Eu odeio ter obras em casa. Ninguém gostará, digo eu. Há gostos para tudo. Provavelmente haverá quem goste de conversar com os obreiros e de ver as melhorias na casa. Eu gosto da última parte. Todos queremos ver o nosso lar valorizado. No meu caso, o problema é que padeço de TOC (diagnosticado mesmo) e tenho aversão a ajuntamentos de pessoas naquilo que considero ser o meu espaço vital, isto é, a minha casa propriamente dita e o terreno que a circunda. Gera-me uma ansiedade descomunal. Junta-se ao medo de que me estraguem alguma coisa, a sensação de que não posso controlar o que fazem, a que se soma um desconforto por perturbarem a minha tranquilidade. Se eu pudesse, não fazia nada. Deixava tudo como está. Mas depois vês os vizinhos com as coisas feitas, e sofres; eu sofro, pelo menos, porque sou ligeiramente invejoso. Amanhã vou confessar-me pela primeira vez, antes da Primeira Comunhão e do Crisma, na sexta-feira. Confessarei estes pecados, e outros. Serei uma bicha santa e santificada. Amén.
3 de junho de 2026
27 de maio de 2026
Maus avós.
Não tive a sorte de ter uns bons avós, nem do lado materno, nem do paterno. Talvez tão-pouco tenha sido um bom neto. Isso não vem ao caso. O meu avô paterno era um homem particularmente mau: egoísta, grosseiro, mau-carácter. Quando eu tinha em torno de 14 ou 15 anos, disse-me algo que me marcou profundamente, uma das inúmeras barbaridades que ouvi da sua boca:
"A neta sim vai ser alguém na vida; tu não"
É crudelíssimo ouvir tais palavras de um adulto com o qual mantemos um vínculo familiar tão próximo, e numa idade difícil como o é a adolescência. Com o a neta, referia-se à minha prima. Éramos apenas dois netos, e há tantos avós com montes de netos que conseguem guardar amor por todos da mesma forma. No caso dos meus avós paternos, embora fôssemos apenas dois, o seu coração era tão pequeno que só conseguia albergar amor pela minha prima. Pela casa, havia fotos da minha prima em cada divisão, espalhadas por todo o lado, e nem uma única minha.
Sucede que o destino é curioso, e aqueles que tinham o dever de cuidar de nós e inclusive de saber mais que nós também se enganam. Hoje sou um tipo com uma vida muito confortável. Mesmo muito confortável. Mudei de país, tenho a minha casa e as minhas coisas. Conforto, dinheiro. E a neta é uma pelintra, miserável, que aos 38 anos vive com a mãe num dos piores subúrbios de Lisboa, Santo António dos Cavaleiros. Parece que o meu avô estava enganado, na sua ignorância, falta de tacto e de discernimento.
