14 de junho de 2021

Bullying e abusos, a minha experiência.


    Cada vez mais são os que denunciam, nas redes sociais, episódios de violência, ou bullying, como lhe chamam actualmente. Quase todos os que fugimos ao padrão comum da normalidade, da apregoada normalidade, sofremos agressões verbais, físicas, emocionais, psicológicas. No meu tempo, que não foi assim há tanto (cresci nos anos 90 e 00), não havia um nome para o fenómeno, ao menos em Portugal. Éramos maricas, para usar um termo mais “simpático”. A solidariedade era pouca ou nenhuma.

    Eu, como quase todos os homossexuais, sofri abusos. Fui vítima de bullying durante anos a fio, quer na escola, quer onde morava. Era alvo de comentários, piadas e chacotas praticamente desde que entrava no colégio até que saía. Tinha, e tenho, um lado feminino que sobressai, e de que sempre me orgulhei, mas que na altura me tornava facilmente detectável. Não andava atrás das meninas, a quem via como amigas, não me interessava pelo desporto, não era viril, e por aí fora. Recordo-me apenas de uma ou duas situações em que alguém me defendeu, precisamente uma moça guineense, a Edna. Ironia.

   Esses anos de sofrimento, de que à época não me dava conta, moldaram-me o carácter. Hoje falo abertamente do assunto, mas durante muito tempo preferi negar que existira, embora sabendo que o que sou passa mutíssimo por aquilo tudo. Claro está que, à hora de se tirar ilações sobre a personalidade e a conduta de outrem, ninguém procura saber, ou pensa sequer, no que estará por detrás de tal comportamento. Sem subterfúgios, a pessoa má, egoísta, desconfiada, com falta de empatia pelos demais, excessivamente voltada sobre si vem de um processo gradual e inconsciente de afastamento do meu eu face aos outros. Excluí-me da sociedade, não através da adopção de comportamentos criminosos, senão em procurar socializar o menos possível. Eu não sei conviver com pessoas, não gosto de conviver. O meu mundo reduz-se a um núcleo mui restrito de gente que me quer bem e me aceita como sou e à minha personalidade antissocial.

   Felizmente para todos, os comportamentos abusivos e os seus autores estão progressivamente mais isolados. Hoje fala-se das agressões, temos as redes sociais (que ajudam às denúncias) e grupos e pessoas especializadas no acompanhamento das vítimas. Naquele tempo... naquele tempo nada havia. Apenas as quatro paredes onde recalcávamos tantas dores.

10 de junho de 2021

Euro 2020.


   O campeonato de futebol de selecções da Europa está prestes a começar, no dia 11, com o primeiro jogo, e como sabeis, os que me acompanhais, eu sou um verdadeiro fanático -digo-o sem pejo- destes torneios internacionais de futebol. Sigo atentamente los partidos, como dizem aqui em Espanha, todos, ou pelo menos procuro vê-los a todos. 

   Apesar de estar longe de Portugal, a minha mãe é cliente de uma operadora de prestação de serviços de televisão que oferece a possibilidade de podermos visualizar os canais através de uma aplicação que instalei no meu telemóvel, ou seja, trocando por miúdos, posso ver a televisão portuguesa como se estivesse em Portugal, e isso inclui os canais de desporto (porque a minha mãe os tem subscritos, pagando por eles).

    Este ano, pela primeira vez, terei duas selecções. Sendo sincero, o coração bate sempre por Portugal, mas torcer por Espanha aumenta substancialmente a possibilidade de poder comemorar a vitória final. Duas selecções, o dobro de chances de ganhar a grande final de Wembley, no dia 11 de Julho (cinco dias antes de embarcar no aeroporto de Santiago de Compostela rumo a...). Um mês em que me manterei ocupado. Isso também me ajudará a controlar a ansiedade diante das férias.

    Adquiri a revista oficial (chamam-lhe libro, embora seja uma revista de 120 páginas) da UEFA, com todas as informações necessárias, pertinentes, sobre as selecções em competição, os estádios, os jogadores e um calendário para que possamos anotar os resultados dos confrontos. Nada de novo. É o que faço em todos os europeus e mundiais. Comprei um cachecol oficial da selecção espanhola, e o português, que a minha mãe me comprou em 2006, por ocasião do campeonato do mundo daquele ano, que já tem quinze anos, foi-me enviado pelos correios. Estarei bem apetrechado, portanto.




    O campeonato da Europa de selecções comemora o seu sexagésimo aniversário. A bem dizer, foi no ano passado, no entanto, devido à conjuntura sanitária, a UEFA viu-se obrigada a adiar o torneio para data posterior, daí que este ano a competição mantenha o ano transacto na sua denominação, Euro 2020. Num inédito, os jogos serão disputados em várias cidades do continente. Não teremos, portanto, um ou dois países anfitriões.

    No jogo de preparação de Portugal de ontem frente a Israel, vi uma equipa coesa, disposta a lutar pela renovação do título. A fase de grupos que tocou a Portugal por sorteio não é favas contadas: Hungria, França e Alemanha. Nesta edição do Euro, à semelhança do que ocorreu em 2016, também passam os melhores terceiros lugares de cada grupo. Apenas um desastre afastaria Portugal da competição antes dos oitavos-de-final. A Hungria, sendo manifestamente a selecção mais fraca do grupo em que também está Portugal, provavelmente não oferecerá tantas dificuldades à equipa das quinas. Temo pelo desempenho de Portugal no jogo inaugural. Nem sempre entramos com o pé direito.

   Não direi “que ganhe o melhor”, mas sim que ganhem Portugal ou a Espanha, os meus países de nascimento e acolhimento, respectivamente. E rode a bola!

7 de junho de 2021

La Casa de los Espíritus.


   He terminado en este momento el libro que me ocupó las últimas semanas. Obra más conocida de Isabel Allende, La Casa de los Espíritus es una ficción ambientada aparentemente en el Chile del siglo XX, lo que incluye los períodos de democracia y dictadura, después del golpe del general Pinochet. El nombre del país y los nombres de los protagonistas políticos jamás son mencionados, pero suponemos que Allende se refiere a Chile.

  Hay un misticismo que acompaña la existencia de Clara, un personaje decisivo en la narrativa, principal protagonista de la obra. Clara, con su capacidad visionaria, contacta con los espíritus e imprime a la historia su carácter realista mágico y fantasioso.

  Allende hizo un abordaje al Chile de aquellos tempos, e identifiqué semejanzas de fondo con el libro que leí antes de este en la crítica social y política. La Casa de los Espíritus es un cuento de desigualdad social e injusticia, menosprecio y violencia, supremacismo y subyugación, con fragmentos de excentricidad.

  El encuadramiento político y social es imprescindible para sustentar la narrativa. La fortuna de Esteban Trueba tiene su origen en la explotación de los nativos en el pasado, aunque él haya trabajado para rehacerla después de la pérdida provocada por una mala gestión. Lo mismo se puede decir de los sufrimientos por los que han pasado Pedro Tercero García, Jaime, Amanda, Alba o incluso Esteban García, producto de la violación, del rencor. Como Allende ha explicado en el final, hay una sucesión de “eslabones” en una cadena de hechos. Allende, a mi parecer, no se apoderó del destino de sus personajes. El tiempo, y este libro atraviesa prácticamente un siglo, construye y merma a los malos, da a los buenos su puesto de héroes, pero sorprendentemente, quizás por haber sido escrito en 1981, no nos da esperanza.

6 de junho de 2021

HIV/SIDA, 40 anos.


   Foi há exactos quarenta anos, a 5 de Junho de 1981, que o governo dos E.U.A através do boletim MMWR (Morbidity and Mortality Weekly Report) informava os seus cidadãos e o mundo de que cinco pacientes, dois deles entretantos falecidos, haviam sido internados com uma variante rara de pneumonia, a pneumocystis jirovecii, que afectava sobretudo doentes imunodeprimidos. No final do mesmo mês, dado o avanço progressivo e rápido no número de casos, o CDC (Centre for Disease Control and Prevention), entidade responsável pelo estudo de controlo e prevenção de doenças, avançava com uma profunda investigação tendo em vista a descoberta do potencial vírus que estaria por detrás das misteriosas infecções. Como sabemos, somente em 1983 se isolou o HIV, primeiramente em França e de seguida nos Estados Unidos. 

   Os primeiros casos visaram homossexuais e usuários de drogas intravenosas, porém, não demorou muito para que a comunidade científica percebesse que qualquer um poderia ser infectado, incluindo crianças que nasciam de mães seropositivas. Passámos inicialmente da doença dos homossexuais (Gay-related immune deficiency) para a doença dos 4H (homossexuais, hemofílicos, haitianos -comunidade fortemente afectada- e heroínomanos (consumidores de heroína intravenosa). Actualmente, a expressão grupos de risco é rejeitada, por inexacta e incorrecta, e foi substituída por comportamentos de risco: qualquer um se pode contagiar ou contagiar terceiros se não adoptar determinadas medidas de protecção sobejamente conhecidas.

   Avançou-se gradualmente com o surgimento dos primeiros medicamentos que atrasavam a replicação do vírus. Primeiro o AZT, em 1987, ineficaz, até ao primeiro cocktail de drogas, em 1996, que contudo não permitia uma qualidade de vida digna e acarretava, devido às sequelas físicas, um estigma social que isolava os seropositivos, não lhes permitindo trabalhar ou conviver, tamanha a discriminação e a ignorância que existia acerca do HIV e das suas formas de transmissão. Vinte e cinco anos depois, conseguimos que o vírus fique indetectável numa análise sanguínea; reduzimos o número de medicamentos diários e grande parte dos efeitos secundários.

    Desde 1981 a 2021, morreram 35 milhões de pessoas vítimas da acção do HIV, que não é uma doença nem provoca uma doença. É um vírus que destrói os linfócitos CD4, responsáveis pela defesa do nosso corpo frente a infecções oportunistas. Quando essas defesas estão de tal forma comprometidas que já nos encontramos altamente expostos a uma dessas infecções, diz-se que estamos no estágio SIDA, que tão-pouco é uma doença, mas uma síndrome, como o nome indica, ou uma condição, que sem tratamento acarretará a morte por uma qualquer infecção que sobrevenha e que o nosso organismo se veja incapaz de combater.

  A esperança de vida dos seropositivos, com uma detecção precoce do vírus e a toma diária e responsável dos antiretrovirais, ronda os 50 anos após o diagnóstico. Uma vitória da ciência sobre um vírus que, pelas suas mutações, nos tem trocado as voltas no objectivo de se conseguir uma vacina eficaz. Hoje como antes, a palavra mágica passa pela prevenção.