20 de fevereiro de 2020

Da eutanásia.


   A eutanásia não é um tema recente na sociedade portuguesa. Volta e meia torna à ordem do dia. Foi-o assim com a interrupção voluntária da gravidez, com o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, com a regionalização. Há precisamente quatro anos, a 16 de Fevereiro de 2016, discutia-se este tema, e eu publiquei aqui no blogue uma análise pessoal e jurídica sobre a eutanásia. Remeto essas considerações para lá. Poderão consultá-la, querendo, aqui.

   Nesse sentido, falarei neste texto apenas de assuntos que não abordei naquele, ou que não explorei como queria. Mantenho-me, evidentemente, contra a eutanásia, talvez até num nível mais acentuado. Vi o debate e a votação no parlamento, hoje à tarde, e só tenho a lamentar que a Assembleia da República, que tem seguramente toda a legitimidade como casa da democracia e da representação popular, não tenha dado voz às pessoas para que se pudessem pronunciar sobre uma decisão que, longe de ser individual, afecta o entendimento geral que a sociedade portuguesa tem do valor absoluto que é a vida humana.

  Aplaudi a intervenção de Telmo Correia, do CDS, que me pareceu bastante sensata e que levantou problemas para os quais ainda não me havia dado conta, e fiz a minha vénia ao Partido Comunista que, malgrado tudo o que nos separa, soube colocar os imperativos éticos à frente das conveniências políticas, admitindo que o seu eleitorado seja maioritariamente favorável à eutanásia.

  A classe médica tem-se pronunciado contra a eutanásia, que aliás é a negação daquilo que a medicina deve ser. Viola as leges artis e todos os princípios que devem reger a conduta de um médico na relação com o doente.

    A votação descerá à especialidade, o que é irrelevante face a esta primeira votação e aprovação. A esperança de todos os que se opõem a esta cultura da morte reside na decisão do Presidente da República e na apreciação do Tribunal Constitucional, sendo-lhe submetido qualquer diploma em sede de fiscalização preventiva da constitucionalidade. A eutanásia viola, no meu entendimento, que faço fé de que seja o dos juízes-conselheiros, o carácter axiológico da nossa Constituição, que coloca a vida humana como o bem jurídico mais importante do nosso ordenamento.

18 de fevereiro de 2020

Bookslover.


   Na semana em que deambulei pela zona centro do país, não resisti a entrar nas livrarias dos monumentos - dizia-me um rapaz, há dias, que os livros eram muito caros nas livrarias dos monumentos. Pergunto: em que local do país os livros não são caros? A cultura, em Portugal, sempre foi um sector sujeito às maiores contenções e vicissitudes. Certamente se recordarão do governo (não me lembro se do PS ou do PSD, mas isso não vem ao caso) que prescindiu de um Ministério da Cultura… 


Os Históricos e Religiosos

Literatura e Ciência Política 


   Sucede que se proporcionava comprar os livros ali, naquele momento, e adiar só faria com que perdesse a oportunidade. Comprei dezassete volumes ao todo, entre Literatura (com Poesia), livros de História (com Biografia), Religião e Ciência Política. Ao certo, embora tenha guardado os recibos, não sei em que locais específicos comprei cada um; entretanto, uns foram adquiridos ainda em Lisboa, numa livraria do Príncipe Real, outros em Alcobaça e na Batalha; os religiosos, no Santuário de Fátima e, finalmente, alguns em Évora.

     Deixo-lhes os títulos e as fotos:

Literatura

Contemporânea:

- Amada Vida, de Alice Munro, das edições Relógio d'Água;

- Viagens, de Olga Tokarczuk, das edições Cavalo de Ferro;

Clássicos:

- Os Irmãos Karamazov (2 volumes), de Fiódor Dostoiévski, das edições Editora 34:

- Ilíada, de Homero, das edições Quetzal;

Poesia:

- Antologia da Poesia em Galego, de Ricardo Carvalho Calero (compilação), das edições Através Editora;

História

Biográficos:

- Salazar, de Filipe Ribeiro de Menezes, das edições Dom Quixote (LeYa);

- Henrique, O Navegador, de Peter Russel, das edições Livros Horizontes;

Históricos:

- História da Expansão e do Império Português, de João Paulo Oliveira e Costa (coordenador), João Damião Rodrigues e Pedro Aires de Oliveira, das edições Esfera dos Livros;

- História de Portugal, de Rui Ramos (coordenador), Bernardo Vasconcelos e Sousa e Nuno Gonçalo Monteiro, das edições Esfera dos Livros;

- Dois Países, Um Sistema A Monarquia Constitucional dos Braganças em Portugal e no Brasil (1822-1910), de Rui Ramos, José Murilo de Carvalho e Isabel Corrêa da Silva, das edições Dom Quixote (LeYa);

- Portugal Medievo & Os Filipes, de António Borges Coelho, das edições Caminho (LeYa);

Religião

- Lutero, Palavra e Fé, de Joaquim Carreira das Neves, das edições Editorial Presença

- O Projeto «Portugal» e a Relação Estado-Religião à Luz da Metáfora Conjugal, de Rui A. Costa Oliveira, das edições Paulinas Editora;

- Compêndio da Doutrina Social da Igreja, do Conselho Pontifício «Justiça e Paz», das edições Principia

Ciência Política

- Hegel e o Estado, de Franz Rosenzweig (tradução brasileira por Ricardo Timm de Souza), das edições Editora Perspectiva;


   Como se verifica, trata-se de um conjunto muito diversificado de temas e autores. Procurei, até porque a oferta não era muita, trazer o melhor, dentro daquilo que mais interesse me suscitava. 
     Terei muito com que me entreter pelos próximos meses….

14 de fevereiro de 2020

Dia 8 - Évora, Sé de Évora (Museu de Arte Sacra) e Igreja de São Francisco (Capela dos Ossos).


   Há anos que não estava no Alentejo. Com família em Estremoz, no distrito de Évora, desde 2004 que não voltava àquelas paragens. Em Évora, não estava desde muito antes. Ao tempo que queria voltar para, agora adulto, visitar tudo o que provavelmente vira e esquecera.


A mítica Praça do Giraldo


    A minha primeira impressão de Évora foi positiva, pelas ruas, pela arquitectura tradicional, com as ombreiras e os rodapés caiados a amarelo (ou azul), num traço distintivo da região, e pelas suas muralhas, conhecidas como Cerca Velha. Nas pessoas, já vi pouco Alentejo. Uma loja de quinquilharias que temos em cada esquina de Lisboa, e não refiro o nome para não fazer publicidade, e uma composição étnica que, não fosse a Praça do Giraldo, um marco eborense, me levaria a julgar estar na periferia da capital.


O pormenor dos capitéis 

Ei-lo, imponente 

   A primeira paragem, claro está, foi no Tempo Romano de Évora, durante séculos tido como dedicado à deusa Diana, quando afinal foi construído em honra de César Augusto, no século I d. C. É uma estrutura única em Portugal e, na península, dos exemplares melhor preservados do seu género.



A Sé de Évora

A vista de um dos seus terraços 

     As suas colunas parecem tão frágeis. É impressionante como aquela estrutura tem resistido a tudo, ao tempo, aos terramotos, à invasão árabe da península e ao descaso com o seu valor histórico e arquitectónico. E ali está, incólume, fazendo as delícias dos turistas nacionais e não só. Os seus capiteis, da ordem coríntia, com alguns totalmente preservados, são uma preciosidade.


O claustro 

Pormenor da Sé

   A Sé de Évora foi a segunda visita. Com o templo e todo o centro histórico da cidade, é património da humanidade desde 1986. De seu nome Basílica Sé de Nossa Senhora da Conceição, a sua construção atravessou os séculos XII e XIII. Foi concluída em 1250. Nos centénios seguintes, particularmente nos séculos XVI e XVIII, a Sé passou por melhoramentos e enriquecimentos que alteraram relativamente a sua constituição. Podemos subir aos terraços, no piso superior, acessíveis através de uma estreita escadaria em caracol. Destacaria ainda o seu órgão de tubos renascentista, maravilhoso.


Santo Lenho - Relicário com um fragmento da Cruz de Cristo 

Escultura de Santo António de Lisboa (vestido de menino de coro)


    Não imaginava que a Sé albergasse um Museu de Arte Sacra fabuloso, com um espólio riquíssimo, com destaque na cruz-relicário do Santo Lenho, que se acredita conter fragmentos da cruz em que Nosso Senhor foi executado às ordens de Pôncio Pilatos. Santa Helena, mãe de Constantino I, reuniu os pedaços da cruz no século IV, que se espalharam pelo mundo cristão, finalmente.


«Nós ossos que cá estamos, pelos vossos esperamos»

A Igreja de São Francisco
     
     Vista a Sé e comprado um pequeno recuerdo, rumámos à Igreja de São Francisco. Naturalmente, o principal atractivo da edificação medieval jaz na famosa Capela dos Ossos. Do convento inicial, do século XIII, que acolheu os primeiros franciscanos vindos da Galiza, pouco resta. A igreja começou a ser construída no século XV, no reinado de Dom Afonso V, e foi concluída já nos anos de Dom Manuel I. No século XVI, os monges levantaram a capela dos ossos, inteiramente decorada com ossos, e cuja inscrição podemos ler à entrada: «Nós ossos que aqui estamos, pelos vossos esperamos». O espaço assinala o carácter efémero e transitório da existência humana. Simultaneamente, Portugal perdia a sua soberania. Direi eu que a construção da capela não tenha sido indiferente a esse período de penumbra. Na visita, convém não esquecer o Núcleo Museológico da Igreja de São Francisco, que já vimos en passant, visto estarmos perto da hora de encerramento.


A bela Évora, revelando diante dos nossos olhos 


     Com a extinção das ordens religiosas, nos tempos de Joaquim António de Aguiar, o convento e a igreja entraram num lento estado de declínio. Em finais do século XIX e sobretudo em 2014-2015, todo o complexo passou por um processo de recuperação e reabilitação, que hoje pode ser apreciado.

     Antes de voltarmos a Lisboa, passámos num café e devorámos duas tostas mistas com chocolate quente de sabor - que desconhecia. Na capital, jantámos no não menos famoso Méson Andaluz. De entrada, gambas al ajillo e pimentos de padrón. Esta última iguaria, galega. Reza o ditado que «uns pican e outros nom». De refeição, uma maravilhosa paella sevillana.


“Uns pican e outros nom”

Al ajillo, ¡y que buenas estaban!

¡Olé!
     Terminava assim uma semana concorrida, com passeios diários. Na próxima publicação, falarei dos livros que comprei nas livrarias dos monumentos.

Todas as fotos foram captadas com o meu iPhone ou com a minha câmara Canon. Uso sob permissão.

12 de fevereiro de 2020

Dia 7 - Santuário de Fátima e Centro Histórico de Ourém.


    Teria uns nove, dez anos. A minha (bis)avó pedira-me um rosário em Fátima, e lembro-me de lho levar. Vinha dentro de uma caixinha de plástico, sobreposto num pequeno pedaço de algodão cor-de-rosa. Agora, na loja do Santuário, os artigos são vendidos em massa. Os rosários estão dispostos verticalmente. Enfiam-nos dentro de um pedaço de papel, inserimos a nota na ranhura e o troco sai. Um negócio, ao fim e ao cabo. Evidentemente que não foi a pequena escultura de Maria feita em série e os dois rosários que comprei o que me levou a Fátima.

A Capelinha das Aparições 

Pormenor da Basílica

    Quis regressar ao Santuário para ver o que sentiria. Estava pouca gente no recinto e na basílica. Infelizmente, senti o consumismo, desde logo, e a coabitação pacífica entre a fé, por um lado, e o turismo, pelo outro. Vivem em sintonia. Um não perturba o outro. Pelo menos foi a sensação com que fiquei. Estive na Capelinha das Aparições, à hora da missa, e na basílica. Nesta, defronte dos túmulos dos três primos, Lúcia, Jacinta e Francisco (e não Francisca e Jacinto, como por vezes me engano). Não me demorei muito em Fátima (aliás, na Cova da Iria, que Fátima propriamente dita fica bem mais afastada, e soube-o na direcção a Ourém, através do taxista).


A Basílica de Nossa Senhora do Rosário

    À saída do Santuário, apanhámos um táxi e fizemos os cerca de 12/15 quilómetros que nos levaram até ao centro histórico de Ourém, ou Cidade Velha, que em si é um núcleo museológico a céu aberto. Se forem tão-somente pelo castelo, lamento dizer-lhes que está em restauro. Verão apenas as antigas muralhas com andaimes. É uma estrutura defensiva mui antiga, já existente no século XII, que, segundo uma simpática moradora que conhecemos na Galeria Medieval da antiga Casa da Câmara, precisava realmente de obras.


Um “museu” a céu aberto

Jardim Dom João Pereira Venâncio

     As ruelas parecem conduzir-nos a um lugarejo do interior do país. São quase (ou são) caminhos de animais. Um lugar verdejante, com uma bonita fonte num discreto jardim.


Torre do Castelo Medieval de Ourém 
     
    A Igreja Matriz será logo o primeiro monumento com que nos deparamos. É bonita, efectivamente, mas a sua relíquia está uns degraus abaixo: a cripta com o túmulo do 4º Conde de Ourém.


Cripta do 4° Conde de Ourém 


    Como a fome chamava por nós, prescindimos da famosa ginjinha, é certo, mas deliciámo-nos com umas tostas-mistas (que só pecaram pelo diminuto tamanho) num espaço pitoresco do centro histórico. Seria, aliás, o queijo que marcaria o percurso gastronómico do dia, que à noite optámos por algumas pizzas na Pizzaria Lisboa de José Avillez, já na capital.

No mínimo, um espaço original 

Divina, com a massa fininha, mesmo como gosto (e como devem ser confeccionadas...)

     No derradeiro dia, domingo, o Alentejo.

Todas as fotos foram captadas com o meu iPhone ou a minha câmara Canon. Uso sob permissão.