10 de novembro de 2019

O galego e o português são a mesma língua?


   Na terça-feira, dia 5, participei de uma palestra na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) da Universidade Nova de Lisboa. Em rigor, tratou-se da apresentação de um novo livro do linguista português Marco Neves, O galego e o português são a mesma língua?, um excelente pretexto para juntar um grupo simpático a discutir a situação sócio-linguística actual da Galiza, que como se sabe é delicada. Moderada por Gabriel André (se é que se pode falar de moderação), galego, contou com as intervenções de Carlos Calhão, também galego, conhecido nos circuitos reintegracionistas, além do autor do livro.

  Eu, à semelhança dos restantes presentes, pude intervir, e fi-lo sobretudo porque não consigo dissociar a questão linguística da política. Pedi licença e introduzi esse elemento, dando uma achega acerca daquele que me parece ser o caminho único possível à Galiza para escapar à aniquilação total da sua cultura e língua: a independência e a emancipação em relação a Madrid.

   Engoli em seco quando Calhão referiu, a determinado momento, que em pequeno comentava à irmã: "Vamos a hablar bien". Na sua cidade, o galego era falado pela totalidade da população. No presente momento, já não o é nas camadas mais jovens. Recentemente, o governo autonómico promoveu a substituição do galego pelo castelhano num desenho-animado dirigido às crianças de mais tenra idade. Qual o objectivo? Parece claro: gradualmente, homogeneizar linguisticamente a Galiza, assimilando-a através de um dos poucos instrumentos que a distinguem de Leão, Castela e das demais regiões da Espanha castelhana: o galego. Remetendo o idioma autóctone a um papel secundário, associando-o à velhice, à exclusão, à ruralidade, incute nos jovens a vergonha pelo seu falar. Não surpreende, no processo, que Calhão tenha crescido com esse preconceito.

   Achei por bem apontar culpas ainda à Xunta da Galicia e à Real Academia Galega, que acabam por compactuar com o governo central: a primeira, com medidas que visam a substituição progressiva do galego; a segunda, procurando aproximar o mais possível o galego da ortografia castelhana e afastando-o, simultaneamente, do português, idioma que deveria ser a verdadeira referência para qualquer norma oficial do galego.


Foto da palestra / apresentação. Sou o rapaz do meio, na primeira fila

   Na Galiza, como Calhão relatou, anos após a transición e já no quadro constitucional actual, escritores foram perseguidos, porque o reintegracionismo, e dentro dele o lusismo, é perigoso. Despertar uma consciência nacional na Galiza já seria terrível para o Estado espanhol; ancorá-la em Portugal, pior ainda.
   A perseguição a quem fala galego não terminou com o fim do franquismo, regime no qual usar qualquer das línguas minoritárias espanholas equivalia a ser preso, torturado, condenado sem garantias de um julgamento justo e equitativo. Livros eram queimados. Um verdadeiro Index, meras décadas atrás. A realidade mudou apenas na aparência e nos métodos. O preconceito e a perseguição continuam lá, porém, assumindo "vestes mais decentes". Calhão, nos inúmeros processos judiciais em que foi parte, teve de pedir vezes sem conta para que o intimassem em galego, que a prática judicial na Galiza é de o fazer em castelhano.

  A realidade galega é-nos próxima geograficamente e distante socialmente. Por lá, há quem lute para poder estudar no seu idioma materno, para poder educar os seus filhos no seu idioma materno, para poder receber informação no seu idioma materno ou aceder a serviços no seu idioma materno. Escrevi "idioma materno" quatro vezes. Não o fiz por acaso. A luta dos galegos pode ser política, mas muitas vezes é-o apenas no domínio do idioma. Estaria tentado a dizer que muitos tão-pouco se importariam de permanecer no Estado espanhol se houvesse garantias reais de protecção do galego, de estímulo ao seu uso pela população. Acontece que o idioma, que é uma arma dos galegos contra o Estado central, também tem sido uma arma de Madrid contra os povos de Espanha. Através do castelhano, procedeu-se a uma política linguicida, uniformizadora.

   Esta luta galega não nos deve ser indiferente. Nós, portugueses, aprendemos a reagir contra Espanha e a negar tudo o que venha de lá. Compreensivelmente. A nossa identidade nacional foi contruída por oposição àquela realidade política. Entretanto, não nos podemos esquecer de que num recanto do que hoje é parte do Estado espanhol nasceu a língua portuguesa, na antiga Gallaecia, que englobava o norte. Virar costas à Galiza será o mesmo que cometer matricídio.

   Felizmente, para nosso bem, tímidos passos vão sendo dados no sentido de uma cada vez maior aproximação entre galegos e portugueses. Da mesma forma que o preconceito e a perseguição não terminaram, apenas se refinaram, também hoje dispomos de meios humanos e tecnológicos que nos permitem trocar ideias e informações. Que nos permitem o que ali se fez naquela sala: conversar, questionar, estimular. Permitir que todos formem uma opinião fundamentada sobre o reintegracionismo, apoiando-o ou rejeitando-o. Galegos e portugueses, nos seus dialectos, com os seus sotaques. Num mesmo idioma. Com um mesmo propósito.

8 de novembro de 2019

A Rainy Day in New York.


   As perguntas que se impõem são as seguintes: como é que um filme ambientado numa Nova Iorque chuvosa e romântica pode desapontar? Como é que uma suite luxuosa com vista sobre Central Park, uma bebida num piano-bar ou um passeio de charrete nos podem aborrecer? Woody Allen foi matreiro, pois jogou com os nossos sentimentos mais primários: a necessidade de amar e ser amados, e soube fazê-lo bem, com um argumento que eu diria, vá, leve, que deixa que os actores possam brilhar sem os esmagar com preocupações excessivas. É uma narrativa pensada para extrair os olhares, as poses, os sorrisos, os estados d'alma. Um filme que se detém nas personagens, em detrimento da densidade do argumento, e personagens todas elas muito jovens, acompanhando as idades dos actores. Entretanto, Allen explora os problemas de afirmação num mundo hermético e elitista como o é aquele da família de Gatsby, com um toque de paixão e erotismo na introdução de uma figura mundana (e profana…): a prostituta, que transpira sensualidade.





  A par da fotografia e dos pormenores da iluminação, que o tornam quase nostálgico e antigo, sofisticado, e complementam o tom romântico, quanto às interpretações tenho alguns reparos a fazer: Timothée Chalamet é um promissor actor da sua geração, mas eu, no seu lugar, tenderia a fugir dos papéis de menino de classe alta, meio dandy, uma vez que é um registo no qual ele vem reincidindo, e isso pode amolgar a sua versatilidade. Vemo-lo como Henrique V no novo filme da Netflix, The King, o que é bom. Elle Fanning sobrepôs "adequadamente" à sua beleza cândida e infantil aquela máscara de loira despistada e até espalhafatosa. Selena Gomez pareceu-me artificial e pouco à vontade.

   Acima de tudo, e sabendo que este filme não agradará a quem espera muito mais de Woody Allen, o realizador quis tão-somente ambientar outro dos seus filmes na amada Nova Iorque, escolhendo desta vez os amores inconsequentes e irreflectidos daquela idade em que já não se é adolescente e nem bem adulto. A cidade que nunca dorme e as comédias românticas não são uma novidade em si. Claro está que não é uma obra-prima, mas é um filme engraçado, que se vê bem sobretudo acompanhado e, se possível, com a cabeça recostada num ombro.

6 de novembro de 2019

Cem anos de Sophia (1919-2004)



Pudesse eu não ter laços 
nem limites

Ó vida de mil faces 
transbordantes

Para poder responder 
aos teus convites

Suspensos na surpresa 
dos instantes.



in Poesia (1944)


   Por tudo aquilo que o seu labor poético trouxe a Portugal, particularmente na nossa história recente, política e literária, Sophia é um dos poucos nomes inigualáveis e incontornáveis. O mar, sempre presente na sua poesia, simbolizava a liberdade, a sua e a dos portugueses; a liberdade em que acreditava e pela qual se bateu sempre.

5 de novembro de 2019

Não sei se não será uma bênção para todos nós.


  Joacine Katar Moreira protagonizou, com outros actores da vida política, uma mudança na casa da nossa democracia. O parlamento tem mais partidos, mais sensibilidades, e tem pela primeira vez uma deputada portadora de uma deficiência que a tornou conhecida. Joacine sofre de uma perturbação da fluência, vulgo gaguez, numa forma particularmente grave que a prejudica sobremodo na expressão oral, na capacidade de se comunicar e fazer entender. Eu pude ouvir a sua primeira intervenção no parlamento, e aquele momento foi doloroso de se assistir.

   Se a deputada se vale do seu problema para se fazer eleger,  não sei. Não tivemos parlamentares que fizeram campanha com a família? Nos EUA, é comuníssimo que os políticos e o eleitorado se valham de características pessoais, profissionais, familiares na vida pública e política. Se foi a estratégia de Joacine, os meus parabéns. Conseguiu-o. O que mais me incomoda nesta senhora nada tem a ver com a sua gaguez, a sua alegada vitimização, os proveitos que tira dela ou, eventualmente, como vem sendo acusada, de exagerar, ou seja, de representar, de tornar o seu "problema de expressão" pior do que ele é. O que me incomoda é o seu discurso perigoso, extremista, manipulador. Historiadora de formação, Joacine sabe bem que a História não tem uma única face. Tem várias. Sabe bem que o que nos deve importar é o rigor científico. E sabe também que não devemos ser juízes de um passado que não vivemos. 

  Joacine, que tanto clama contra a campanha de ódio dirigida a si, é ela própria um agente de propagação de ódio ao querer criar uma cisão na sociedade portuguesa entre aqueles que ela considera os bons, os seus, as tais minorias, e os maus, os homens brancos, masculinos, que ela atira para um mesmo saco. Quem não está com ela, é contra ela. Não, eu não quero que Joacine ponha o seu lugar à disposição. Eu sei que quando não quero ler uma notícia, não a leio. Quando não quero ouvir alguém na televisão, mudo de canal. Quando não quero ser confrontado com determinado conteúdo nas redes sociais, bloqueio. 

  Joacine é mais do que uma deputada. É a porta-voz de uma ideologia e um programa político claro: diabolizar os portugueses, Portugal, a nossa história, o nosso passado. Vai fazer questão de nos lembrar permanentemente de quem fomos, do que fizemos, procurando talvez que nos penitenciemos. Será quase uma inquisidora, de instrumento de tortura nas mãos, neste caso as redes sociais, sempre disposta a acusar e atacar. Os problemas dos portugueses e do país não lhe importam. Importam-lhe, qual segregacionista, os problemas das minorias que protege e às quais dá cobertura. Nesse sentido, não sei se a sua gaguez não será uma bênção para todos nós.

3 de novembro de 2019

The Death and Life of John F. Donovan.


  No Halloween, decidi ir ver The Death and Life of John F. Dorovan, um melodrama insosso. No meu entendimento, a mais-valia deste filme está nos nomes femininos que o acompanham, o mesmo que dizer Natalie Portman, Susan Sarandon e Kathy Bates, porque a narrativa é desinspirada, mesmo recorrendo à nossa tendência para nos deixarmos encantar pelas peripécias de uma doce e carismática criança vítima de bullying, que aspira a ser actor e que se começa a corresponder com um promissor talento da representação, porém, envolto na depressão e no consumo de drogas. O meio em que se movimentava pode ser duro com quem vive de ser galã, e não raras vezes o armário é tão apertado que começa a sufocar quem nele se refugia. Foi o que aconteceu com o ficcionado John F. Dorovan.

  A banda-sonora também me pareceu bastante despropositada e incoerente, porque não é contemporânea à narrativa, que se passa em 2006. Rolling in the Deep é de 2010/11 e Bitter Sweet Symphony, dos The Verve, é de 1997.




  Faltou consistência e expressividade a Kit Harington. Veracidade, talvez. Aquela personagem, o tal John F. Dorovan, parece desprovida de vontade própria. É que tão-pouco é credível em qualquer uma das suas acções. Do mal o menos, além das interpretações femininas, particularmente de Bates, que protagoniza uma cena que redime esta longa do fiasco total, quando explica os motivos do seu afastamento de Dorovan enquanto agente, o pequeno Jacob Tremblay conseguiu ser mais autêntico e credível do que o actor principal. Vou procurar nem comentar o desempenho de Chris Zylka, de outra forma serei tudo menos simpático.

    Com um toque nitidamente autobiográgico, Xavier Dolan falhou em toda a linha.

31 de outubro de 2019

Parasitas.


   Quiçá estejamos perante o melhor filme de 2019. Esta longa sul-coreana foi a melhor surpresa do ano, após um amigo ma recomendar. Torci o nariz, que a minha experiência com filmes asiáticos não é a melhor. É, acima de tudo, uma majestática sátira à sociedade capitalista da aparência, estratificada, do deslumbramento, com sucessivas referências aos Estados Unidos e ao ocidente através do estilo de vida da classe alta da Coreia do Sul, tão alheio da realidade das populações menos favorecidas, confinadas a guetos superpovoados e insalubres. Atingir um patamar de riqueza e bens materiais, de ostentação, numa sociedade desenvolvida como o é a Coreia do Sul, torna-se numa febre capaz de gerar todo o tipo de actos irreflectidos. O modo engenhoso em que o argumento foi elaborado, com tamanha maestria, não nos faz surpreender a aclamação universal (em Cannes, arrecadou a Palma de Ouro).

  Não menos interessante é perceber que o filme conjuga vários elementos dos filmes mainstream. Tão depressa passa da comédia como ao drama e ao terror. O que parece, à primeira vista, tratar-se de uma história de quatro vigaristas familiares, capazes de todo o tipo de patifarias e esquemas sórdidos, daí o parasitas, revela-se, afinal, um retrato social corajoso e original, totalmente subversivo, capaz de despoletar várias das nossas emoções, da lástima ao riso, à piedade e ao horror, particularmente no seu terrível e inusitado final.




   A vida troca-nos as voltas. É o que ali sucede. Tão depressa estamos rodeados de iguarias raras, desfrutando de luxos, como, num ápice, nos vemos arrastados em ruelas. E para quê fazer planos quando somos confrontados com verdadeiros vendavais que arrastam atrás de si todos os nossos sonhos?
  O cheiro impregnado nas roupas daqueles quatro perdidos, o bêbado que lhes urinava à porta e o próprio cenário de inundação, naquela cave imunda, ajudam a completar o quadro de degradação. A degradação moral aliava-se às más condições em que viviam, e entretanto pouco procuravam fazer para, licitamente, mudar para melhor. Escolheram o caminho mais fácil, sem olhar a meios, sofrendo as devidas consequências. E pesadas que foram.

26 de outubro de 2019

Maleficent - Mistress of Evil.


   No primeiro filme sobre Maléfica, que fui ver quando estreou, em 2014 (e podem ler a crítica aqui), estranhei a benevolência e até mansidão da vilã da Disney, comummente considerada em sondagens como a mais malvada. Aquele argumento não me convenceu minimamente. Neste, já ia preparado para isso. A realização como que procurou justificar a fórmula que utilizou no primeiro filme, dotando-a de desenvolvimentos para que compreendêssemos o percurso de Maléfica. Evidentemente, há contradições lógicas. Como é que tornamos uma vilã - a pior das vilãs! - numa criatura que, meh, afinal nem é assim tão má como parece? É uma desconstrução difícil.

  Maléfica, em Mistress of Evil, já não é má. É apenas mal-encarada e antipática. A caracterização e a sua postura altiva deixam de fazer sentido. Entretanto, esta sequela tem um argumento e um background mais verosímeis dentro daquele universo de fantasia. Conhecendo nós as origens de Maléfica, os seus pares, iguais fisicamente, deixamos de a associar, com aqueles cornos e aquelas vestes, a uma personagem necessariamente má, porque, no nosso imaginário, um ser que se apresenta como ela tem de ser mau.

   Na parte dois desta sequência dedicada à vilã, há dois mundos em oposição: o Reino dos Moors, das fadas, e o Reino de Ulstead, de humanos, que vivem lado a lado e se odeiam. Outra vez, humanos e natureza em confronto. É um modo mais simpático, convenhamos, de trazer a discussão do impacto do ser humano no ambiente, apresentando-os como terríveis e impiedosos. Terão razão? Sê-lo-emos?

  Embora a narrativa esteja centrada em torno de Maléfica, não senti a falta de algumas das paradigmáticas personagens d' A Bela Adormecida. As três boas fadas, madrinhas de Aurora, que neste filme é uma personagem apagada e totalmente prescindível, ficaram reduzidas a um papel minúsculo, e diluíram-se completamente naquele emaranhado de fadas do Moors, reino onde todos são fadas e vulneráveis à acção do ferro. Sim, o ferro, o metal. No final, lá recuperaram a inesquecível cena do vestido de noiva de Aurora, que ora é tingido a vermelho, ora a verde, e creio que foi só aí que as três boas fadas surgiram de verdade. A Primavera, a fadinha azul, é corajosa quando tem de enfrentar uma serviçal da Rainha Ingrith, mas até ela, carismática n' A Bela Adormecida, desaparece aqui. E a falta não lhes achei.




   Com uma Maléfica boa, teria de haver outra vilã, que aqui é a mãe do príncipe Filipe, a pérfida e calculista Rainha Ingrith, numa excelente interpretação de Michelle Pfeiffer, que rivalizou, devo dizer, com Angelina Jolie, não só em beleza como no papel de protagonista. Aurora e Filipe são totalmente olvidáveis. Aquela rainha má ainda vai dar que falar.

   Dos efeitos especiais, gostei sobretudo da batalha final e das cenas em que os Feiticeiros da Sombra sobrevoam os reinos. E, até que enfim, vemos Maléfica a transformar-se num gigante dragão negro (ou seria um pássaro?), tal qual como da primeira vez em que surgiu nos nossos ecrãs, algures por 1959. Todavia, não foi apenas com o dragão e a cena protagonizada pelas três boas fadas que senti correlações com o filme original: o fuso da roca de fiar foi recuperado na sua maldição.

  Sujeita a que os fãs de Maléfica fiquem descontentes, que a vilã não o é mais, e da sua anterior condição e personalidade só resta um feitiozinho especial, a Walt Disney atribuiu uma biografia digna a Maléfica, afinal, a maldade pode ter uma justificação. Quase sempre assim é. A Maléfica de Angelina Jolie passou de cruel e sinistra, capaz de amaldiçoar um bebé por não ter sido convidada para o seu baptismo, para uma figura sensual, que transborda a afectos. Teremos sempre a Maléfica de '59 por lá, intocável.

25 de outubro de 2019

Judy.


   Judy Garland, a imponente estrela dos musicais de Hollywood. No palco, quando os espectáculos lhe corriam de feição, transfigurava-se. Passava de mulher franzina, insegura, imatura, quase infantil, para um monstro de talento. O público amava-a e era-lhe devoto. Garland retribuía quando o sofrimento lho permitia, quando o refúgio no álcool não a impedia de brilhar. Se este filme for fiel ao seu percurso pessoal e profissional no seu último ano de vida, tudo quanto aquela mulher quis foi poder estar perto dos filhos. Garland considerava-se uma "grande mãe", e as suas decisões tinham sempre em vista poder recuperar de novo a custódia dos dois menores que tivera ao seu encargo (Liza Minnelli já era crescida). Lutou por eles, batalhou, sujeitou-se àquela dura estadia em Londres, quando o corpo lhe pedia sossego, e as luzes da ribalta têm tanto de mágicas quanto de traiçoeiras. A cantora e actriz não conseguiu sobreviver no showbiz. Era demasiado honesta consigo e no modo como se relacionava com o público. Morreu aos 47 anos, após uma residência de cinco semanas numa das mais prestigiadas casa de espectáculos da capital britânica, seis meses decorridos desde a sua última apresentação, que, aliás, foi recriada, provavelmente com algum exagero, na cena final do filme, numa emotiva performance de Somewhere Over The Rainbow, a sua canção-assinatura.




   Renée Zellweger encarnou provavelmente a melhor July Garland de sempre, procurando tomar-lhe os jeitos e as expressões, as "caras e bocas". Muito embora Judy se ocupe da etapa final da vida da artista, vão-nos sendo mostrados flashbacks do seu passado, dos primeiros passos em Hollywood, da juventude que lhe foi arrebatada por uma indústria rígida e feroz. Tudo terá contribuído para a instabilidade que a afectou na vida adulta, com vários casamentos falhados e, pareceu-me, alguns distúrbios alimentares que também se reconduzem àqueles primeiros tempos. O que comia, o que fazia, tudo era controlado. Em contrapartida, é discutível a opção de Zellweger, ou da realização, de retratar uma July Garland quase caricaturada, dramática à exaustão. Parece quase uma dona de casa arrependida por se ter permitido a trabalhar fora. Contudo, se o objectivo foi o de nos mostrar uma mulher amargurada, magoada, explorada, conseguiu-o.

  A atmosfera sixties e os bons momentos musicais conferem-lhe a envergadura suficiente para o considerar um bom filme, ainda que com algumas fragilidades a nível do argumento. Faltou uma abordagem mais sincera à carreira de Garland. O argumento é redutor. Pouco nos é dado a conhecer de quem foi Judy Garland. Aquele momento poderia ter sido aproveitado, designadamente nas ditas retrospectivas ao seu passado. É mais um caso em que a interpretação, a de Zellweger, compensa algum laxismo com a narrativa, que se passa ora no palco, ora no camarim, ora no quarto de hotel.

24 de outubro de 2019

Longa Noite.


  Há muito a se dizer sobre o Longa Noite. Desde logo, quando vemos aquela realidade galega sentimos a proximidade à nossa. Aquela Galiza rural e ostracizada reporta-nos a um Portugal que conhecemos muito bem. Nesse sentido, é um importante contributo para o retrato sociocultural da Galiza nos anos do franquismo, e não será difícil imaginar que a situação no norte de Portugal provavelmente não diferiria em muito.

  O primeiro aspecto que me veio à ideia quando ouvi aquelas pessoas foi a similitude do léxico ("ninguém", "lembrar", "esquecer", entre muitas outras), da colocação pronominal ("Vista-se!") e da ausência do ditongo "ue" no galego ("puerta" = "porta", como no português). Não obstante tantas semelhanças, sem legendas teria entendido pouco. O galego tem uma fonética muito própria e um jeito de pronunciar as palavras que me é estranho. Com tristeza, digo que mais facilmente entendo o castelhano, provavelmente por estar mais exposto a esse idioma. Entre os galegos, há o costume de se chamar "castrapo" à variante galega misturada com o castelhano, um género de deturpação, de corruptela. Não senti que os actores falassem "castrapo", porque, em vocábulos como Deus, por exemplo, pronunciaram-nos tal qual o fazemos em Portugal. Longa Noite  é manifestamente um filme político, falado em galego, que pretende mostrar a agruras de uma Galiza sufocada pelo centralismo do Estado espanhol e pela repressão franquista.

   As semelhanças entre a Galiza e Portugal vão muito além do léxico e da gramática, e neste filme são notórias. A melancolia, a desesperança, a crença na não-crença, os queixumes e a resignação, por fim. A Galiza tem sido uma das regiões mais devotadas ao abandono pelo Estado espanhol. Os galegos são vistos como cidadãos de segunda. Já o eram nos duros anos do franquismo, o que os levou a uma maciça emigração pelo mundo - e até nisso somos parecidos. No Longa, logo ao início, vemos um galego que se pretende estabelecer na América. Mais à frente, sabemos de outra que está em Buenos Aires. A diáspora galega confunde-se com a portuguesa. Como amigos galegos me vêm dizendo, não raras vezes portugueses e galegos confraternizavam amigavelmente nessas paragens, com os galegos a preferir a companhia dos portugueses à dos espanhóis.




   Outro aspecto que não foi esquecido - e nem podia - é o dos presos políticos e o da diglossia que afecta a Galiza no presente como no passado. Um dos personagens está preso, e vai-nos relatando os duros tratamentos na cadeia. Numa carinhosa carta escrita à mulher, em galego, naturalmente, deixa-lhe breves palavras de conforto, quando nem ele acredita, lá no fundo, numa possível escapatória. Quando se dirige ao Generalíssimo Franco, esperando por um indulto, fá-lo em castelhano, exaltando Espanha. Eis o quadro de diglossia que se arrasta na Galiza até aos nossos dias. O galego convive paredes-meias com o castelhano, sofrendo fortes influências deste e tornando-se, à medida em que o tempo passa, um idioma da resistência, dos galegos que se recusam a ceder ante o aniquilamento das suas raízes pelo Estado espanhol. Naqueles tempos, o galego era a língua da família, dos afectos (miña queridiña), e não da vida pública. No presente, é co-oficial com o castelhano, com claro predomínio do último.

   Franco surge numa fotografia emoldurada. Velhos galegos jogam às cartas e referem-se ao Chefe de Estado com palavras de agradecimento e veneração. Talvez ironicamente, talvez já dominados pela política de assimilação. Franco era de Ferrol, antiga Ferrol del Caudillo. Galego, portanto. Não surpreende que fosse admirado por alguns galegos. Outra interpretação leva-me a encarar as cartas que jogavam como o próprio destino da Galiza, que lhes escapava por entre os dedos.

  Simultaneamente, dois mendigos, que pediam à porta da Igreja e partilhavam um pão seco, sem nada mais, vêem passar um padre. Amaldiçoam-no. Um diz que "os matava a todos, se nom fosse católico". A Igreja Católica, em Espanha, é nacional. Abraçou a causa centralista e rejeita os independentismos. Há dias, o arcebispo de Oviedo veio pedir a confissão dos pecados a todos quantos apoiem o secessionismo catalão. Falamos da mesma Igreja que, nos anos 70, recebeu os líderes independentistas das ex-províncias ultramarinas, da que tem dois pesos e duas medidas. Não interessa à Europa que se crie um conflito na Catalunha. Nem às instituições europeias e nem à Igreja Católica, que lida também ela com a perda de fiéis e inúmeros escândalos. Uma crise institucional com Espanha não lhe seria nada benéfica. Um terrível jogo de interesses em que os perdedores são sempre os mesmos, os povos.

   O que guardarei deste filme são as indiscutíveis semelhanças com os portugueses. Como referiu Eloy Enciso, que esteve presente nesta sessão inaugural no DocLisboa e que se dirigiu à plateia num português imaculado, Longa Noite é quase incestuoso. Portugueses e galegos são irmãos. Iguais nas torturas de que padecem e no sofrimento que se auto-infligem. Naquelas personagens, eu vi os portugueses. Aquele filme poderia ser português.

23 de outubro de 2019

Les Plus Belles Années D'Une Vie.


«Le plus belles années d'une vie sont celles qu'on n'a pas encore vécues».


    Foi com esta citação do célebre Victor Hugo que Claude Lelouch deu continuidade à mais longeva história de amor do cinema francês, direi eu, que na sétima arte francesa sou um curioso. Refiro-me a Jean-Louis Trintignant e a Anouk Aimée, que surgiram pela primeira vez, juntos, no grande ecrã, no distante ano de 1966, naquele que foi primeiro de uma série de três filmes. Chama-se Un homme et une femme e foi aclamado universalmente. Vinte anos depois, em 1986, o mesmo Lelouch chamou os dois actores para uma sequência, de seu nome Un homme et une femme, 20 ans déjà. Retornam os três, qual poderoso triunvirato, para este filme que ainda não estreou em Portugal. Ontem, na Cinemateca, foi uma antestreia da antestreia, quase, por simpatia da Cinemas NOS.

  Eu não sabia da existência dos dois filmes que precedem este. Terei de os ver por aí. Lelouch terá pensado nisso e, ao longo desta encantadora longa de 2019, vai-nos presenteando com sobreimpressões do filme de 1966, que funcionam bem ao conferir consistência e autoridade à narrativa. Jean-Louis Duroc, nome do personagem principal, que coincide com o do actor, excepto no apelido, já não se recorda do que fez horas antes, mas mantém as memória do maior amor da sua vida bem acesas. Impossível deixar de fazer uma comparação com o filme de culto Diário da Nossa Paixão, um melodrama barato norte-americano, onde também temos um asilo e um idoso senil. Encontramos o mesmo aqui, mas com um toque de glamour que só os franceses sabem dar, ou não fosse o vocábulo um galicismo.




   A química entre os dois actores, Trintignant e Aimée vem justificar esta longa, que nos saca boas risadas e nos deixa com um olhar complacente e um sorriso terno nos lábios. Aquilo é o amor, o amor que sobrevive ao tempo e ao afastamento, que se matura. Não é o amor encalorado dos vinte e dos trinta. É o amor dos oitenta, das memórias, da história em comum, com as vestes de todos os problemas da terceira idade. Perante pessoas com uma envergadura tão grande, monstros sagrados do cinema francês, com um background tão significativo, pequenos clichés são perdoados.

   Em suma, eu não acredito realmente que, como disse Victor Hugo, os melhores anos sejam aqueles que ainda não experienciámos. Não sou dos que acham que a idade é uma maravilha e que envelhecer é fantástico. Envelhecer é bom porque implica que estamos vivos. Apenas por isso. O segredo está em, em face das circunstâncias, saber viver o melhor possível, com todas as limitações. Foi o que Anne fez, e Jean-Louis, por outro meio, recuperando algum do tempo perdido.

22 de outubro de 2019

Vivement Dimanche.


   Houve um sentimento de frustração que me acompanhou ao longo deste filme noir, a preto e branco, e é discutível o porquê de Truffaut se ter decidido pelo preto e branco estilizado em 1983. Talvez para imprimir à narrativa o carácter de verdadeiro filme de suspense, um policial à boa moda antiga. Em minha opinião, falhou como policial e como história de amor. Truffaut optou por nos deixar sobressaltados, nomeadamente na cena em que a secretária retorna da sua investigação e é surpreendida com uma bofetada. É-o ela e somo-lo nós. O mesmo se diz da cena inicial, quando vemos Barbara a caminhar despreocupadamente e, num ápice, estamos na cena do primeiro dos crimes. É esta arritmia na narrativa, esta quebra da lógica sequencial, que a reporta aos velhos policiais. 



   A história de amor falhou porque aquelas personagens - patrão e empregada - não conjugam. Nunca chegamos a equacionar uma relação entre dois. Porque é que Barbara se empenha tanto em ver esclarecidos aqueles crimes é pergunta que nunca vemos respondida. Amaria a Julien? Veria nele um porto seguro, um abrigo, após uma relação falhada? Personagem misteriosa, ela atravessa várias facetas ao longo da trama: secretária, actriz de teatro, prostituta encapotada e, por fim, num lado maternal, protectora de Julien. O interesse desta mulher reside nesses vários registos, não conseguindo nós fazê-la deter-se num único. Barbara é a super-mulher que carrega a investigação aos ombros.

   Qualquer uma das personagens é bastante inverosímil, assim como o são os diálogos ou os corpos das vítimas prostrados no chão. De policial, este filme é uma intriga quase caseira de um realizador renomado, de carreira irrepreensível, que já se permitia a afrontar as formulações e as convenções dos seus pares.

20 de outubro de 2019

Bon Voyage.


  Bon Voyage é um filme de 2003, com a belíssima Isabelle Adjani, Gérard Depardieu,Virginie Ledoyen e Grégori Derangère, que recua até 1940 e à invasão da França pelas forças nazis.

   É uma longa elegante, que pretende recuperar a magia do cinema de antanho, dos anos 30. Um projecto ambicioso do realizador, portanto. Oscila entre o drama e a comédia, a ligeireza e a densidade. Eu não estaria tentado a vê-la como uma reconstituição de um período espinhoso da história recente francesa, senão como uma história de amor, praticamente um triângulo amoroso, com nuances históricas, que se desenrola embalada pelo contexto da Paris daqueles anos tensos e atribulados, com as tropas de Hitler à porta. A sociedade parisiense refugia-se, então, no sul do país, a designava França Livre de Vichy.




   Eu diria que tem algum encanto pela opulência do guarda-roupa, dos cenários, e sobretudo pela actuação de Isabelle Adjani, teatral, num overacting mais contido, se o encararmos como uma narrativa romanesca. Faltou um equilíbrio entre a aparência e a substância, visto tratar-se de uma grande produção. Houve, efectivamente, o cuidado em criar algo que enchesse a vista, faltando-lhe, porém, aquele toque de magia que o deixaria inesquecível, um grande filme popular de excelência. A parte histórica poderia ter sido melhor aproveitada. Há apenas umas superficiais alusões a Pétain e a De Gaulle. Pela satisfação que me proporcionou e pela última cena, inteligente, bem idealizada, considerei-o uma boa opção da minha parte. Só lhe faltou ser arrebatador.

19 de outubro de 2019

Miguel Botelho (1962-2019).


    Este obituário impõe-se por alguns motivos. O principal, e que sobressai logo, é que nada li na blogosfera sobre a morte do Miguel Botelho, cujo blogue podem ver aqui. Bem sei que a blogosfera já era, mas, ainda assim, pensei que alguns dos seus velhos amigos voltassem aos blogues apenas para deixar algumas palavras, ou que a sua editora o fizesse. Não que o Miguel as precisasse, e seguramente que não as precisaria na blogosfera. Manifestações públicas de pesar não têm nada que ver com os sentimentos das pessoas e nada dizem acerca da sua dor.

   Não escrevo sobre a morte do Miguel porque ele tenha sido um grande amigo. Conheci-o através da blogosfera, e estivemos juntos apenas em algumas ocasiões, todas elas públicas. Escrevo sobre a sua morte, e faço-o aqui, porque considero ser o justo quando falamos de alguém que mantinha o mais velho blogue, que eu conheça, ainda em actividade, o Innersmile, ou Um Voo Cego a Nada, desde meados de Julho de 2001. Sendo o Miguel uma grande referência na blogosfera, não poderia encarar a sua partida como se nada fosse. Não. A sua trajectória nestes dezoito anos, e dezoito anos riquíssimos, justificam que deixe aqui, para a posterioridade, o meu sentimento neste momento, que é de consternação. Sabia-o doente, sabia que lutava há muitos anos contra um tumor. Não imaginava este desfecho, aos 57 anos de idade, com tanto ainda para dar.

   O Miguel começou a acompanhar o meu blogue, e eu acompanhava o seu. Depois, afastámo-nos gradualmente. Imagino que a sua doença e o progressivo esvaziamento da blogosfera para isso tenham contribuído, já que a nossa relação, ainda que não fosse de grande amizade e assídua presença, sempre foi mutuamente cordial e respeitosa. Confesso que não fui tão atento quanto deveria. Não o contactei, não procurei inteirar-me mais do seu estado de saúde, não o visitei, por motivos que também se prendem à minha vida pessoal. Redimo-me, mal, desta forma: não só não imaginei que pudesse morrer - tal nunca me passou pela cabeça -, como julguei que, enfim, amizades suas, que deixaram de ser minhas, pudessem ter contribuído para alguns juízos de valor seus a meu respeito. Vou ser menos palavroso. Julguei que já não me tivesse em grande consideração, não por qualquer má atitude da minha parte para consigo, ou vice-versa, porque sempre nos demos bem, mas por lhe terem dito mal de mim. Intrigas que agora não fazem qualquer sentido (alguma vez fizeram?), mas que também ajudam a explicar, direi eu, o porquê do nosso afastamento.

   Das vezes em que falámos, o Miguel sempre me teceu rasgados e generosos elogios. Admirava-o, e presumo que lho tenha dito, não só pelo seu intelecto como pela pessoa que era, pelo carinho e cuidado que manifestava pelos seus, os pais, a sobrinha, o irmão. Era um homem atento, culto, viajado, ponderado, educado. Às tantas, o corpo e a alma já pouco tinham que ver um com o outro. A sua alma era elegante e graciosa, e aquele corpo definhava a olhos vistos. Estivemos juntos, pela última vez, salvo erro em 2014/2015, num restaurante ali pela Praça de Espanha. Depois, fomos beber café ao Jardim Amália Rodrigues. Já estava doente. Já se levantava inúmeras vezes para ir à retrete. Infelizmente, na falta de melhores memórias, é esta que guardo, da mesma forma que guardo o seu convite para ser meu cicerone em Coimbra, numa viagem que nunca se veio a concretizar.

   Miguel, agora a ti: obrigado pelo convívio, o pouco que tivemos. Obrigado pelo Innersmile, que espero que se mantenha no ar, para que te possamos conservar não só através da memória como também dos teus inúmeros textos ao longo de quase duas décadas. E, ironia do destino, a tua última publicação assinalou a maioridade do teu diário online, como lhe chamavas, quando tu já estavas tão perto do fim.


   Destacaria, da sua produção literária, e o Miguel escreveu prosa e poesia, este pequeno poema, que fala de morte e da sua circunstância presente, que uma parte do Miguel tinha ido com a mãe, o pai, o irmão e o desgaste da luta desleal contra um inimigo silencioso. A morte há muito pairava sobre si. Talvez não seja a forma mais alegre e optimista de terminar esta publicação, por não ser capaz de encarar a morte, e particularmente a morte do Miguel, neste momento, com palavras amenas.


notícias



morreste, foste embora
trocou-se uma ausência
por outra



os dias lá foram andando
a vida vivida como
uma doença incurável



lembro-me de ti
vez em quando
uma hora por outra



mas vejo-te ao longe
como se o teu silêncio
fosse indolor



uma leve perturbação
incómoda e aguda:
não tenho notícias
não sei nada de ti

18 de outubro de 2019

Sans toit ni loi.


  Esta longa de 1985 foi a melhor de Varga, das que vi, e um dos melhores filme deste festival de cinema francês. Nela, a realizadora francesa falecida recentemente debruça-se sobre o feminismo pela negativa. Se nos demais que vi, seus, a protagonista termina bem, triunfante (particularmente em L'une chante, L'autre pas), neste termina numa vala, morta, após uma noite ao relento e infindáveis sofrimentos. O seu corpo exposto, no início do filme, serve como prelúdio à derradeira etapa da sua vida, errante, suja miserável. Aquela rapariga, Mona, teve oportunidades para assentar, mas rejeitou-as a todas. Optou por viver no desprendimento, sem qualquer motivação ou explicação.

   É um road movie europeu (os americanos são especialistas nisso). Um drama. No final, temos a sensação de que nada sabemos sobre Mona. De onde vem, quem é. Ela esquiva-se a dar-se a conhecer. À medida em que a narrativa avança, percebemos que a sua degradação física e psicológica se acentua. Se no início nos parece uma rapariga que anda a acampar por aí, a viajar solitariamente, meio nómada, para o fim percebemos que algo de muito mais grave se esconde por detrás daquela existência. O quê, nunca sabemos.

    Repare-se que o filme começa com a protagonista a sair de um banho no mar. Ela calçava as botas com algum esmero, colocando as bainhas por dentro do cano. Pouco antes de morrer, já se arrastava por uns destroços daquilo que havia sido umas botas, ou seja, Varda, através de mensagens subliminares, foi conjugando o trágico final de Mona também através da sua aparência. Ela foi desaparecendo, em verdade, em humanidade.



 
   Varda jogou ainda com as estruturas sociais. As pessoas com quem Mona se cruzam vão tecendo considerações sobre ela, no poucos planos em que a protagonista não surge. E há ali um confronto entre aquilo que ela deveria ser e aquilo que ela é, por oposição. Mona vive desprendida, sem apego às pessoas ou aos lugares, sem um modo de vida, sem rotinas.  Esse viver errante perturba-os e perturba-nos, como perturba o seu descaso com a sua higiene ou aparência física. Mona não sujeitou o seu corpo às convenções e aos papéis sociais. Limitou-se a viver como queria, sofrendo, depois, as consequências disso mesmo. A sua aparente, aos nossos sentidos, alienação é visível quando, num dos maiores actos de liberdade, aceita uma sandes que lhe foi oferecida e vai, com uma moeda que tinha, pôr música na jukebox. A vida é feita de escolhas, e a sua escolha foi viver assim.

  Sans toit ni loi contorna o suspense. Varda quebrou-o logo no início: aquela história iria acabar mal, conseguindo o que pretendeu: que encarássemos cada passo de Mona como mais um em direcção à morte. O estigma do seu fim trágico, ali, por hipotermia, persegue-nos desde o início.
   Entre os degradados e vagabundos, e vemo-los pelo filme, Varda soube contar o feminismo que nem sempre acaba bem, mas não para que fiquemos a reflectir no como teria sido se Mona ficasse a viver com o tunisino ou se se tivesse sujeitado a plantar batatas. O que fica é que aquela rapariga foi mais livre do que nós alguma vez chegaremos a ser. E essa liberdade tem algo de fatalista, arrebatador e poético.

17 de outubro de 2019

Trois Couleurs: Rouge.


  Trois Couleurs: Rouge insere-se numa trilogia que não conheço. Pelo que me pude aperceber, há uma sequência entre os filmes. Como não os conheço, não posso fazer qualquer paralelismo. A minha análise será restrita àquilo que vi.

   Kieslowski, o realizador, faleceu pouco depois deste último filme da saga da trilogia das cores. Deixou-nos uma obra glamorosa, de interpretações elegantes e bem conseguidas, guarda-roupa e cenários requintados. Há duas sequências claramente definidas: a do jovem estudante de Direito e a sua namorada loira, uma, e a de Valentine e o juiz, outra. Entre elas, à primeira vista, parece não haver qualquer relação. Aparentemente, Valentine mora perto do estudante de Direito. Conseguem-se ver das janelas dos respectivos apartamentos. À medida em que a narrativa avança, percebemos que há uma ligação sub-reptícia entre o juiz e aquele jovem estudante. O juiz, voyeur, é o senhor de todas as causas, um deus manipulador, afinal, ele é o dominus da vida dos seus vizinhos, conhecendo os seus segredos. Simultaneamente, ele parece dominar Valentine e até a personagem do jovem estudante de Direito, fazendo com que as suas existências se confundam. Nunca chegamos a perceber se a história do jovem estudante de Direito é a sua, em flahback, ou se corre paralelamente à sua. Tão-pouco se é uma vida que ele instrumentaliza para contar ou sua. Há um enigma, um cruzamento de factos e acontecimentos que, deliberadamente, nos fazem perder a noção da realidade. Só no final, com o naufrágio do ferry-boat, é que temos uma perspectiva comum de todas aquelas personagens.




   O que ressalta é exactamente esse peso demolidor do juiz, que age sobre as outras personagens como se fossem meras marionetas. Nisto se inclui a bela Valentine, que se deixa seduzir. Há uma outra hipótese deixada em aberta: aquela Valentine terá existido ou terá ele criado aquela Valentine a partir da modelo do anúncio de pastilhas elásticas? A cena final deixa-nos essa probabilidade. O juiz controlou-nos também a nós, espectadores, armadilhando-nos a percepção. 

   Trois Couleurs: Rouge confunde-nos. Vemos o filme e, no fim das contas, não sabemos o que vimos. Kieslowski é, no fundo, aquele juiz, ao baralhar-nos os sentidos. Manipula os sons e as imagens (a Valentine do cartaz e a do naufrágio, iguais, diante de um fundo encarnado) e, num acto desleal, reserva-se a verdade do enredo. Não haveria melhor forma de se despedir do mundo dos vivos. É um grande filme.

16 de outubro de 2019

L'Une Chante, L'Autre Pas.


    L'Une Chante, L'Autre Pas é mais uma exaltação ao feminismo por Agnès Varda. De 1977, tem uma primeira parte ambientada em 1962 e uma segunda dez anos depois, em 1972/3. É um filme vincadamente ideológico, de extrema-esquerda, com alusões a Engels, e de afirmação da mulher em poder dispor do seu "corpo". Por aqueles anos, França legalizava o aborto, encontrando resistências fortíssimas por parte dos sectores mais conservadores.

   Varga põe duas mulheres com objectivos distintos de vida: Pauline quer ser livre, sair de casa, ser cantora e activista pelos direitos das mulheres; Suzanne, pelo contrário, aceita ser a dona de casa responsável, a mulher casada no papel e amada. Não deixa de ser curioso que uma rejeita (Pauline) o que a outra tanto ambiciona (Suzanne): estabilidade afectiva e conjugal. O feminismo manifesta-se-lhes de modo oposto. Suzanne vê-se concretizada nos velhos cânones do papel socialmente atribuído à mulher, não deixando, entretanto, de manter o seu consultório, onde esclarece as mulheres do uso dos contraceptivos orais. Pauline rejeita-os, preferindo viver na França da revolução cultural e de costumes surgida do Maio de 68. A França hippie que contagia a Europa e o mundo e que afronta os valores da outra França, a rural, tradicional, patriarcal. Vemo-lo quando Pauline e o seu grupo de amigas viajam pela França profunda, actuando em pequenas terriolas.




    A realizador pôs ainda em oposição a França do Movimento de 70 e o Irão que, pese embora ainda não vivesse as restrições da Revolução de 1979, era uma sociedade profundamente mais fechada nos costumes, não reservando oportunidades às mulheres. Pauline não pôde desenvolver a sua carreira por lá. Um engenho de Varga para mostrar ao ocidente a realidade das iranianas, sem nunca procurar o confronto directo. Pelo contrário, Pauline movimenta-se elegantemente com o seu hijab. É uma visão romântica, quase saída das mil e uma noites.

   Pauline amou a Darius. O que se passa é que, em Varga, os homens não desempenham qualquer papel na trama. Mais ainda, são manietados. Morrem tragicamente, são abandonados. Ele foi-o, e verificamo-lo quando Pauline lhe propõe a ideia de engravidar de novo, ficando, desta vez, com essa criança. O seu feminismo, a luta que a abraçara, não lhe permitia deixar-se enlear na vida de dona de casa e mãe extremosa.

    É, em minha opinião, o mais autobiográfico dos filmes de Varga que pude ver até então. Em maior ou menor medida, algumas daquelas personagens funcionam como alter-egos seus. É uma obra manifestamente datada. No final, cruzam-se duas gerações: a de Pauline e Suzanne e a dos seus filhos. As primeiras desbravaram um caminho que, seguramente, iria permitir que a jovem Marie, filha mais velha de Suzanne, e a bebé de Pauline pudessem viver numa França mais igualitária.

15 de outubro de 2019

Entre le murs.


   Entre le murs foi rodado em 2008, e tem como pano de fundo uma turma multicultural de um liceu parisiense. Somos encaminhados a conhecer os meandros que a segregação, e muitas vezes a auto-segregação, provoca, com consequências a nível comportamental nos alunos. A imigrante do Mali que não sabe francês, os alunos filhos de imigrantes que se discriminam entre si e que revelam problemas se sociabilização e integração. França, como Portugal, e presumo que numa realidade comum a vários países europeus, depara-se com índices de criminalidades infanto-juvenil, de quebra da autoridade dos professores junto dos alunos e de níveis de insucesso escolar. Há uma crise de valores que se vem acentuando gradualmente. Aquela turma, que o filme passa-se inteiramente numa sala de aula do 8º ano, reúne um pouco de cada enfermidade de que padecem as escolas francesas, não obstante haver um esforço notório dos professores para os entender e para se fazerem entender e até alguma flexibilidade no ensino dos conteúdos.




   Esta longa é um claro filme big brother, de verosimilhança social. Dispondo de poucos meios técnicos e com um argumento que é o próprio quotidiano escolar, é mais um retrato quase documentado do que propriamente um filme. Aqueles alunos confrontam - e o filme é um permanente confronto entre professor e alunos - os professores como se habitassem num universo paralelo. Isso transparece nitidamente quando, numa aula de Francês, desdenham de vocábulos ditos eruditos. A determinado momento, um traduz para francês coloquial o que o professor acabara de dizer. Há um problema de comunicação notório, geracional, que se acentua com as diversas sensibilidades culturais. É nas actividades mais lúdicas que as barreiras se esbatem e que se vislumbra algum saudável entendimento, porém, a tensão está sempre presente. Eles desconfiam do professor e jamais o vêem como alguém que está ali para os ajudar.

   Não sendo um desastre, não lhe vejo mais interesse do que como útil representação dos problemas que as escolas enfrentam.

14 de outubro de 2019

Cléo de 5 à 7.


   Cléo de 5 à 7 é um filme francês de 1962, na última fase da Guerra da Argélia, que é sucessivamente referida ao longo da trama. Importa contextualizar Cléo de 5 à 7 numa década que assistirá à verdadeira revolução de hábitos e costumes no ocidente, o Maio de 68. Esta longa retrata uma Cidade Luz glamorosa, que acolhe encontros imprevistos nos seus jardins. Já é a capital do amor, da paixão assolapada. Cléo é, aliás, antes de mais, um valioso roteiro sobre a Paris dos anos 60.

   É ainda, parece-me, um manifesto feminista. A personagem principal é uma jovem mulher, belíssima, fútil e influenciável (interpretada pela lindíssima Corinne Marchand), que se tem em enorme consideração. Os homens, neste filme, que são poucos e surgem pouco, são meros adereços. O que se pretende é abordar a realidade feminina, as preocupações femininas e a psique feminina. Não sei se a realizadora, Agnès Varda, já falecida, e cuja obra é homenageada neste festival de cinema francês, fez mais pelo feminismo com este filme ou menos.




    A incerteza quanto à doença da protagonista surge como mote para que repensemos prioridades. O dia em que saberá o resultado do exame é aquele que marca o início do Verão, ou seja, o início de uma nova etapa. Conjugou-se esse elemento com a superstição da personagem e da sua empregada.

   Claramente um filme da Nouvelle Vague, a câmara inquieta-se com Cléo, seguindo-a e deixando-nos segui-la. Varda dividiu a longa em pequenos capítulos definidos no tempo, para que nos apercebamos da sua dimensão inexorável e irreversível. A longa, em suma, é a constatação de Cléo perante a iminência da morte e da sua própria finitude. As cenas do engolidor de rãs e das máscaras africanas actuam como uma elipse na nossa memória: Cléo já se vê morta. O seu mundo não é aquele, e àquele ela não pode compreender. Repare-se que a personagem, que sempre envergou branco, passa a vestir o preto.

   É quando encontra Antoine, uma personagem também com o tempo contado, que Cléo pode mitigar o seu sentimento de solidão. Com ele, no autocarro pelas ruas de Paris, em direcção ao hospital, vê a vida a ficar para trás, à medida em que observam os contornos da cidade. Lentamente, é como se se encaminhasse para o fim. Ao descobrir que a sua doença pode não ser assim tão grave, permite-se a poder amar. No diálogo final, quando diz a Antoine "nous avons tout le temps", intuímos esse renascimento da esperança, e a possibilidade de a vida retomar o seu curso normal.

13 de outubro de 2019

Amour.


   Amour é uma dolorosa perspectiva, de resto comum, do envelhecimento e da morte. Este filme lembrou-me instantaneamente dos meus avós paternos, e sobretudo da dedicação da minha avó ao meu avô, na doença, ao longe de catorze anos.

  Os silêncios, em Amour, fazem a diferença. Percebemos o estertor da morte a percorrer aqueles cómodos escuros, à medida em que as lembranças se avolumam e as despedidas se tornam inevitáveis. Na cena em que Anne folheia um velho álbum de fotografias, assistimos à antítese da vida nas suas palavras, quando a define, "bela e comprida". A morte não lhes bateu à porta, como o vizinho que traz as compras, ou a empregada de limpeza (protagonizada por Rita Blanco, curiosamente). Entrou de rompante, qual intrusa, apoderando-se de todos os momentos daquele apartamento espaçoso, requintando, que se torna palco de um definhar lento e gradual, profundamente desconfortável para o espectador.




    Facilmente perdemos a sequência às acções, como se a lógica cedesse se fundisse numa imagem estática: a de Anne, já morta, que nunca nos sai da cabeça. Esta alienação com a realidade e com a verdade da narrativa confere um carácter metafísico ao filme. É a morte que toma o tempo, que o torna lodoso e que nos faz entrar naquele microcosmos angustiante, vedado ao mundo, só perturbado na sua unidade com as visitas fugazes de uma filha. George, aliás, age com brusquidão às recomendações de Eva. Não. Aquele é o seu mundo, e cabe-lhe, ora com paciência, ora com impaciência, acompanhar a mulher no seu calvário.

  Esta longa é um retrato cru, sem sentimentalismos, impiedoso, da última etapa da vida humana, da degradação física e mental, da solidão, mas também do amor, do cuidado, do maior e mais difícil gesto do bem-querer, do auto-sacrifício, em juras que se cumprem até ao final. Um drama que nos comove e aterroriza, embora não saibamos bem o porquê. Talvez porque a realidade consiga ultrapassar a ficção, ou talvez porque aquela ficção é a realidade que não queríamos conhecer / ter.

   Resta acrescentar que vi Amour há dias, na vigésima amostra de cinema francês, o primeiro de vários filmes.

12 de outubro de 2019

Antígona.


   No passado sábado, dia 5, fui ver a peça Antígona, a mítica tragédia grega de Sófocles que remonta a cerca de 442 a.C. Esteve em exibição no Teatro Dona Maria II durante um mês, sensivelmente. Escolhi um dos últimos lugares disponíveis. Por acaso, consegui um à frente, na primeira fila. Estava quase tudo esgotadíssimo. Comprei-o pela internet.




   Antígona conta-nos a estória de uma moça, precisamente a que dá nome à peça, que decide dar um enterro digno ao irmão, incumprindo com a ordem do rei de Tebas, Creonte, que preferia deixá-lo à sua sorte, a ser comido pelos cães e pelos abutres. Ao tê-lo feito, incorreu na pena capital. É um verdadeiro tratado político. Trata dos limites do poder, da tirania, do sentimento de justiça que concorre com o da misericórdia, da obediência à lei injusta, da consciência individual e da existência de um direito natural que antecede os homens e a eles se sobrepõe. Não deixa de ser curioso que Sófocles coloque uma mulher a desrespeitar as leis da cidade, quando a Grécia era imune à moral judaica. Esta peça como que vem sacralizar a conduta de uma mulher que ousou  respeitar os seus princípios em detrimento da lei. Hoje em dia, seria encarada como uma exaltação feminista.




   Apesar de ter gostado, fui ligeiramente ao engano. Pensei que se ambientassem o mais possível ao tempo de Sófocles. Afinal, não. Imprimiram um tom moderno, praticamente neo-realista, o que me desagradou. Ver actores a interpretar personagens clássicas de ténis, botas, saias coloridas etc, a tocar guitarra e com um dançarino de black dance pelo meio, não me enche a vista. Senti amadorismo também nalgumas interpretações. Quer-se dizer, Sófocles não é para todos. É preciso ter envergadura para honrar uma peça clássica da história da dramaturgia com 2.500 anos.

   Como eu, sou levado a crer que muitos esperavam outra coisa. No final, não os ovacionei. Limitei-me a aplaudir. E não fui o único.

11 de outubro de 2019

Joker.


   Joker é um grandioso filme, pelo brilhante argumento e pela impressionante actuação de Joaquin Phoenix, que provavelmente se esforçou para arrecadar a estatueta de Melhor Actor na próxima edição dos Oscars. Temo que o efeito Jodie Foster o contagie. Às vezes, quando um actor dá tudo de si, sai-lhe o tiro pela culatra. Phoenix parece esforçar-se demasiado para impressionar.

  A produção soube extrair da interpretação de Phoenix toda a insanidade de um homem profundamente perturbado, vítima de maus-tratos e abusos vários - não só em criança -, que cresce com uma mãe paranóica. 

  O filme aborda realidades interessantes. Desde logo, identifico uma crítica clara a políticos populistas que se investem de uma moral que não têm. Por outro lado, aquele mundo da televisão, de glamour e fama, que tanto fascínio exerce em Arthur, é profundamente hipócrita e até desumano, não olhando a meios para atingir os fins, no caso, audiências, nem que para tal tenha de ridicularizar alguém em directo.




   Arthur é o espelho da infelicidade, que se transforma em frustração. Como ele diz a certa altura, nunca foi feliz "nem por um único segundo da vida". Essa infelicidade contida, em estados de nervosismo que degeneravam em ataques histéricos de riso descontrolado, encaminharam-no à prática de crueldades inimagináveis. O meu sentimento por aquela personagem oscila entre o encanto, a piedade e a repulsa, uma vez que não conseguimos ser indiferentes a todo o contexto familiar em que cresceu e viveu. O encanto advirá do seu lado artístico. Ele parece ter um qualquer talento inato para entreter.
   Quantos Arthurs não ajudamos nós a criar com a falta de empatia e a humilhação que infligimos nos outros? A alienação de Arthur Fleck tornou-se colectiva, numa cidade louca e revoltada contra a falta de princípios dos seus governantes. Era como se a dor que sentia se transportasse para cada um dos moradores de Gotham. O palhaço pobre que enfrenta os ricos e poderosos e que, como tal, vira herói e serve de inspiração a revoltas contra o poder instituído, numa clara alusão também ao descontentamento político que se vive nos EUA com a administração Trump. Thomas Wayne é claramente uma referência (in)discreta a Trump.

  É um filme extraordinário, com planos muitíssimo bem produzidos e uma iluminação, caracterização e fotografia de excelência.

10 de outubro de 2019

"O Império Invisível" e a Fotografia no Sião.


   Há dias, fui a uma exposição no Museu do Oriente, em Alcântara, antecedida por uma palestra do Dr. Miguel Castelo Branco, ambas acerca das relações seculares entre Portugal e o antigo Sião, actual Tailândia.

  Portugal nunca fundou qualquer feitoria no Sião. Nunca construiu qualquer fortificação. Estabeleceu, contudo, relações comerciais com o Reino do Sião no século XVI, que foi acolhendo comunidades portuguesas compostas também por missionários que desenvolviam a sua actividade religiosa naquelas paragens. Nessas comunidades, persistem laços fortíssimos com Portugal: a comunidade protuket, de pessoas que até hoje mantêm com orgulho os seus apelidos portugueses, um pouco modificados, é certo, porque muitos séculos se passaram, mas a afinidade com Portugal está lá. Recentemente, Dom Duarte Pio visitou-os e pôde testemunhar a ligação que os protuket têm com o nosso país. Empunharam bandeiras portuguesas e cartazes com os seus nomes familiares. Em Kudichin, sobrevive até aos nossos dias um "bairro" português.

   Aquelas populações sentem-se portuguesas. Não na acepção moderna, na de cidadãos do Estado Português. Claro que não o são. Sentem-se portuguesas na tradição, na religião, na memória colectiva dos seus antepassados, visto que naturalmente houve miscigenação. Não precisam de um carimbo de um oficial do registo civil que ateste a sua portugalidade. São-no porque o sentem. A língua portuguesa chegou a ser tão pujante que era utilizada entre a administração colonial francesa, mais tarde, e os nativos, isto quando não dominavam o idioma thai, melindrando as autoridades gaulesas, que tudo quanto queriam era impor o seu domínio imperialista naquelas terras. O português foi então proibido, mas subsistiu em casa, nas famílias, nas orações, nas inscrições dos túmulos, em suma, na tradição oral. Assim lhes chegou, assim resistiu aos franceses.


Recinto da exposição, no piso térreo. As fotos pertencem a uma colecção particular


    É uma pena que a maioria da população portuguesa ignore este legado tão forte que deixámos no Sudeste Asiático. Lembramo-nos de Goa, Damão e Diu, que chegaram até aos nossos dias, de Macau e Timor. A herança, porém, não se restringe às possessões que perdemos há menos de 60 anos. Há-a em Malaca, em Banguecoque, na ilha das Flores, e por aí fora. Sobra arquitectura, inclusive. A Igreja da Imaculada Conceição, na capital tailandesa, foi erguida pela comunidade portuguesa.

  A designação "império invisível" advém exactamente da ausência de qualquer entidade portuguesa administrativa estabelecida que obedecesse a ordens de Lisboa ou do Estado Português da Índia. Surgiu de assentamentos de velhos soldados, criminosos e aventureiros, que por lá se fixaram, mantendo a ligação espiritual, cultural e linguística a Portugal, o que ia muito além das meras relações comerciais, que quebram com o tempo e com o surgimento de outros actores na cena mercantil (ingleses, franceses, holandeses…).

A exposição pode ser vista até ao dia 24 do mês que vem. 


   O Sião haveria de empreender uma aproximação cultural ao Ocidente. Descendentes de portugueses com nativos alcançaram posições privilegiadas, não pelas suas origens, evidentemente, mas pela competência. Há, portanto, todo um legado que devemos exaltar e, sobretudo, dar a conhecer e não deixar morrer. O Estado Português deve, aqui, desempenhar um papel decisivo, promovendo contactos com aqueles povos, sempre no respeito pela soberania tailandesa, claro, e em coordenação com o seu governo.


9 de outubro de 2019

A Herdade.


   João é um latifundiário alentejano que prefere não tomar posição em questões políticas. O regime, na sua fase final, força-o a manifestar apoio público à campanha de África. Corria o ano de 1973. Os negócios iam de vento em popa e a sua herdade era importante para os negócios do país. A João eram permitidas alguns atrevimentos, toleradas pelo sogro, um general íntimo do então Ministro do Interior e do próprio Presidente do Conselho, Marcello Caetano. João era suserano nas suas terras.

  A herdade, durante mais de quarenta anos, foi palco de infidelidades, desafectos e mudanças políticas. Não sinto que esta longa tenha sido um panfleto de esquerda. Pelo contrário, mostra-nos as arbitrariedades de um comunismo reivindicativo que se instala no poder e que desrespeita o direito de propriedade, propondo a revolta dos trabalhadores e estimulando a tomada das terras "por quem as cultiva" e a reforma agrária. Mostra-nos, ainda, a decadência das altas individualidades do regime, forçadas a esconder-se e a exilar-se. E João, inflexível, recusou-se a ceder, procurando manter a herdade, que era sua e dos seus filhos, como fez questão de vincar. Só que os tempos não eram os mesmos, e os seus valiosos hectares definham à medida em que a própria família o abandona, sujeita que esteve a anos de ausência da presença. João estimava mais os cavalos do que a legítima mulher e os filhos, e do que principalmente o primogénito, que considerava fraco e omisso. A última cena é bem demonstrativa de um homem que fica só, e que procura refúgio no mesmo lugar que o albergou em criança durante um momento de forte tensão psicológica.




   Este filme, numa análise sociológica, ocupa-se da realidade de pessoas a quem o 25 de Abril nada trouxe de bom. Faz-nos um itinerário pelo país do Estado Novo e pelo país da democracia, da ditadura de um regime autoritário à de um capitalismo predatório. Trouxe-lhes a revolta do pessoal, a liberdade sexual e nos costumes - o divórcio -, com fortes implicações a nível familiar. À medida em que os anos passam, as personagens envelhecem, naturalmente, e as roupas e os cenários perdem o glamour. A decadência dos espaços vai-os dominando.
   Tem, depois, aquele lado mais queirosiano, com uma abordagem ao incesto - eu diria o lado novelesco da longa -, que todavia não retira mérito à excelente obra de Tiago Guedes. E nem a Igreja foi esquecida. O padre assiste com receio à chegada dos comunistas ao poder. Naquele meio, os ideais comunistas misturavam-se com a fé. Por paradoxal que pareça, era o que existia. Escondiam brochuras políticas comunistas e baptizavam os filhos na igreja.

  De todas as cenas, eu destacaria aquele em que João e Leonor regressam a casa vindos de uma festa, deparando-se com os tanques que se dirigem a Lisboa, na madrugada de 25 de Abril de 1974, ao som de "Grândola, Vila Morena", enquanto as luzes dos veículos incidem nos seus rostos e os deixam confusos.

   A Herdade é um filme feito de imagens do seu tempo, do som do vento suão que atravessa os diálogos a meio e que dá nome ao cavalo preferido de João. João que, no fundo, foi um homem do seu tempo, o fruto de uma rígida educação, a mesma que quis imprimir no filho. E também aí Portugal mudou de 1973 a 1991, não só na relação entre cidadão e instituições, como naquela que se estabelece entre pais e filhos, maridos e mulheres, trabalhadores e empregadores. João, malgrado os esforços, perdeu a luta contra o progresso.

    Do melhor cinema que Portugal tem a oferecer. Um marco da produção nacional mais recente e que merece figurar entre um dos nossos melhores filmes de sempre.

8 de outubro de 2019

Midsommar - O Ritual


   Midsommar é um filme muitíssimo bem dirigido que conjuga elementos do paganismo nórdico com o folclore sueco. No solstício de Verão, um grupo de jovens estudantes viaja dos EUA até uma localidade sueca para estudar os hábitos daquelas gentes e, no caso de Dani, procurar esquecer um pouco a tragédia que se abateu sobre si. O que eles não esperavam era que os membros daquela comunidade praticassem ritos tão escabrosos e tivessem tradições tão estranhas. Ninguém consegue sair daquele acampamento. Embora seja amplo, disperso, luminoso, colorido, é demolidor.

   É uma longa ambiciosa, com uma fotografia de excelência e ambientada nas deslumbrantes paisagens de uma Suécia natural, na qual o sossego se aproxima da espiritualidade e nos permite reflexões sobre o passado e o futuro. Quando embarcamos nesta aventura tenebrosa, julgamo-nos estar a entrar num sonho (ou pesadelo…) luminoso e colorido com aqueles quatro turistas americanos, talvez também, como eles, sob o efeito de substâncias alucinógenas. É tudo real e simultaneamente fantasioso. Aquelas pessoas funcionam em grupo, seguem escrupulosamente uma qualquer religião ou seita que desconhecemos, e não encaram aquilo a que se dedicam como anormal e bizarro. Lembraram-me dos povos da América, que praticavam sacrifícios humanos e que chocaram a moral dos europeus. 

   De certo modo, também nós nos vemos confrontados com os nossos costumes. O que será mais ético: um idoso, que atingiu o último patamar em ciência e espiritualidade na sua comunidade, decidir atirar-se de um penhasco ou ser confinado, como nós fazemos, num lar, até morrer? O que será mais digno? São questões que Ari Aster deixa em aberto e nos faz reflectir acerca.




   Florence Pugh tem uma interpretação de excelência. Vemo-la sofrer desmesuradamente pela perda da família, por se sentir perdida, querendo agir naturalmente sem forçar a paciência de um namorado, interpretado por Jack Reynor. O seu desespero confunde-se com o nosso. Pessoas sem esperança, sem raízes, facilmente são aliciadas, e o olhar final de Dani, a sorrir, alienada, ou anestesiada, é o de alguém que encontrou uma família, alguém que a acolha. É das partes mais perturbadoras. Até que ponto podemos ceder ao sofrimento, deixando-nos levar por algo que mitigue a nossa dor. O desfecho trágico foi quase uma consequência necessária numa relação que já evidenciava sinais de desgaste.

  Em Midsommar, a aparente alegria (a festa da Rainha de Maio) mistura-se com o horror e a loucura. Finalmente, Dani pôde ver a sua dor amparada por aquelas raparigas, que gritaram consigo e exorcizaram todo aquele sofrimento. Agora, ela era parte da família. As sequências em que a sua mãe e irmã surgem, produto da sua psique alterada, só tornam a longa ainda mais inquietante. É, efectivamente, dos melhores filme género, superior a Hereditary, do mesmo realizador.

7 de outubro de 2019

Eleições Legislativas (a análise).


   Acompanhei este acto eleitoral com grande expectativa. Os números são redondos e não enganam: dos 230 deputados, 226 estão eleitos. Os quatro que faltam representam os círculos da emigração. O PS ganha incontestavelmente as eleições, com 36,65 % dos votos e com 106 deputados eleitos, seguido do PSD, com 27,9 % e 77 deputados eleitos; em terceiro lugar vem o BE, com 9,67 % dos votos e 19 deputados eleitos; em quarto, situa-se a CDU, com 6,46 % dos votos e 12 deputados eleitos. Em quinto lugar, aparece-nos o CDS, com 4,25 % dos votos e 5 deputados eleitos, e em sexto o PAN, com 3,38 % dos votos e 4 deputados eleitos. Temos três novas forças partidárias na Assembleia da República: o Chega, com 1, 3 % , o Iniciativa Liberal, com 1,29 e o LIVRE, com 1,09 %, cada um com um deputado eleito.


  Começarei pelo PS, o grande vencedor, todavia, sem a maioria absoluta que tanto pediu ao eleitorado. Os resultados falam por si: o PS consegue mais 20 deputados face a 2015 e pintou o mapa do país a rosa. É, sem sombra alguma de dúvidas, uma vitória do partido, uma vitória pessoal de Costa e das suas políticas. A geringonça, pese embora todos os maus agouros, agradou às pessoas. Estes bons resultados vêm, aliás, na senda daquilo que tenho dito: embalado ou não pelo clima económico favorável destes últimos quatro anos, a classe média, que no fundo é quem decide as eleições, sente que ganhou em qualidade de vida, que os aumentos salariais foram repostos, as carreiras da função pública descongeladas, as taxas de IRS reduzidas, de IVA, ou seja, em parcas palavras, as pessoas sentem que hoje estão melhor do que estavam no tempo de Passos Coelho. Não deram a maioria ao PS. Querem convergências parlamentares, entendimentos. Os vinte deputados ajudarão à margem de manobra do PS. Agora, para governar, precisará só do BE ou do PCP., como se fosse coisa pouca. Costa já manifestou vontade de querer dialogar.

  O PSD é um dos grandes derrotados, e não convém fazer disso um tabu. Quando vi Rui Rio no antepenúltimo discurso da noite, todo sorridente - como se tivesse motivos para sorrir! -, cheguei a pensar que fosse o vencedor. Só que afinal não. Para quê maquilhar os números e tentar passar a mensagem de que, afinal, não teve só 20 % e teve 27 %? Pois não, e então? Perdeu 12 deputados. Conseguiu ter um pior resultado do que Passos Coelho num período de profunda crise, instabilidade social e revolta popular. O que será isto senão uma derrota? Justiça lhe seja feita, e os debates ajudaram-no a evitar que a tragédia fosse ainda pior. Assim mesmo, faria melhor se perdesse o sorriso patético, porque o PSD não tem motivos para estar tranquilo, e vê-lo em estado de negação chega a ser confrangedor. Dificilmente escapará ao descontentamento dos barões do partido.

  E já que falo em tragédia, o CDS teve um dos seus piores resultados de sempre, à altura dos obtidos nos já distantes anos de 1987 e 1991, quando, no tempo das maiorias absolutas de Cavaco Silva, se viu reduzido a um número ínfimo de deputados. Onde terá falhado o CDS? Eu elencaria algumas causas: Assunção Cristas está demasiado conotada ao governo de Passos e Portas, do qual fez parte, aliás. Na campanha, atiraram-lhe em cara as leis das rendas e de não-sei-mais-o-quê. A memória do povo é curta, mas nem tanto. Depois, o CDS foi vítima da dispersão à direita. Muitos votos foram perdidos para o Iniciativa Liberal, para o Chega, para o Aliança (que não elegeu qualquer deputado) e sabe-se lá para quem mais.  Terceiro, o centro-direita / direita vive dias de indefinição. Cavaco Silva enterrou o liberalismo. O CDS também dele se afastou. Ambos já abraçam causas outrora fracturantes, nomeadamente as que dizem respeito à moral e aos costumes. Afinal, o que é que apresentam que leve a que o eleitorado neles confie? É essa a grande pergunta. Eu até considero que Cristas tenha feito uma boa campanha, só que não se soube claramente posicionar numa determinada área do espectro político. Deambulou por aqui e por ali, e isso foi-lhe caro. A convocação de um congresso e a promessa de que não se recandidatará é uma forma elegante de assumir a derrota.

  O Bloco de Esquerda mantém os deputados e chega-se à frente como terceira força. É um bom resultado, muito favorecido também pela sua coordenadora, como lhe chamam, Catarina Martins, que surgiu, se bem se lembram, como uma líder fraca, e que se soube impor gradualmente. Amem-na ou odeiem-na, as pessoas ouvem-na e reconhecem-lhe mérito na defesa daquilo em que acredita. O Bloco, ao contrário do PCP/PEV, não saiu prejudicado do arranjinho de 2015 - tem eleitores mais urbanos e escolarizados, ao contrário dos comunistas. E o voto no BE tem um significado claro, a meu ver: as pessoas querem que participe de uma solução governativa suportando um governo do PS. Querem entendimento e estabilidade. Catarina Martins, que tanto lutou contra uma maioria absoluta do PS, tem agora de mostrar trabalho e procurar chegar a consensos com António Costa.


Mapa político da legislatura 2019 - 2023


   A CDU, ou, melhor dizendo, o PCP, que os Verdes não elegeram qualquer deputado, continua a decrescer a um ritmo frenético. É bem verdade que o Partido Comunista Português tem um eleitorado muito fiel, sobretudo a sul do Tejo, com causas socialmente históricas e paradigmáticas. O que se passa é que esse eleitorado está a desaparecer, e com ele a levar a força do partido. Doze deputados, menos cinco do que há cinco anos. É um partido bafiento. Os trabalhadores, a sua grande bandeira, votam no BE também. Camponeses, já vai havendo poucos. O que lhe resta? Nada. É claramente um partido com os dias contados. Dias, como quem diz, décadas. A tendência é para continuar a diminuir, até desaparecer de cena.

  O PAN aumenta. Já se sabia. Julgava que aumentasse mais, devo dizer. É um partido do qual desconfio profundamente. Não se posiciona politicamente, não se parece importar com nada mais do que as alterações climáticas e os direitos dos animais e revelou fortíssimas insuficiências e fragilidades nos debates. No discurso de rescaldo eleitoral, André Silva disse que era o "partido feminista", que tinha "mais mulheres deputadas do que homens". É este nível rasteiro que domina a vida política portuguesa, e com tristeza o digo.

   Restam-me o Iniciativa Liberal, o Chega e o LIVRE. Vou, desde já, assumir que não conheço os partidos a fundo. O que melhor conheço é o Chega, de Ventura. O Iniciativa Liberal, direi eu, vem ocupar um espaço que o PSD e o CDS há muito deixaram vago: o do liberalismo tradicional, da meritocracia e do individualismo. A direita tem um lado liberal, próprio, histórico, que a tradicional direita portuguesa abandonou. É, destes partidos minoritários, aquele no qual reconheço alguma vantagem e que vem, efectivamente, colmatar uma nítida lacuna. O Chega é populismo puro e duro. Como li algures por aí, resume o que de pior têm as caixas de comentários dos jornais online. O tal LIVRE, bom, na reacção aos resultados, ouvi algumas palavras da deputada eleita, e foi algo como "lutar contra o fascismo". Está tudo dito. É mais uma daquelas esquerdas reaccionárias que não fazem falta alguma. Já tínhamos o BE. A questão é a de se saber se estaremos perante epifenómenos ou se, como no caso do PAN há quatro anos, teremos partidos que virão cimentar as suas posições.

   Em verdade, estou curioso para ver o que sairá daqui. Acredito que o PCP se afaste do PS, para recuperar força entre o eleitorado mais céptico do arco da governação. Esta legislatura terá desafios que a anterior não teve. Com o abrandamento da economia, o descontentamento será maior, e naturalmente as cisões entre PS e BE virão à tona. Se a última legislatura assentou na reposição de direitos, e nisso ambos estavam de acordo, esta implicará outro grau de ambição para o BE. Optando Costa por acordos pontuais, a instabilidade política será maior, uma vez que, mal ou bem, a legislatura cessante dispunha de acordos escritos que asseguravam a governabilidade. Isso poderá não acontecer agora. A maioria relativa do PS permitir-lhe-á fazer aprovar medidas sem o apoio implícito da esquerda, bastando-lhe a abstenção de PCP e BE. O PS terá, então, outra margem de manobra. Não nos podemos esquecer de que esta legislatura, a priori, terminará em 2023. Pelo meio, haverá uma eleição presidencial e uma autárquica em 2021. Marcelo Rebelo de Sousa, reelegendo-se, seguramente será muito mais interventivo do que tem sido e, por conseguinte, a sintonia com o PS poderá não ser a mesma. Estamos no reino das suposições. São alguns dos cenários com os quais este PS se poderá deparar. Algo, porém, é certo: esta legislatura será mais instável do que a anterior. Exigirá malabarismos extra de António Costa, que até tem demonstrado ser bom nisso. Esgotando-se o efeito surpresa da geringonça, conseguirá outra? A porta a um entendimento com Rui Rio parece estar fechada. Fará acordos pontuais, para assegurar a aprovação das suas medidas?

   Por último, gostaria ainda de manifestar a minha surpresa com a não eleição de uma histórica no parlamento, Heloísa Apolónia, vinte e alguns anos depois, e a não eleição de Santana Lopes, pelo Aliança, que julguei ser, dos pequenos partidos, aquele que mais condições tinha de figurar na nova composição parlamentar. Uma vez mais, os descontentes com o sistema a negar o mandato a um homem claramente do sistema. Uma palavra para a abstenção: o divórcio entre os portugueses e o sistema político já é uma realidade certa e, daí o meu medo, irreparável.

  Teremos um parlamento mais fragmentado, com maior representatividade de ideias para o país. Pela primeira vez desde 1975, nove forças partidárias estarão em confronto directo.