5 de abril de 2026

Salamanca.


   Como vos disse na publicação anterior, eu estive em Salamanca em 2005. Foi como se não tivesse estado. Além de estar muito doente naqueles anos (de uma doença que na altura nem sabia que tinha), não fui em turismo. Estive lá porque os meus pais foram visitar uma pessoa do nosso conhecimento, que estava a passar por um momento difícil. A viagem foi muito pouco edificante. Assunto encerrado.


A cidade desde o alto das torres velhas da catedral


    Falemos destes dias, em que agora posso dizer que sim, conheci Salamanca. Uma cidade lindíssima. Das mais bonitas que vi. Monumental, com duas catedrais imponentes. As universidades, que também visitei, uma delas uma das mais antigas do mundo (hermanada, curiosamente, com a de Coimbra). O centro histórico muitíssimo bem cuidado. Adorei os dois dias que estive lá. Aproveitámo-los bem. Com um detalhe: fomos na Semana Santa. A Semana Santa de Salamanca está considerada um evento de interesse internacional. Havia milhares de pessoas nas ruas para acompanhar as várias procissões (também vimos muitas). Uma atmosfera fantástica numa cidade que transpira história e cultura. Adorei conhecer a(s) universidade(s) por dentro, subir às torres da Pontifícia, às torres velhas da catedral; poder ter umas vistas privilegiadas desde o alto. Com um plus: sendo Sexta-Feira Santa, a priori as catedrais estariam fechadas para turismo, mas conseguimos aproveitar alguns momentos entre os actos litúrgicos para as visitar. 


A Universidade Pontifícia e a Casa das Conchas


   Creio que se nota o entusiasmo nas minhas palavras, porque realmente Salamanca surpreendeu-me imensamente. Não esperava algo tão magnânimo. Estivemos algo menos de 48h (porque o meu marido tem plantão neste Domingo de Páscoa), mas posso-vos dizer que, como aqui se diz, “le hemos dado caña”. Não ficou nada por ver, nada entre o emblemático e o imprescindível. Deixo-vos algumas fotos.

1 de abril de 2026

Feliz Páscoa.


   Venho desejar-vos uma Feliz Páscoa. Vou ali e já volto. O meu marido conseguiu três dias livres nesta Semana Santa e vamos aproveitá-los para ir aqui ao lado, a Salamanca, onde nunca estive. Bem, fisicamente estive, há muitos anos, mas não fui em turismo. Isso agora não interessa nada… Estou entusiasmado porque é uma cidade, diz-se, linda e monumental, e nesta época do ano mais, com as procissões. Comam muitos ovinhos e amêndoas, mas não se esqueçam de Deus Nosso Senhor!



30 de março de 2026

Ser espanhol.


   Dentro da União Europeia há livre circulação de pessoas. Isso, a priori, confere a qualquer cidadão comunitário o direito a residir noutro país da União. Porém, e verão como é assim um dia que tentem morar noutro país da UE, não é um direito absoluto; terão de demonstrar que têm meios de subsistência e um seguro de saúde, caso contrário não vos dão o certificado de cidadão da União Europeia. Bom, eu obtive-o imediatamente ao ter-me casado com um cidadão espanhol. E fiquei assim um tempo. Depois, passado um ano de nos termos casado, pedi a nacionalidade espanhola por casamento. Foi-me concedida em 9 meses. Mas também não é um “presente”. Tive de fazer um exame de castelhano, escrito e oral, e outro exame de conhecimentos sociais e políticos de Espanha. Depois é juntar a papelada toda -antecedentes penais, policiais etc etc etc- e enviar. E chegou, já há uns anos. Passei a ser cidadão espanhol, com passaporte espanhol. Nem utilizo mais o cartão do cidadão português, que, ao ser espanhol, aqui perde o valor legal. Está metido numa gaveta, nem sei onde.

    É uma coisa que mexe connosco. Mudamos de amigos, de marido / mulher, de casa, até de país, mas de nacionalidade é esquisito. Eu não deixei de ser português. Até voto nas eleições. Mas passei a ser mais espanhol do que português, não só porque sou cidadão espanhol como também porque vivo aqui. Portugal começa a ser uma realidade familiar, contudo, distante. Não me sinto em casa quando vou a Portugal. A minha casa é aqui, a minha família está aqui (marido e animais). Isto de ser espanhol, de deixar de me ver como português, ou exclusivamente português, é que custa um pouco a associar. E sobretudo espanhol. Aprendemos a ver os espanhóis como “os outros”, principalmente pelo processo histórico, pelos séculos de guerras e inimizades Portugal x Espanha, e de repente tu pertences “aos outros”. 

27 de março de 2026

Noelia Castillo Ramos.


   Gostaria que fixassem este nome, nem que fosse por apenas alguns breves momentos. Noelia Castillo Ramos foi uma rapariga que nasceu há 25 anos no seio de uma família disfuncional - como eu. Foi institucionalizada. O Estado assumiu o dever de a proteger. Falhou. Noelia, mais tarde, foi abusada sexualmente por vários jovens. Nunca se fez justiça. Em 2022, não aguentando o sofrimento mental -padecia, como eu, de transtorno da personalidade limite e transtorno obsessivo compulsivo-, atirou-se de um quinto andar. Ficou paraplégica e com dores físicas permanentes. Entrou na justiça pedindo o direito a morrer dignamente, o direito à eutanásia por sofrimento físico e mental. Foi avaliada por mais de trinta especialistas, entre psicólogos, psiquiatras e juristas. Os pais, que no seu dia não a protegeram, opuseram-se à eutanásia. O pai opôs-se por vias legais, tentando até ao último momento que a justiça impedisse Noelia de morrer dignamente, como quis. Ontem, cumpriu-se a sua vontade, e Noelia pode, finalmente, descansar em paz.