16 de março de 2026

O(s) armário(s).


   Há gays que vivem no armário, há gays que vivem no fundo de um baú. Há gays que vivem num armário com portas de vidro, em que se vê tudo lá para dentro. E há gays, finalmente, que nasceram fora do armário, e viveram sempre fora dele. Eu, por exemplo. 

  Antes mesmo de saber o que era ser homossexual, heterossexual, fosse lá o que fosse, já era discriminado socialmente, na rua e na escola, porque os demais intuíam a minha sexualidade apenas pela forma livre e espontânea com que me expressava: uma delicadeza nos modos, uma feminilidade, o que lhe quiserem chamar. É, o mundo é um lugar muito mau.

13 de março de 2026

Cozinhar.


   Adoro cozinhar. Detesto lavar a louça e arrumar a cozinha. Mas cozinhar realmente é uma actividade que me dá prazer, e tenho bastante jeito. A minha mãe cozinhava muito bem. Já a sua mãe, minha avó, também, e a minha tia, irmã da minha mãe, o mesmo. E eu cozinho sem receitas. Os ingredientes vão todos a olho, como se costuma dizer, excepto se se trata de algum prato mais elaborado ou que não tenha por hábito fazer tanto. Eu faço bacalhau de várias formas (com natas, à bràs, à gomes de sá), lasanha, arroz de pato, carne no forno, peixe, sopa, tudo. Só não me aventuro na doçaria, embora há uns anos tenha feito uma tarta de queijo deliciosa. Passo-vos algumas fotos.


Arroz de pato

Entrecosto no forno 

Feijoada à brasileira 

Francesinha à moda do Porto

Bacalhau à Brás

12 de março de 2026

Quatro anos.


   Mãe, passaram-se quatro anos. Demasiado tempo sem te ouvir, sem te ver, apesar de estares sempre presente no meu pensamento. Não há um único momento do dia sem que me lembre de ti.

    A nossa relação esteve marcada por altos e baixos. Não foi perfeita. Assim mesmo, eu creio que nenhuma relação onde haja amor é perfeita, porque quem se quer briga, discute, bem-quer, tudo em simultâneo. E a nossa relação era assim, imperfeita, como nós também o fomos, tu como mãe e eu como filho.

   A tua memória é assim, imperfeita. Por vezes uma saudade imensa, outra vezes uma revolta. Foste a mãe que soubeste ser, disso não tenho qualquer dúvida, o que não te redime dos erros, alguns graves, como bem sabes. A mãe que pudeste ser, digo-o para mim, num género de mantra.

    A verdade que fica, impoluta, é esta: amo-te.

11 de março de 2026

Vera Lagoa (1917-1996).


  Vera Lagoa foi o nome pelo qual ficou conhecida a jornalista Maria Armanda Falcão. Vera criou e dirigiu o jornal O Diabo desde 1976 até à sua morte. Figura incontornável do jornalismo português das últimas décadas do século passado, Vera foi uma mulher de personalidade fortíssima. O seu activismo começou cedo, quando o pai, um militar de carreira, oposicionista ao Estado Novo, foi deportado para a Madeira e depois para Cabo Verde. Oficialmente, Vera Lagoa não tinha mais do que a antiga quarta classe.

  Fez inimizades com políticos, e tinha amigos fiéis. Ramalho Eanes e Pinto Balsemão foram dois dos seus alvos. Sobre o primeiro, escreveu um livro em 1980, “Eanes nunca mais!”, e foi a primeira pessoa a ser processada por um Presidente da República. Condenada a pagar uma indemnização ao antigo Chefe de Estado, chegou a dizer, sobre o assunto: “É muito feio viver-se às custas duma mulher”.




     Dizia que os comunistas eram os heróis do seu tempo, mas após o 25 de Abril tornou-se anti-comunista primária, nas suas palavras. Conotada com a extrema-direita, definia-se independente, nem de esquerda, nem de direita, porque nenhuma lhe interessava.

    Vera Lagoa morreu de ataque cardíaco em 1996, na decorrência de doença cardíaca provocada por quatro atentados à bomba de que sofreu, designadamente um no seu jornal O Sol, reivindicado por forças terroristas de extrema-esquerda operacionais na década de 80. É uma mulher que, além de me suscitar admiração, me intriga e fascina.