13 de outubro de 2019

Amour.


   Amour é uma dolorosa perspectiva, de resto comum, do envelhecimento e da morte. Este filme lembrou-me instantaneamente dos meus avós paternos, e sobretudo da dedicação da minha avó ao meu avô, na doença, ao longe de catorze anos.

  Os silêncios, em Amour, fazem a diferença. Percebemos o estertor da morte a percorrer aqueles cómodos escuros, à medida em que as lembranças se avolumam e as despedidas se tornam inevitáveis. Na cena em que Anne folheia um velho álbum de fotografias, assistimos à antítese da vida nas suas palavras, quando a define, "bela e comprida". A morte não lhes bateu à porta, como o vizinho que traz as compras, ou a empregada de limpeza (protagonizada por Rita Blanco, curiosamente). Entrou de rompante, qual intrusa, apoderando-se de todos os momentos daquele apartamento espaçoso, requintando, que se torna palco de um definhar lento e gradual, profundamente desconfortável para o espectador.




    Facilmente perdemos a sequência às acções, como se a lógica cedesse se fundisse numa imagem estática: a de Anne, já morta, que nunca nos sai da cabeça. Esta alienação com a realidade e com a verdade da narrativa confere um carácter metafísico ao filme. É a morte que toma o tempo, que o torna lodoso e que nos faz entrar naquele microcosmos angustiante, vedado ao mundo, só perturbado na sua unidade com as visitas fugazes de uma filha. George, aliás, age com brusquidão às recomendações de Eva. Não. Aquele é o seu mundo, e cabe-lhe, ora com paciência, ora com impaciência, acompanhar a mulher no seu calvário.

  Esta longa é um retrato cru, sem sentimentalismos, impiedoso, da última etapa da vida humana, da degradação física e mental, da solidão, mas também do amor, do cuidado, do maior e mais difícil gesto do bem-querer, do auto-sacrifício, em juras que se cumprem até ao final. Um drama que nos comove e aterroriza, embora não saibamos bem o porquê. Talvez porque a realidade consiga ultrapassar a ficção, ou talvez porque aquela ficção é a realidade que não queríamos conhecer / ter.

   Resta acrescentar que vi Amour há dias, na vigésima amostra de cinema francês, o primeiro de vários filmes.

12 de outubro de 2019

Antígona.


   No passado sábado, dia 5, fui ver a peça Antígona, a mítica tragédia grega de Sófocles que remonta a cerca de 442 a.C. Esteve em exibição no Teatro Dona Maria II durante um mês, sensivelmente. Escolhi um dos últimos lugares disponíveis. Por acaso, consegui um à frente, na primeira fila. Estava quase tudo esgotadíssimo. Comprei-o pela internet.




   Antígona conta-nos a estória de uma moça, precisamente a que dá nome à peça, que decide dar um enterro digno ao irmão, incumprindo com a ordem do rei de Tebas, Creonte, que preferia deixá-lo à sua sorte, a ser comido pelos cães e pelos abutres. Ao tê-lo feito, incorreu na pena capital. É um verdadeiro tratado político. Trata dos limites do poder, da tirania, do sentimento de justiça que concorre com o da misericórdia, da obediência à lei injusta, da consciência individual e da existência de um direito natural que antecede os homens e a eles se sobrepõe. Não deixa de ser curioso que Sófocles coloque uma mulher a desrespeitar as leis da cidade, quando a Grécia era imune à moral judaica. Esta peça como que vem sacralizar a conduta de uma mulher que ousou  respeitar os seus princípios em detrimento da lei. Hoje em dia, seria encarada como uma exaltação feminista.




   Apesar de ter gostado, fui ligeiramente ao engano. Pensei que se ambientassem o mais possível ao tempo de Sófocles. Afinal, não. Imprimiram um tom moderno, praticamente neo-realista, o que me desagradou. Ver actores a interpretar personagens clássicas de ténis, botas, saias coloridas etc, a tocar guitarra e com um dançarino de black dance pelo meio, não me enche a vista. Senti amadorismo também nalgumas interpretações. Quer-se dizer, Sófocles não é para todos. É preciso ter envergadura para honrar uma peça clássica da história da dramaturgia com 2.500 anos.

   Como eu, sou levado a crer que muitos esperavam outra coisa. No final, não os ovacionei. Limitei-me a aplaudir. E não fui o único.

11 de outubro de 2019

Joker.


   Joker é um grandioso filme, pelo brilhante argumento e pela impressionante actuação de Joaquin Phoenix, que provavelmente se esforçou para arrecadar a estatueta de Melhor Actor na próxima edição dos Oscars. Temo que o efeito Jodie Foster o contagie. Às vezes, quando um actor dá tudo de si, sai-lhe o tiro pela culatra. Phoenix parece esforçar-se demasiado para impressionar.

  A produção soube extrair da interpretação de Phoenix toda a insanidade de um homem profundamente perturbado, vítima de maus-tratos e abusos vários - não só em criança -, que cresce com uma mãe paranóica. 

  O filme aborda realidades interessantes. Desde logo, identifico uma crítica clara a políticos populistas que se investem de uma moral que não têm. Por outro lado, aquele mundo da televisão, de glamour e fama, que tanto fascínio exerce em Arthur, é profundamente hipócrita e até desumano, não olhando a meios para atingir os fins, no caso, audiências, nem que para tal tenha de ridicularizar alguém em directo.




   Arthur é o espelho da infelicidade, que se transforma em frustração. Como ele diz a certa altura, nunca foi feliz "nem por um único segundo da vida". Essa infelicidade contida, em estados de nervosismo que degeneravam em ataques histéricos de riso descontrolado, encaminharam-no à prática de crueldades inimagináveis. O meu sentimento por aquela personagem oscila entre o encanto, a piedade e a repulsa, uma vez que não conseguimos ser indiferentes a todo o contexto familiar em que cresceu e viveu. O encanto advirá do seu lado artístico. Ele parece ter um qualquer talento inato para entreter.
   Quantos Arthurs não ajudamos nós a criar com a falta de empatia e a humilhação que infligimos nos outros? A alienação de Arthur Fleck tornou-se colectiva, numa cidade louca e revoltada contra a falta de princípios dos seus governantes. Era como se a dor que sentia se transportasse para cada um dos moradores de Gotham. O palhaço pobre que enfrenta os ricos e poderosos e que, como tal, vira herói e serve de inspiração a revoltas contra o poder instituído, numa clara alusão também ao descontentamento político que se vive nos EUA com a administração Trump. Thomas Wayne é claramente uma referência (in)discreta a Trump.

  É um filme extraordinário, com planos muitíssimo bem produzidos e uma iluminação, caracterização e fotografia de excelência.

10 de outubro de 2019

"O Império Invisível" e a Fotografia no Sião.


   Há dias, fui a uma exposição no Museu do Oriente, em Alcântara, antecedida por uma palestra do Dr. Miguel Castelo Branco, ambas acerca das relações seculares entre Portugal e o antigo Sião, actual Tailândia.

  Portugal nunca fundou qualquer feitoria no Sião. Nunca construiu qualquer fortificação. Estabeleceu, contudo, relações comerciais com o Reino do Sião no século XVI, que foi acolhendo comunidades portuguesas compostas também por missionários que desenvolviam a sua actividade religiosa naquelas paragens. Nessas comunidades, persistem laços fortíssimos com Portugal: a comunidade protuket, de pessoas que até hoje mantêm com orgulho os seus apelidos portugueses, um pouco modificados, é certo, porque muitos séculos se passaram, mas a afinidade com Portugal está lá. Recentemente, Dom Duarte Pio visitou-os e pôde testemunhar a ligação que os protuket têm com o nosso país. Empunharam bandeiras portuguesas e cartazes com os seus nomes familiares. Em Kudichin, sobrevive até aos nossos dias um "bairro" português.

   Aquelas populações sentem-se portuguesas. Não na acepção moderna, na de cidadãos do Estado Português. Claro que não o são. Sentem-se portuguesas na tradição, na religião, na memória colectiva dos seus antepassados, visto que naturalmente houve miscigenação. Não precisam de um carimbo de um oficial do registo civil que ateste a sua portugalidade. São-no porque o sentem. A língua portuguesa chegou a ser tão pujante que era utilizada entre a administração colonial francesa, mais tarde, e os nativos, isto quando não dominavam o idioma thai, melindrando as autoridades gaulesas, que tudo quanto queriam era impor o seu domínio imperialista naquelas terras. O português foi então proibido, mas subsistiu em casa, nas famílias, nas orações, nas inscrições dos túmulos, em suma, na tradição oral. Assim lhes chegou, assim resistiu aos franceses.


Recinto da exposição, no piso térreo. As fotos pertencem a uma colecção particular


    É uma pena que a maioria da população portuguesa ignore este legado tão forte que deixámos no Sudeste Asiático. Lembramo-nos de Goa, Damão e Diu, que chegaram até aos nossos dias, de Macau e Timor. A herança, porém, não se restringe às possessões que perdemos há menos de 60 anos. Há-a em Malaca, em Banguecoque, na ilha das Flores, e por aí fora. Sobra arquitectura, inclusive. A Igreja da Imaculada Conceição, na capital tailandesa, foi erguida pela comunidade portuguesa.

  A designação "império invisível" advém exactamente da ausência de qualquer entidade portuguesa administrativa estabelecida que obedecesse a ordens de Lisboa ou do Estado Português da Índia. Surgiu de assentamentos de velhos soldados, criminosos e aventureiros, que por lá se fixaram, mantendo a ligação espiritual, cultural e linguística a Portugal, o que ia muito além das meras relações comerciais, que quebram com o tempo e com o surgimento de outros actores na cena mercantil (ingleses, franceses, holandeses…).

A exposição pode ser vista até ao dia 24 do mês que vem. 


   O Sião haveria de empreender uma aproximação cultural ao Ocidente. Descendentes de portugueses com nativos alcançaram posições privilegiadas, não pelas suas origens, evidentemente, mas pela competência. Há, portanto, todo um legado que devemos exaltar e, sobretudo, dar a conhecer e não deixar morrer. O Estado Português deve, aqui, desempenhar um papel decisivo, promovendo contactos com aqueles povos, sempre no respeito pela soberania tailandesa, claro, e em coordenação com o seu governo.