10 de setembro de 2020

Kafka à beira-mar.

 

   Antes de viajar para Portugal de férias, dei por terminada a leitura de mais uma saga de Haruki Murakami, Kafka à beira-mar, que me ocupou por alguns dias. Este livro é o segundo do autor que leio, depois de, no ano passado, ter terminado O Impiedoso País das Maravilhas e o Fim do Mundo, que me vi necessariamente obrigado a conjugar com leituras jurídicas visto estar em época de exames. Este ano, não foi o caso.

   Kafka à beira-mar, à semelhança da obra que lera de Murakami, aborda estórias entrecruzadas, no universo surrealista que envolve o emaranhado de relações que se estabelecem nos seus romances. Desta feita, temos um jovem de quinze anos que foge de casa, afligido por um complexo de Édipo mal-ultrapassado, e um velho que sabe falar com gatos antropomorfizados. O que os une, nunca chegamos a perceber, intuindo, em contrapartida, que as suas vidas se cruzam no deslindar de segredos e suspeitas. O velho, Nakata, é das mais enternecedoras personagens que encontrei em ficção, pela candura e ingenuidade. É provável que tenha vindo preencher uma lacuna que guardo em mim; quiçá o ternurento avô que nunca tive, ou, pelo contrário, porque não mais é possível encontrar-se alguém assim, tomando como certo de que ainda subsistem pessoas como Nakata. No que respeita ao rapaz, a mãe, que desaparecera, é objecto de afeição e desejo, a que se soma uma culpa que lhe é imputada pelo pai, um sujeito vil e odioso. Um fardo pesado num rapaz de tenra idade, que se abstrai em leituras e no culto de um corpo forte, capaz de resistir a todas as intempéries pessoais.


    

    O que há, de resto, em todos é a solidão. Nos dois livros de Murakami que li, há uma solidão presente em cada personagem, nos seus momentos a sós e com terceiros. As existências conjugam-se, mas, no fim, o que resulta é a própria condição humana, o vaguear na incerteza e no infortúnio.

31 de agosto de 2020

Duzentos anos da Revolução Liberal de 1820.


   A Revolução Liberal teve lugar há exactamente 200 anos, que se cumpriram no passado dia 24 de Agosto. Com outros, foi dos momentos mais catastróficos, pelas consequências, da história portuguesa. A curto prazo, antecipou a independência do Brasil e arrastou Portugal para uma guerra civil que colocaria o país num quadro permanente de crises sociais e económicas cíclicas, aproveitadas por potências estrangeiras, como Reino Unido, que exerceram uma quase tutela sobre os nossos destinos. 

  Por forma a mitigar, atenuar, a sua influência devastadora, Pedro IV outorgou uma Carta Constitucional para o Reino, em 1826 -o mais longevo texto constitucional que vigorou em Portugal-, em tudo semelhante à Constituição brasileira de 1824. Aquela Carta assentava, então, num compromisso entre a legitimidade e soberanias do Rei e a da Nação. 


Alegoria à Revolução de 1820


   Não nos é possível explicar a Revolução Liberal sem empreender uma excursão pelo turbulento século XIX português. Portugal, sem o querer, viu-se compulsivamente obrigado a participar das investidas belicosas de franceses, espanhóis e ingleses, quando mais interessado estava em assentar as fundações da sua matriz transcontinental no Brasil. O Padre António Vieira já o sugerira no século XVII, e a Constituição de 1822, emanada da Revolução de 1820, estabelecia as regras que regiam o funcionamento do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Dado que tudo se precipitou para o fim do Reino Unido, nunca sequer chegou a vigorar em Terras de Vera-Cruz.

   Com a derrota de Napoleão e o advento da Revolução -ou golpe de estado no tradicionalismo, como prenunciara Dona Mariana Vitória, apercebendo-se de que a a execução da família Távora dava início a um tempo em que os homens não têm honra nem passado, valendo mais o dinheiro do que os serviços prestados à coroa-, ao longo de oitocentos verificamos uma tendência dos sucessivos governos de se procurarem aproximar dos modelos europeus. O seu expoente terá sido com Fontes Pereira de Melo durante o período da Regeneração, embora algumas das medidas remontassem já a Mouzinho da Silveira.

   A título de curiosidade, também aqui, na vizinha Espanha, companheira de sorte e de infortúnio, ocorreu uma revolução similar no ano de 1820, recuperando-se o espírito que presidiu à elaboração da Constituição de Cádiz, que viria a ter a maior das influências na feitura da Constituição Portuguesa de 1822, de efémera vigência. 

    No domínio da justiça e da previsibilidade, estabilidade e segurança da lei, o liberalismo, investido de um ânimo codificador, dotou o Reino de códigos (nomeadamente o primeiro código civil de 1867 e o código comercial de 1833, substituído pelo ainda em vigor, conquanto profundamente revisto, de 1888). A ressaltar ainda o não menos relevante código penal de 1852 (substituído pelo congénere de 1886), que veio pôr cobro à parca transparência e inclusive alguma iniquidade na aplicação da medida das penas. A existência de um poder judicial independente é um dos lados positivos do liberalismo. O uso da lei penal para favorecer vinganças pessoais era comum em Portugal. Pombal, um século antes, servira-se dela para levar a cabo os seus objectivos na prossecução de uma política de centralismo régio.

31 de julho de 2020

Salazar, cinquenta anos.

   No passado dia 27, completaram-se cinco décadas desde que Salazar morreu. A 27 de Julho de 1970, o homem que liderara os destinos de Portugal desde 1933 sucumbia, após dois anos de doença que o deixou profunda e irremediavelmente diminuído nas suas capacidades.

   Acerca de Salazar, há todo o tipo de literatura, de quem o detesta a quem o idolatra. Eu recomendaria as obras de Jaime Nogueira Pinto e Paulo Otero, designadamente, que procuram ter uma visão mais humana e íntima do homem. 

  Quando me deparo com grandes vultos, e Salazar encaixa-se plenamente na categoria, procuro sempre vê-los além da condição humana, como se a nossa vulnerabilidade os diminuísse. Como tal, é do Salazar estadista que gosto de lembrar, e é o líder que vou evocar.




 Salazar, de raízes humildes, vingou por mérito próprio, por ser um aluno de altíssimo gabarito, destacando-se como jurista e professor de Finanças. Chegou ao poder imbuído de uma visão para Portugal, que aplicou como soube e pôde, sujeito ao erro, evidentemente, que Salazar não se julgava a si próprio acima de Deus, muito embora Marcelo Caetano tenha dito, nas suas exéquias fúnebres, que estávamos acostumados a ser governados por um homem superior. Salazar foi-o.

  E como nunca é demais lembrar -e tanto incómodo causa porque vivemos entre gente desonesta, a quem a honestidade faz mossa-, Salazar representou, sim, a dedicação em prol da Nação sem qualquer interesse pessoal subjacente. Salazar serviu Portugal. Como o prelado dedica a sua vida às causas de Deus, Salazar descobriu a sua real vocação e dedicou-se às causas da Nação. 

  Há cinquenta anos, perdemos, sobretudo, um dos últimos grandes portugueses. A partir de Salazar, esfumou-se a dignidade na política. Tudo o que veio depois, e foi tão mau, apenas vem ajudar à exaltação -lúcida e esclarecida- deste homem. Homenagem lhe seja feita.

25 de julho de 2020

Sylvester (1947-1988).


   Sylvester James foi um cantor da disco sound e um activista pelos direitos da comunidade LGBT. Eu tê-lo-ei descoberto provavelmente nalguma das minhas incursões pelo Youtube. Sendo sincero, não me recordo. O que me atraiu na sua figura foi o pioneirismo que encabeçou, assumindo-se como homossexual muito antes de que outras figuras públicas o fizessem, e a morte trágica por que passou.
 
    Em 1987, no talk-show da comediante Joan Rivers, Sylvester anunciou que se iria casar com um homem. Uma revelação bombástica e ousada para a época, como se depreenderá. Por um terrível infortúnio, Sylvester viria a falecer no ano seguinte, em 1988, vitima de complicações decorrentes do VIH/SIDA.
 
   Sylvester, que se recusava a ver a si mesmo como drag queen (a Joan Rivers, quando confrontado com o rótulo, exclamou somente: "I'm not a drag queen. I'm Sylvester!"), será mais conhecido pelo seu sucesso musical de finais dos anos 70, que ainda hoje é um dos maiores êxitos das pistas de dança. Falo-lhes de You Make Me Feel (Mighty Real). A partir de então, a carreira de Sylvester não conheceria outro sucesso tão estrondoso, muito embora o cantor tenha gravado vários álbuns até ao final da sua vida. O último dos quais foi Mutual Attraction, de 1986, que justificou então a comparência do performer no programa de Rivers, por forma a promover o trabalho.
 
Sylvester, algures por 1986
 
    Não há muito material de Sylvester na internet. Tive imensa curiosidade em ver entrevistas suas no Youtube e nada encontrei. A única que há, a Joan Rivers, mostra uma pessoa feliz, delicada no trato e na postura, profundamente enamorada do seu companheiro, Rick Cranmer. Aliás, outro facto caricato é que Sylvester acabou por revelar, à nação americana, a sexualidade do seu parceiro, arrancando risadas da plateia e proporcionando uma brincadeira de Rivers. Por aqueles dias, estávamos na passagem de ano de 1986 para 1987, e Cranmer, o companheiro de Sylvester, já se sabia doente de VIH. Morreria ao largo de 1987. A Sylvester, entretanto, ao menos não parecia haver qualquer inquietude. Vislumbra-se apenas uma pessoa que se diverte em palco, confortável na sua pele e na sua sexualidade, vivendo uma história de amor.
 
    Sylvester, que foi uma das primeiras pessoas a falar do VIH e a actuar na recolha de fundos para a doença, sucumbiria dela. É fatídico. Foi a triste realidade de muitos homossexuais, transexuais, travestis e por aí fora naqueles tempos. Sem qualquer medicação realmente eficaz e sob um enorme preconceito social, o único caminho era a união de todos os que por aquela tormenta passavam. Recorde-se que Ronald Reagan só falara pela primeira vez da SIDA (AIDS, em inglês) um ano antes, em 1985, após a morte de Rock Hudson, um conhecido actor que inclusive pertencia ao núcleo de amigos do Presidente. O desconhecimento acerca da doença imperava.
 
    Julguei conveniente dar-lhes a conhecer um artista que não devia ser tão ignorado quanto presumo que seja.