Quando penso que hoje cumpro 40 anos, sinto um misto de sentimentos. Por um lado, certo orgulho. Não é uma idade longeva, não, e menos ainda no século XXI, mas para uma pessoa que sempre foi enfermiça, desde criança, é um logro. Por outro lado, penso nas pessoas que já não estão, e que nesta data me davam sempre os parabéns: a mãe, o pai, a avó paterna. Cheguei aqui também devido aos cuidados deles, e da minha bisavó Palmira, que perdi mais atrás. Sinto ainda uma responsabilidade qualquer que não sei definir muito bem o que é: ter quarenta anos implica determinado comportamento que não sei se estou preparado para dar. Começo a ser um senhor. Não um senhor de idade. Isso será mais à frente, se lá chegar. Apenas um senhor. Para quem foi toda a vida um miúdo, um rapaz, um jovem, é uma nova fase, uma nova forma de olhar para mim, para quem sou.
Não sei o que me espera nesta década. Irei tentar vivê-la da melhor forma, com a família que tenho, que se resume ao meu marido. A minha vida tem sido assim, e creio que já o disse: um período de estagnação, um terramoto, seguido de outro período de estagnação e de outro terramoto. Com extinções em massa. A última levou toda a família que conheci durante a minha existência. Há dez anos, eu era uma pessoa, uma pessoa que não existe mais. Nada resta daquele (ainda) rapaz de trinta anos: nem o entorno, nem a casa, nem as dinâmicas. Nada. Essa dúvida sobre o que virá existe sempre, porque a maior parte das pessoas tem uma linha de continuidade nas suas vidas. Eu não.
Não adianta antecipar o que desconheço. E entro assim, na ternura dos quarenta, que espero realmente que seja terna e calma. Necessito.
