Os problemas de saúde mental foram, durante décadas, negligenciados pela sociedade, em geral, e inclusivamente pela medicina, em particular. Como se fossem algo menor. Só recentemente, nas últimas décadas, começámos a entender os problemas de saúde mental como uma faceta mais do bem-estar de qualquer indivíduo; que, quando existem, devem ser tratados, acompanhados. Quem não se lembra do tempo em que literalmente nos metiam um género de picador de gelo no lobo frontal para destruir conexões cerebrais e, assim, tornar-nos mais “calmos”? Chamava-se lobotomia, hoje em dia está considerada um dos períodos mais negros da história da medicina, e curiosamente foi desenvolvida por um português.
Eu padeço deste há muitos anos a esta parte de problemas de saúde mental. Durante anos, demasiados anos, sem qualquer tipo de acompanhamento ou medicação. Já há uns sete, seis anos, comecei a fazer medicação para controlar determinada sintomatologia, nomeadamente as minhas mudanças de humor e, na altura, uma agressividade derivada em grande parte da minha frustração com situações em concreto pelas quais passava naquele momento. Essa medicação supôs uma enorme alteração para mim, na medida em que fiquei mais calmo e com o humor mais estabilizado. Psicoterapia não faço porque não sinto essa necessidade. Frequentei alguns psicólogos e até psiquiatras e não senti que beneficiasse dessas sessões. Coisa distinta é a medicação, que de facto me é essencial para conseguir manter o mínimo de normalidade e tranquilidade.
As causas deste meu quadro de saúde mental são por mim conhecidas: disfuncionalidade familiar, discriminação que começou numa idade precoce e componente genética. Digamos que se juntaram todos os factores. As minhas avós, de ambas as partes, não eram exactamente um modelo de estabilidade mental; já os meus pais herdaram algumas características, e por inerência eu também.
