16 de maio de 2026

Vizinhos...

 

   Ter vizinhos é uma chatice. Que o diga eu. Tenho tido problemas com praticamente todos os vizinhos em praticamente todos os lugares onde vivi. A situação é pior nos prédios, porque estamos sujeitos a uma relação de maior proximidade, o que se verifica em ruídos, infiltrações, etc, etc. Mesmo vivendo numa casa, há problemas. As propriedades limitam entre si. No ano passado, quis fazer uma rampa de acesso à minha casa. O vizinho da frente implicou, denunciou-nos ao alcalde (o presidente da câmara), que nos embargou a obra. Ficou tudo assim, em águas de bacalhau, como se costuma dizer. Fê-lo por pura maldade, uma vez que a rampa em nada o prejudicaria. Alegou que não íamos colocar um cano de escoar as águas no cimento, pelo que se juntariam e poderiam afectar a sua propriedade... Tretas! Ele vive em frente. Há uma estrada enorme, por onde passam carros, para cima e para baixo, e além disso não há nenhum ajuntamento de águas ali. Este ano, é com o vizinho do lado, que ainda antes de termos comprado a casa, decidiu escavar toda a terra do seu terreno para aplaná-lo. Naturalmente, di-lo a normativa vigente e o bom senso também, como se precisasse, que quando é assim há que erguer um muro de contenção para não comprometer o muro do vizinho. E ele fê-lo? Claro que não. Agora mesmo andamos a tentar insistir com ele nesse sentido. Sabe dizer-nos que temos de podar as nossas árvores, sabe meter-se nos nossos assuntos, mas parece que se "esquece" daquilo que lhe compete. Enfim.

   O melhor, o melhor é comprar um terreno de vários hectares e construir uma casa bem no meio, e mesmo assim...


14 de maio de 2026

Toma lá, dá cá.


   Eu já estou velhote na blogosfera. Bom, e vou ficando também na vida real, agora que entrei nos 40. Isso agora não interessa nada. Eu sou do tempo em que se visitava um blogue à espera de se receber um comentário e seguidores; do tempo em que nem se liam os posts. Queríamos comentar porque queríamos receber comentários, ou vice-versa; comentávamos porque nos tinham comentado. Não vale a pena negar. Todos que tivemos blogues fizemos isso, e alguns ainda fazem. Eu deixei-me desses fretes há muito. Só comento o que quero; estou-me cagando se me comentam ou não. Isto porque recentemente comentei um blogue novo (novo para mim, que não o conhecia), e comecei a receber comentários vindos do Brasil, de pessoas que claramente só estão à espera que eu lhes deixe comentários. Se vêm por isso, perdem a viagem. Já foi chão que deu uvas. Já dei para esse peditório. 

9 de maio de 2026

O Diabo Veste Prada, 1 e 2.


   Nunca antes escrevera sobre O Diabo Veste Prada. Eu gostei muito do primeiro filme, que vi anos depois de ter estreado. Achei-o divertido, agitado, fresco, com interpretações fantásticas, principalmente da inenarrável Meryl Streep, a minha actriz favorita. Ela encarnou uma Miranda Priestly na perfeição. Autoritária, arrogante, exigente, ácida, mas também capaz de reconhecer o mérito individual. Hoje fui ao cinema ver a sequela, e devo dizer que me desapontou. Pareceu-me que o realizador, ou a realizadora, não faço ideia, procurou desesperadamente dar um sentido à estória. 




    Perdeu-se a acidez mordaz e provocadora de Miranda. Meryl Streep quase cedeu o protagonismo a Emily Blunt. A tentativa de encaixar o papel de Anne Hathaway na prestigiada (mas decadente) revista Runway não foi conseguido, na minha perspectiva. Foi forçado e até, diria mesmo, trivial. Contudo, o que desaponta mesmo é Miranda Priestly, que ficou apagada durante toda a sequência. Este segundo take é mais glamoroso do que o primeiro. Há uma aposta forte nos figurinos, e uma mensagem de inclusão, onde corpos que aparentemente não encaixam e defeitos físicos têm lugar. Contudo, o roteiro é menos forte e demasiado polido, contrastando com o carácter incisivo do primeiro. É um caso claríssimo de um filme que deveria ter ficado arrumado com a longa de 2006. Acontece muito. Não será o último.

7 de maio de 2026

Ter um gato, neste caso, uma gata.


    Em 2022, o meu marido trouxe-nos uma gatinha para casa. Andava perdida por um dos centros de saúde onde ele vai de vez em quando passar a consulta. Uma gatinha já adulta, talvez com um ou dois anos. É a minha Mia - a minha gata. A minha gata é a melhor gata do mundo. 

     A Mia é um anjo, e foi uma bênção na minha vida. Não pula para cima de nada, nunca me estragou nada, e temos aquela ideia dos gatos que destroem tudo numa casa. Nem às plantas se chega. Ela não sai. Está sempre dentro de casa. Jamais me arranhou, ou mordeu. Nem quando lhe dou banho, esporadicamente, porque os gatos não precisam tomar banho com frequência. 




     Ter um gato é muito mais do que lhe dar de comida e água - e a Mia tem o seu bebedouro eléctrico, uma fonte. É dar-lhe amor continuamente - e ela não me deixa um minuto; sempre está comigo. É escovar-lhe o pêlo todos os dias - e por isso há donos de felinos que se queixam da muda do pêlo, porque não sabem cuidar do pêlo dos seus animais. A Mia é uma gata que tem mais do que muita gente. É tratada como uma princesa, porque ela é uma princesa. Tem o melhor que lhe posso dar. E tem uma parte do meu coração, incondicionalmente dela.

6 de maio de 2026

A nova lei da nacionalidade.


  Ao que tudo indica, o Presidente da República promulgou o diploma da nova lei da nacionalidade. Eu não conheço o conteúdo exacto da lei, não saberei muito mais que vocês - estava informado quando cursava Direito. Pelo que li, as regras para a aquisição da nacionalidade portuguesa ficam mais restritas, o que me parece muitíssimo bem. A nacionalidade portuguesa era praticamente vendida. Ainda me lembro de uma imagem na Índia onde se dizia algo como “vende-se nacionalidade portuguesa”. Qualquer um, em menos de nada, tinha o passaporte português, que estava ao desbarato. Segundo sei, o prazo para a naturalização aumenta, bem assim como se exigirá um exame de conhecimentos da realidade social e política portuguesa. Aqui em Espanha é assim. Eu, para ser espanhol, tive de fazer um exame de língua castelhana e outro de conhecimentos socioculturais de Espanha. Beneficiei de um prazo reduzido, é certo, sendo que o meu caso não tem nada que ver com o dessa gentalha que vem do Brasil, de África e sabe-se lá de onde com o único intuito de ter um passaporte português, e por conseguinte comunitário: em primeiro lugar, já era cidadão da UE, por ser português, ou seja, a cidadania espanhola não me veio trazer nenhum benefício do ponto de vista da mobilidade europeia; em segundo lugar, um português é ibérico, peninsular. A integração em Espanha é bem vista pelo Estado espanhol, é fácil, sem obstáculos linguísticos ou culturais de relevo. Espanha e Portugal são muitíssimo semelhantes, e as autoridades espanholas sabem-no perfeitamente. Menos mal que este governo -refiro-me ao português- parece disposto a pôr termo à bandalheira dos governos socialistas, sobretudo o de Costa, que escancarou Portugal à invasão imigrante.

4 de maio de 2026

XVIII Aniversário.


   O aniversário foi ontem, contudo, como decidi publicar a minha apreciação sobre o filme de Michael Jackson (tinha acabado de sair da sala de cinema, e gosto de escrever sobre os filmes e os livros que leio a quente), decidi adiar para hoje a publicação sobre o aniversário do blogue. Dezoito anos. Um miúdo que tenha nascido no dia em que criei este espaço entra hoje na maioridade legal. É extraordinário. Bom, se eu pensar bem, tratando-se de mim, não é algo tão incomum: eu sou de preservar o que tenho, e isso é extensível ao mundo virtual. Há quem crie mil contas em poucos anos. Eu mantenho as mesmas. O meu X, antigo Twitter, começa, também ele, a ficar vetusto.

    Não tenho muito mais a acrescentar nesta efeméride do blogue que ainda não tenha sido dito nos dezassete posts de aniversário dos anos anteriores. É muito tempo, e para um espaço virtual é quase uma vida. São quase dois mil posts, a esmagadora maioria deles -e aqui sinto de facto orgulho- com bastante qualidade, bem redigidos, bem pontuados; milhares e milhares de palavras, ideias, comentários e respostas; bloggers conhecidos, e outros que nunca conhecerei - porque já não vivo em Portugal, mas, sobretudo, porque fechei a porta a isso. Aliás, nem deveria ter conhecido ninguém. Queria deixar uma palavra também para as dezenas de pessoas que, ao longo destes dezoito anos, passaram por aqui para deixar um bocadinho de si: com algumas ainda mantenho contacto, outras perdi-as de vista, muitas preferiria que nunca tivessem passado por aqui e, outras, e com pena o digo, já nem estão entre nós.

     Este blogue venceu o tempo -o principal desafio-, as crises de falta de inspiração, mudanças de casa e de vida, de país, mortes de familiares directos, uma pandemia… é bastante provável que siga comigo uns anos mais, sempre até que me faça sentido. Por último, obrigado aos que ainda estão desse lado e que também fazem com que isto tenha sentido.

Mark

3 de maio de 2026

Michael.


  O filme de Michael Jackson não foi escrito inocentemente. Michael é retratado de forma quase pueril, superficial. O script não é inovador, no sentido em que a fórmula é previsível: um menino pobre, que cresce num entorno difícil, com um pai abusador, que é descoberto por uma caça-talentos e fica famoso. Seguramente que a vida de Michael Jackson daria para muito mais. Sem omitir o que realmente aconteceu, a abordagem poderia ter sido outra.

    Em todo o caso, o mais notório é que o percurso de Michael parou em 1988, com o álbum Bad. Deliberadamente omitiram os anos 90 e os escândalos de pedofilia que atingiram o artista. Não foi ao acaso. Quando descobrimos que o actor que faz de Michael é o sobrinho dele, Jaafar Jackson, desde logo intuímos que a família Jackson está por detrás da estória, controlando-a ao pormenor. O filho mais velho de Jackson foi produtor executivo da larga metragem.





     Tudo foi polémico na vida pública de Michael. O filme não seria excepção. Tornou-se um dos mais vistos de 2026 e já superou em muito os gastos de produção. Eu, embora tenha gostado, considero-o pouco ambicioso, demasiado focado nos anos áureos de Michael e explorando pouco o seu lado mais introspectivo. O personagem como que flutua num limbo de superficialidade, faltando-lhe algo que lhe dê corpo, emoções, veracidade. Supera-se, isso sim, na caracterização, nos figurinos, efeitos, e música, claro está.

29 de abril de 2026

40.


    Quando penso que hoje cumpro 40 anos, sinto um misto de sentimentos. Por um lado, certo orgulho. Não é uma idade longeva, não, e menos ainda no século XXI, mas para uma pessoa que sempre foi enfermiça, desde criança, é um logro. Por outro lado, penso nas pessoas que já não estão, e que nesta data me davam sempre os parabéns: a mãe, o pai, a avó paterna. Cheguei aqui também devido aos cuidados deles, e da minha bisavó Palmira, que perdi mais atrás. Sinto ainda uma responsabilidade qualquer que não sei definir muito bem o que é: ter quarenta anos implica determinado comportamento que não sei se estou preparado para dar. Começo a ser um senhor. Não um senhor de idade. Isso será mais à frente, se lá chegar. Apenas um senhor. Para quem foi toda a vida um miúdo, um rapaz, um jovem, é uma nova fase, uma nova forma de olhar para mim, para quem sou.

  Não sei o que me espera nesta década. Irei tentar vivê-la da melhor forma, com a família que tenho, que se resume ao meu marido. A minha vida tem sido assim, e creio que já o disse: um período de estagnação, um terramoto, seguido de outro período de estagnação e de outro terramoto. Com extinções em massa. A última levou toda a família que conheci durante a minha existência. Há dez anos, eu era uma pessoa, uma pessoa que não existe mais. Nada resta daquele (ainda) rapaz de trinta anos: nem o entorno, nem a casa, nem as dinâmicas. Nada. Essa dúvida sobre o que virá existe sempre, porque a maior parte das pessoas tem uma linha de continuidade nas suas vidas. Eu não. 

  Não adianta antecipar o que desconheço. E entro assim, na ternura dos quarenta, que espero realmente que seja terna e calma. Necessito.

28 de abril de 2026

À consideração.


   E para a próxima vez, se voltar a ser acusado seja do que for, vai sem rascunhos a vermelho por cima, e falo muito a sério. Pouco me importa a protecção de dados e o raio que o valha.




24 de abril de 2026

Mudança de hábitos.


   O meu médico de família (que também é o meu marido) pediu-me uma ecografia abdominal, isto porque tenho esteatose hepática (fígado gordo). Eu já sabia disso, tenho alguns valores hepáticos alterados nas análises sanguíneas. Foi para controlo. Embora tenha mudado alguns hábitos menos bons, como a alimentação, em parte, continuo com o fígado dito “gordo”, então agora a mudança é radical. Eu sou muito sedentário, não ando (desde que conduzo é que não ando mesmo), não me controlo a comer, não faço exercício. Tudo mau, portanto, mas hoje decidi que as coisas vão mudar, e vão mesmo: todos os dias, de manhã, vou fazer uma caminhada de 40 minutos (já comecei hoje); ontem, agarrei em dois sacos do lixo e deitei chocolates, chouriços e bombons, tudo fora; comecei a beber dois litros de água por dia -odeio beber água-, porque a ecografia também detectou micro calcificações nos rins, e tudo o que é arroz, massas e batatas vai ser substituído por saladas e verduras. E isto é MESMO para cumprir. Isso já o interiorizei. Estou bastante determinado em melhorar o meu estado geral de saúde, e até é um bom mote para os 40 anos, que cumpro, se Deus quiser, em menos de uma semana.

22 de abril de 2026

Cristina Ferreira.


  Eu não vejo televisão portuguesa. Não tenho. Em casa tenho Vodafone, e não oferece a RTP internacional. Posso ver televisão portuguesa com apps da RTP, SIC e TVI. Não me compensa. Tenho a primeira, gratuita, e tive as outras uns tempos. São caríssimas e realmente não se justifica. Os ecos do que se passa em Portugal chegam-me pelos jornais online e as redes sociais, que hoje em dia conseguem cobrir bastante bem essa função informativa.

   Ouvi as declarações da Cristina Ferreira no seu programa matinal, sobre um caso de violação, e também não gostei. Não, não gostei, Cristina. Ela não vai ler, bem sei. Porque não é a primeira vez, nem a segunda, e dificilmente será a última, que esta apresentadora faz comentários misóginos ou pouco dignificantes. Não é não, Cristina. É mesmo. Sejam dois, três, quatro ou cinco, ou mais, num acto sexual. Ninguém se põe a jeito. Enganas-te outra vez. As pessoas são livres de ir onde querem e como querem. Ninguém tem o direito de assediar sexualmente, e por maioria de razão de cometer crimes mais graves. É lamentável que uma pessoa com poder -porque aparecer na televisão e comunicar para todo um público é ter poder- tenha tão pouco tino, juízo; que, em temas sensíveis, fale como se estivesse em casa ou numa mesa de café. E, por favor, não mexas mais na porcaria. É só pior.

21 de abril de 2026

Acusações.


   Fui alertado por um anónimo que uma certa macaca andou a caluniar-me e a injuriar-me -sem nunca referir o meu nome-. Eu desconfiei de quem fosse, porque é pessoa de quem não gosto, embora não lhe dê atenção. E li aquilo. E identifiquei-me. Reservo-me o direito de resposta.

     Primeiro, eu seguia o espaço da supracitada pessoa até 2021. Como em todos os blogues que sigo, comentava os seus posts. A partir de determinado momento, comecei a ser censurado. Eu sou uma pessoa sincera e frontal. Também nos espaços blogosféricos que sobram, os do Francisco e do Namorado, eu comento-os, e digo o que tenho a dizer, uma vez que, para mim, a amizade não é dar pancadinhas nas costas e dizer amém a tudo para encher as caixas de comentários. Essa pessoa, porque tem um ego enorme e gosta que lho cocem, deixou de publicar os meus comentários, e depois, de forma até de muito mau gosto, referiu-me explicitamente num post para humilhar-me publicamente. É para o lado que durmo melhor. Jamais utilizei nenhuma linguagem ofensiva ou deselegante no seu espaço, e creio ter anos suficientes na blogosfera que o atestam. Aliás, eu nem costumo usar palavrões no meu vocabulário. 

   Segundo, eu estive num jantar com essa pessoa. Nunca antes a tinha visto. Desde logo não gostei do que vi. Vi uma pessoa fútil, de ego gigantesco, como referi acima, pretensiosa, que queria ser o centro das atenções. Fazia-se acompanhar de um rapaz que, devo dizer, me deu certa pena. Estava calado, no seu canto, para deixar a beesha brilhar. Tudo foi alvo de comentários entre os presentes no dia seguinte. É tudo quanto sei dessa pessoa, mais um boato que me comentaram sobre um comportamento impróprio que teve com outro blogger, e que circulou por toda a blogosfera. 

   Terceiro, desde o momento em que essa pessoa me censurou e procurou humilhar-me, deixei de comentar no seu espaço, de a acompanhar, e é pessoa que -porque não deixo nada por dizer- assumidamente não gosto, mas tão-pouco incomodo. Ela está na sua vida e eu na minha. Refuto, por tanto, as acusações que me faz. Que tenha inimigos que a perturbam, é problema dela. Acho de muito mau tom que me acuse de algo sem ter nenhuma prova. E digo-o com a mais transparente das certezas: nada lhe fiz. É pessoa que não me interessa. Nunca me interessou. Nem quando me tentava seduzir por e-mail. E isto não é uma acusação, porque tenho provas disso.

     Quarto, e para rematar, o ego gigantesco vê-se quando confunde a minha antipatia com qualquer atracção minha por si (o tal crush), que, por favor, não tenho nem nunca tive, e porque não quis. Estou casado, estou feliz, e respeito muitíssimo a pessoa que está ao meu lado, na vida que construímos a dois há quase dez anos. Que apareça a primeira pessoa da blogosfera -com provas- que diga que a tentei engatar.

   Haja algo de bom no meio disto tudo: a blogosfera continua viva, no meio de tanta sujeira.

20 de abril de 2026

Não temos vida fora do virtual.


   Na sexta-feira passada fui fazer o meu DNI (Documento Nacional de Identidad). O equivalente ao Cartão do Cidadão espanhol. Aqui, o DNI faz-se nas esquadras da polícia, chamadas comisarías. Estava eu já há um bom tempo à espera, porque tenho aquele hábito de chegar sempre aos lugares com vários quartos de hora de antecedência, e reparo que sou o único que não está a mexer no telemóvel. Ao meu lado esquerdo, uma família: pai, mãe e dois filhos - todos com os respectivos smartphones; ao meu lado direito, uma senhora de meia idade, de telemóvel na mão. Ao lado dela, uma mãe com dois filhos. O mesmo. 

   Não, não venho aqui armar-me em defensor da velha guarda dos que levam livros para todo o lado, porque não o faço. Eu simplesmente, muitas vezes, deixo o telemóvel no carro porque preciso daquele espaço de tempo, nem que seja uma simples hora, sem estar conectado; sem ouvir as notificações do WhatsApp, do X, do Instagram. E digo-vos que não me causa nenhuma ansiedade. É algo que até me dá prazer, que me desanuvia. Infelizmente, não posso permitir-me (ninguém pode) a ficar assim horas e horas a fio, porque fico com a dúvida de que o meu marido possa precisar de mim, ou que algo se possa passar. Mas é bom. Experimentem. 

   Creio que já não conseguimos ter uma vida fora do virtual. Quando penso nisso, fico desanimado e com pouca esperança, porque estes espaços (não me refiro aos blogues, na actualidade) podem consumir-nos muito tempo e energia, energia que poderíamos utilizar noutras actividades mais proveitosas, além da toxicidade que há.

16 de abril de 2026

Trezentos euros mais “leve”.


   Quem é que ontem gastou 300 euros -ou melhor, mais exactamente 292,46€- na mudança do óleo, da água do limpa pára-brisas e filtros do carro? Fui eu, mas não digam a ninguém. Os carros começaram por ser um luxo. Passaram a ser indispensáveis, e hoje em dia são de novo um luxo, pela manutenção e pela subida do preço dos combustíveis. Eles andam no Irão às turras e nós é que pagamos as favas.

14 de abril de 2026

De macho a macaca.


   Não sei se já repararam que as beeshas estão todas a sair do armário. Eu já sabia disso, mas tenho-me dado conta especialmente com os actores brasileiros: o Reynaldo Gianecchini, o Miguel Falabella, entre muitos outros. São tantas a sair que nem me lembro do nome de todas. Destes dois, por acaso, nunca desconfiei. Andavam bem metidos no fundo do guarda-roupa. E há tantos, mas tantos, num processo idêntico. Passam de machos a autênticas mariconas. Transformam-se verdadeiramente. Não é apenas o “sou homossexual”, ponto final (que nem isso ninguém é obrigado a dizer). Começam a usar trejeitos, a vestir cores garridas, a comportar-se de uma forma estranhíssima, e eu só consigo pensar “coitada desta gente, o que deveriam sofrer”. Viver-se como não se quer deve ser horrível, como também é horrível não conseguirmos esconder o que somos -o meu caso-, o que sempre me acarretou um preço demasiado alto, que paguei, com juros e correcção monetária. Se eu tivesse conseguido disfarçar, teria sofrido muito menos. E isto leva-me a outra conclusão: temos de agradecer aos inúmeros gays que deram a cara e o corpo às balas, durante décadas, para que agora as macacas comecem a sair todas como cogumelos. O Carlos Castro, por exemplo, que foi ridicularizado durante décadas.

12 de abril de 2026

Os ficheiros do caso Carlos Castro.


    Aquando da morte do Carlos Castro, eu deixei a minha primeira reacção no dia seguinte, aqui. Foi algo simples, mas muito sentido. No fundo, foi o que me ocorreu naquele momento. Os anos passaram, e já se passaram quinze anos (parece que foi ontem), e o caso ficou arrumado. É daquelas situações horrorosas que nunca esquecemos completamente. Há dias, o jornal Observador decidiu fazer um podcast sobre o assassinato do cronista, revelando dados inéditos. Eu tive tanta curiosidade em ouvir os seis episódios que os devorei de uma assentada. Recuperei a assinatura digital do jornal só para ter acesso ao conteúdo.

   Agora, como há quinze anos, a minha opinião é a mesma, quer dizer. Nada justifica aquela barbaridade. Estou convencido de que o tipo não era gay, o Renato, e de que se aproximou do Carlos para conseguir algo no mundo da moda, uma vez que ia a castings atrás de castings e não conseguia nada. O Carlos apaixonou-se, obviamente. Um miúdo de 21 anos, atlético. Pensou que seria bom enquanto durasse: ver-se na companhia daquele miúdo aqui e ali fazia-o sentir-se bem. No entanto, naquela tarde fatídica, alguma coisa aconteceu, que nunca foi esclarecida. Dos implicados, um morreu e o outro não quer falar. Na minha opinião, que vale o que vale, houve uma mistura de frustração, com nojo e com algum desequilíbrio mental associado. O pior de tudo é ver que há quem esteja do lado daquele assassino. É o que vou lendo pelas redes: que, “coitadinho”, foi enganado pelo velho; chegam a dizer que nem deveria estar preso. As pessoas perderam realmente a noção do que dizem. Nada justifica um homicídio, e menos ainda naquelas circunstâncias e com aqueles requintes de perversidade. Está preso e bem preso, e que fique assim por muitos anos mais.

9 de abril de 2026

Problemas.


   A minha vida mudou substancialmente com a vinda para Espanha. Foi como se tivessem agitado a garrafa. Deu um giro de 180°. Entretanto perdi a família toda. Isso também não é novidade. Há dez anos tinha uns problemas, e agora tenho outros. Um exemplo: o carro. Há dez anos não conduzia, embora tivesse carta; agora conduzo e tenho carro: despesas, revisões, seguros. Há dez anos não andava cheio de trâmites administrativos e processos judiciais. A minha avó era viva. Não havia partilhas. Agora há. Também é certo que alguns desses processos procurei-os eu, isto é, fui ao encontro dessas chatices por obstinação. 

   Não me queixo. Longe disso. Estou imensamente melhor do que há dez anos, em todos os aspectos (ou quase todos), mas a vida nunca nos dá sossego. Há sempre alguma coisinha a atormentar-nos, a tirar-nos a tranquilidade. E eu nunca estive tranquilo. Creio que não sei o que é isso há décadas. Talvez seja coisa minha. Talvez a maioria das pessoas consiga encontrar algo de paz no meio do caos. Eu não.

8 de abril de 2026

As procissões.


   Ter conhecido Salamanca na Semana Santa permitiu-me ainda assistir a várias das inúmeras procissões que percorreram a cidade. Foram realmente muitas. Eu assisti a três ou quatro. Milhares de pessoas amontoavam-se nas ruas e praças para deixar as procissões passar. E estas -embora, segundo dizem, não tenham a opulência das andaluzas- são bonitas e ornamentadas. É um espectáculo de fé, que atrai pessoas de todo o mundo, sendo um evento de interesse internacional, e o centro histórico de Salamanca é Património da Humanidade pela UNESCO.





6 de abril de 2026

Os cinquenta anos da Constituição de 1976.


  No passado dia 2 de Abril, comemorou-se o quinquagésimo aniversário da aprovação da actual Constituição de 1976. De lá para cá, passou por sete revisões, ou reformas, e embora mantenha o espírito inicial que presidiu à sua feitura, no que respeita aos princípios democrático, de respeito pela pessoa humana, pouco ou nada resta da Constituição económica, por exemplo. Na sua versão original, era uma Constituição quase comunista, inspirada no extremismo de esquerda que se seguiu à Revolução. Quis o bom senso que fosse sendo aperfeiçoada, e a prova provada de que uma Constituição deve ser breve e sucinta, e por isso atemporal, é a nossa: prolixa, demasiado extensa, que obriga o Estado a tudo e mais alguma coisa, e que por isso mesmo, em grande parte dos casos, como nos direitos sociais, é letra morta.

     Sinceramente, não sei se a Constituição precisa de uma oitava revisão. A questão não reside tanto em dotar a Constituição de mais mecanismos e imposições para o Estado e os cidadãos, mas sim de cumpri-la, e em tempo razoável.


5 de abril de 2026

Salamanca.


   Como vos disse na publicação anterior, eu estive em Salamanca em 2005. Foi como se não tivesse estado. Além de estar muito doente naqueles anos (de uma doença que na altura nem sabia que tinha), não fui em turismo. Estive lá porque os meus pais foram visitar uma pessoa do nosso conhecimento, que estava a passar por um momento difícil. A viagem foi muito pouco edificante. Assunto encerrado.


A cidade desde o alto das torres velhas da catedral


    Falemos destes dias, em que agora posso dizer que sim, conheci Salamanca. Uma cidade lindíssima. Das mais bonitas que vi. Monumental, com duas catedrais imponentes. As universidades, que também visitei, uma delas uma das mais antigas do mundo (hermanada, curiosamente, com a de Coimbra). O centro histórico muitíssimo bem cuidado. Adorei os dois dias que estive lá. Aproveitámo-los bem. Com um detalhe: fomos na Semana Santa. A Semana Santa de Salamanca está considerada um evento de interesse internacional. Havia milhares de pessoas nas ruas para acompanhar as várias procissões (também vimos muitas). Uma atmosfera fantástica numa cidade que transpira história e cultura. Adorei conhecer a(s) universidade(s) por dentro, subir às torres da Pontifícia, às torres velhas da catedral; poder ter umas vistas privilegiadas desde o alto. Com um plus: sendo Sexta-Feira Santa, a priori as catedrais estariam fechadas para turismo, mas conseguimos aproveitar alguns momentos entre os actos litúrgicos para as visitar. 


A Universidade Pontifícia e a Casa das Conchas


   Creio que se nota o entusiasmo nas minhas palavras, porque realmente Salamanca surpreendeu-me imensamente. Não esperava algo tão magnânimo. Estivemos algo menos de 48h (porque o meu marido tem plantão neste Domingo de Páscoa), mas posso-vos dizer que, como aqui se diz, “le hemos dado caña”. Não ficou nada por ver, nada entre o emblemático e o imprescindível. Deixo-vos algumas fotos.

1 de abril de 2026

Feliz Páscoa.


   Venho desejar-vos uma Feliz Páscoa. Vou ali e já volto. O meu marido conseguiu três dias livres nesta Semana Santa e vamos aproveitá-los para ir aqui ao lado, a Salamanca, onde nunca estive. Bem, fisicamente estive, há muitos anos, mas não fui em turismo. Isso agora não interessa nada… Estou entusiasmado porque é uma cidade, diz-se, linda e monumental, e nesta época do ano mais, com as procissões. Comam muitos ovinhos e amêndoas, mas não se esqueçam de Deus Nosso Senhor!



30 de março de 2026

Ser espanhol.


   Dentro da União Europeia há livre circulação de pessoas. Isso, a priori, confere a qualquer cidadão comunitário o direito a residir noutro país da União. Porém, e verão como é assim um dia que tentem morar noutro país da UE, não é um direito absoluto; terão de demonstrar que têm meios de subsistência e um seguro de saúde, caso contrário não vos dão o certificado de cidadão da União Europeia. Bom, eu obtive-o imediatamente ao ter-me casado com um cidadão espanhol. E fiquei assim um tempo. Depois, passado um ano de nos termos casado, pedi a nacionalidade espanhola por casamento. Foi-me concedida em 9 meses. Mas também não é um “presente”. Tive de fazer um exame de castelhano, escrito e oral, e outro exame de conhecimentos sociais e políticos de Espanha. Depois é juntar a papelada toda -antecedentes penais, policiais etc etc etc- e enviar. E chegou, já há uns anos. Passei a ser cidadão espanhol, com passaporte espanhol. Nem utilizo mais o cartão do cidadão português, que, ao ser espanhol, aqui perde o valor legal. Está metido numa gaveta, nem sei onde.

    É uma coisa que mexe connosco. Mudamos de amigos, de marido / mulher, de casa, até de país, mas de nacionalidade é esquisito. Eu não deixei de ser português. Até voto nas eleições. Mas passei a ser mais espanhol do que português, não só porque sou cidadão espanhol como também porque vivo aqui. Portugal começa a ser uma realidade familiar, contudo, distante. Não me sinto em casa quando vou a Portugal. A minha casa é aqui, a minha família está aqui (marido e animais). Isto de ser espanhol, de deixar de me ver como português, ou exclusivamente português, é que custa um pouco a associar. E sobretudo espanhol. Aprendemos a ver os espanhóis como “os outros”, principalmente pelo processo histórico, pelos séculos de guerras e inimizades Portugal x Espanha, e de repente tu pertences “aos outros”. 

27 de março de 2026

Noelia Castillo Ramos.


   Gostaria que fixassem este nome, nem que fosse por apenas alguns breves momentos. Noelia Castillo Ramos foi uma rapariga que nasceu há 25 anos no seio de uma família disfuncional - como eu. Foi institucionalizada. O Estado assumiu o dever de a proteger. Falhou. Noelia, mais tarde, foi abusada sexualmente por vários jovens. Nunca se fez justiça. Em 2022, não aguentando o sofrimento mental -padecia, como eu, de transtorno da personalidade limite e transtorno obsessivo compulsivo-, atirou-se de um quinto andar. Ficou paraplégica e com dores físicas permanentes. Entrou na justiça pedindo o direito a morrer dignamente, o direito à eutanásia por sofrimento físico e mental. Foi avaliada por mais de trinta especialistas, entre psicólogos, psiquiatras e juristas. Os pais, que no seu dia não a protegeram, opuseram-se à eutanásia. O pai opôs-se por vias legais, tentando até ao último momento que a justiça impedisse Noelia de morrer dignamente, como quis. Ontem, cumpriu-se a sua vontade, e Noelia pode, finalmente, descansar em paz.




26 de março de 2026

A masculinidade tóxica entre os gays.


   Não é novidade para os mais atentos que há uma masculinidade tóxica entre os gays, desde logo quando a maioria tem de desempenhar papéis claramente heteronormativos: o famoso activo e passivo. Os que fazem ambos são os versáteis. Tudo muito bem até aqui quando as pessoas, de forma consciente e livre, aceitam essas categorias e se identificam com elas. Não se identificando, aí começam os problemas. Por que razão assumimos que um rapaz tem de ser passivo, activo ou mesmo versátil? E se não quiser ser nenhum? O sexo anal é assim tão relevante numa relação, tão indispensável? Tenho as minhas dúvidas. O sexo é muito mais do que a penetração, e é seguramente muito mais do que o sexo anal.

    Dentro dessa masculinidade tóxica, há um preconceito bastante visível com o homossexual dito passivo. Muitos gays orgulham-se de dizer que são activos, de que os outros pensem que o são, quando frequentemente nem o são. E isso está relacionado à masculinidade tóxica que que envenena não só a sociedade, como um todo, mas também a dita comunidade gay. Repetimos os estigmas heteronormativos, de que o homem é o macho, o dominador, quem manda (o activo), enquanto que o passivo está numa posição inferior, porque recebe, associado à fêmea e à debilidade. Já era assim em Roma, quando o papel passivo era estigmatizado. Julgamos -mal- que a homossexualidade era aceite na Antiguidade Clássica. Convém esclarecer: o papel activo não era socialmente censurável, porque o passivo sim que o era, e hoje em dia continua a sê-lo. Quando, no fundo, para haver activos tem de haver passivos, e não raras vezes a maioria desempenha ambos os papéis. E eu estou à vontade para falar sobre isto, porque não existe qualquer reflexo pessoal nas minhas palavras: não sou passivo, nem sou activo, e nem o sexo anal é algo de que goste. Apenas sou alguém que não vive numa redoma de vidro e que tem consciência social. Seria mais fácil se as pessoas se limitassem apenas a ser, a ser o que gostam.


25 de março de 2026

As pessoas podem ser muito más.


   A minha mãe faleceu em 2022, numa unidade de cuidados paliativos. O seu companheiro de dezasseis anos faleceu cinco dias antes. Daquelas coincidências terríveis. Eu já vivia em Espanha. Aproveitando-se desse facto, de eu estar longe e de a minha mãe estar nos últimos dias, os filhos do companheiro dela, sujeitos que nunca conheci, entraram dentro do apartamento e começaram a furtar-me objectos. Não me furtaram nada de valor, porque boa parte das minhas coisas, felizmente, não estava naquele apartamento, mas sim num armazém, devidamente guardadas. No apartamento, no quarto onde eu dormia, havia as minhas roupas, CDs, alguns objectos de infância que gostava de ter comigo, o meu computador e livros. Eu vim para Espanha sem nada, para passar uma ou duas semanas. Acabei por ficar, inesperadamente. Comprei roupa nova, outro computador, etc.

      Quando, por fim, a minha mãe faleceu, já tinham dado início ao espólio. Aliás, começou quando faleceu o pai deles. Não perderam tempo. Assim que soube que o homem tinha morrido, e já antevendo a situação, lá consegui o número dessa gente e expliquei-lhes a situação: que me guardassem as coisas, que em poucos dias iria a Portugal buscar tudo. No dia marcado, tinha todas as minhas coisas, e as da minha mãe, nas escadas do prédio, como se fossem lixo. Tudo espalhado. Um cenário inimaginável. A minha mãe morrera apenas sete dias antes. Eu estava de luto e com tudo o que era nosso assim. Voltei a Espanha, com uma carrinha e os meus pertences (entretanto passei pelo armazém e trouxe o que quis; deixei o que não quis). Quando comecei a ordenar as minhas coisas e as da minha mãe, dou por falta de objectos. Objectos sem nenhum valor económico, e sim sentimental: uma almofada do Vitinho, um candeeiro de bebé, uma Super Nintendo Mini (que não tinha valor sentimental), entre outras coisas. Livros não, claro. Até me enviaram a mais: alguns que eram do pai.




  Dou muito valor aos meus objectos de infância, sobretudo. A tudo o que tenho, modo geral, mas sobretudo àqueles que estão directamente relacionados com essa fase da minha vida. E posso dizer que tenho cerca de 70% de tudo o que alguma vez foi meu desde que nasci. É significativo em alguém com 40 anos. Relativamente àquilo que me furtaram ou que desapareceu com tantas mudanças (quer as que fiz em Portugal, quer as que fiz em Espanha, que foram duas), tenho procurado comprar, a privados, artigos iguais ou semelhantes, entre os quais figuram os da foto que vos deixo. Isto a propósito das minhas caixas de CDs. Não uso CDs. Entretanto, dei por falta de alguns. Ainda hoje, quatro anos depois daquele terror que vivi, vou-me dando conta de objectos que foram ficando para trás.

23 de março de 2026

Só dês um livro a quem o mereça.


   Eu adoro comprar livros. Lê-los, evidentemente, mas comprá-los, mesmo que demore anos a pegar neles, é algo que não posso evitar. Recentemente soube que isto tem um nome qualquer, e que não é necessariamente mau, ou seja, não é um mero vício; digamos que vou comprando livros cujos temas me interessam. É como estabelecer uma espécie de baliza mental; de biblioteca dos meus gostos. Não é acumular. Os livros nunca são demais.



   Esta introdução para dizer que, às vezes, quero livros antigos e descatalogados, que compro a privados através de plataformas como o OLX ou alfarrabistas. O último que comprei foi um sobre Portugal e Castela na Idade Média. Frequentemente, encontro dedicatórias dentro dos livros. Uma recente levou-me a pensar: o que levará alguém a desfazer-se de um livro que lhe foi dado com carinho, mesmo que esse carinho tenha deixado de existir? Afinal de contas, existiu num determinado momento no tempo. E um livro é um presente tão especial, que fico sempre com aquela ideia de que quem dá um livro tem verdadeiro afecto. Por isso, nunca dês um livro a alguém que desconfies que é capaz de se desfazer dele, vendendo-o a outrem que depois o põe à venda numa plataforma qualquer. Um livro é amor, é testemunho de amor, e isso deve ficar, mesmo que o resto já não esteja.


20 de março de 2026

A mudança de género antes da maioridade.


   Mais do que uma questão de convicções políticas, aqui está em causa uma questão de maturidade e de auto conhecimento. Não me parece que um miúdo ou uma miúda de 12, 13, 14 anos, e por aí em diante, tenha essas capacidades em grau suficiente para decidir sobre algo definitivo e irreversível, e dou o meu caso como exemplo, o que me leva a ter alguma autoridade sobre o assunto, de certo modo: eu era bastante feminino na infância e adolescência (hoje sou menos), e cheguei a crer, quando tinha 12 anos, que era transexual, sobretudo após conhecer o caso da Roberta Close, que ali em torno do final dos anos 90 foi bastante comentado em Portugal. Se naquele momento eu tivesse optado por mudar de sexo/género, com terapias hormonais, ter-me-ia arrependido, porque hoje em dia sinto-me plenamente um homem. Teria arruinado tudo. Isto é lógico. A adolescência é um período em que crescemos física e mentalmente, e esse tipo de decisões não podem ser tomadas num período tão frágil, tão inconstante, tão volátil. Eu só lamento que haja uma esquerda absolutamente cega que põe os seus interesses políticos e ideológicos à frente do interesse daqueles jovens. Que façam o que quiserem quando tiverem maturidade para isso.

19 de março de 2026

Seremos todos um pouco bissexuais?


    Lembram-se da famosa escala de Kinsey? Falou-se muito dela durante uns anos. Para os distraídos, essa escala dizia que entre o estritamente homossexual e o estritamente heterossexual, que são muito poucos, há várias tendências. Que nem tudo se resume a heterossexuais, bissexuais e homossexuais, e que no fundo a grande maioria da população humana é bissexual ou com tendências bissexuais, isto é, que apenas uma ínfima minoria é exclusivamente heterossexual ou homossexual. A mim começou-me a fazer sentido, e explico-vos o porquê.

    Eu nunca me sentira fisicamente atraído por uma mulher. Jamais. A sexualidade humana vai-se definindo durante a adolescência. Eu em tudo ando sempre um pouco atrasado: maturidade, por exemplo. De há uns anos para cá, apercebi-me de que o corpo da mulher me excita. Não a mulher enquanto pessoa, não a personalidade feminina. O corpo. Excita-me, por exemplo, a ideia de estar com uma mulher na cama, de chupar-lhe os seios, de penetrá-la, de lambê-la. Mas sei que não sou bissexual. Duvido que conseguisse ter uma relação com uma mulher. Simultaneamente, sim, seria totalmente capaz de ter sexo com uma; a ideia excita-me imenso. Portanto, sim, a escala de Kinsey faz-me sentido, e demonstra que estas pessoas que dedicam uma vida a estudar certo tema, alguma razão terão. Eu sou homossexual, mas não a 100%. Há uma parte de mim mais bissexual: a dita escala, que é tipo uma palete de cores: entre o branco e o preto (que na realidade nem são cores), há muitas outras no meio. E vocês, sentem alguma atracção exclusivamente física por mulheres, sendo homossexuais? Se houver algum heterossexual a ler, a pergunta é adaptada no mesmo sentido; se, sendo heterossexual, sente alguma atracção física por alguém do mesmo sexo.

18 de março de 2026

Rob Jetten.


   Este senhor é o primeiro Primeiro-Ministo abertamente homossexual dos Países Baixos. Tem um sorriso encantador, não se pode negar. O que acham dele?


Foto e notícia retiradas da página de Instagram do Público 

16 de março de 2026

O(s) armário(s).


   Há gays que vivem no armário, há gays que vivem no fundo de um baú. Há gays que vivem num armário com portas de vidro, em que se vê tudo lá para dentro. E há gays, finalmente, que nasceram fora do armário, e viveram sempre fora dele. Eu, por exemplo. 

  Antes mesmo de saber o que era ser homossexual, heterossexual, fosse lá o que fosse, já era discriminado socialmente, na rua e na escola, porque os demais intuíam a minha sexualidade apenas pela forma livre e espontânea com que me expressava: uma delicadeza nos modos, uma feminilidade, o que lhe quiserem chamar. É, o mundo é um lugar muito mau.

13 de março de 2026

Cozinhar.


   Adoro cozinhar. Detesto lavar a louça e arrumar a cozinha. Mas cozinhar realmente é uma actividade que me dá prazer, e tenho bastante jeito. A minha mãe cozinhava muito bem. Já a sua mãe, minha avó, também, e a minha tia, irmã da minha mãe, o mesmo. E eu cozinho sem receitas. Os ingredientes vão todos a olho, como se costuma dizer, excepto se se trata de algum prato mais elaborado ou que não tenha por hábito fazer tanto. Eu faço bacalhau de várias formas (com natas, à bràs, à gomes de sá), lasanha, arroz de pato, carne no forno, peixe, sopa, tudo. Só não me aventuro na doçaria, embora há uns anos tenha feito uma tarta de queijo deliciosa. Passo-vos algumas fotos.


Arroz de pato

Entrecosto no forno 

Feijoada à brasileira 

Francesinha à moda do Porto

Bacalhau à Brás

12 de março de 2026

Quatro anos.


   Mãe, passaram-se quatro anos. Demasiado tempo sem te ouvir, sem te ver, apesar de estares sempre presente no meu pensamento. Não há um único momento do dia sem que me lembre de ti.

    A nossa relação esteve marcada por altos e baixos. Não foi perfeita. Assim mesmo, eu creio que nenhuma relação onde haja amor é perfeita, porque quem se quer briga, discute, bem-quer, tudo em simultâneo. E a nossa relação era assim, imperfeita, como nós também o fomos, tu como mãe e eu como filho.

   A tua memória é assim, imperfeita. Por vezes uma saudade imensa, outra vezes uma revolta. Foste a mãe que soubeste ser, disso não tenho qualquer dúvida, o que não te redime dos erros, alguns graves, como bem sabes. A mãe que pudeste ser, digo-o para mim, num género de mantra.

    A verdade que fica, impoluta, é esta: amo-te.

11 de março de 2026

Vera Lagoa (1917-1996).


  Vera Lagoa foi o nome pelo qual ficou conhecida a jornalista Maria Armanda Falcão. Vera criou e dirigiu o jornal O Diabo desde 1976 até à sua morte. Figura incontornável do jornalismo português das últimas décadas do século passado, Vera foi uma mulher de personalidade fortíssima. O seu activismo começou cedo, quando o pai, um militar de carreira, oposicionista ao Estado Novo, foi deportado para a Madeira e depois para Cabo Verde. Oficialmente, Vera Lagoa não tinha mais do que a antiga quarta classe.

  Fez inimizades com políticos, e tinha amigos fiéis. Ramalho Eanes e Pinto Balsemão foram dois dos seus alvos. Sobre o primeiro, escreveu um livro em 1980, “Eanes nunca mais!”, e foi a primeira pessoa a ser processada por um Presidente da República. Condenada a pagar uma indemnização ao antigo Chefe de Estado, chegou a dizer, sobre o assunto: “É muito feio viver-se às custas duma mulher”.




     Dizia que os comunistas eram os heróis do seu tempo, mas após o 25 de Abril tornou-se anti-comunista primária, nas suas palavras. Conotada com a extrema-direita, definia-se independente, nem de esquerda, nem de direita, porque nenhuma lhe interessava.

    Vera Lagoa morreu de ataque cardíaco em 1996, na decorrência de doença cardíaca provocada por quatro atentados à bomba de que sofreu, designadamente um no seu jornal O Sol, reivindicado por forças terroristas de extrema-esquerda operacionais na década de 80. É uma mulher que, além de me suscitar admiração, me intriga e fascina.

10 de março de 2026

A saúde mental.


    Os problemas de saúde mental foram, durante décadas, negligenciados pela sociedade, em geral, e inclusivamente pela medicina, em particular. Como se fossem algo menor. Só recentemente, nas últimas décadas, começámos a entender os problemas de saúde mental como uma faceta mais do bem-estar de qualquer indivíduo; que, quando existem, devem ser tratados, acompanhados. Quem não se lembra do tempo em que literalmente nos metiam um género de picador de gelo no lobo frontal para destruir conexões cerebrais e, assim, tornar-nos mais “calmos”? Chamava-se lobotomia, hoje em dia está considerada um dos períodos mais negros da história da medicina, e curiosamente foi desenvolvida por um português.

  Eu padeço deste há muitos anos a esta parte de problemas de saúde mental. Durante anos, demasiados anos, sem qualquer tipo de acompanhamento ou medicação. Já há uns sete, seis anos, comecei a fazer medicação para controlar determinada sintomatologia, nomeadamente as minhas mudanças de humor e, na altura, uma agressividade derivada em grande parte da minha frustração com situações em concreto pelas quais passava naquele momento. Essa medicação supôs uma enorme alteração para mim, na medida em que fiquei mais calmo e com o humor mais estabilizado. Psicoterapia não faço porque não sinto essa necessidade. Frequentei alguns psicólogos e até psiquiatras e não senti que beneficiasse dessas sessões. Coisa distinta é a medicação, que de facto me é essencial para conseguir manter o mínimo de normalidade e tranquilidade.

    As causas deste meu quadro de saúde mental são por mim conhecidas: disfuncionalidade familiar, discriminação que começou numa idade precoce e componente genética. Digamos que se juntaram todos os factores. As minhas avós, de ambas as partes, não eram exactamente um modelo de estabilidade mental; já os meus pais herdaram algumas características, e por inerência eu também.

9 de março de 2026

António José Seguro.


  Eu não votei no actual Presidente da República. Entretanto, em Portugal, ao contrário do que sucede aqui em Espanha, o Chefe de Estado é eleito democraticamente pelos cidadãos, pelo que me resta desejar um mandato auspicioso a António José Seguro, o que, por conseguinte, seria bom para Portugal e os portugueses, onde me incluo.

     Gostei do seu discurso de tomada de posse. Foi coerente com o que demonstrou na campanha eleitoral, estabelecendo prioridades, apontando desafios e comprometendo-se a procurar encontrar soluções, em cooperação com os demais órgãos de soberania. O tempo dirá se é letra morta, ou não. Por enquanto, será o meu Presidente da República. Demos-lhe margem de acção. Que desfrute deste período de glória, enquanto ele durar.

7 de março de 2026

Os sobreviventes.


   Eu, o Namorado e o Francisco somos como aqueles resistentes das séries apocalípticas. Entendamos a blogaysfera como o mundo. Algures por 2016/2017 d. C., caiu um meteorito que arrasou estes meios (o meteorito Tik Tok, entre outros), e apenas sobreviveram uns. Somos nós. Andamos assim, no meio do mundo pós-apocalíptico, a tentar reconstrui-lo. Ajudamo-nos mutuamente, visitando os espaços um dos outros, e fazemo-lo, creio eu, de forma altruísta. Pelo menos falo por mim. Eu não visito os seus espaços porque espero que eles visitem o meu. Eu visito os seus espaços porque gosto de saber como vão e o que fazem, da mesma forma que gosto de interagir com eles. De 2008 a 2010 o meu blogue não recebia visitas, porque eu também não visitava ninguém. Era um exercício de escrita essencialmente para mim.

   Claro que, como em todas as séries, há alguém que destoa. Aqui também. Há um personagem que se crê melhor do que os outros, que não lê ninguém e que apenas gosta que o sigam e o comentem. E que, de quando em vez, faz umas visitas de circunstância, “para não parecer mal”. Entretanto, se ainda existe uma blogaysfera, se ainda há sobreviventes que insistem em que este espaço merece a pena e que há que ser reabilitado, esses somos nós os três, e mais ninguém.

6 de março de 2026

António Lobo Antunes (1942-2006).


   A morte de António Lobo Antunes deixa um silêncio profundo na literatura portuguesa. Parte um dos maiores escritores da nossa língua, uma voz única, intensa e implacável, que transformou a experiência humana, a guerra, a memória, a culpa, a família, o amor e a solidão em literatura de uma força rara.



   O eterno Prémio Nobel da Literatura que nunca o recebeu. Uma injustiça enorme cometida contra um dos maiores escritores de sempre da língua portuguesa. Em todo o caso, ele também dele não necessitava, e enjeitou-o, inclusivamente.


5 de março de 2026

A queda da Ponte de Entre-os-Rios, 25 anos.


   Eu sou muito atento, e tenho uma capacidade de reter informação mesmo quando não necessito dela. É normal que saibamos onde estávamos quando caíram as torres gémeas, mas quem é que se lembra de onde estava quando caiu a ponte Hintze Ribeiro? Lembro-me de ter chegado a casa do colégio, quando comecei a regressar sozinho e a prescindir do transporte escolar. Liguei a televisão e soube do acidente que ocorrera na noite anterior. Uma ponte, algures no norte, caíra, vitimando dezenas de pessoas. Na altura, aventaram-se diversas explicações: as fortes chuvadas dos dias anteriores, que aumentaram o leito do rio e arrastaram areias dos alicerces da ponte; porém, pouco depois soubemos que houvera extracções de areia ilegais, que poderão ter ajudado à erosão. Outro factor, quiçá o mais determinante, foi o da falta de manutenção. Há muito que se sabia que a ponte necessitava de uma reestruturação profunda, que estava velha e gasta. O seguro morreu de velho. Às vezes -demasiadas- é preciso que haja uma tragédia para que se faça algo. Entretanto, demitiu-se um ministro, e pouco mais se soube. Ninguém foi julgado. 

    Senti a necessidade de assinalar esta efeméride porque foi uma tragédia que me marcou particularmente; que retive. E não sou ingénuo relativamente aos motivos por detrás disso: não só o número de perdas humanas, mas principalmente o desmoronar de uma estrutura. Um certo encanto pela engenharia, e talvez algo mais: um paralelismo com a minha vida, que começaria a desmoronar aí, em torno de 2001, ou, pelo menos, a descarrilar. Mas hoje não é tempo de se falar de comboios, senão de pontes, e desta ponte.

4 de março de 2026

Decência.


   Ultimamente, multiplicaram-se as mensagens, e por conseguinte as opiniões, sobre uma tal de monogamia, poligamia, e por aí fora. Quando há muitas opiniões sobre um mesmo assunto, geralmente também há muita estupidez. A multiplicidade de designações não oculta o que cada coisa é na sua génese. Não, a dita monogamia não é uma construção social. Há animais monogâmicos, e ainda que não os houvesse; o que nos distingue dos demais animais é a razão. É a mesma razão que nos impede de termos relações sexuais com os nossos pais, por exemplo. Portanto, não há relacionamentos que não sejam monogâmicos. Há pouca vergonha, ou falta dela; há falta de valores espirituais e morais. Há falta de respeito, por si próprio e pelo outro. Há falta de decência. E o que se aplica à dita não-monogamia, também se aplica às pessoas que não gostam de assumir compromissos. Não é porque queiram ser livres. Fazem-no -e estão no seu direito- porque são pessoas completamente desorganizadas emocionalmente, várias vezes com um histórico de múltiplos parceiros, com dificuldade para fixar a atracção por um sujeito e em criar um projecto de futuro a dois. É a tal crise de valores. Mas o que antes era um comportamento desviante, agora começa a ser tolerado. Não admira que haja quem se vista de cão e ande, com as suas parafilias, a ladrar na rua e a comportar-se como tal. Às vezes nem é preciso o traje canino. Há quem muito ladre, e pouco acerte.

3 de março de 2026

Timothée Chalamet.


   Desde que o vi em Call Me By Your Name, de 2017, tornou-se, também para mim, uma espécie de sex symbol. Eu acho-lhe piada. Tem um certo ar de rufia. Podia bem ser o boy next door, e talvez seja por isso que me atraia. E a vocês, diz-vos alguma coisa ou nem por isso?




2 de março de 2026

João Paneleiro.

    

      Hoje vou contar-vos uma história que nunca vos contei.

    A minha mãe nasceu e criou-se no Alentejo, em Estremoz. Anos 60. Um país fechado sobre si próprio, pesado, silencioso.

    Ela tinha um primo -não sei bem em que grau- chamado João. Era homossexual. Chamavam-lhe “João Paneleiro”. Era assim, cru, sem pudor, como se o nome fosse uma sentença.

   Imaginem o que era ser homossexual no Alentejo profundo dos anos 60.

    Metiam-se com ele. Gozavam-no. Humilhavam-no. Mas, quando se vive sob discriminação constante, aprende-se a sobreviver. E ele sobrevivia com uma espécie de insolência luminosa. A minha mãe viu-o muitas vezes fazer isto: quando o provocavam, dava uma palmada no próprio rabo e respondia: “Aqui ó, na rata!”

       Era o seu escudo. O seu bordão. A sua forma de não se deixar esmagar.


        Nunca o conheci. Sei apenas que morreu. E, no entanto, sinto por ele uma ternura estranha, como se fosse uma memória herdada. Porque a sua história não é assim tão diferente da minha.

        Eu não tinha um gesto teatral para responder. Não tinha um bordão. Mas enfrentei os homofóbicos que me amarguraram a infância e a adolescência. Também aprendi a resistir.

        Portugal, nessa época, era uma miséria em quase todos os aspectos. E essa é uma mágoa que carrego quando penso em Oliveira Salazar. A cultura da abnegação, o elogio da pobreza, o virtuosismo da resignação… tudo isso atrasou o país em décadas.

      A tal “casa portuguesa”, com pão e vinho sobre a mesa, pobrezinha e orgulhosa, que a Amália cantava. Enquanto o povo vivia mergulhado na ignorância e em condições indignas, mesmo para os padrões da época.

       Isso é algo que não lhe consigo perdoar. Jamais.


28 de fevereiro de 2026

Os últimos dias de Marcelo.


    Não é fácil resumir o mandato -dois mandatos- de um Presidente da República em poucas palavras, com ligeireza. Marcelo Rebelo de Sousa começou o seu primeiro mandato, em 2016, como o presidente dos afectos. Aproximou as pessoas do órgão de soberania Presidência da República. Humanizou-o. Abriu as portas do Palácio de Belém. Distribuiu beijos e abraços. Contudo, não o fez de forma inocente. Se no primeiro mandato colaborou com o governo de Costa, no segundo mandato, iniciado em 2021, pudemos ver quem era Marcelo Rebelo de Sousa na verdade: um homem maquiavélico. Dissolveu a Assembleia pela não aprovação do Orçamento do Estado, numa má tradição extra constitucional em Portugal, e ele sabe-o, como professor de Direito Constitucional. A Constituição não obriga a fazê-lo nessas circunstâncias. Também o fez pelas suspeitas que penderam sobre Costa, após a demissão deste último, gozando o PS de maioria absoluta. Uma decisão polémica, no mínimo. E eu não sou socialista, nem de perto, nem de longe. Marcelo foi um vector de instabilidade política. O país andou anos seguidos em eleições, quando o Presidente, até pelo seu poder moderador, deve garantir estabilidade.

  Curiosamente, chegou a Belém com um capital de esperanças, depois de um segundo mandato desastroso de Cavaco Silva, disposto a recuperar o prestígio da instituição e conquistar o seu próprio, e só não sai pela porta pequena porque os olhos do povo já estão postos no seu sucessor, António José Seguro. Caso contrário, e porque o povo anda distraído, terminaria o percurso de Chefe de Estado pior do que Cavaco. Ironias.

27 de fevereiro de 2026

Quem nunca?


   O meu amigo de quem vos falei recentemente deu match com dois rapazes ao mesmo tempo e está interessado em ambos. Diz que gosta dos dois. Eu não lhe disse categoricamente “olha, tu não gostas é de nenhum”, para não soar rude e demasiado directo.

  Eu também, nos meus tempos de apps, estive “interessado” em dois rapazes ao mesmo tempo. Quem nunca foi beber café com um e no dia seguinte com outro? Nem sei se não cheguei a fazer isso, com dois, no mesmo dia. Um café, atenção. Não me metia na cama de ninguém. O meu marido foi o meu primeiro homem, e foi mesmo. Não tenho necessidade de mentir, e menos ainda num blogue que é meu.

     Como quem muito procura, pouco encontra, não tive sorte nenhuma por esses meios, e evidentemente que desde que estou com o meu marido deixei de ter essas aplicações. Até mesmo porque, se as tivesse, que jamais as teria -o respeito e a lealdade são fundamentais num casamento-, só daria match com as vacas. Literalmente.

26 de fevereiro de 2026

As voltas que a vida dá.


   Se me dissessem há dez anos (e não há dez anos atrás, como escreve uma bichona por aí, e não só é feio como é redundante e errado) que estaria a viver em Espanha, no noroeste, num lugar rural e tranquilo, casado, com a minha casa com piscina, a conduzir, com um homem fantástico, médico, prestigiado, que me ama e que eu amo, não acreditaria. A minha vida mudou muito, muito mesmo, e não é algo que aconteça tão frequentemente assim. Vocês, por exemplo. Eu leio os vossos desabafos, o vosso quotidiano, e não sinto que as vossas vidas tenham mudado muito. E não me refiro a mudanças positivas ou negativas. Refiro-me a mudanças. Talvez vocês até estejam melhor do que eu, mas parece-me que nada muda nas vossas vidas; nada de significante. E é um padrão que se repete com a maior parte das pessoas. A minha vida não. Sempre foi uma avalanche; melhor dizendo, uma erupção vulcânica. Está anos na pasmaceira, e de repente entra em convulsão, mudando tudo. Se calhar o nome correcto seria terramoto. Arrasa tudo e constrói diferente, e quase sempre implica sofrimento, até estabilizar. E é imprevisível.

25 de fevereiro de 2026

Viver “atrás do sol posto”.


   Só o título já me dá vontade de rir. O Francisco é o culpado. Eu já o conheço há muitos anos, e certa vez, quando andámos meio às turras, ele mandou-me uma boquinha de que eu vivia atrás do sol posto. Não foi novidade para mim tal expressão. É corriqueira em Portugal. Ficou-se-me, entretanto, gravada na memória, como se me tivessem dito algo que já sabia, mas em versão flecha, ou seja, algo que vai directo ao alvo.

    Bom, viver atrás do sol posto tem muitas vantagens. E algumas desvantagens. Eu diria que as vantagens suplantam as desvantagens, vendo o mundo como está, cada vez pior. Tenho sossego. Não há ruído. Não há stress com os transportes públicos e os horários a cumprir. Alimento-me de forma mais saudável. O ar é menos poluído. Sem dúvida alguma, algo que, com praticamente quarenta anos, valorizo, e muito. As desvantagens serão não ter, por exemplo, universidade perto, para fazer um mestrado (que gostaria). Não vejo mais nenhuma, realmente, porque a 50 quilómetros tenho um centro comercial com tudo, e a menos de 10 tenho hipermercados, algumas livrarias, algum comércio, serviços básicos, centro de saúde e hospital. Não estou tão isolado assim. É certo, é rural, e eu estou habituado. O tempo passa. Vivo aqui há seis anos.

       E ter estas vistas não é para todos.



24 de fevereiro de 2026

Quatro anos de guerra.


   Foi há quatro anos que começou a guerra da Ucrânia. Como eu temia, a Rússia não vai ceder um milímetro. Quer não só o território ocupado ilegalmente à Ucrânia como quer ainda determinar a política externa e interna do país vizinho, que considera seu. Aí reside o problema. A questão ucraniana não é circunstancial; é de fundo. Para a Rússia, a Ucrânia não merece ser independente. Quando assim é, não há nenhuma chance de paz duradoura para os ucranianos. Ainda que a guerra termine agora, despoletará de novo em dez, vinte, trinta anos. Será sempre uma bomba prestes a estalar, porque a Rússia não respeita a existência da Ucrânia. Quer integrá-la no seu território, ou sujeitá-la totalmente, como sucede com a Bielorrússia, um Estado fantoche e cúmplice. 

  Tenho imensa pena pelo povo ucraniano. Nenhuma solução será boa. Só o fim do regime de Putin poderia trazer alguma tranquilidade na região, o que se vê difícil para todos os efeitos.

23 de fevereiro de 2026

Gisberta (1960-2006).


   Ontem passaram-se vinte anos desde a morte de Gisberta. Eu escrevi sobre a Gisberta em 2011 (texto que poderão ler aqui). Creio que a história pessoal e as circunstâncias da morte de Gisberta são sobejamente conhecidas pela população em geral, e a LGBT+ em particular. A Gisberta foi uma transexual brasileira, imigrante em Portugal. Figura destacada na noite portuense por ser uma mulher bonita e elegante no trato, caiu no mundo das drogas e da prostituição. Algures em 1996 contraiu o HIV, talvez pelas drogas, talvez pela prostituição que exercia na Rua de Santa Catarina. A degradação começou, e a queda foi abrupta. Gisberta deixou de ter dinheiro para ter uma casa e acabou na rua, como sem-abrigo. Ia a associações de apoio a pessoas sem recursos, onde comia e podia fazer a sua higiene. Padecia de tuberculose. A sua situação de seropositiva evoluíra entretanto para SIDA.

    Foi num cenário de total miséria humana que, algures no início de 2006, um grupo de delinquentes começou a parar no edifício em obras onde Gisberta se abrigava. Da curiosidade inicial, vieram os ataques. A determinado momento, agrediram-na. Vinham todos os dias bater-lhe, ofendê-la, sujeitá-la a sevícias (foi sodomizada com um pau). Gisberta, cada vez mais fraca, só lhes pedia que a deixassem em paz. Quando, certo dia, já não se mexia, julgaram-na morta e atiraram-na para um poço para se desfazerem dela. Gisberta estava viva. Morreu afogada.




  O caso ganhou uma enorme repercussão nacional e internacional. Gisberta é, hoje, merecidamente, um símbolo da causa LGBT+. Não será despiciendo dizer que é uma mártir. Foi agredida, violada e assassinada por ser uma transexual; uma pessoa que estava numa situação de absoluta pobreza, doente, enfraquecida. O que aconteceu a Gisberta pode ocorrer a qualquer um de nós. É difícil subir, conquistar um espaço seguro e uma vida digna; é muito fácil cair-se em desgraça e perder tudo.

      Eu não esquecerei jamais a Gisberta.

22 de fevereiro de 2026

Já cheira a Primavera.


   Foi uma frase dita pelo meu marido, ontem ou anteontem. “Já cheira a Primavera”. Sim, é verdade, mas ainda virá por aí muita chuvinha - desculpem, é uma constatação. Estamos fartos dela, o que não significa que o calor esteja à porta. Os dias são mais quentes. Em contrapartida, as manhãs e as noites continuam frescas. Os dias também são maiores. Há luz por mais tempo. Os passarinhos cantam. O sol entra-se-me pela casa. Aquece-a. As flores florescem, passo a redundância, quer no jardim, quer na minha varanda. É o M. quem cuida do jardim. Ele adora. E sim, cheira a Primavera.





21 de fevereiro de 2026

Sushi.


   A 50km aqui da minha casa, abriu, há uns meses, um restaurante de comida japonesa. Eu poderia dizer de sushi, mas na realidade é de comida japonesa, porque não tem apenas sushi; tem uma quantidade enorme de comida japonesa, incluindo carnes, sopa miso, wakame, tataki, carpaccio, etc, porém, do que eu mais gosto é do sashimi. Vamos várias vezes. É quase um ritual de fim-de-semana. Aproveitamos e vamos à livraria, compramos livros, ou apenas os folheamos, e de vez em quando compramos roupa de que não necessitamos. É aquele vício compulsivo. Bem, e é tudo. Hoje fomos ao sushi e adorei, como sempre. Estava muito fresquinho.






20 de fevereiro de 2026

É bom, mas não é p'ra ti.


   Coitada da bicha quase sessentona. Diz que só segue dois blogues no activo, quando toda a gente sabe que não é verdade. Para tentar engatar-me, aí já me seguia (e como se eu precisasse que ela me seguisse - é muita presunção). Enviava-me e-mails, aos quais eu respondia, como sempre fiz com todas as pessoas, educadamente, percebendo as segundas intenções, contudo, mantendo o devido afastamento. O curioso é que a maricona continua com o meu blogue na lista de blogues dela. (risos) Tens de actualizar a lista, moça.

    É bom, não é?


Mas não é para ti. Já não tens pedalada para isto.