10 de novembro de 2019

O galego e o português são a mesma língua?


   Na terça-feira, dia 5, participei de uma palestra na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) da Universidade Nova de Lisboa. Em rigor, tratou-se da apresentação de um novo livro do linguista português Marco Neves, O galego e o português são a mesma língua?, um excelente pretexto para juntar um grupo simpático a discutir a situação sócio-linguística actual da Galiza, que como se sabe é delicada. Moderada por Gabriel André (se é que se pode falar de moderação), galego, contou com as intervenções de Carlos Calhão, também galego, conhecido nos circuitos reintegracionistas, além do autor do livro.

  Eu, à semelhança dos restantes presentes, pude intervir, e fi-lo sobretudo porque não consigo dissociar a questão linguística da política. Pedi licença e introduzi esse elemento, dando uma achega acerca daquele que me parece ser o caminho único possível à Galiza para escapar à aniquilação total da sua cultura e língua: a independência e a emancipação em relação a Madrid.

   Engoli em seco quando Calhão referiu, a determinado momento, que em pequeno comentava à irmã: "Vamos a hablar bien". Na sua cidade, o galego era falado pela totalidade da população. No presente momento, já não o é nas camadas mais jovens. Recentemente, o governo autonómico promoveu a substituição do galego pelo castelhano num desenho-animado dirigido às crianças de mais tenra idade. Qual o objectivo? Parece claro: gradualmente, homogeneizar linguisticamente a Galiza, assimilando-a através de um dos poucos instrumentos que a distinguem de Leão, Castela e das demais regiões da Espanha castelhana: o galego. Remetendo o idioma autóctone a um papel secundário, associando-o à velhice, à exclusão, à ruralidade, incute nos jovens a vergonha pelo seu falar. Não surpreende, no processo, que Calhão tenha crescido com esse preconceito.

   Achei por bem apontar culpas ainda à Xunta da Galicia e à Real Academia Galega, que acabam por compactuar com o governo central: a primeira, com medidas que visam a substituição progressiva do galego; a segunda, procurando aproximar o mais possível o galego da ortografia castelhana e afastando-o, simultaneamente, do português, idioma que deveria ser a verdadeira referência para qualquer norma oficial do galego.


Foto da palestra / apresentação. Sou o rapaz do meio, na primeira fila

   Na Galiza, como Calhão relatou, anos após a transición e já no quadro constitucional actual, escritores foram perseguidos, porque o reintegracionismo, e dentro dele o lusismo, é perigoso. Despertar uma consciência nacional na Galiza já seria terrível para o Estado espanhol; ancorá-la em Portugal, pior ainda.
   A perseguição a quem fala galego não terminou com o fim do franquismo, regime no qual usar qualquer das línguas minoritárias espanholas equivalia a ser preso, torturado, condenado sem garantias de um julgamento justo e equitativo. Livros eram queimados. Um verdadeiro Index, meras décadas atrás. A realidade mudou apenas na aparência e nos métodos. O preconceito e a perseguição continuam lá, porém, assumindo "vestes mais decentes". Calhão, nos inúmeros processos judiciais em que foi parte, teve de pedir vezes sem conta para que o intimassem em galego, que a prática judicial na Galiza é de o fazer em castelhano.

  A realidade galega é-nos próxima geograficamente e distante socialmente. Por lá, há quem lute para poder estudar no seu idioma materno, para poder educar os seus filhos no seu idioma materno, para poder receber informação no seu idioma materno ou aceder a serviços no seu idioma materno. Escrevi "idioma materno" quatro vezes. Não o fiz por acaso. A luta dos galegos pode ser política, mas muitas vezes é-o apenas no domínio do idioma. Estaria tentado a dizer que muitos tão-pouco se importariam de permanecer no Estado espanhol se houvesse garantias reais de protecção do galego, de estímulo ao seu uso pela população. Acontece que o idioma, que é uma arma dos galegos contra o Estado central, também tem sido uma arma de Madrid contra os povos de Espanha. Através do castelhano, procedeu-se a uma política linguicida, uniformizadora.

   Esta luta galega não nos deve ser indiferente. Nós, portugueses, aprendemos a reagir contra Espanha e a negar tudo o que venha de lá. Compreensivelmente. A nossa identidade nacional foi contruída por oposição àquela realidade política. Entretanto, não nos podemos esquecer de que num recanto do que hoje é parte do Estado espanhol nasceu a língua portuguesa, na antiga Gallaecia, que englobava o norte. Virar costas à Galiza será o mesmo que cometer matricídio.

   Felizmente, para nosso bem, tímidos passos vão sendo dados no sentido de uma cada vez maior aproximação entre galegos e portugueses. Da mesma forma que o preconceito e a perseguição não terminaram, apenas se refinaram, também hoje dispomos de meios humanos e tecnológicos que nos permitem trocar ideias e informações. Que nos permitem o que ali se fez naquela sala: conversar, questionar, estimular. Permitir que todos formem uma opinião fundamentada sobre o reintegracionismo, apoiando-o ou rejeitando-o. Galegos e portugueses, nos seus dialectos, com os seus sotaques. Num mesmo idioma. Com um mesmo propósito.

8 de novembro de 2019

A Rainy Day in New York.


   As perguntas que se impõem são as seguintes: como é que um filme ambientado numa Nova Iorque chuvosa e romântica pode desapontar? Como é que uma suite luxuosa com vista sobre Central Park, uma bebida num piano-bar ou um passeio de charrete nos podem aborrecer? Woody Allen foi matreiro, pois jogou com os nossos sentimentos mais primários: a necessidade de amar e ser amados, e soube fazê-lo bem, com um argumento que eu diria, vá, leve, que deixa que os actores possam brilhar sem os esmagar com preocupações excessivas. É uma narrativa pensada para extrair os olhares, as poses, os sorrisos, os estados d'alma. Um filme que se detém nas personagens, em detrimento da densidade do argumento, e personagens todas elas muito jovens, acompanhando as idades dos actores. Entretanto, Allen explora os problemas de afirmação num mundo hermético e elitista como o é aquele da família de Gatsby, com um toque de paixão e erotismo na introdução de uma figura mundana (e profana…): a prostituta, que transpira sensualidade.





  A par da fotografia e dos pormenores da iluminação, que o tornam quase nostálgico e antigo, sofisticado, e complementam o tom romântico, quanto às interpretações tenho alguns reparos a fazer: Timothée Chalamet é um promissor actor da sua geração, mas eu, no seu lugar, tenderia a fugir dos papéis de menino de classe alta, meio dandy, uma vez que é um registo no qual ele vem reincidindo, e isso pode amolgar a sua versatilidade. Vemo-lo como Henrique V no novo filme da Netflix, The King, o que é bom. Elle Fanning sobrepôs "adequadamente" à sua beleza cândida e infantil aquela máscara de loira despistada e até espalhafatosa. Selena Gomez pareceu-me artificial e pouco à vontade.

   Acima de tudo, e sabendo que este filme não agradará a quem espera muito mais de Woody Allen, o realizador quis tão-somente ambientar outro dos seus filmes na amada Nova Iorque, escolhendo desta vez os amores inconsequentes e irreflectidos daquela idade em que já não se é adolescente e nem bem adulto. A cidade que nunca dorme e as comédias românticas não são uma novidade em si. Claro está que não é uma obra-prima, mas é um filme engraçado, que se vê bem sobretudo acompanhado e, se possível, com a cabeça recostada num ombro.

6 de novembro de 2019

Cem anos de Sophia (1919-2004)



Pudesse eu não ter laços 
nem limites

Ó vida de mil faces 
transbordantes

Para poder responder 
aos teus convites

Suspensos na surpresa 
dos instantes.



in Poesia (1944)


   Por tudo aquilo que o seu labor poético trouxe a Portugal, particularmente na nossa história recente, política e literária, Sophia é um dos poucos nomes inigualáveis e incontornáveis. O mar, sempre presente na sua poesia, simbolizava a liberdade, a sua e a dos portugueses; a liberdade em que acreditava e pela qual se bateu sempre.

5 de novembro de 2019

Não sei se não será uma bênção para todos nós.


  Joacine Katar Moreira protagonizou, com outros actores da vida política, uma mudança na casa da nossa democracia. O parlamento tem mais partidos, mais sensibilidades, e tem pela primeira vez uma deputada portadora de uma deficiência que a tornou conhecida. Joacine sofre de uma perturbação da fluência, vulgo gaguez, numa forma particularmente grave que a prejudica sobremodo na expressão oral, na capacidade de se comunicar e fazer entender. Eu pude ouvir a sua primeira intervenção no parlamento, e aquele momento foi doloroso de se assistir.

   Se a deputada se vale do seu problema para se fazer eleger,  não sei. Não tivemos parlamentares que fizeram campanha com a família? Nos EUA, é comuníssimo que os políticos e o eleitorado se valham de características pessoais, profissionais, familiares na vida pública e política. Se foi a estratégia de Joacine, os meus parabéns. Conseguiu-o. O que mais me incomoda nesta senhora nada tem a ver com a sua gaguez, a sua alegada vitimização, os proveitos que tira dela ou, eventualmente, como vem sendo acusada, de exagerar, ou seja, de representar, de tornar o seu "problema de expressão" pior do que ele é. O que me incomoda é o seu discurso perigoso, extremista, manipulador. Historiadora de formação, Joacine sabe bem que a História não tem uma única face. Tem várias. Sabe bem que o que nos deve importar é o rigor científico. E sabe também que não devemos ser juízes de um passado que não vivemos. 

  Joacine, que tanto clama contra a campanha de ódio dirigida a si, é ela própria um agente de propagação de ódio ao querer criar uma cisão na sociedade portuguesa entre aqueles que ela considera os bons, os seus, as tais minorias, e os maus, os homens brancos, masculinos, que ela atira para um mesmo saco. Quem não está com ela, é contra ela. Não, eu não quero que Joacine ponha o seu lugar à disposição. Eu sei que quando não quero ler uma notícia, não a leio. Quando não quero ouvir alguém na televisão, mudo de canal. Quando não quero ser confrontado com determinado conteúdo nas redes sociais, bloqueio. 

  Joacine é mais do que uma deputada. É a porta-voz de uma ideologia e um programa político claro: diabolizar os portugueses, Portugal, a nossa história, o nosso passado. Vai fazer questão de nos lembrar permanentemente de quem fomos, do que fizemos, procurando talvez que nos penitenciemos. Será quase uma inquisidora, de instrumento de tortura nas mãos, neste caso as redes sociais, sempre disposta a acusar e atacar. Os problemas dos portugueses e do país não lhe importam. Importam-lhe, qual segregacionista, os problemas das minorias que protege e às quais dá cobertura. Nesse sentido, não sei se a sua gaguez não será uma bênção para todos nós.