudo, o mais levezinho foram as pinturas, farinhas no cabelo, tintas, rebolarem no chão, na terra molhada, etc, etc, etc.
Numa das cerimónias, os «caloiros» foram obrigados a jurar de mão no peito serem - e passo a citar - «bestas, seres inferiores», etc (não decorei mais).
É isto o espírito de fraternidade, companheirismo e altruísmo?
Claro que eu, indagado por uma «veterana», assinei o manifesto anti-praxes. Fui a única pessoa em todas aquelas dezenas que por ali passaram. Alguma vez deixaria que me humilhassem de forma cruel e desumana? Era o que faltava! Ainda me disseram que desta forma iria ser olhado com desdém... Ai, estou tão preocupado! Não queriam que eu assistisse, devido ao facto de não participar. Mas eu defendi bem a minha posição. Que raio de «veterana», não teve conversa para mim!... Pude observar. Queria ver ao que as pessoas se sujeitam. Olha eu a rebolar no chão frio, levar com balões d'água, cheirar terra molhada... Para ficar doente, provavelmente, porque sou asmático desde bebé.
A minha amiga saiu de lá enjoada, a tossir e toda suja. Acabou por me dar razão.
Para concluir: eu sou contra as praxes, creio que já deu para entender. Respeito quem faz e quem gosta de participar, mas vi - vi - pessoas a quererem desistir e a serem literalmente ameaçadas por «veteranos», o que as levava a continuar. Também vi pessoas a tomarem atitudes contrárias à sua consciência à sua dignidade pessoal (uma ambientalista foi obrigada a cortar plantas, mesmo dizendo que não queria!!!).
Isto é horrível. Não há nada que pague a nossa honra, a nossa liberdade e o nosso direito à não participação num espectáculo degradante, imoral e inquisitorial.

11 de setembro de 2010

O Dia Fatídico



Quem não se recorda do dia 11 de Setembro de 2001? Em princípio, seria mais um dia normal, banal, um mero dia ameno de final de Verão. Todavia, seria um dia com consequências imediatas na história do (na altura) recente século XXI.
Eu era uma simples criança aquando do 11 de Setembro. A data em si, 11 de Setembro, ganhou um simbolismo frio e mórbido, como se de um vento destruidor se tratasse. Era o primeiro dia de aulas, mas recordo-me de que faltei, aliás, como era hábito nos primeiros dias de aulas de todos os anos lectivos. Saí com a mãe e o pai para almoçar num restaurante perto de casa. À saída, o primeiro avião já tinha embatido numa das Twin Towers. Quando cheguei ao dito restaurante, no preciso momento em que olhei para a t.v, o segundo avião acabara de embater no outro arranha-céus. Sempre tive uma extraordinária memória. Recordo-me da roupa que trazia, do lugar em que me sentei no restaurante, enfim, dos ínfimos pormenores. Recordo-me, como é evidente, devido ao acontecimento que marcou o dia. De outra forma, o 11 de Setembro de 2001 passar-me-ia totalmente despercebido, para mais atendendo à tenra idade.
Este dia marcou o mundo de forma trágica. O número exorbitante de perdas humanas, o terror em directo, os suicídios de pessoas que se atiraram das janelas das torres, a destruição do emblemático complexo de edifícios do World Trade Center, o ataque ao coração dos E.U.A, tiveram repercussões imediatas. Com o fim da Guerra-Fria, o mundo suspirou de alívio. Porém, a partir do 11 de Setembro, surgiu uma nova guerra: a guerra contra o terrorismo, expressão até então desconhecida pelas massas. A Guerra do Afeganistão, no final de 2001, foi a primeira consequência. Osama Bin-Laden, um líder islâmico pouco conhecido, encheu manchetes de jornais e abriu noticiários por todo o mundo. O ambiente estava propício para a invasão do Iraque (2003) e a manutenção dos contigentes militares. O mundo tremeu - tremeu - mas não ruiu. Os fundamentalismos de ambas as partes ganharam expressão. De um lado, o fundamentalismo do Presidente Bush; do outro, o fundamentalismo anti-ocidente, concretamente anti-Estados Unidos / Reino Unido e Aliados. Há quem diga que a História Contemporânea ganhou um outro significado. Eu corroboro e acrescento: um significado mais negativo.
Sem qualquer sombra de dúvida, o mundo está mais inseguro.

7 de setembro de 2010

Processo Casa Pia



Prometi a mim mesmo que não iria abordar no blogue o Processo Casa Pia, porque acho que está devidamente explorado na blogosfera, nos noticiários televisivos, nos jornais e na internet, de um modo geral. No entanto, foi-me impossível escapar a este mediatismo e, naturalmente, também tenho uma opinião formada.
Existem vítimas. Isso é claro. Vários jovens, durante anos e anos, foram sistematicamente abusados por homens, anónimos e conhecidos, menos poderosos e mais poderosos. Não conheço o processo, por isso, não estou habilitado para falar em concreto de factos, apesar dos mesmos terem sido divulgados por vários órgãos de Comunicação Social. Aliás, o processo passou-me um pouco ao lado, até porque era pequeno quando o grande escândalo rebentou (2002).
Já vi o site de Carlos Cruz e noto algumas incongruências por parte daqueles jovens. Estarão baralhados? Será que o factor espaço temporal teve consequências ao nível das suas memórias?
Quem dirá a verdade?
Quando olho para os rostos dos arguidos, nenhum sentimento me causam, exceptuando Carlos Cruz. Eu não vejo naquele homem uma má pessoa, um abusador de menores. Lembro-me dos seus programas, das birras com a mãe porque gostava de ver as Noites Marcianas (que passava bastante tarde) e no dia seguinte tinha de acordar cedo para ir para o colégio, do seu inegável profissionalismo... Gostava dele. E, ao olhar para os seus olhos, vejo um homem cansado, esgotado e triste. Não me parece que seja culpado. Claro que é apenas o que sinto, o que poderá corresponder, ou não, à verdade. O tempo e a justiça o dirão. Não sou indiferente a esta primeira condenação, mas vou esperar pelo último recurso para fundamentar aquilo que sinto.
Há um dado mais do que adquirido: a Casa Pia falhou no seu propósito. Surgiu como uma instituição que deveria proteger os jovens em risco, com estruturas familiares abaladas, e acabou por se revelar um verdadeiro inferno para todas aquelas crianças e adolescentes abusados ao longo de vários anos. Também ela deveria estar no banco dos réus. No fundo, toda a sociedade compactuou com a monstruosidade que sobreviveu até há poucos anos na Casa Pia. Sabiam-no, mas não falavam.
Este processo, todavia, também teve consequências para mim. Ganhei um interesse especial pelo Direito. Se tinha algumas dúvidas entre Direito e História, essas dúvidas dissiparam-se com o Caso Casa Pia. Há uma beleza na Lei, nas sessões dos tribunais e em todo o protocolo judicial que me encantou. Agora sei que quero seguir Direito.
Que a Justiça fale mais alto. Apure e julgue os factos de forma imparcial e cega, seja qual for o desfecho.

30 de agosto de 2010

Barbárie nos Nossos Tempos



Qual foi o crime cometido por aquela mulher? Adultério!, dizem os falsos moralistas. Reportemos a condenação imoral à nossa sociedade ocidental... Veríamos um sem número de mulheres a morrerem apedrejadas apenas por, alegadamente, terem sido infiéis aos seus esposos. O corpo não é pertença do Estado, mas sim de cada um como ser individual, racional e responsável pelos seus actos. Mesmo - mesmo - que o "crime" tivesse sido outro, a condenação à morte seria criticável. Porém, por um motivo tão pueril chega a ser ofensivo, por mais que tentemos minimamente compreender as bases religiosas que fundamentam estes actos.
No meio de tanta barbárie, a imprensa internacional continua a dar destaque a este caso, não o deixando cair no esquecimento típico das sociedades ávidas de novas e frescas informações. Quantas terão sido executadas antes desta mulher? E quantas ainda o serão no futuro? Em cada uma daquelas mulheres espreita mais uma Sakineh Ashtiani. Alguma será a próxima e a tolerância para estas práticas só poderá ser uma: zero! As tradições mudam com o tempo. A escravatura era uma tradição até à chegada das medidas abolicionistas; as lutas de gladiadores eram típicas na Antiguidade Clássica. Mudaram assim como a compreensão do Homem mudou. A evolução moral acompanha e é parte fundamental de toda a evolução humana. É o dever de cada um lutar contra estas injustiças.
Não fico feliz só por a pena desta mulher ser comutada para outro tipo de condenação; quero que todas estas mulheres respirem paz e liberdade, no respeito que a sua condição humana o exige.

20 de agosto de 2010

Há Sempre um Adeus



Nada é eterno. Temos sempre, durante a nossa vida, de dizer adeus a alguém. A um amigo, a um familiar, a um conhecido... Todos partimos, sendo que a definição do local da possível chegada remeter-me-ia para questões filosóficas e religiosas, situação que quero evitar neste post, de forma a manter uma pureza singela das palavras. A morte, ou partida, é tudo o que temos de certo na nossa existência. Aliás, faz parte dela. Evitamos ao máximo este assunto. Não é próprio para se falar numa noite com amigos ou familiares. A morte, essa, está distante, quanto mais longe melhor. Ninguém a aborda; todos a temem. Concordo, em certa parte, com esta tendência natural do ser humano. A manutenção da vida e a sua defesa afastam peremptoriamente toda e qualquer ideia de morte. A vida importa, a morte não. Mas a morte existe e é um facto com o qual temos de lidar. Inevitavelmente, lidamos com a nossa morte e com a morte dos que nos rodeiam. Por isso, defendo a tese de que não existe uma morte, mas sim várias mortes. Cada uma amadurece-nos e ajuda-nos a lidar com a próxima. É um processo normal e, em muitas dessas vezes, não temos a percepção de como tudo sucede.
Sou apologista de que a morte deve ser encarada normalmente. Devemos falar nela, abordá-la naturalmente. Não digo que o façamos em situações complexas e despropositadas, não. Porém, devemos falar de quem partiu com carinho, relembrar quem já não se encontra na nossa companhia e, essencialmente, preservar todos os bons momentos que sobrevivem à morte corpórea. As nossas recordações, patentes em fotografias, cartas, escritos, vídeos, etc, vencem a morte e resistem-lhe para todo o sempre. Existe sempre algo que nos traz de volta a pessoa amada. Só morre quem nós queremos que morra. As pessoas continuam vivas em nós, por vezes mais vivas do que quando efectivamente o estavam. Começa em nós, o processo de preservar essas memórias e esses testemunhos daqueles que nos precederam na partida.
Não deixemos que a morte nos traga o medo de viver. Antes, tenhamos o trabalho de a perceber e de olhar para ela de forma descontraída. Afinal, somos efémeros como o tempo.






Ao Nuno (9-8-1970 / 20-8-1999) e à bivó Palmira (2-4-1908 / 22-8-1997), todo o meu amor e carinho pelos bons momentos que vivemos. Lots of Love, Mark

14 de agosto de 2010

Reflexões Sobre Um Simples Diário



Desde criança que tenho um diário. Trata-se de um pequeno diário, um livro da minha vida. Um lugar seguro, onde sei que posso confiar todo o meu lado mais íntimo e pessoal. Porventura, até tenho mais do que um diário. Tenho vários, devido ao facto de escrever várias vezes, o que me levou a armazenar uns dez. Não escrevo todos os dias, no entanto, escrevo o mais importante. Os meus diários antigos estão guardados na casa da avó. A avó tem uma arrecadação fantástica, bem ao lado da adega pessoal do avô. Os tios, os primos e restantes familiares pedem à avó para guardar algumas coisas na arrecadação, que fica atrás do jardim. Meu, estão lá umas caixas, onde armazeno alguns brinquedos de infância. Nem são muitos, uma vez que desde pequeno me ensinaram a doar os brinquedos usados - mas em bom estado - para as crianças que têm menos posses. São brinquedos que me dizem muito. Para além desses artigos, estão lá os meus diários. Desde que tenho o blogue, as minhas energias são despendidas aqui, portanto, a escrita no diário não é tão frequente. Porém, os factos mais pessoais são confiados àquelas páginas.
Hoje, a falar com uma amiga de uma prima, abordou-se a questão dos diários, quando eu disse que ainda escrevia num. Ela riu-se, melhor, sorriu, de forma sarcástica que não gostei nem um pouco. Perguntei-lhe o motivo de tamanha admiração, quando ela me diz que são «coisas de criança» e que sempre me achou «um nadinha enjoado demais». Assim, na minha cara. Fui muito diplomata. Virei as costas e saí. À prima, mais tarde, disse o que pensava. Desde quando ter um diário revela imaturidade? Confesso que engoli um sapo, como se diz em linguagem popular.
Um detalhe no qual tenho reparado, é que tudo o que foge ao vulgar e ao comum é mal interpretado. Não somos todos iguais. Cada um tem a sua sensibilidade e a sua forma de viver a vida. Graças a Deus que não sou igual à maioria. Agradeço sempre. É bom ser diferente. Ser sensível, mesmo sendo rapaz. Não é o facto de sermos brutos, rudes e autênticos selvagens que nos torna mais homens. A nobreza de carácter não é visível nessas trivialidades. Grandes Homens e Mulheres estão no interior de quem menos esperamos. Isso sim compõe o ser humano, e não aquilo que a sociedade atribui a cada um.

31 de julho de 2010

O Passado Que Está Presente



Por vezes, o passado domina o nosso futuro e condiciona decisivamente a nossa vida. Quantos de nós, devido a erros do passado, sentimos que existe um pedaço que jamais será preenchido, uma mácula que nos persegue em todos os nossos momentos? Certamente muitos. A vida é feita de caminhos, trilhos que poderão ser os ideais ou os errados. Quando optamos, geralmente não sabemos o que nos espera, é um risco que temos de correr. Porém, as más opções podem significar um sofrimento presente, algo que nos atormenta mesmo quando tudo parece estar bem. Existem pessoas que quase sempre tomam as atitudes correctas; outras, no entanto, erram incessantemente, muitas vezes não por ignorância ou falta de perspicácia, mas sim porque não têm aquela luz que as guie pelos melhores caminhos. A vida não espera por nós e raramente nos permite corrigir erros. Eu creio que nenhum erro poderá ser corrigido, quanto muito remediado. Começo a aperceber-me de que a vida é um jogo muito perigoso, difícil de jogar. Ao mínimo erro, perdemos pontos e, com eles, um pouco da nossa felicidade. O objectivo é fazer sempre o melhor, tomar as opções mais correctas, seguir os caminhos perfeitos, no fundo, fazer tudo como deve ser feito. De outra forma, chegamos ao fim com uma pontuação menor. Há quem chegue com pouquíssima pontuação...
A construção do nosso presente faz-se através das nossas escolhas. A vida é feita delas. Tudo deve ser premeditado, todos os nossos passos e as nossas acções. Se não o fizermos, corremos o risco de estragar tudo, condicionando fortemente o futuro. Depois, não há retorno. Está feito, ninguém tem o poder para mudar. O pior erro que podemos cometer é viver a vida de forma espontânea, sem pensar em absolutamente nada. Os erros pagam-se caros, com um preço demasiadamente elevado.
Para arrumarmos bem o passado, construindo um presente calmo e um futuro promissor, devemos calcular todos os passos, meditando sobre todos os assuntos. A felicidade, essa, espreita ao fundo do grande jogo que é a vida.

9 de julho de 2010

Notas (Exames Nacionais)



Dia 8, o dia ansiado e esperado. O dia em que, finalmente, saíram os resultados dos exames nacionais. Na altura dos exames disse que não iria falar sobre os mesmos até ter conhecimento das notas. Pois bem, agora já sei quais foram. Por uma questão de reserva pessoal, não vou divulgar as notas que obtive nos exames de Português e História. Porém, tenciono fazer algumas breves observações sobre os meus resultados em ambos os exames. Eram acessíveis, os dois. Como é evidente, o exame de História carecia de mais estudo e de um maior aprofundamento. Os exames correram-me bem, de um modo geral, com pequenas dificuldades pontuais. No entanto, não saiu nenhuma matéria difícil ou, até certo ponto, inacessível. A Português, fiquei satisfeito com a minha nota. Foi o que esperava. É uma nota bastante boa, acreditando ser o essencial para o que necessito. A História, obtive uma nota boa, é certo, mas confesso que esperava mais um pouco. Não muito mais, apenas mais um valor ou dois. De um modo geral, o balanço é francamente positivo. Estou satisfeito com os resultados que retirei pelo meu trabalho e pelo meu estudo.
Estou convicto de que tirei as notas necessárias para o curso superior que pretendo frequentar. Por isso mesmo, estou calmo e tranquilo. Foi, sem dúvida alguma, um dia muito gratificante. Para a semana, começa a 1ª fase do Concurso Nacional de Acesso ao Ensino Superior. Uma nova etapa, ainda dentro desta fase decisiva na minha vida. É a parte que menos depende de mim. Agora, os dados estão lançados. Eu e todos os estudantes pré-universitários do país estamos na mão do futuro. Colheremos aquilo que semeámos, para o bem e para o mal.
A vida é mesmo assim.

30 de junho de 2010

O Cabo das Tormentas






"Não há culpados. O que há são desgraçados." William Shakespeare


PS: Carlos Queiroz: Out!