29 de fevereiro de 2024

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   Soube deste filme belga através de uma publicação no Instagram, e despertou-me a curiosidade, sobretudo pela cena que vi, dum miúdo a chorar, sendo que o fazia com tanta maestria e convicção que me levou a pesquisar acerca. Foi aí que tomei conhecimento de que abordava a relação de amizade entre dois rapazes que acabavam de entrar para o secundário. A relação de ambos era marcada por muito carinho, ternura, olhares e atitudes cúmplices, se bem que a nenhum momento nos é dado a entender que fossem namorados. Eram amigos. O realizador quis trocar-nos as voltas com as típicas relações de amizade entre rapazes, nas quais não há lugar a carinho, a fragilidade, a ternura. São relações muitas vezes de disputa de força, de afirmação de egos. Os homens ainda têm dificuldade em demonstrar fraqueza, em chorar, e neste filme eles choram, eles são meigos uns com os outros. Sabemos que na vida real não é assim. É normal vermos um miúdo a deitar a cabeça no colo de outro mesmo que não sejam namorados? 





     Em relação ao filme em si, a fotografia é lindíssima. Vemos as planícies coloridas pelos tons das flores. Um dos rapazes, o Léo, ajuda os pais, nos tempos livres, numa indústria que parece estar relacionada com o comércio de flores. 

     É uma estória triste, solitária, comovedora, que põe os homens em situações de fragilidade a que não estamos habituados. Desconstrói o machismo e a masculinidade. As interpretações são bastante boas. O filme esteve inclusive nomeado para, entre vários prémios, o Oscar de melhor filme estrangeiro.

23 de fevereiro de 2024

Da avó de Mortágua aos filhos de Tavares.


   A política é uma actividade suja, de confronto, de traições. Todos os actos eleitorais são marcados por episódios novelescos que nada têm que ver com política e pouco interessam aos cidadãos. Neste que agora se avizinha, já os há também. Não são novidade - quem não se lembra, algures por 2005, quando Santana Lopes disse que José Sócrates preferia “outros colos”, aludindo a uma suposta homossexualidade do socialista?

    Quando entrei em Direito, em 2010, no dia em que fiz a matrícula havia, no átrio da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, várias banquinhas, como as de feira, das diversas forças políticas, procurando seduzir-nos, ao caloiros, com a filiação neste ou naquele partido. Eu ignorei, rejeitando o conselho do meu pai que me dizia para me meter na política, que tinha o “futuro garantido”. Oportunismo, talvez; realidade, certamente. A política, muito mais do que a defesa do melhor para a colectividade, é um trampolim pessoal. Vale mais do que um curso superior.

    A desilusão não é de agora; acentuou-se agora. Não votarei em branco porque não confio, mas é a vontade que tenho. O boletim está ali, à espera que o ponha no correio e o envie para Portugal. A cruz lá irá, meio a contragosto. É um acto automático, sem nenhum valor, sem nenhuma crença, nem no futuro de Portugal e ainda menos, muito menos, nos políticos.

20 de fevereiro de 2024

Debate PS-AD.


    Ontem, finalmente, numa emissão tripartida entre RTP, SIC e TVI, deu-se o embate final entre o Partido Socialista, através do seu secretário-geral, Pedro Nuno Santos, e a coligação Aliança Democrática, na pessoa do presidente do Partido Social Democrata, Luís Montenegro. Embora o que esteja em causa seja a eleição dos nossos deputados (e, a propósito, recebi hoje, por correio, o meu voto - que voto, ainda que viva no estrangeiro), assistimos desde há muito àquilo a que um saudoso professor de Direito Constitucional que tive, o Prof. Paulo Otero, chamava de “eleições para se escolher um primeiro-ministro”. Por isso, ontem pudemos ver o debate entre um dos que será o nosso futuro líder do Governo.

     Luís Montenegro começou mal. Pedro Nuno Santos esteve mais combativo, mais “agressivo”, e conquanto estivesse, aparentemente, em posição de desvantagem, uma vez que não só se apresenta como líder de um partido desgastado por 9 anos de governação como ele próprio pertenceu a esse governo, conseguiu ganhar o debate. A determinado momento, Nuno Santos alertou para o facto de Montenegro não ter convidado Passos Coelho para o acompanhar, ao que Montenegro respondeu algo como: “Nem você chamou o Sócrates”. Interessante comparação. (risos) Passos Coelho deve ter ficado muito lisonjeado.

    Pedro Nuno Santos, segundo se dizia, vinha numa espiral de maus resultados nos debates, e, pelo contrário, Luís Montenegro vinha-se afirmando, mas ontem sucedeu o inverso. Logo ao início, Nuno Santos disse claramente que não aceitaria negociar sob coacção, porque tivemos a circunstância inédita e surrealista de ter uma manifestação de polícias à porta do local do debate. Eu não vejo assim tanto perigo para a democracia como se apregoou. Estou com os polícias nesta questão. Acho que são profissionais mal estimados, mal remunerados e profundamente cansados de tanta tareia dos sucessivos governos. Todavia, Nuno Santos aí teve uma posição de firmeza, e reiterou-a ao longo do debate. Montenegro esquivava-se às perguntas, atropelava o adversário, não respeitava os moderadores, foi nitidamente beneficiado com o tempo do cronómetro e tem, isso já numa apreciação pessoal minha, um sorriso arrogante que me deixa agoniado. Pedro Nuno Santos foi mais claro nas contas, mais assertivo, mais sereno e mais responsável no debate, defendendo-se quanto ao que fez e ao que pretende fazer. Falou-se dos temas já habituais nos debates (SNS, habitação, economia, saúde, emprego), com ambos a reafirmar o que vêm dizendo nestes debates. 

      Restam-nos dois debates: um hoje, dos partidos sem assento parlamentar, e outro, o último, no dia 23, onde estarão todos os partidos com assento parlamentar. Não sei se os analise, uma vez que o primeiro é manifestamente desinteressante e o segundo será uma repetição de tudo quanto tem sido dito nesta maratona de 30 debates que vi, vi todos. E também verei os que faltam. Outra coisa é que escreva sobre eles. Já verei.

19 de fevereiro de 2024

Debates AD-IL e BE-PAN.


    Estes dois debates foram os penúltimos do modelo 1 a 1. Hoje, mais logo, teremos o grande duelo entre PS e PSD, mas foquemo-nos por ora nos embates entre PSD (ou AD) e Iniciativa Liberal: bom, na verdade, foi um namoro ao postigo. O noivado foi assumido. Só não sabemos se dará em casamento. Montenegro reiterou que quis ir em coligação com a IL, que recusou, entretanto, os programas eleitorais da Aliança Democrática e da Iniciativa Liberal são totalmente compatíveis e negociáveis -como os próprios fizeram questão de assumir-, designadamente numa maior intervenção privada no sector da saúde; depois, quanto à baixa do IRC. Discordaram na privatização da Caixa Geral de Depósitos, que a IL defende e o PSD não. Ficámos a saber que, caso necessário, unirão forças no dia 11 de Março.

   O confronto entre Mariana Mortágua (BE) e Inês Sousa Real (PAN) foi mais aguerrido. Mortágua, mais uma vez, confrontou o PAN com a indefinição ideológica; mais, acusou o partido de se ter coligado nas ilhas com uma formação que integra o PPM de Gonçalo da Câmara Pereira, isto é, quis Mortágua passar a mensagem de que o PAN se coliga com qualquer um. Depois, na Madeira, acusou o PAN de se aliar ao governo regional que em nada respeita o ambiente devido às suas políticas ambíguas na área da construção. Inês Sousa Real, por sua vez, é um género de metralhadora: repete uma e outra vez as mesmas ideias -já perdi a conta à quantidade de vezes que disse que o PAN é o único partido de deputada única que mais conquistas conseguiu em termos de projectos de lei aprovados. Sousa Real, nestes debates, como creio que referi noutra ocasião, perdeu o norte. Pouco fala de animais, e sabemos que o seu eleitorado é composto sobretudo por animalistas urbanos. De vez em quando lá se lembra de dizer a palavra animais, só naquela… Querem acudir a todas as frentes, e assim não se destacam entre o seu eleitorado-base. O BE foi para o debate com uma intenção de poder roubar votos ao PAN, e creio que o propósito foi conseguido, pelo menos em teoria.

   Gostaria apenas de destacar um pormenor que me parece interessante: acho curioso que uma líder de um partido animalista se apresente num debate com uns sapatos padrão-tigre.