7 de maio de 2022

Serás sempre.


   Serás sempre a pessoa que mais me amou, que mais se sacrificou por mim. Que tudo fez para que nada me faltasse.

   Durante muito tempo, pela imaturidade, julguei as tuas decisões por não me ver capaz de as entender. A passagem dos anos, que traz a velhice, a doença, a morte, traz-nos também a experiência, e hoje vejo-me capaz de entender que não tinhas outro caminho senão aquele. Tomaste decisões erradas, como todos, e eu perdi demasiado tempo a condenar-te, a culpar-te, inclusive por situações que não eram directamente responsabilidade tua. Fi-lo por fraqueza. Responsabilizei-te por não ser capaz, e com isto perdemos momentos que poderíamos ter desfrutado adequadamente.

   Amei-te e amo-te mais do que a mim, e os erros que cometi, que cometeste, cedem perante o amor que te tenho, que me tinhas. E por isso não há lugar para o remorso. Sofro pela tua ausência -será uma dor que me acompanhará sempre-, porém, a certeza inquestionável e acima de qualquer dúvida do meu afecto por ti leva a que nenhum remorso me atormente. Lamento somente os tais momentos que poderiam ter sido melhor aproveitados.

   Disse-to, quando ainda estavas em condições de o entender, que te amava. Pedi-te perdão por qualquer erro. Sei que o sabias, tenho absoluta certeza, e isso tranquiliza-me. Nunca duvidaste do que sentia por ti. Também me dá alento saber que haverias de querer que seguisse, e que mo dirias se pudesses. Continua. Sê feliz. Tens quem te ame e te cuide. Os trinta e poucos anos que tivemos juntos foram vividos intensamente, de tal forma que, para cada situação com que me depare, sei exactamente o que me dirias, o que me aconselharias, e as decisões que tomo, tomo-as tendo em conta a tua opinião, que conheço, e o que quererias. Todas. Até as aparentemente mais polémicas. Tu e eu sabemos o que mais ninguém sabe. Uma parte já partilhada com o M., no entanto, suficientemente polida para que o compreenda e aceite melhor.

    Inevitavelmente, tal abalo fez-me mossa. Caiu sobre mim como um terramoto. Agradeço, ainda assim, a sorte que tive, que tenho, entre o desaire, o medo maior. Terei um porvir difícil, se sobreviver, e não te peço forças nem que olhes por mim porque aquilo em que acredito me impede de te imaginar por aí, vendo-me e ouvindo-me, acompanhando-me. Mas sei que, um dia, também sobre mim cairá esse véu da não-existência que afastará o conhecimento da tua perda, a dor pungente que se abate sobre mim a cada instante. Nada dura para sempre. Nem a dor.

    O apego à vida, que nunca foi muito, diminuiu, porque foste, serás sempre, um dos motores que me fazia prosseguir, insistir. Pode ser que consiga obter essa força, que nunca encontrei em mim, noutras paragens; porventura em ti, doutro modo. 

     Há que seguir, dizem eles. E seguirei, enquanto me fizer sentido.

3 de maio de 2022

XIV Aniversário.


    Olá a todos. Há mais de um mês que não publicava nada, e provavelmente permanecerei assim, mudo e calado, porque continuo a atravessar esse longo e doloroso caminho de reconstrução, de (re)nascimento, se lhe quiserem chamar assim, depois da morte de um ente muito, muito querido. Passou-se tudo demasiado depressa -pelo menos este desfecho não, não era esperado-, e não fosse o apoio do meu marido, provavelmente não estaria aqui a escrever-lhes. Sou muito claro nas palavras. Não as temo, e considero que sofrer por sofrer não merece a pena. Quando isto já não nos faz sentido -e refiro-me à vida, para os distraídos-, saímos dela como quisermos. É nossa. Pertence-nos. Não é de deuses, que não existem, nem de religiões. Não temos de sofrer física ou psicologicamente porque a vida é um dom e blá, blá, blá, whiskas saquetas.

   Mas não foi para falar de mim nem do meu sofrimento que vim aqui. Foi para assinalar o décimo quarto aniversário deste blogue. O carinho que lhe tenho ainda justifica que venha aqui com esse intuito. Pois já está. Espero que estejam todos bem, e eu, aqui vou, contando a cada dia, procurando sobreviver. O mesmo que dizer, na merda. Tchau.

     

14 de março de 2022

Um até já, talvez.


   Pode ser definitivo, pode ser que não. Estou-lhes a ser realista. Neste momento, atravesso o pior período da minha vida, o de maior dor -a dor maior-, o maior medo que se tornou real. Não estou em condições físicas e psicológicas de ir escrevendo, ou seja, de me comprometer com qualquer assiduidade nas publicações. Imagino que muitos dos que me odeiam estejam felicíssimos, mas também esses passarão por isto, e outros até já passaram. Por isso, pensem duas vezes antes de se divertirem à minha pala. Não estou a justificar nada. Sei que deixei de escrever e que há uma pouca gente que me merecia uma “explicação”. Aqui está.

    Talvez volte, quando me recuperar deste terramoto. E, voltando, serei pior do que alguma vez fui. Nada mais me dará medo na puta da vida. Vá, fiquem bem.

26 de fevereiro de 2022

Crónica de uma guerra anunciada.


   Nada me leva a favor dos EUA e do seu imperialismo sobre várias nações do planeta. Sabemos que ambos, quer os EUA quer a Rússia, se comportam da mesma forma de há várias décadas a esta parte. Movimentando-se na cena política internacional apoiando líderes simpáticos à sua causa ou ideologia e ditaduras conservadoras ou socialcomunistas, criando alianças militares, intimidando países terceiros. O fim da Guerra Fria trouxe um desanuviar de tensão entre as potências hegemónicas, porém, passámos de duas para uma, e os EUA puderam reafirmar a sua superioridade militar, económica, política, cultural. A Rússia passou a um papel secundário, ou menos ainda, com a ascensão da China. Nunca o encarou bem, e todas as tentativas americanas de estender a sua influência no leste europeu foram encaradas como uma ameaça pelos russos. Para os americanos, mais do que se defenderem da Rússia, procuram defender-se do Irão e da Coreia do Norte, criando escudos antimísseis nos países aliados da OTAN/NATO. Às portas da Rússia, portanto.

    Há um princípio basilar do direito internacional público que é o da soberania estatal. Afastando-nos dos propósitos e expectativas de americanos e russos, todos os países são, ou deveriam ser, livres para conformar o seu destino como queiram, firmando as alianças que queiram. Se ocorrem golpes de Estado, são questões internas de cada Estado soberano, e devem ser resolvidos pelo seu povo. Portugal teve um golpe de Estado em Abril de 1974, EUA e a Espanha franquista cogitaram invadir o país temendo que os marxistas tomassem o poder e creio que ninguém hoje apoiaria essa solução. É exactamente o que se passa no leste europeu: há, na Ucrânia, um governo desfavorável aos russos, há o problema da aproximação da Ucrânia ao ocidente, e a Rússia, numa intimidação absolutamente inaceitável, não o permite, ou seja, a soberania dos países do leste europeu é uma farsa. O ascendente da Rússia mantém-se e a política de intimidação não chega sequer a assumir um carácter moderado, dissimulado. Ontem mesmo a Rússia ameaçou contundentemente a Suécia e a Finlândia com consequências militares caso adiram à NATO. Já não falamos de ex-repúblicas soviéticas. Ainda que o fossem.

   Ideologias de lado, só há um caminho que me parece correcto, respeitador da soberania do povo ucraniano e do direito desse mesmo povo de viver em paz e de poder decidir sobre o seu futuro. É nisso que consiste a autodeterminação dos povos. Tudo o que se afaste um milímetro destes princípios não atende à vontade do povo ucraniano, justifica a guerra sem o aval das Nações Unidas (no fundo, apoiando agora o que anteriormente se criticou nos EUA) e abre o precedente de que qualquer Estado pode intimidar ou inclusivamente invadir outro se considerar que há razões que o justifiquem. É um atropelo ao direito internacional, é o caos nas relações entre os Estados.

24 de fevereiro de 2022

A guerra.


   Afinal, as fontes de informação que nos davam conta de um ataque iminente estavam certas. Putin invadiu realmente a Ucrânia, dando início a uma guerra desproporcional, injusta e ilegítima, que viola e integridade territorial e a soberania internacionalmente reconhecidas de um Estado soberano e compromissos que a Rússia firmou, como em 1994, em Budapeste, comprometendo-se a respeitar a soberania ucraniana em troca do envio para Moscovo do arsenal ucraniano herdado da União Soviética.

    O senhor Putin representa uma ameaça à paz na Europa e à humanidade, dado que não sabemos onde isto irá terminar e quais os seus diabólicos planos. Minorias étnicas e linguísticas russas há-as em vários países da região, inclusive nos países bálticos. Um deles activou mesmo um dos artigos da OTAN/NATO. Temos a guerra à porta das nossas fronteiras, tomando-as como as da UE, um espaço de livre deslocação de pessoas, e importa saber qual será a posição assumida pela União Europeia se o senhor Putin tiver outros objectivos para além do controlo político das regiões separatistas do leste ucraniano. Mas ainda considerando a própria Ucrânia, gostaria de saber se conseguiremos conviver com a fragmentação de um Estado soberano como os nossos -e aqui falo como europeu e cidadão da UE- que desde 2014 vê a Rússia a invadir o seu território, apossando-se dele (Crimeia) sem que nada fosse feito.

  Lamento profundamente que tenhamos chegado a este cenário de confronto directo em que inevitavelmente os que mais sofrem são os menos implicados em todas estas questões: a população civil e, dentro dela, as pessoas mais fragilizadas. É já há vítimas civis, ainda agora a guerra começou. Simultaneamente, repudio em absoluto o apoio manifestado por alguns grupos de cidadãos simpatizantes de Putin e/ou do seu estilo de governação, num insensível desprezo pelo sofrimento do povo ucraniano.

17 de fevereiro de 2022

Despertaram para um problema social e cultural.


   Eu tenho sido, nas minhas redes, das vozes mais activas das que conheço que se manifestam sobre o flagelo social e cultural que é a violência doméstica, machista e sexista. Em Espanha, inclusive, fazem uma distinção, que em Portugal não se faz, entre violência doméstica e de género, e posso-lhes dizer que a sociedade espanhola está bastante mais atenta às situações de violência infelizmente tão comuns em países do sul da Europa, católicos, que passaram por ditaduras conservadoras. Nesse sentido, quando vejo que há uma multidão que se insurge quando sabe de casos mediáticos, revolta-me. Durante uns dias, não se fala doutra coisa, até que sabemos de mais uma mulher agredida, abusada sexualmente, mutilada, assassinada, incrementando umas estatísticas vergonhosas com as quais, aparentemente, convivemos bem.

   O caso em concreto não me merece comentários. Não vejo trash tv, nem em Espanha, o que se dirá de Portugal. Recebo ecos do que se passa em Portugal uma vez que subscrevo jornais digitais portugueses. Continuo a ser português e a interessar-me pelo meu país. Não sei se agrediu, se não agrediu, vi umas imagens deploráveis, e o que me ocorre dizer é o seguinte: que se persigam, de uma vez por todas, os agressores, os que convivem bem com o machismo e a submissão da mulher ao homem; o sexismo encapotado que continua a julgar os comportamentos da mulher, o que faz, com quem vive, quantos parceiros tem, o que veste. É necessário corrigir condutas, todos os dias, educando, denunciando, abordando o fenómeno. Uma voz que se levanta de tempos a tempos é uma voz que compactua nos períodos de silêncio.

16 de fevereiro de 2022

O Mar, O Mar.


    Terminei de ler O Mar, O Mar da bem-sucedida escritora irlandesa Iris Murdoch, uma das maiores romancistas em língua inglesa do século XX, de quem li O Sino há muitos anos, tantos que praticamente não me lembro de nada da estória. Tinha uns dezasseis, e fora-me oferecido pelo meu pai anos antes. Quando somos muito jovens, e eu era-o, ou as coisas nos marcam ou passam por nós sem deixar rasto, como um pássaro que cruza o céu, traçando uma rota, sem que ninguém o observe. Creio que também nos falta maturidade para entender as mensagens subliminares. A adolescência é um período sobrevalorizado.

    Pois bem, voltemos ao mar. A estória passa-se no rural costeiro inglês. Um actor que se reforma e que escolhe a placidez de umas paragens remotas, onde redescobre um amor antigo, justamente da adolescência (falávamos dela), desenvolvendo uma obsessão por recuperá-lo. Murdoch substituiu-se à sua personagem principal, Charles Arrowby, que nos relata o que se passa em estilo de narrativa directa, um diário seu, onde expõe as suas inquietações e mais diversas teorias sobre o presente e o passado.

   A obra de Murdoch é o retrato de um homem vaidoso, egoísta, que presume que as suas vontades devem ser atendidas, que utilizou as mulheres na satisfação das suas necessidades, sem que haja uma tomada de consciência disso a nenhum momento. Arrowby não é um homem mau. É um homem com um ego extraordinário, que oscila entre o autoconhecimento e a ilusão. Um velho actor solitário, meio antissocial, que desenvolveu inconscientemente outra obsessão, a de superação do seu primo James, a quem invejou durante todo o período da infância de ambos.

    Murdoch faz com que as demais personagens surjam no contexto de Arrowby quase como invasores da sua tranquilidade, da serenidade da narrativa e dos seus pormenores caseiros, às vezes como expiando os seus pecados, como pequenas vozes que se assomam para o fazer recordar dos seus erros, de como brincou com sentimentos, servindo-se de outros, sobretudo das mulheres, que teve várias, para depois as descartar ao não conseguir, ou não querer, construir algo mais sólido com qualquer uma delas. As personagens do sexo masculino são amigos que não o são. Rivais, admiradores implícitos, jovens que procuram uma figura paterna. Arrowby é um ídolo para tantos, e no fim de contas não o consegue ser para si próprio, frustrando-se-lhe os planos, meros caprichos, afinal.

     Um livro que nos fala de neuroses e defeitos comuns, e o mar, constante, que leva e traz, regenera.

14 de fevereiro de 2022

Curva da vida.


   O Lobo, que voltou sob outra capa, é um dos bloggers mais dinâmicos da blogosfera. Andou por aí muito tempo, depois desapareceu, e agora voltou num momento em que a blogo é um cadáver. Ele tinha sempre ideias para desafios, passatempos, eventos (os calendários, os oscars da blogo, e por aí), e desta vez fez a sua curva da vida, propondo-nos que também nós a fizéssemos. Eu vou elencar os melhores e os piores anos da minha vida. Tenho uma memória prodigiosa, e lembro-me de praticamente tudo, mais ou menos pormenorizadamente, desde os três anos. Anos felizes, felizes, nunca tive até sair de Portugal, verdade seja dita, mas houve uns piores.

1996: o ano em que mudei de colégio, passando a conviver com miúdos mais velhos. Foi a partir deste ano que comecei a sentir verdadeiramente os efeitos da discriminação e da ignorância, ainda que antes, onde vivia, já fosse discriminado por ser mais feminino;

2004: foi um ano terrível. O meu pai sofreu um AVC, que felizmente não lhe deixou sequelas graves, mas tudo aquilo perturbou imenso as minhas rotinas e a minha estabilidade emocional;

2005: o segundo ano da pior tríade da minha vida. Houve uma série de problemas pessoais que tornaram o ano horrível;

2006: o meu annus horribilis. Os meus pais separaram-se, a minha mãe conheceu outra pessoa e passou a viver com ela, o meu pai também saiu de casa. Passei por um processo de transformações e mudanças que me beneficiariam a médio prazo, mas na altura foi tudo um terramoto. Sofri o pão que o diabo amassou;

2010: foi o culminar de um processo de lenta recuperação iniciada em meados de 2007. Entrei na faculdade e isso abriu-me os horizontes;

2015: mais um ano de mudanças, não positivas, mas a partir de 2006 comecei a desvalorizar o que de mau me sucedia, tendo em conta aquilo por que passei naquele período;

2018: um ano muito mau na sua segunda metade, por uma notícia devastadora;

2020: a grande mudança. Sair de casa, do país, constituir família, adoptar um animal. Aconteceu tudo demasiado rápido. Foi o melhor ano que tive desde que nasci;

2021: um ano que vem no seguimento do anterior, muito positivo, com alguns acontecimentos inéditos pelos quais ansiava há muito tempo;

   Se fizesse um gráfico, veriam que, desde que vim ao mundo, estaria praticamente tudo abaixo da linha. Houve, sobretudo, anos maus, e outros igualmente maus que foram a continuidade uns dos outros. Foi quase tudo mau na minha vida, digo-o sem medos, e o bom tem sido uma excepção.

11 de fevereiro de 2022

Escalada de tensão.


   Embora a União Soviética se tenha desmoronado há 30 anos, a sua sucessora, a Rússia, nem por isso perdeu o interesse no leste europeu. Não foi com agrado que viu os países do leste europeu a aderir à NATO, à União Europeia; mantém relações privilegiadas com a Bielorrússia, e muitos daqueles países necessitam dos russos para o abastecimento de energia. No fundo, a tutela que a União Soviética mantinha, a Rússia julga que deve manter. Isto por um lado. Pelo outro, os EUA, como sempre, acicatando a desconfiança que já existe entre muitos daqueles povos e os russos, pelo passado recente, e procurando estender a sua influência às portas do seu tradicional arqui-inimigo. Tratando-se de um país de dimensões continentais, o maior do mundo, com energia atómica, um status de potência, evidentemente que a Rússia não vê com bons olhos a aproximação do leste europeu ao ocidente.

   Há ainda a questão das minorias étnicas russas em vários daqueles países. No caso da Ucrânia, e desde logo assumo que pouco entendo da matéria, sei que há uma forte presença russa sobretudo na parte oriental do país, e o russo é bastante falado. Na Crimeia, a maioria da população é de origem russa. Para nós, portugueses, é-nos uma realidade estranha, uma vez que etnicamente somos todos portugueses e falamos todos, ou quase, a mesma língua (há a questão do mirandês, que é uma falsa questão para aqui). O mesmo não ocorre noutras zonas do globo. Em Espanha, onde resido, as questões socioculturais já se fazem sentir no quotidiano político do país e inclusive nas relações que se estabelecem entre os diferentes povos, sempre marcadas por alguma tensão. No leste europeu, sucede o mesmo. Nem sempre as fronteiras dos Estados respeitam as nações, e nem sempre as nações constituem um Estado, e ainda não raras vezes algumas nações, ou parte delas, são incorporadas em Estados limítrofes. Quando a U.R.S.S se desmembrou, aqueles novos Estados continuaram com a configuração que assumiam durante o período soviético, enquanto repúblicas soviéticas. Desde a constituição do Estado socialista até à sua queda, mediaram várias décadas, e imagino que tenha havido movimentação de povos dentro das fronteiras internas, com predominância dos russos como maioria étnica, dominante demográfica e politicamente.

  Não acredito num conflito que comprometa a paz mundial, mas, sim, acredito em pequenas escaramuças e nas tentativas de intimidação da Rússia. A Europa é uma região pautada regularmente por conflitos -embora seja um continente pequeno, é-o diverso-, e a recordação das guerras nos territórios da antiga Jugoslávia ainda estão presentes.

9 de fevereiro de 2022

Budapeste (parte VI).


   Será quiçá a última publicação sobre Budapeste, ou talvez não. Hoje dir-vos-ei as minhas impressões gerais sobre a cidade e os húngaros. Começando pela cidade, é lindíssima. Adorei conhecê-la, provavelmente não repetirei porque tão-pouco é uma grande metrópole que deixe muito por visitar em cinco dias, que foi precisamente a duração da nossa estadia. Vimos tudo o que havia para ver. Conseguimos cumprir com o roteiro a que nos propusemos. Aproveitámos bem o tempo que tínhamos. Budapeste é uma cidade funcional, com bons transportes públicos, segura, não demasiado extensa, tranquila. O húngaros, pois...

   Os povos são todos distintos, em razão do percurso histórico, do clima, da cultura. Eu não esperava que os húngaros fossem calorosos na recepção aos turistas como os espanhóis, os italianos, os portugueses. O que esperei, sim, é que fossem educados no trato, cordiais, sobretudo os que lidam com os turistas, e a experiência demonstrou-me o contrário. A minha e a de outras pessoas que escolheram a Hungria como destino de ócio, que nos demos, eu e o M., depois do regresso, ao trabalho de ler opiniões em sítios na internet dedicados a viagens e turismo. Há demasiadas opiniões semelhantes à nossa.

  Logo à chegada, a polícia, ainda no aeroporto, foi extremamente agressiva com os turistas que chegavam. Falaram-nos num tom autoritário, brusco, quase ameaçador. Pareceu-me que estava a entrar num estado ditatorial nos anos 70. No mesmo dia, repetiu-se o sucedido à entrada do parlamento. Os seguranças manifestaram os mesmos modos. Nos locais de comércio e restauração, também não temos nada de agradável para dizer: agressividade, má cara, desconfiança. Já sabia que os húngaros tinham elegido a extrema-direita, o Fidesz, um partido eurocéptico e anti-imigração, mas nós éramos turistas. Contribuímos para a riqueza interna do país, para o seu desenvolvimento. Com um leque tão vasto de escolha, decidimo-nos pelo seu país, e isso ao menos merecia que nos tratassem com outra consideração. À saída, no aeroporto, uma vez mais, e talvez para manter a coerência (risos), assistimos a mais episódios desagradáveis com os turistas.

   Importa referir que muitos dos casos foram observados por nós e ocorreram com outras pessoas. Não se trata de uma experiência nossa, isolada. Inclusivamente, comentei-o com o M., durante uma visita guiada, e uma portuguesa que estava de visita, ouvindo-nos, deu-nos razão. 

  A Hungria pertence à UE desde 2004. Budapeste é uma das cidades mais visitadas da Europa. Esperava-se que lidar com o turismo já fosse uma prática rotineira para os húngaros, e a impressão com que fiquei é a de que não gostam de estrangeiros. Há uma profunda desconfiança com quem não é de lá. Ainda que quisesse voltar, que não quero, não o faria. Há povos que são abertos ao mundo, receptivos aos outros, e há outros que não. As coisas são assim. 

   O que referi aqui não implica que a vossa experiência tenha de ser igual à nossa. Budapeste é realmente uma cidade que merece ser visitada. No entanto, eu aconselhar-vos-ia a refrear o ânimo quanto à receptividade dos húngaros, que deixa a desejar.

8 de fevereiro de 2022

Budapeste (parte V).


   O regime comunista desintegrou-se, na Hungria, em 1989. Caiu de forma pacífica, como de resto em todos os países do antigo bloco soviético, à excepção da Roménia, que executou o seu líder, Ceausescu, após um julgamento sumário. À época, as praças de Budapeste estavam todas elas repletas de estátuas e símbolos do comunismo. Com a transição para a economia de mercado, retiraram-se aquelas estátuas das praças públicas e chegou-se a cogitar a sua destruição. O bom senso imperou e, em 1993, inaugurou-se um parque a cerca de 12km de Budapeste, um descampado, como que um cemitério onde depositar aquelas enormidades de bronze sem ferir susceptibilidades e comprometer o novo rumo político pró-ocidental que se almejava.


Lenine, o grande líder e fundados da União Soviética


  Chama-se Memento Park, e a sua construção não se deu ao acaso. Arquitectonicamente, tudo foi idealizado para lhe conferir um simbolismo. A entrada, por exemplo, parece-nos sumptuosa, reportando-nos a um templo clássico, mas depois, quando passamos a porta, vemos que se trata de um terreno amplo, seco, desértico, com as estátuas dispostas aqui e acolá. É uma alusão ao comunismo, um modelo de regime que promete muito, sem que, no fim, se cumpram as expectativas. Estávamos em 1993, e ainda não lhes podia ser exigido aos húngaros que fizessem leituras apolíticas da sua história recente. Fora do parque, no lado oposto à entrada, vemos as botas de Estaline sobre um pedestal. Sobejaram apenas as botas. A estátua foi destruída integralmente numa revolta contra o regime comunista em 1956, que o Exército Vermelho sufocou imediatamente. Tal não sucedeu às de Lenine. Temos uma no pórtico da entrada, gigante, e outra no recinto do parque. Até ao dia de hoje, o fundador da U.R.S.S goza de mais prestígio e consensualidade do que Estaline.


Monumento à República Socialista Húngara (1969)


   Lá dentro, e depois da compra do bilhete, encontrarão não só elementos soviéticos como húngaros, e inclusive um Monumento aos Combatentes Húngaros das Brigadas Internacionais de Espanha, que foram -sem querer abordar muito a história espanhola nesta publicação- unidades militares que lutaram ao lado da República durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939), contra Franco, do bando dos nacionalistas. Como acabou, vocês já sabem.

    Têm à disposição ainda uma pequena loja que vende recuerdos do recinto.

Todas as fotos foram captadas por mim. Uso sob permissão.

7 de fevereiro de 2022

Budapeste (parte IV).


   Budapeste é conhecida pelas suas termas. É uma cidade termal, famosa na Europa. Quis o destino que eu vivesse na capital termal da Galiza e de Espanha, Ourense, mas nunca cheguei a ir às termas daqui. Antes de me mudar para o rural, vivi umas semanas em Ourense. Tudo coincidiu com o início da pandemia, pelo que a ida às termas ficou adiada indefinidamente. Proporcionou-se fazermos termas em Budapeste. A cidade dispõe de dois balneários: um mais antigo, Gellert, e outro mais moderno, Széchenyi, que foi a nossa opção. Fica perto da Hösök tere, na linha M1, na estação homónima.


Sabe tão bem


  O balneário dispõe de várias piscinas, umas interiores, outras exteriores. Ficámos sobretudo nas exteriores. Estavam 5ºC, e dentro de água 29ºC. A sensação de variação térmica é impressionante e extremamente agradável. E depois há aqueles esguichos de água quente tão reconfortantes nos músculos e ossos. No caso do M., que sofre um pouco da coluna, além do agradável que são, ajudam-no a relaxar e a eliminar as dores. Um conselho: levem chinelos e touca. Se não o fizerem, poderão adquirir estes produtos numa loja dentro do recinto das termas. São obrigatórios. Ah, e a toalha de banho (ou um robe, melhor, porque no Inverno faz muito frio). O balneário tem instalações para que troquemos de roupa e, no final, nos duchemos.


O Balneário de Széchenyi


    Dependendo do tempo que disponham em Budapeste, aconselho a que passem pelas termas.


Todas as fotos foram captadas por mim. Uso sob permissão.


5 de fevereiro de 2022

És maricas?


   Um breve hiato nas publicações de Budapeste para um desabafo. Uma publicação intimista. Não surge por necessidade de catarse, mas explica, de certo modo, o porquê de, depois de uma breve incursão à direita, ter percebido onde realmente pertenço, e certos comportamentos.

   Como muitos meninos, eu também fui vítima de anos de preconceito, ignorância e ódio. Quando ouço falar em sair do armário, a expressão soa-me a algo incompreensível. Eu consigo perceber o que é chegar-se à beira de um pai ou de uma mãe e contar-se o que se é e se sente; comigo nada se passou assim. Eu nasci sem um armário. Era demasiado evidente, para mim e para os outros, que era um rapaz diferente. Ser mais delicado no trato, gostar de brincar com as meninas e com brinquedos de meninas não necessariamente teria de determinar a minha sexualidade. Entretanto, foi assim que o entenderam. Desde os cinco anos, sensivelmente, comecei a ser alvo de piadas e ridicularizações, primeiro no bairro em que vivia, depois no colégio. Naquela época (inícios dos 90), a juntar-se ao preconceito estava a ignorância. Parece inacreditável, mas os miúdos não sabiam bem o que eu era. Perguntavam-me se era homem ou mulher, se tinha vagina, se o meu pai também era assim como tu. Havia um desconhecimento gritante. Foi-o assim durante anos. Anos, dia após dia, sujeito às mesmas perguntas, às mesmas perseguições. Não podia falar daquilo com ninguém. Ninguém o entenderia ou estava capacitado para me ajudar. Por umas quantas vezes queixei-me aos meus pais dos maus-tratos de uns miúdos, que ligavam para o colégio, falavam com os directores e tudo ficava igual. Quando me refiro a maus-tratos, refiro-me a piadas e insultos. Até ao dia de hoje, nunca fui agredido fisicamente ou violentado sexualmente por ser gay.

   Esses anos transformaram-me decisivamente. Estou convencido de que me moldaram a personalidade. Como amar se nunca soube o que essa palavra significava? Como respeitar se nunca me respeitaram? Em casa era querido, sim, porém não chegava. Faltava ser aceite lá fora, pelos outros. Ser tratado como uma pessoa digna de consideração como qualquer outra, e sobretudo num período tão delicado como o é a infância, e mais tarde a adolescência. É impossível crescer-se com uma cabeça sã naquelas circunstâncias. Alguma repercussão havia de ter. No meu caso em concreto, tornei-me numa pessoa com falta de empatia pelos demais, desconfiada, que alimenta sentimentos de vingança contra quem me fez mal. Podia, realmente podia, ter transformado os traumas em mais uma bela estória de superação que se expõe nas redes sociais e todos batem palmas. Não foi assim. Admiro quem o consegue, a sério que sim. É bom, é excelente, conseguir pegar nas nossas fraquezas e dar-lhes um rumo positivo, inspirador.

  Naturalmente, a sociedade, a mesma que me fez mal (e, é provável, a alguns de vocês) não se compadece das nossas debilidades. Exige-nos o mesmo. O mesmo equilíbrio, a mesma ponderação, os mesmos sentimentos altruístas. Exige-nos, no fundo, um percurso irrepreensível como o dos demais. Julgam-nos por quem somos sem a menor preocupação com o nosso historial. Quando começamos a revolver o passado de alguém, podemo-nos deparar com surpresas, algumas chocantes, outras nem tanto, mas seguramente com muitas explicações.

  Então, como estar do lado dos meus verdugos? Como, inicialmente por me rever num patriotismo disparatado que exalta a história de Portugal e as suas velhas glórias coloniais, começar a fazer propaganda unindo-me àqueles cujo percurso em nada foi semelhante ao meu? Foi a análise que me fiz, e ao meu procedimento, e percebi que estava no caminho errado. Também percebi que o meu passado pode explicar quem sou, mas não deve determinar sempre o que faço, e que me cabe a mim distinguir o bem do mal, resistir às minhas inclinações para o mal. Não deixar que o que me fizeram me destrua como ser que tem a capacidade de, pelo menos, imitar os outros observando como fazem. E, acima de tudo, não fazer com ninguém o que me fizeram a mim. Seria dar-lhes a vitória, e eu não quero que eles ganhem.

4 de fevereiro de 2022

Budapeste (parte III).


    O Castelo de Buda pode levar-nos ao engano pela designação. Não se trata de um verdadeiro castelo. Na verdade, é um palácio, que tão-pouco visitamos como tal. Alberga dois museus de Budapeste: o museu de belas-artes e o museu de história. Nas imediações, encontramos o Bairro do Castelo de Buda, que junto a este, às margens do Danúbio e à Avenida Andrássy, são Património da Humanidade pela UNESCO desde 1987. É precisamente neste bairro do castelo que se situa a Igreja de Matias, de estilo neogótico, que vale a pena visitar, e o Bastião dos Pescadores, onde encontrarão um miradouro magnífico sobre a cidade. Relembro-lhes apenas que todos os monumentos em Budapeste, incluindo a maioria das igrejas e catedrais de relevo, são de visita paga. Decidimos visitar o Museu de História de Budapeste, dar um passeio pelo entorno, pela igreja e pelo bastião, naturalmente. Para subir ao castelo, poderão fazê-lo a pé (um pouco custoso), ou através de um funicular, que estava em manutenção no dia da nossa visita.


As vistas desde o Monte Gellért


   Entretanto, antes disso subimos ao Monte Gellért para poder desfrutar de umas vistas privilegiadas sobre Peste (que fica na outra margem do Danúbio). Esta subida sim pode custar-lhes um pouco, como nos custou a nós. Felizmente vamo-nos podendo sentar nuns bancos providencialmente instalados ao longo da encosta.


O Bastião dos Pescadores


   Pela noite, recomendo-lhes uma passagem por uma das cafetarias (dizem os entendidos) mais bonitas do mundo. Chama-se New York Cafe, e realmente tem uma decoração prodigiosa para a sua finalidade. Os preços, claro, são impraticáveis. A cidade não é mais barata, como se julga quando imaginamos que vamos recheados de euros a trocar por florins. A facilidade com que o dinheiro húngaro nos desaparece das mãos é impressionante. As taxas de câmbio também nos prejudicam, e nós levámos florins de Espanha (fizemos o câmbio aqui). Não chegou, claro. 


Deixa-nos sem palavras


  Antes de regressar ao hotel, fomos ver o parlamento de noite. Budapeste é conhecida pela sua luminosidade nocturna.


A cúpula do Castelo de Buda

Todas as fotos foram captadas por mim. Uso sob autorização.

3 de fevereiro de 2022

Budapeste (parte II).


   A Sinagoga de Dohány fica no bairro judeu. São outros dois locais que merecem uma visita atenta e demorada. No caso da sinagoga, é muito especial. É a segunda maior sinagoga do mundo e a maior da Europa. Como referi, situa-se no bairro judeu, que ainda hoje preserva as marcas dos bombardeamentos durante a invasão da Hungria, em 1944. Esta sinagoga reúne traços curiosos na sua arquitectura, daí que desperte o interesse de judeus oriundos de várias partes do mundo. Não é uma sinagoga comum. Tem características das igrejas católicas e uma forte inspiração andaluza. Damo-nos conta dessas influências só ao observá-la. Em todo o caso, se optarem pela visita guiada, como nós (há-as em vários idiomas durante todo o dia), dir-lhes-ão isto e muito mais.


Budapeste ainda tem os caricatos trolleys, que eu me recordo de ver no Porto, nos idos anos 90


   Outro dado interessante é que no terreno da sinagoga estão sepultados, em valas comuns, corpos de vítimas do nazismo. Nenhuma sinagoga encerra em si sepultamentos, à excepção desta, que esteve prestes a ser destruída pelos nazis. Não o foi, mas viu-se fortemente afectada na sua estrutura durante os bombardeamentos. Alguns dos corpos foram identificados, outros nem tanto. Nos seus jardins encontrarão ainda um memorial às vítimas dos alemães, incluindo do corpo diplomático. Constam nomes portugueses e espanhóis.


A Ponte da Liberdade, da que muitos húngaros ainda não gozam, infelizmente


   À tarde, seguimos no nosso passeio pela cidade. Passámos pela Basílica de Santo Estêvão, pela Ponte da Liberdade e pelo mercado da cidade. Não são locais de interesse que estejam perto entre si, mas o percurso faz-se a pé, para quem goste de caminhar, ou então poderão optar pelo transporte público de Budapeste, que como lhes disse na publicação anterior, é rápido e eficaz. Num país com um nível de vida (ainda) inferior ao português, e que portanto julgamos com menos meios, estão dotados de bons autocarros e de um metro que funciona muito bem. Budapeste é, assim me pareceu, uma cidade que, sendo capital de Estado, não é excessivamente grande. Percorremo-la bem.


Uma praça com elementos que imediatamente nos reportam à arte do leste europeu 


   Começando a anoitecer, passámos pelas imediações do Castelo Vajdahunyad, que fica logo atrás de uma das praças mais emblemáticas da cidade, a Praça dos Heróis (Hösök tere, em húngaro). É um espaço lindíssimo decorado com estátuas dos monarcas húngaros.

Todas as fotos foram captadas por mim. Uso sob permissão.

1 de fevereiro de 2022

Budapeste (parte I).


    Partimos de Barajas às 7h da manhã, aterrámos em Ferenc Liszt pelas 10h e pouco. O aeroporto húngaro foi assim rebaptizado em homenagem ao famoso compositor Franz Liszt, húngaro, personalidade destacada no país dos magyares.

  A capital húngara está extraordinariamente bem servida de transportes públicos, quer autocarros, eléctricos, trolleys ou inclusive o metro. Apanhámos o autocarro que faz o trajecto entre o aeroporto e o centro da cidade (não convém utilizar os táxis; podem cobrar valores abusivos - nada que não suceda em Lisboa aos turistas, e às vezes até a quem não o é...). Demorou cerca de meia hora. Não fomos imediatamente fazer o check-in. Quisemos explorar a cidade, levávamos apenas umas mochilas (pouco peso, portanto) e havíamos comprado os bilhetes para uma visita guiada ao parlamento húngaro -o que muitos que visitam a cidade desconhecem, que há que comprar os bilhetes antecipadamente pela internet- às 13h e pouco.


As vistas desde Buda a Peste (sim, eram duas cidades) são um espanto


  O parlamento húngaro é um verdadeiro encanto, quer exteriormente, quer no seu interior. A visita guiada está mais do que justificada, de resto porque é a única forma de podermos lá entrar. É o segundo maior parlamento do mundo, data do século XIX, foi construído no estilo barroco com influências neogóticas e é o edifício mais emblemático de Budapeste. Um conselho: se quiserem ter uma visão panorâmica do parlamento, saiam na estação de metro Batthyány tér (todavia, se quiserem visitar o parlamento, terão de sair na estação Kossuth tér). Ambas pertencem à linha M2 (a vermelha).


É tão sumptuoso


   No mesmo dia, ou seja, o primeiro (chegámos bastante cedo), aproveitámos para ver a Ponte das Cadeias, que está neste momento em obras, e passear na baixa comercial da cidade, conhecida como Váci Utca. Fizemos o percurso a pé desde o parlamento até esta zona. Pelo meio, visitámos o célebre memorial às margens do Danúbio, conhecido por Sapatos do Danúbio, onde jazem sapatos de metal homenageando as vítimas judias do Holocausto, gente que, aquando da ocupação da Hungria pela Alemanha, em 1944, já na fase final da II Guerra Mundial, foi executada e atirada ao rio, sendo que os seus sapatos ficaram na margem. 


Nalguns sapatos, vemos velas, flores e inclusive pequenos escritos


    Anoitecendo cedo e antes de nos recolhermos ao hotel, porque estávamos cansados, jantámos comida tradicional húngara e terminámos a desfrutar de um bom chocolate quente (vão agasalhados que a cidade é fria no Inverno!) numa cafetaria histórica, ali mesmo na zona comercial, chamada Gerbeaud.

Todas as fotos foram captadas por mim. Uso sob autorização.

31 de janeiro de 2022

O acto eleitoral.


   Ainda meio de ressaca da viagem de regresso, acompanhei o acto eleitoral de ontem. Foi uma noite longa, surpreendente, que alterou a estrutura da nossa composição parlamentar como há muito não se via. Se nas eleições de 2019 tivemos a entrada no parlamento de novas forças políticas, como o Livre, o CHEGA e a Iniciativa Liberal, agora duas delas cresceram exponencialmente em número de mandatos. Passaram de 1 a 12 e a 6, respectivamente. A extrema-direita coloca-se como terceira força política, num país que até há poucos anos era dos dois únicos na Europa sem esta corrente nos seus parlamentos. Faço minhas as palavras que escutei ontem em Daniel Oliveira: num país com 50 anos de ditadura de direita conservadora e colonialista, de certa forma até era estranho que essa parcela da população que acalenta um regresso àqueles tempos não tivesse representação parlamentar, porque sempre existiu. Acrescento eu que não tinham um líder, e agora têm-no.

    Bloco de Esquerda e PCP + PEV (CDU) sofreram os reveses do voto útil no PS para afastar o papão da direita (uma incógnita, efectivamente, sem se saber como se comportaria o PSD com a IL), e muito para isso ajudaram as sondagens com os empates técnicos entre os dois partidos do centrão. As pessoas mobilizaram-se como há muito não o faziam, e o decréscimo na abstenção isso o indica, sabendo que tudo estava em aberto e que seguramente que o seu voto contaria.

  Jamais imaginei que António Costa conseguisse a tão acalentada maioria absoluta, visto que insistentemente a pedia. Julguei até que teria um efeito contraproducente, porém, a dita incerteza que a comunicação social com tanta eficácia propagou levou a que o eleitorado se decidisse pelo seguro, e agora o PS tem quatro anos pela frente de governo blindado politicamente, com um controlo político da Assembleia da República mitigado (nas maiorias absolutas, o governo quer, o parlamento faz) e um Presidente da República que sai enfraquecido no que lhe resta deste segundo mandato. Veremos como será a coabitação entre estes dois órgãos de soberania em consonância (Governo e Assembleia da República) + Presidência da República.

     O PSD perde em toda a linha, que um partido com aspirações de governo que não consegue o poder após tantos anos de desgaste do seu adversário só pode encarar este resultado como uma derrota. Cada um julgará se a derrota se personaliza no seu líder, no posicionamento do partido na forma como se apresentou ao eleitorado ou no mérito do PS. Quanto a mim, o povo apercebeu-se de que nada mais poderia ser exigido a Costa num governo que teve de lidar com uma inesperada pandemia, além de que o país cresceu; pouco, mas cresceu (economicamente falando).

   Outra surpresa foi a não-eleição de qualquer deputado do CDS. O partido vinha em sentido decrescente desde Cristas, pelo menos, e nem sequer o seu cabeça de lista e líder conseguiu eleger. Este resultado desastroso (e não somente mau, como referiu Rodrigues dos Santos no rescaldo) merecerá alguma reflexão, uma vez que o eleitorado do CDS não é o eleitorado do CHEGA, extremista sem consequência, ou do IL, liberal sem preocupações ou consciência sociais. É um eleitorado conservador de direita, mas fundado na doutrina social da Igreja. Um eleitorado que se dispersou pelo CHEGA, pela IL e pelo PSD porque vê o partido numa indefinição. A liderança de RS tão-pouco ajudou. O melhor que podia fazer foi o que fez: apresentar a demissão. Falhou em toda a linha.

    Para concluir a ronda, o Livre elegeu um deputado (também me surpreendeu depois de toda aquela novela com a Joacine) e o PAN por pouco fica fora, o que igualmente me causou certa perplexidade. Lá foi novamente o voto útil para o PS.

   Entre vencedores e derrotados, os portugueses quiseram jogar pelo seguro (ainda que no meu entendimento as maiorias absolutas tenham pouco de seguro), dizendo ao PS que querem um governo estável, de quatro anos, e que siga o caminho que consideram correcto, afinal, trata-se de um respaldo às políticas económicas e sociais de António Costa, que assim pode igualar Cavaco Silva como o dirigente político pós-Abril de 74 que mais tempo governou, num terceiro governo, desta feita de maioria absoluta, insólita e inédita.

30 de janeiro de 2022

Madrid.


    Olá! Voltámos de férias, e irei iniciar hoje uma leva de publicações sobre a nossa semana. Como referi antes, foram curtinhas, é certo, mas bem aproveitadas. Geralmente, faço um roteiro dos locais a conhecer (no Verão, como são férias de praia, por vezes não o faço). Esse roteiro envolve a pesquisa de sítios na internet, publicações de quem já viajou para os mesmos destinos, páginas oficiais de turismo etc. Tudo o que considerar pertinente.


A enorme e agitada Gran Vía


    Madrid, neste caso, não surgiu no plano de férias deliberadamente, antes sim porque necessitámos passar por lá para voar até... Budapeste. Sim, foi esse o nosso destino final, a capital da Hungria, uma das cidades mais belas e visitadas da Europa. Não havendo vôos desde a Galiza, tivemos de ir à capital do Estado, o que de certa forma foi bom para mim, que não conhecia a capital do segundo Estado com o qual tenho um vínculo jurídico.


O Palácio Real, que o Rei não habita pelas suas dimensões


    Estamos a duas horas de Madrid, e agora temos a vantagem do comboio de alta velocidade que liga Ourense, a capital da nossa província, a Madrid em menos de nada. Chegámos no dia 23 pelas 14h, sensivelmente. Madrid é uma das maiores cidades da Europa. Salvo erro, a terceira maior da União Europeia. Conhecê-la numa dia -melhor dizendo, numa tarde!- é impossível. Procurámos visitar os locais mais emblemáticos, inclusive porque teríamos um vôo no dia seguinte às 7h. Para estarmos no aeroporto com duas horas de antecendência, tivemos de nos levantar pelas quatro. Uma tarde em Madrid, no Inverno (ou seja, a anoitecendo cedo) e tendo de madrugar. O que fazer, então?


Pareceu-me uma ideia genial. No Campo Grande, em Lisboa, tentaram o mesmo


     Felizmente, estava uma tarde soalheira. Começámos pela emblemática Gran Vía, talvez a avenida mais famosa da capital espanhola. Descemo-la e fomos dar com o Palácio Real. Antes disso, importa referir, passámos pela Porta do Sol, também ela incontornável. A próxima paragem foi a Porta de Toledo e, por insistência minha, o encantador Parque do Retiro. O bom de Madrid é que, ao contrário de Lisboa, tem um metro cuja cobertura abarca toda a cidade, e funciona bem, muito bem. Não podemos comparar a importância geoestratégica de cada cidade, o seu peso demográfico e as suas superfícies territoriais, mas verão, mais tarde, o que me pareceu o metro de Budapeste. No Retiro, quis muito percorrer o lago num barquinho, um programa que me pareceu romântico, mas o M. não sabe nadar e tem verdadeiro pavor de se afogar!


La Gran Vía por la noche

     Madrid está perto, relativamente, e havemos de voltar (ficaram por visitar o Prado e o Reína Sofía, nomeadamente...). Foi uma passagem curta, por condicionamentos da viagem, que todavia me permitiu ter um panorama da cidade, e adorei-a. Adorei Madrid, do pouco que vi. Adorei a liberdade das suas gentes, liberdade social, sexual. Madrid tem uma atmosfera vívida e brilhante, e essa liberdade reflecte-se no comportamento das pessoas. Uma cidade totalmente gay-friendly, que me reportou ao que encontrámos nas Canárias. A voltar muito em breve.


Todas as fotos foram captadas por mim, e o seu uso se dará com a devida autorização.

23 de janeiro de 2022

Walking Dead.


   Ontem, o M. esteve de plantão, uma vez mais. Partimos hoje para o nosso destino, algures pela Europa, mas antes disso proporcionou-se terminar o último episódio (disponível, o 8º) da 11ª temporada de Walking Dead, e derradeira, segundo informações dos directores da série. Terá 24 capítulos. O próximo, o 9º, será já no final de Fevereiro.

   Há tempo que o M. me falava da série. Eu, como não sou chegado a monstros, zombies, demasiada ficção científica, adiava a proposta. Entretanto, como me acostumei a ver séries desde que vivo em Espanha e gosto de ter algo que acompanhar à noite, quiçá pela cultura a que todos fomos sujeitos de pequenos ao formato novela, experimentei a série dos caminhantes. Pareceu-me ainda suficientemente longa para me entreter por umas semanas, e foi o que sucedeu.

   Adorei-a, como tive oportunidade de dizer a um blogger que há dias comentou se ainda valia a pena ver Walking Dead. Digo-lhes desde já que sim. Há temporadas mais chatinhas, se este é o termo certo, embora mereça que a acompanhemos até ao fim. Evidentemente que também depende dos gostos de cada um. Eu julguei que os zombies não me prenderiam, e afinal...

   Walking Dead tem uma estória. Não é ficção e efeitos (a caracterização dos mortos-vivos é excelente) sem um conteúdo apelativo. Aquelas pessoas, que sobrevivem a um vírus que nos transforma em zombies, procuram sobreviver e estabelecer a ordem possível entre o caos. Imaginemos o fim da civilização. Das leis, de tudo o que conhecemos. É um retorno ao estado selvagem, ao estado natural, em que cada um procura chegar ao dia seguinte como pode, rodeado, e aí está diferença face ao que nos sucedeu há milhares de anos, de mortos que agem movidos apenas pelo instinto de devorar. Não se pense que há uma quebra total dos vínculos de solidariedade, amizade e companheirismo que nos caracterizam, aos humanos. Pelo contrário, em Walking Dead vemos como aquelas pessoas passam de cidadãos comuns a verdadeiros guerreiros, mantendo os sentimentos próprios da nossa espécie.

    Eu mal posso esperar por ver os desenvolvimentos do que ficou pendente. Ainda ontem, terminando a WD, subscrevi a Disney +, que contém a Lost, que comecei a ver, e todos os clássicos de animação da Disney. Uma maravilha, portanto. Ah, antes de terminar, a Walking Dead, pelo menos em Espanha, está disponível na Netflix, que tenho, e na HBO, que também tenho, todavia, apenas até à 10ª. A 11ª, li que está na Disney +, se bem que eu a tirei da net.

22 de janeiro de 2022

Férias.


   Não serão muito longas, mas darão para que o M. possa descansar uns dias e conhecer lugares novos, e eu também, que sou do campo agora, mas feliz. Embora tenha lido por aí opiniões bastante preconceituosas e inclusive ofensivas sobre o campo e as suas gentes, viver aqui é bestial. O sossego, a tranquilidade, o carinho das pessoas, a ausência de stress, de poluição... Sou lisboeta, e admito que a transição demorou, no entanto, hoje em dia estou plenamente integrado e já comentei com o M. que, um dia que daqui nos ausentemos, não quererei ficar longe do campo. A meio termo entre o rural e a cidade. Aqui, inclusive, e são esses os nossos planos, podemos ter uma quinta com animais, árvores de fruto, roseiras... Não é por acaso que vários estudos indicam que há uma tendência crescente para que as pessoas deixem as cidades, onde a qualidade de vida diminui dia após dia, e escolham o campo. Alguém de bom senso trocaria uma propriedade no campo por um apartamento minúsculo na periferia ou na cidade?

  De igual modo, tenho lido comentários sobre mim que roçam quase a injúria e a difamação. Surpreendem-me vindos de pessoas com quem mantive uma relação de amizade por anos. Atrás de um computador, há quem julgue que tudo pode, e sobreponha ao respeito que o outro merece, quando mais não seja em honra de bons momentos que se viveram, a liberdade que não tem de ofender.

   Entretanto, como me tem vindo a ser dito por gente próxima, no meu momento actual, em que nunca me senti tão bem e realizado, deixar que comentários que tudo quando visam é perturbar-me o consigam seria no mínimo irresponsável. Não posso perder tempo e energias com isso, daí que tenha decidido, definitivamente, enterrar todos os machados de guerra. Quanto a mim, está feito. Não poderei retomar qualquer tipo de relação com quem me procurou destratar tanto, em todo o caso, passo uma borracha, como se diz, e sigo em frente.

    Até ao meu regresso!

19 de janeiro de 2022

Da Inveja.


   Suponho que no ano passado terei escrito uma publicação semelhante, quiçá mais concisa. Agora que penso nisso, creio que publiquei uma única frase: “nunca o invejoso medrou nem quem ao pé dele morou”. Medrar, e em galego inclusive, significa crescer. Há pouco, a propósito do atavismo português, comentei que uma das causas que me parecem justificar o atraso estrutural de Portugal no contexto europeu é a cultural, de que pouco se fala, mas que explica muito. À inércia e ao comodismo, junta-se a inveja, um dos verdadeiros males que impedem que cada um faça por si deixando de olhar para os outros, para o seu êxito, ou ainda alimentando-se dos seus fracassos.

    O traço da pessoa cronicamente invejosa é fácil de determinar. Regra geral, a pessoa invejosa é mal-sucedida. Os planos frustraram-se-lhe a determinado momento da vida, em razão do avançar da idade ou da incapacidade de melhorar, provocando-lhe uma amargura permanente que se reflecte, por exemplo, na maledicência. A pessoa invejosa diz mal de tudo e de todos, queixa-se permanentemente, procura bodes expiatórios para os seus problemas e os conjunturais, lança boatos, propaga mentiras.

   A pessoa invejosa é, sobretudo, solitária, e a sua solidão advém-lhe da incapacidade de partilhar a alegria com os sucessos de outrem. Não significa isto que a pessoa invejosa não tenha a necessidade de manter relações com os demais, mas essas relações não perduram no tempo, são frágeis, instáveis, o que a leva constantemente a estabelecer outros vínculos, efémeros, pontuais.

    Depois, a pessoa invejosa pode ou não ser cobarde. Geralmente, é-o. Faltam-lhe vários atributos para poder progredir, ou tão-somente para poder provocar um verdadeiro dano a alguém. Resigna-se na sua condição, e fermenta, ano após ano, ao estar fatalmente sozinha, todas as características más que reúne em si.

  Não as devemos temer, nem dar-lhes importância excessiva. Devemos mantê-las à parte, cautelosamente afastadas, onde devem estar, e jamais deixarmo-nos influenciar pelo que dizem ou fazem. Ao invés, a compaixão, porque finalmente são pessoas que sofrem, ainda que o procurem dissimular, deve ser o sentimento presente quando a elas nos referimos ou quando com elas tratamos.

15 de janeiro de 2022

Novo projecto.


   Hoje venho-lhes falar de um novo projecto que assumi no início deste ano, um canal de Youtube. Há vários anos que já queria ter criado um vlog, mas entretanto fui adiando e adiando, em parte por vários motivos: não me sentir preparado para a exposição, não saber muito bem que que tipo de conteúdos publicar e, por último, não ser muito chegado à edição de vídeos (ou nada chegado). Vencendo os obstáculos iniciais, que tudo se vai aprendendo com o tempo e a experiência, finalmente avancei. 

    Naturalmente, o canal espelha o que sou e o que penso. Abordo, sobretudo, temas sérios, ou seja, não é um canal de humor como tantos que há. Será uma versão audiovisual deste blogue.

  Se me quiserem acompanhar, o canal chama-se Em Casa de Ferreira (podem clicar em cima), um trocadilho desinspirado no ditado “em casa de ferreiro, espeto de pau”, e deixo-lhes aqui o meu último vídeo, uma breve análise sobre os debates das eleições legislativas.





13 de janeiro de 2022

O porquê do voto à esquerda.


     Comecei há dois dias a ver os debates para as legislativas. Não vi todos, vi os principais, quase todos. O meu sentido de voto está determinado, refiro-me ao espectro político, com algumas dúvidas relativamente a quem o entregar especificamente. A direita mostra-se cada vez mais contra o cidadão comum, com propostas que considerei, em alguns casos, inacreditáveis. Dou-lhes um exemplo: em 2019, que caiu agora misteriosamente, a Iniciativa Liberal defendia que os estudantes ficassem a pagar os seus estudos por um período de trinta anos, endividando-se para tal. Imagine-se o que seria juntar à precariedade, aos baixos salários, às prestações elevadíssimas na aquisição de casa própria ainda mais um encargo. O CDS e o CHEGA têm uma agenda parecida quanto àquilo que consideram ser a ideologia de género, que tanta falta faz, e há tantos anos, num país com índices terríveis de violência doméstica e onde a ainda parca aceitação de outras realidades sexuais está circunscrita ao chavão “que o sejam, mas que não o pareçam”. O PSD, por seu turno, junto à IL, propõem uma agenda de privatizações que vende o país ao desbarato, e pareceu-me que estava na feira da vila quando ouvi Rio e Cotrim de Figueiredo a debater. Em suma, a direita oferece-nos mais desigualdade, mais ataques às pessoas desfavorecidas, mais favorecimento do patronato, dos grandes empresários, isto é, da grande burguesia.

    O voto na esquerda, em quem não nasceu num berço de ouro, vive em permanente instabilidade laboral e com baixos recursos, é-me o lógico. Não se trata do meu caso, felizmente, que tenho um marido que aufere mais mensalmente do que cinco chefes de família, todos com bons salários. É médico, estudou para isso. Entretanto, ver gente que preenche as categorias que enunciei acima -trabalhadores a recibos verdes, a viver na periferia, com o salário mínimo e alguns já com certa idade- a defender o voto na direita, e mais, a fazer propaganda por quem jamais lutaria pelos seus direitos, parece-me uma tolice, uma profunda falta de noção da realidade e um convite ao aprofundar das injustiças sociais. Claro está que o voto de cada um me merece respeito, é livre, como eu o sou de manifestar a minha perplexidade.

    A direita responsável, ainda que com uma agenda neoliberal, tem lugar numa democracia plural. Todas as composições xenófobas, racistas, sexistas, extremistas, não me merecem qualquer consideração, porque além do vazio de ideias, alimentam-se de semear o ódio e a divisão entre a população. Como LGBT, seria um voto contra mim próprio, um voto em quem não hesitaria a desconsiderar-me e à família que construí, porque há ideias extremamente perigosas nalguma dessa direita. Congratulo-me com o muro sanitário que vários dos partidos que agora concorrem às eleições levantam à direita extremista. 

     Precisamos de solidariedade, de subir o salário médio, de subir o salário mínimo nacional, as pensões em alguns casos de montantes baixíssimos, de criar políticas responsáveis para estimular a compra de casa, ou o arrendamento, com rendas acessíveis. De diminuir o valor das propinas no ensino superior, de diminuir o período experimental nos empregos, de reforçar o Serviço Nacional de Saúde, mantendo-o público, dotando-o de mais meios humanos e técnicos. De aumentar os impostos aos que mais poluem e aos mais ricos. Como se diz aqui, yo lo tengo muy claro.

4 de janeiro de 2022

A vacinação.


    Encarei a vacinação contra a COVID, inicialmente, com cepticismo, não porque negasse a doença ou desconfiasse da eficácia da vacina, senão por temer os seus efeitos secundários. Quando me preparava para receber a primeira dose, algures em meados do ano passado, quando começou a campanha de vacinação da população, soube-se daquelas mortes em quem recebeu a vacina da AstraZeneca. Estava o caldo entornado. Fui medricas e avisei logo o M., que é médico, que preferiria esperar por uma ocasião mais adequada, quando realmente me sentisse preparado.

    As vacinas, como de resto qualquer medicamento ou tratamento médico, dizem respeito a cada um. Num momento em que se discute o direito de cada qual de escolher quando a sua vida deve terminar, quando temos em vigor o testamento vital que estabelece quais os tratamentos que serão ou não administrados segundo a vontade de quem o firmou; quando, no fundo, e é disso que se trata, cada vez mais entendemos que o corpo e a saúde estão na disponibilidade de cada pessoa, parece-me incoerente que tenhamos outra medida com as vacinas, sobretudo porque não evitam a infecção; diminuem os seus efeitos. É do interesse individual, que se repercute no colectivo, claro está, a toma da vacina. Depois podemos discutir se quem se decidiu pela não vacinação deve pagar os seus tratamentos, e é uma discussão que não considero de todo infundada, mas que foge ao propósito desta publicação.

   Vacinei-me, não mentirei, também para poder viajar. No Verão, no Algarve, tive uma experiência desagradável ao não estar vacinado, e a preocupação com as sequelas de uma possível infecção, tudo junto, mais a garantia de que as vacinas agora são totalmente seguras, levou a que me decidisse vacinar no final de Novembro, a primeira dose, e a segunda no final do mês passado. Estou totalmente imunizado, uma vez que a terceira dose reforça a imunidade após seis meses da administração da segunda.

     No período em que estamos, deixei de entender os receios de uma parte da população, ínfima, quanto à vacina. As teorias da conspiração mais as fakes news fazem parte de uma campanha de ignorância que pretende descredibilizar a ciência. Milhões e milhões de doses foram administradas em todo o mundo, doentes crónicos, pessoas acamadas, até crianças já se vacinaram, entretanto. Não é medo, não é precaução. É incúria e cobardia. É excesso de redes sociais também. Quero acreditar que há vinte anos a vacinação não geraria tanta celeuma.

     Se não estão vacinados, vacinem-se. Não custa nada, e se tiverem sorte nem dor de braço terão, como eu.