26 de março de 2026

A masculinidade tóxica entre os gays.


   Não é novidade para os mais atentos que há uma masculinidade tóxica entre os gays, desde logo quando a maioria tem de desempenhar papéis claramente heteronormativos: o famoso activo e passivo. Os que fazem ambos são os versáteis. Tudo muito bem até aqui quando as pessoas, de forma consciente e livre, aceitam essas categorias e se identificam com elas. Não se identificando, aí começam os problemas. Por que razão assumimos que um rapaz tem de ser passivo, activo ou mesmo versátil? E se não quiser ser nenhum? O sexo anal é assim tão relevante numa relação, tão indispensável? Tenho as minhas dúvidas. O sexo é muito mais do que a penetração, e é seguramente muito mais do que o sexo anal.

    Dentro dessa masculinidade tóxica, há um preconceito bastante visível com o homossexual dito passivo. Muitos gays orgulham-se de dizer que são activos, de que os outros pensem que o são, quando frequentemente nem o são. E isso está relacionado à masculinidade tóxica que que envenena não só a sociedade, como um todo, mas também a dita comunidade gay. Repetimos os estigmas heteronormativos, de que o homem é o macho, o dominador, quem manda (o activo), enquanto que o passivo está numa posição inferior, porque recebe, associado à fêmea e à debilidade. Já era assim em Roma, quando o papel passivo era estigmatizado. Julgamos -mal- que a homossexualidade era aceite na Antiguidade Clássica. Convém esclarecer: o papel activo não era socialmente censurável, porque o passivo sim que o era, e hoje em dia continua a sê-lo. Quando, no fundo, para haver activos tem de haver passivos, e não raras vezes a maioria desempenha ambos os papéis. E eu estou à vontade para falar sobre isto, porque não existe qualquer reflexo pessoal nas minhas palavras: não sou passivo, nem sou activo, e nem o sexo anal é algo de que goste. Apenas sou alguém que não vive numa redoma de vidro e que tem consciência social. Seria mais fácil se as pessoas se limitassem apenas a ser, a ser o que gostam.


25 de março de 2026

As pessoas podem ser muito más.


   A minha mãe faleceu em 2022, numa unidade de cuidados paliativos. O seu companheiro de dezasseis anos faleceu cinco dias antes. Daquelas coincidências terríveis. Eu já vivia em Espanha. Aproveitando-se desse facto, de eu estar longe e de a minha mãe estar nos últimos dias, os filhos do companheiro dela, sujeitos que nunca conheci, entraram dentro do apartamento e começaram a furtar-me objectos. Não me furtaram nada de valor, porque boa parte das minhas coisas, felizmente, não estava naquele apartamento, mas sim num armazém, devidamente guardadas. No apartamento, no quarto onde eu dormia, havia as minhas roupas, CDs, alguns objectos de infância que gostava de ter comigo, o meu computador e livros. Eu vim para Espanha sem nada, para passar uma ou duas semanas. Acabei por ficar, inesperadamente. Comprei roupa nova, outro computador, etc.

      Quando, por fim, a minha mãe faleceu, já tinham dado início ao espólio. Aliás, começou quando faleceu o pai deles. Não perderam tempo. Assim que soube que o homem tinha morrido, e já antevendo a situação, lá consegui o número dessa gente e expliquei-lhes a situação: que me guardassem as coisas, que em poucos dias iria a Portugal buscar tudo. No dia marcado, tinha todas as minhas coisas, e as da minha mãe, nas escadas do prédio, como se fossem lixo. Tudo espalhado. Um cenário inimaginável. A minha mãe morrera apenas sete dias antes. Eu estava de luto e com tudo o que era nosso assim. Voltei a Espanha, com uma carrinha e os meus pertences (entretanto passei pelo armazém e trouxe o que quis; deixei o que não quis). Quando comecei a ordenar as minhas coisas e as da minha mãe, dou por falta de objectos. Objectos sem nenhum valor económico, e sim sentimental: uma almofada do Vitinho, um candeeiro de bebé, uma Super Nintendo Mini (que não tinha valor sentimental), entre outras coisas. Livros não, claro. Até me enviaram a mais: alguns que eram do pai.




  Dou muito valor aos meus objectos de infância, sobretudo. A tudo o que tenho, modo geral, mas sobretudo àqueles que estão directamente relacionados com essa fase da minha vida. E posso dizer que tenho cerca de 70% de tudo o que alguma vez foi meu desde que nasci. É significativo em alguém com 40 anos. Relativamente àquilo que me furtaram ou que desapareceu com tantas mudanças (quer as que fiz em Portugal, quer as que fiz em Espanha, que foram duas), tenho procurado comprar, a privados, artigos iguais ou semelhantes, entre os quais figuram os da foto que vos deixo. Isto a propósito das minhas caixas de CDs. Não uso CDs. Entretanto, dei por falta de alguns. Ainda hoje, quatro anos depois daquele terror que vivi, vou-me dando conta de objectos que foram ficando para trás.

23 de março de 2026

Só dês um livro a quem o mereça.


   Eu adoro comprar livros. Lê-los, evidentemente, mas comprá-los, mesmo que demore anos a pegar neles, é algo que não posso evitar. Recentemente soube que isto tem um nome qualquer, e que não é necessariamente mau, ou seja, não é um mero vício; digamos que vou comprando livros cujos temas me interessam. É como estabelecer uma espécie de baliza mental; de biblioteca dos meus gostos. Não é acumular. Os livros nunca são demais.



   Esta introdução para dizer que, às vezes, quero livros antigos e descatalogados, que compro a privados através de plataformas como o OLX ou alfarrabistas. O último que comprei foi um sobre Portugal e Castela na Idade Média. Frequentemente, encontro dedicatórias dentro dos livros. Uma recente levou-me a pensar: o que levará alguém a desfazer-se de um livro que lhe foi dado com carinho, mesmo que esse carinho tenha deixado de existir? Afinal de contas, existiu num determinado momento no tempo. E um livro é um presente tão especial, que fico sempre com aquela ideia de que quem dá um livro tem verdadeiro afecto. Por isso, nunca dês um livro a alguém que desconfies que é capaz de se desfazer dele, vendendo-o a outrem que depois o põe à venda numa plataforma qualquer. Um livro é amor, é testemunho de amor, e isso deve ficar, mesmo que o resto já não esteja.


20 de março de 2026

A mudança de género antes da maioridade.


   Mais do que uma questão de convicções políticas, aqui está em causa uma questão de maturidade e de auto conhecimento. Não me parece que um miúdo ou uma miúda de 12, 13, 14 anos, e por aí em diante, tenha essas capacidades em grau suficiente para decidir sobre algo definitivo e irreversível, e dou o meu caso como exemplo, o que me leva a ter alguma autoridade sobre o assunto, de certo modo: eu era bastante feminino na infância e adolescência (hoje sou menos), e cheguei a crer, quando tinha 12 anos, que era transexual, sobretudo após conhecer o caso da Roberta Close, que ali em torno do final dos anos 90 foi bastante comentado em Portugal. Se naquele momento eu tivesse optado por mudar de sexo/género, com terapias hormonais, ter-me-ia arrependido, porque hoje em dia sinto-me plenamente um homem. Teria arruinado tudo. Isto é lógico. A adolescência é um período em que crescemos física e mentalmente, e esse tipo de decisões não podem ser tomadas num período tão frágil, tão inconstante, tão volátil. Eu só lamento que haja uma esquerda absolutamente cega que põe os seus interesses políticos e ideológicos à frente do interesse daqueles jovens. Que façam o que quiserem quando tiverem maturidade para isso.