14 de outubro de 2026

Elecciones Generales 2026.


   Pensei “escrevo em castelhano, este post”. Pensei melhor. Não. Se não me passam cartolina em português, em castelhano nem pensar. Como em Portugal se dá muito destaque à política internacional, imagino que saibam que Pedro Sánchez antecipou as eleições legislativas -que em Espanha se chamam elecciones generales- na sequência de várias crises. Em primeiro lugar, suspeitas de corrupção na sua família mais directa, mulher e irmão. A crise habitacional foi um dos factores decisivos (segundo) e, por último, a invasão de Ceuta, a machadada final num governo desgastado. Aqui, ao contrário de Portugal, que é uma república, não é o Rei quem decide dissolver o parlamento. O Rei reina. Não desempenha nenhuma função executiva, nem tem poder formal. É o próprio Presidente del Gobierno (o equivalente ao Primeiro-Ministro) que pede a dissolução do parlamento, aqui chamado Cortes Generales, e convoca eleições.

    As sondagens -esses entes perversos- indicam que o Partido Popular (PP) deve ganhar. O VOX provavelmente aumentará bastante também, e com o PP terão maioria absoluta. Não se sabe ao certo se se coligariam. No poder local, há casos desses, mas sabemos que, quer em Espanha, quer em Portugal, o poder local rege-se por umas lógicas informais que escapam à rigidez dos alinhamentos ideológicos nacionais. O que parece quase garantido é que o actual partido do governo, o PSOE, será altamente penalizado.

     Da minha parte, votarei pela primeira vez como cidadão espanhol. Para mim, será um momento especial; para Espanha, quiçá um momento decisivo. O mais decisivo das últimas décadas.

5 de outubro de 2026

La bola negra.


   Ontem vi um filme belíssimo. Soube, por um amigo, que vai estrear em Portugal no próximo mês. É uma longa espanhola ambientada na Guerra Civil, realizada por dois homossexuais, Javier Calvo e Javier Ambrossi, que conta a estória de um parceiro de Federico García Lorca que é capturado pelos nacionalistas e mais tarde executado. À sua guarda fica o romance inacabado do poeta. Simultaneamente, vamos conhecendo a vida do neto de um dos soldados do bando de Franco, precisamente o que executa o companheiro de Lorca. 





  La bola negra é um filme intenso e doloroso que atravessa os horrores da guerra e da repressão, mostrando como a violência política e social também se inscreve nos corpos e nos desejos. O homoerotismo surge de forma crua e delicada, enquanto que a homossexualidade é retratada não apenas como uma questão de desejo, senão também de liberdade, medo, silêncio e sobrevivência. Uma obra profundamente marcada pela memória e pela violência de uma época em que amar alguém do mesmo sexo poderia significar viver clandestinamente, sob a ameaça constante da sociedade e da História.

26 de setembro de 2026

O toca-discos.


   Comprei um toca-discos, ou gira-discos. Nem sei como se diz. A última vez que usei um teria oito anos, antes da era dos CD. Era essa que me levou, algures por 1999/2000, a espetar com todos no lixo, procedimento do qual me arrependo muitíssimo. Eram outros tempos. Dávamos menos valor ao antigo, considerávamos os discos algo obsoleto. Não imaginávamos que trinta anos depois voltariam a estar na moda. Numa era totalmente digital, em que temos milhões de músicas nas plataformas de streaming, passámos a sentir falta de algo analógico, de um suporte físico; do prazer de comprar um disco, retirá-lo do envoltório, pô-lo a tocar e escutar com prazer até as pequenas imperfeições. Foi isso que me levou a comprar um toca-discos e meia dúzia de discos, entre os quais aqueles que no seu dia deitei fora. Só é pena que sejam extraordinariamente caros.




20 de setembro de 2026

A Odisseia.


    Queria ter ido ao cinema ver A Odisseia antes das férias. Acabei por não ir, porque entretanto tive outros afazeres. Agora julguei que já não estaria em cartaz, e sim que estava. Fui hoje, sem nenhuma expectativa, porque não gosto de mitologia. Quase que parece mal dizê-lo, não? É certo, não gosto, ou melhor, não é que não goste: não me desperta interesse. Fui pelo meu marido, que adora mitologia, e que me disse que lhe tinham contado que o filme era bastante bom. Fiz bem em dar-lhe ouvidos. Gostei imenso. São três horas que não se fazem longas. O filme mantém-nos em suspense até ao final. Queremos ver como é que aquilo vai terminar. Eu, que não sou exactamente um espectador de filmes de ficção, gostei da temática, talvez porque incide sobre episódios da mitologia clássica que todos conhecemos. O plus são os actores: Matt Damon, Robert Pattinson, Anne Hathaway, Zendaya, etc. Teve ainda, a meu ver, a contrapartida de aproximar as pessoas da epopeia clássica de Homero, numa sociedade ocidental cada vez mais estupidificada e rendida ao fugaz e à simplificação. 




   O regresso às origens, a quem somos e àquilo a que pertencemos, muitas vezes não se faz sem se percorrer um caminho sinuoso, feito de contratempos, perdas, traições e desafios inimagináveis.