16 de outubro de 2019

L'Une Chante, L'Autre Pas.


    L'Une Chante, L'Autre Pas é mais uma exaltação ao feminismo por Agnès Varda. De 1977, tem uma primeira parte ambientada em 1962 e uma segunda dez anos depois, em 1972/3. É um filme vincadamente ideológico, de extrema-esquerda, com alusões a Engels, e de afirmação da mulher em poder dispor do seu "corpo". Por aqueles anos, França legalizava o aborto, encontrando resistências fortíssimas por parte dos sectores mais conservadores.

   Varga põe duas mulheres com objectivos distintos de vida: Pauline quer ser livre, sair de casa, ser cantora e activista pelos direitos das mulheres; Suzanne, pelo contrário, aceita ser a dona de casa responsável, a mulher casada no papel e amada. Não deixa de ser curioso que uma rejeita (Pauline) o que a outra tanto ambiciona (Suzanne): estabilidade afectiva e conjugal. O feminismo manifesta-se-lhes de modo oposto. Suzanne vê-se concretizada nos velhos cânones do papel socialmente atribuído à mulher, não deixando, entretanto, de manter o seu consultório, onde esclarece as mulheres do uso dos contraceptivos orais. Pauline rejeita-os, preferindo viver na França da revolução cultural e de costumes surgida do Maio de 68. A França hippie que contagia a Europa e o mundo e que afronta os valores da outra França, a rural, tradicional, patriarcal. Vemo-lo quando Pauline e o seu grupo de amigas viajam pela França profunda, actuando em pequenas terriolas.




    A realizador pôs ainda em oposição a França do Movimento de 70 e o Irão que, pese embora ainda não vivesse as restrições da Revolução de 1979, era uma sociedade profundamente mais fechada nos costumes, não reservando oportunidades às mulheres. Pauline não pôde desenvolver a sua carreira por lá. Um engenho de Varga para mostrar ao ocidente a realidade das iranianas, sem nunca procurar o confronto directo. Pelo contrário, Pauline movimenta-se elegantemente com o seu hijab. É uma visão romântica, quase saída das mil e uma noites.

   Pauline amou a Darius. O que se passa é que, em Varga, os homens não desempenham qualquer papel na trama. Mais ainda, são manietados. Morrem tragicamente, são abandonados. Ele foi-o, e verificamo-lo quando Pauline lhe propõe a ideia de engravidar de novo, ficando, desta vez, com essa criança. O seu feminismo, a luta que a abraçara, não lhe permitia deixar-se enlear na vida de dona de casa e mãe extremosa.

    É, em minha opinião, o mais autobiográfico dos filmes de Varga que pude ver até então. Em maior ou menor medida, algumas daquelas personagens funcionam como alter-egos seus. É uma obra manifestamente datada. No final, cruzam-se duas gerações: a de Pauline e Suzanne e a dos seus filhos. As primeiras desbravaram um caminho que, seguramente, iria permitir que a jovem Marie, filha mais velha de Suzanne, e a bebé de Pauline pudessem viver numa França mais igualitária.

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