Venho desejar-vos uma Feliz Páscoa. Vou ali e já volto. O meu marido conseguiu três dias livres nesta Semana Santa e vamos aproveitá-los para ir aqui ao lado, a Salamanca, onde nunca estive. Bem, fisicamente estive, há muitos anos, mas não fui em turismo. Isso agora não interessa nada… Estou entusiasmado porque é uma cidade, diz-se, linda e monumental, e nesta época do ano mais, com as procissões. Comam muitos ovinhos e amêndoas, mas não se esqueçam de Deus Nosso Senhor!
1 de abril de 2026
30 de março de 2026
Ser espanhol.
Dentro da União Europeia há livre circulação de pessoas. Isso, a priori, confere a qualquer cidadão comunitário o direito a residir noutro país da União. Porém, e verão como é assim um dia que tentem morar noutro país da UE, não é um direito absoluto; terão de demonstrar que têm meios de subsistência e um seguro de saúde, caso contrário não vos dão o certificado de cidadão da União Europeia. Bom, eu obtive-o imediatamente ao ter-me casado com um cidadão espanhol. E fiquei assim um tempo. Depois, passado um ano de nos termos casado, pedi a nacionalidade espanhola por casamento. Foi-me concedida em 9 meses. Mas também não é um “presente”. Tive de fazer um exame de castelhano, escrito e oral, e outro exame de conhecimentos sociais e políticos de Espanha. Depois é juntar a papelada toda -antecedentes penais, policiais etc etc etc- e enviar. E chegou, já há uns anos. Passei a ser cidadão espanhol, com passaporte espanhol. Nem utilizo mais o cartão do cidadão português, que, ao ser espanhol, aqui perde o valor legal. Está metido numa gaveta, nem sei onde.
É uma coisa que mexe connosco. Mudamos de amigos, de marido / mulher, de casa, até de país, mas de nacionalidade é esquisito. Eu não deixei de ser português. Até voto nas eleições. Mas passei a ser mais espanhol do que português, não só porque sou cidadão espanhol como também porque vivo aqui. Portugal começa a ser uma realidade familiar, contudo, distante. Não me sinto em casa quando vou a Portugal. A minha casa é aqui, a minha família está aqui (marido e animais). Isto de ser espanhol, de deixar de me ver como português, ou exclusivamente português, é que custa um pouco a associar. E sobretudo espanhol. Aprendemos a ver os espanhóis como “os outros”, principalmente pelo processo histórico, pelos séculos de guerras e inimizades Portugal x Espanha, e de repente tu pertences “aos outros”.
27 de março de 2026
Noelia Castillo Ramos.
Gostaria que fixassem este nome, nem que fosse por apenas alguns breves momentos. Noelia Castillo Ramos foi uma rapariga que nasceu há 25 anos no seio de uma família disfuncional - como eu. Foi institucionalizada. O Estado assumiu o dever de a proteger. Falhou. Noelia, mais tarde, foi abusada sexualmente por vários jovens. Nunca se fez justiça. Em 2022, não aguentando o sofrimento mental -padecia, como eu, de transtorno da personalidade limite e transtorno obsessivo compulsivo-, atirou-se de um quinto andar. Ficou paraplégica e com dores físicas permanentes. Entrou na justiça pedindo o direito a morrer dignamente, o direito à eutanásia por sofrimento físico e mental. Foi avaliada por mais de trinta especialistas, entre psicólogos, psiquiatras e juristas. Os pais, que no seu dia não a protegeram, opuseram-se à eutanásia. O pai opôs-se por vias legais, tentando até ao último momento que a justiça impedisse Noelia de morrer dignamente, como quis. Ontem, cumpriu-se a sua vontade, e Noelia pode, finalmente, descansar em paz.
26 de março de 2026
A masculinidade tóxica entre os gays.
Não é novidade para os mais atentos que há uma masculinidade tóxica entre os gays, desde logo quando a maioria tem de desempenhar papéis claramente heteronormativos: o famoso activo e passivo. Os que fazem ambos são os versáteis. Tudo muito bem até aqui quando as pessoas, de forma consciente e livre, aceitam essas categorias e se identificam com elas. Não se identificando, aí começam os problemas. Por que razão assumimos que um rapaz tem de ser passivo, activo ou mesmo versátil? E se não quiser ser nenhum? O sexo anal é assim tão relevante numa relação, tão indispensável? Tenho as minhas dúvidas. O sexo é muito mais do que a penetração, e é seguramente muito mais do que o sexo anal.
Dentro dessa masculinidade tóxica, há um preconceito bastante visível com o homossexual dito passivo. Muitos gays orgulham-se de dizer que são activos, de que os outros pensem que o são, quando frequentemente nem o são. E isso está relacionado à masculinidade tóxica que que envenena não só a sociedade, como um todo, mas também a dita comunidade gay. Repetimos os estigmas heteronormativos, de que o homem é o macho, o dominador, quem manda (o activo), enquanto que o passivo está numa posição inferior, porque recebe, associado à fêmea e à debilidade. Já era assim em Roma, quando o papel passivo era estigmatizado. Julgamos -mal- que a homossexualidade era aceite na Antiguidade Clássica. Convém esclarecer: o papel activo não era socialmente censurável, porque o passivo sim que o era, e hoje em dia continua a sê-lo. Quando, no fundo, para haver activos tem de haver passivos, e não raras vezes a maioria desempenha ambos os papéis. E eu estou à vontade para falar sobre isto, porque não existe qualquer reflexo pessoal nas minhas palavras: não sou passivo, nem sou activo, e nem o sexo anal é algo de que goste. Apenas sou alguém que não vive numa redoma de vidro e que tem consciência social. Seria mais fácil se as pessoas se limitassem apenas a ser, a ser o que gostam.
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