8 de junho de 2026

A Primeira Comunhão e o Crisma Solene.

 

   Na sexta-feira passada (dia 5 de Junho), fiz a minha Primeira Comunhão e o Crisma, após oito meses de catequese. Não sei se cheguei a referi-lo aqui no blogue: eu fui baptizado com um ano e alguns meses de idade. Fizeram que o meu baptismo coincidisse com o casamento do irmão do meu pai, para organizar as festas juntas. Contudo, os meus pais não eram religiosos; se lhes perguntassem se acreditavam em Deus e na palavra do seu filho unigénito, Jesus, diriam que sim, porém, não frequentavam a igreja, não se confessavam, não iam à missa, não comungavam. Assim sendo, não frequentei a catequese. Fiquei com o primeiro sacramento, o do baptismo, que nos perdoa o pecado original, e nada mais. No ano passado, senti uma espécie de chamamento para terminar o que os adultos responsáveis por mim negligenciaram (neste caso, mais até do que os meus pais, os meus padrinhos, quem assumiram a responsabilidade, ante Deus, de me iniciar e seguir na vida religiosa). Os meus padrinhos de baptismo foram o irmão do meu pai e a sua mulher. Por curiosidade, tenho dois processos em tribunal contra o sujeito, e escrevi ao Vaticano para tentar removê-lo da minha certidão de baptismo.

   Comecei a frequentar a catequese da minha paróquia, aqui em Espanha, em Outubro do ano passado. Éramos poucos de início e menos ainda no final. Umas seis pessoas. De entre elas, eu era o único que não estava ali porque queria ser padrinho de baptismo, ou porque me queria casar, ou porque houvera feito uma promessa ao padre há vinte anos. Era o único que estava ali por fé. Achei que uma catequese ao mês era pouco, mas ainda assim melhor do que nada, e o suficiente para, em Junho, fazer a Primeira Comunhão e o Crisma Solene, o que ocorreu há três dias.



    Foi uma cerimónia bonita. Misturou adultos e jovens. Para a Igreja Católica, quem tem mais de sete anos já é considerado adulto para receber os sacramentos, porque tem idade suficiente para distinguir o bem do mal, portanto, havia ali jovens connosco, adolescentes. Eu fui o único a comungar pela primeira vez. A cerimónia começou às 20h e terminou cerca de 1h30 depois. Levei uma vela personalizada com o meu nome, em tons beige, os mesmos que escolhi para a roupa que vesti: umas calças chino, uma camisa branca, uma gravata em tons beige e um blazer da mesma tonalidade. Os sapatos, castanhos. Escolhi o meu marido como meu padrinho, afinal, se a Igreja não reconhece a nossa união, nada obsta a que possa ser meu padrinho. E assim foi: quando chegou a minha vez, aproximei-me do padre, que me ungiu a testa com um óleo, fez-me o sinal da cruz e abençoou-me. Mais tarde, fui o primeiro a comungar, e tomei o Corpo de Cristo embebido no cálice do seu sangue.

    Pode parecer desnecessário para muitos, para mais sendo eu um homem de quarenta anos, mas para mim foi importante. De certa forma, fazer estes sacramentos com esta idade tem um lado, a meu ver, bastante positivo: muitas vezes, as crianças fazem-no impelidas pela família, sem saber muito bem o que está a ocorrer ali; no meu caso, não. Recebi o Corpo de Cristo e a bênção especial do Crisma, ou seja, fortificando os laços com o Espírito Santo, totalmente consciente, no pleno uso da minha liberdade individual, esclarecido. Nunca é tarde para terminar o que não se terminou. Estamos sempre a tempo de fazer o que somos impelidos a fazer, o que queremos fazer, independentemente dos reveses da vida. E sinto-me muito bem por ter querido receber estes dois sacramentos. Deixo-vos uma foto do momento do Crisma.


3 de junho de 2026

Deus no céu e obras em casa.


   Eu odeio ter obras em casa. Ninguém gostará, digo eu. Há gostos para tudo. Provavelmente haverá quem goste de conversar com os obreiros e de ver as melhorias na casa. Eu gosto da última parte. Todos queremos ver o nosso lar valorizado. No meu caso, o problema é que padeço de TOC (diagnosticado mesmo) e tenho aversão a ajuntamentos de pessoas naquilo que considero ser o meu espaço vital, isto é, a minha casa propriamente dita e o terreno que a circunda. Gera-me uma ansiedade descomunal. Junta-se, ao medo de que me estraguem alguma coisa, a sensação de que não posso controlar o que fazem, a que se soma um desconforto por perturbarem a minha tranquilidade. Se eu pudesse, não fazia nada. Deixava tudo como está. Mas depois vês os vizinhos com as coisas feitas, e sofres; eu sofro, pelo menos, porque sou ligeiramente invejoso. Amanhã vou confessar-me pela primeira vez, antes da Primeira Comunhão e do Crisma, na sexta-feira. Confessarei estes pecados, e outros. Serei uma bicha santa e santificada. Amén.



27 de maio de 2026

Maus avós.

 

   Não tive a sorte de ter uns bons avós, nem do lado materno, nem do paterno. Talvez tão-pouco tenha sido um bom neto. Isso não vem ao caso. O meu avô paterno era um homem particularmente mau: egoísta, grosseiro, mau-carácter. Quando eu tinha em torno de 14 ou 15 anos, disse-me algo que me marcou profundamente, uma das inúmeras barbaridades que ouvi da sua boca:


"A neta sim vai ser alguém na vida; tu não"


   É crudelíssimo ouvir tais palavras de um adulto com o qual mantemos um vínculo familiar tão próximo, e numa idade difícil como o é a adolescência. Com o a neta, referia-se à minha prima. Éramos apenas dois netos, e há tantos avós com montes de netos que conseguem guardar amor por todos da mesma forma. No caso dos meus avós paternos, embora fôssemos apenas dois, o seu coração era tão pequeno que só conseguia albergar amor pela minha prima. Pela casa, havia fotos da minha prima em cada divisão, espalhadas por todo o lado, e nem uma única minha.

   Sucede que o destino é curioso, e aqueles que tinham o dever de cuidar de nós e inclusive de saber mais que nós também se enganam. Hoje sou um tipo com uma vida muito confortável. Mesmo muito confortável. Mudei de país, tenho a minha casa e as minhas coisas. Conforto, dinheiro. E a neta é uma pelintra, miserável, que aos 38 anos vive com a mãe num dos piores subúrbios de Lisboa, Santo António dos Cavaleiros. Parece que o meu avô estava enganado, na sua ignorância, falta de tacto e de discernimento.


26 de maio de 2026

Eu sou a inveja das bichas de Portugal.


   Tenho um marido, médico, que me ama e cuida de mim. Tenho um chalé com jardim e piscina. Tenho mais bens imóveis. Tenho dinheiro numa conta na Suíça. Farto-me de viajar, quer dentro de Espanha, quer no estrangeiro. Tenho dupla nacionalidade. Não preciso trabalhar. Vivo de rendimentos. Compro o que quero, quando quero. Sou ou não sou afortunado? Eu sou a inveja das bichas de Portugal.