30 de março de 2026

Ser espanhol.


   Dentro da União Europeia há livre circulação de pessoas. Isso, a priori, confere a qualquer cidadão comunitário o direito a residir noutro país da União. Porém, e verão como é assim um dia que tentem morar noutro país da UE, não é um direito absoluto; terão de demonstrar que têm meios de subsistência e um seguro de saúde, caso contrário não vos dão o certificado de cidadão da União Europeia. Bom, eu obtive-o imediatamente ao ter-me casado com um cidadão espanhol. E fiquei assim um tempo. Depois, passado um ano de nos termos casado, pedi a nacionalidade espanhola por casamento. Foi-me concedida em 9 meses. Mas também não é um “presente”. Tive de fazer um exame de castelhano, escrito e oral, e outro exame de conhecimentos sociais e políticos de Espanha. Depois é juntar a papelada toda -antecedentes penais, policiais etc etc etc- e enviar. E chegou, já há uns anos. Passei a ser cidadão espanhol, com passaporte espanhol. Nem utilizo mais o cartão do cidadão português, que, ao ser espanhol, aqui perde o valor legal. Está metido numa gaveta, nem sei onde.

    É uma coisa que mexe connosco. Mudamos de amigos, de marido / mulher, de casa, até de país, mas de nacionalidade é esquisito. Eu não deixei de ser português. Até voto nas eleições. Mas passei a ser mais espanhol do que português, não só porque sou cidadão espanhol como também porque vivo aqui. Portugal começa a ser uma realidade familiar, contudo, distante. Não me sinto em casa quando vou a Portugal. A minha casa é aqui, a minha família está aqui (marido e animais). Isto de ser espanhol, de deixar de me ver como português, ou exclusivamente português, é que custa um pouco a associar. E sobretudo espanhol. Aprendemos a ver os espanhóis como “os outros”, principalmente pelo processo histórico, pelos séculos de guerras e inimizades Portugal x Espanha, e de repente tu pertences “aos outros”. 

27 de março de 2026

Noelia Castillo Ramos.


   Gostaria que fixassem este nome, nem que fosse por apenas alguns breves momentos. Noelia Castillo Ramos foi uma rapariga que nasceu há 25 anos no seio de uma família disfuncional - como eu. Foi institucionalizada. O Estado assumiu o dever de a proteger. Falhou. Noelia, mais tarde, foi abusada sexualmente por vários jovens. Nunca se fez justiça. Em 2022, não aguentando o sofrimento mental -padecia, como eu, de transtorno da personalidade limite e transtorno obsessivo compulsivo-, atirou-se de um quinto andar. Ficou paraplégica e com dores físicas permanentes. Entrou na justiça pedindo o direito a morrer dignamente, o direito à eutanásia por sofrimento físico e mental. Foi avaliada por mais de trinta especialistas, entre psicólogos, psiquiatras e juristas. Os pais, que no seu dia não a protegeram, opuseram-se à eutanásia. O pai opôs-se por vias legais, tentando até ao último momento que a justiça impedisse Noelia de morrer dignamente, como quis. Ontem, cumpriu-se a sua vontade, e Noelia pode, finalmente, descansar em paz.




26 de março de 2026

A masculinidade tóxica entre os gays.


   Não é novidade para os mais atentos que há uma masculinidade tóxica entre os gays, desde logo quando a maioria tem de desempenhar papéis claramente heteronormativos: o famoso activo e passivo. Os que fazem ambos são os versáteis. Tudo muito bem até aqui quando as pessoas, de forma consciente e livre, aceitam essas categorias e se identificam com elas. Não se identificando, aí começam os problemas. Por que razão assumimos que um rapaz tem de ser passivo, activo ou mesmo versátil? E se não quiser ser nenhum? O sexo anal é assim tão relevante numa relação, tão indispensável? Tenho as minhas dúvidas. O sexo é muito mais do que a penetração, e é seguramente muito mais do que o sexo anal.

    Dentro dessa masculinidade tóxica, há um preconceito bastante visível com o homossexual dito passivo. Muitos gays orgulham-se de dizer que são activos, de que os outros pensem que o são, quando frequentemente nem o são. E isso está relacionado à masculinidade tóxica que que envenena não só a sociedade, como um todo, mas também a dita comunidade gay. Repetimos os estigmas heteronormativos, de que o homem é o macho, o dominador, quem manda (o activo), enquanto que o passivo está numa posição inferior, porque recebe, associado à fêmea e à debilidade. Já era assim em Roma, quando o papel passivo era estigmatizado. Julgamos -mal- que a homossexualidade era aceite na Antiguidade Clássica. Convém esclarecer: o papel activo não era socialmente censurável, porque o passivo sim que o era, e hoje em dia continua a sê-lo. Quando, no fundo, para haver activos tem de haver passivos, e não raras vezes a maioria desempenha ambos os papéis. E eu estou à vontade para falar sobre isto, porque não existe qualquer reflexo pessoal nas minhas palavras: não sou passivo, nem sou activo, e nem o sexo anal é algo de que goste. Apenas sou alguém que não vive numa redoma de vidro e que tem consciência social. Seria mais fácil se as pessoas se limitassem apenas a ser, a ser o que gostam.


25 de março de 2026

As pessoas podem ser muito más.


   A minha mãe faleceu em 2022, numa unidade de cuidados paliativos. O seu companheiro de dezasseis anos faleceu cinco dias antes. Daquelas coincidências terríveis. Eu já vivia em Espanha. Aproveitando-se desse facto, de eu estar longe e de a minha mãe estar nos últimos dias, os filhos do companheiro dela, sujeitos que nunca conheci, entraram dentro do apartamento e começaram a furtar-me objectos. Não me furtaram nada de valor, porque boa parte das minhas coisas, felizmente, não estava naquele apartamento, mas sim num armazém, devidamente guardadas. No apartamento, no quarto onde eu dormia, havia as minhas roupas, CDs, alguns objectos de infância que gostava de ter comigo, o meu computador e livros. Eu vim para Espanha sem nada, para passar uma ou duas semanas. Acabei por ficar, inesperadamente. Comprei roupa nova, outro computador, etc.

      Quando, por fim, a minha mãe faleceu, já tinham dado início ao espólio. Aliás, começou quando faleceu o pai deles. Não perderam tempo. Assim que soube que o homem tinha morrido, e já antevendo a situação, lá consegui o número dessa gente e expliquei-lhes a situação: que me guardassem as coisas, que em poucos dias iria a Portugal buscar tudo. No dia marcado, tinha todas as minhas coisas, e as da minha mãe, nas escadas do prédio, como se fossem lixo. Tudo espalhado. Um cenário inimaginável. A minha mãe morrera apenas sete dias antes. Eu estava de luto e com tudo o que era nosso assim. Voltei a Espanha, com uma carrinha e os meus pertences (entretanto passei pelo armazém e trouxe o que quis; deixei o que não quis). Quando comecei a ordenar as minhas coisas e as da minha mãe, dou por falta de objectos. Objectos sem nenhum valor económico, e sim sentimental: uma almofada do Vitinho, um candeeiro de bebé, uma Super Nintendo Mini (que não tinha valor sentimental), entre outras coisas. Livros não, claro. Até me enviaram a mais: alguns que eram do pai.




  Dou muito valor aos meus objectos de infância, sobretudo. A tudo o que tenho, modo geral, mas sobretudo àqueles que estão directamente relacionados com essa fase da minha vida. E posso dizer que tenho cerca de 70% de tudo o que alguma vez foi meu desde que nasci. É significativo em alguém com 40 anos. Relativamente àquilo que me furtaram ou que desapareceu com tantas mudanças (quer as que fiz em Portugal, quer as que fiz em Espanha, que foram duas), tenho procurado comprar, a privados, artigos iguais ou semelhantes, entre os quais figuram os da foto que vos deixo. Isto a propósito das minhas caixas de CDs. Não uso CDs. Entretanto, dei por falta de alguns. Ainda hoje, quatro anos depois daquele terror que vivi, vou-me dando conta de objectos que foram ficando para trás.

23 de março de 2026

Só dês um livro a quem o mereça.


   Eu adoro comprar livros. Lê-los, evidentemente, mas comprá-los, mesmo que demore anos a pegar neles, é algo que não posso evitar. Recentemente soube que isto tem um nome qualquer, e que não é necessariamente mau, ou seja, não é um mero vício; digamos que vou comprando livros cujos temas me interessam. É como estabelecer uma espécie de baliza mental; de biblioteca dos meus gostos. Não é acumular. Os livros nunca são demais.



   Esta introdução para dizer que, às vezes, quero livros antigos e descatalogados, que compro a privados através de plataformas como o OLX ou alfarrabistas. O último que comprei foi um sobre Portugal e Castela na Idade Média. Frequentemente, encontro dedicatórias dentro dos livros. Uma recente levou-me a pensar: o que levará alguém a desfazer-se de um livro que lhe foi dado com carinho, mesmo que esse carinho tenha deixado de existir? Afinal de contas, existiu num determinado momento no tempo. E um livro é um presente tão especial, que fico sempre com aquela ideia de que quem dá um livro tem verdadeiro afecto. Por isso, nunca dês um livro a alguém que desconfies que é capaz de se desfazer dele, vendendo-o a outrem que depois o põe à venda numa plataforma qualquer. Um livro é amor, é testemunho de amor, e isso deve ficar, mesmo que o resto já não esteja.


20 de março de 2026

A mudança de género antes da maioridade.


   Mais do que uma questão de convicções políticas, aqui está em causa uma questão de maturidade e de auto conhecimento. Não me parece que um miúdo ou uma miúda de 12, 13, 14 anos, e por aí em diante, tenha essas capacidades em grau suficiente para decidir sobre algo definitivo e irreversível, e dou o meu caso como exemplo, o que me leva a ter alguma autoridade sobre o assunto, de certo modo: eu era bastante feminino na infância e adolescência (hoje sou menos), e cheguei a crer, quando tinha 12 anos, que era transexual, sobretudo após conhecer o caso da Roberta Close, que ali em torno do final dos anos 90 foi bastante comentado em Portugal. Se naquele momento eu tivesse optado por mudar de sexo/género, com terapias hormonais, ter-me-ia arrependido, porque hoje em dia sinto-me plenamente um homem. Teria arruinado tudo. Isto é lógico. A adolescência é um período em que crescemos física e mentalmente, e esse tipo de decisões não podem ser tomadas num período tão frágil, tão inconstante, tão volátil. Eu só lamento que haja uma esquerda absolutamente cega que põe os seus interesses políticos e ideológicos à frente do interesse daqueles jovens. Que façam o que quiserem quando tiverem maturidade para isso.

19 de março de 2026

Seremos todos um pouco bissexuais?


    Lembram-se da famosa escala de Kinsey? Falou-se muito dela durante uns anos. Para os distraídos, essa escala dizia que entre o estritamente homossexual e o estritamente heterossexual, que são muito poucos, há várias tendências. Que nem tudo se resume a heterossexuais, bissexuais e homossexuais, e que no fundo a grande maioria da população humana é bissexual ou com tendências bissexuais, isto é, que apenas uma ínfima minoria é exclusivamente heterossexual ou homossexual. A mim começou-me a fazer sentido, e explico-vos o porquê.

    Eu nunca me sentira fisicamente atraído por uma mulher. Jamais. A sexualidade humana vai-se definindo durante a adolescência. Eu em tudo ando sempre um pouco atrasado: maturidade, por exemplo. De há uns anos para cá, apercebi-me de que o corpo da mulher me excita. Não a mulher enquanto pessoa, não a personalidade feminina. O corpo. Excita-me, por exemplo, a ideia de estar com uma mulher na cama, de chupar-lhe os seios, de penetrá-la, de lambê-la. Mas sei que não sou bissexual. Duvido que conseguisse ter uma relação com uma mulher. Simultaneamente, sim, seria totalmente capaz de ter sexo com uma; a ideia excita-me imenso. Portanto, sim, a escala de Kinsey faz-me sentido, e demonstra que estas pessoas que dedicam uma vida a estudar certo tema, alguma razão terão. Eu sou homossexual, mas não a 100%. Há uma parte de mim mais bissexual: a dita escala, que é tipo uma palete de cores: entre o branco e o preto (que na realidade nem são cores), há muitas outras no meio. E vocês, sentem alguma atracção exclusivamente física por mulheres, sendo homossexuais? Se houver algum heterossexual a ler, a pergunta é adaptada no mesmo sentido; se, sendo heterossexual, sente alguma atracção física por alguém do mesmo sexo.

18 de março de 2026

Rob Jetten.


   Este senhor é o primeiro Primeiro-Ministo abertamente homossexual dos Países Baixos. Tem um sorriso encantador, não se pode negar. O que acham dele?


Foto e notícia retiradas da página de Instagram do Público 

16 de março de 2026

O(s) armário(s).


   Há gays que vivem no armário, há gays que vivem no fundo de um baú. Há gays que vivem num armário com portas de vidro, em que se vê tudo lá para dentro. E há gays, finalmente, que nasceram fora do armário, e viveram sempre fora dele. Eu, por exemplo. 

  Antes mesmo de saber o que era ser homossexual, heterossexual, fosse lá o que fosse, já era discriminado socialmente, na rua e na escola, porque os demais intuíam a minha sexualidade apenas pela forma livre e espontânea com que me expressava: uma delicadeza nos modos, uma feminilidade, o que lhe quiserem chamar. É, o mundo é um lugar muito mau.

13 de março de 2026

Cozinhar.


   Adoro cozinhar. Detesto lavar a louça e arrumar a cozinha. Mas cozinhar realmente é uma actividade que me dá prazer, e tenho bastante jeito. A minha mãe cozinhava muito bem. Já a sua mãe, minha avó, também, e a minha tia, irmã da minha mãe, o mesmo. E eu cozinho sem receitas. Os ingredientes vão todos a olho, como se costuma dizer, excepto se se trata de algum prato mais elaborado ou que não tenha por hábito fazer tanto. Eu faço bacalhau de várias formas (com natas, à bràs, à gomes de sá), lasanha, arroz de pato, carne no forno, peixe, sopa, tudo. Só não me aventuro na doçaria, embora há uns anos tenha feito uma tarta de queijo deliciosa. Passo-vos algumas fotos.


Arroz de pato

Entrecosto no forno 

Feijoada à brasileira 

Francesinha à moda do Porto

Bacalhau à Brás

12 de março de 2026

Quatro anos.


   Mãe, passaram-se quatro anos. Demasiado tempo sem te ouvir, sem te ver, apesar de estares sempre presente no meu pensamento. Não há um único momento do dia sem que me lembre de ti.

    A nossa relação esteve marcada por altos e baixos. Não foi perfeita. Assim mesmo, eu creio que nenhuma relação onde haja amor é perfeita, porque quem se quer briga, discute, bem-quer, tudo em simultâneo. E a nossa relação era assim, imperfeita, como nós também o fomos, tu como mãe e eu como filho.

   A tua memória é assim, imperfeita. Por vezes uma saudade imensa, outra vezes uma revolta. Foste a mãe que soubeste ser, disso não tenho qualquer dúvida, o que não te redime dos erros, alguns graves, como bem sabes. A mãe que pudeste ser, digo-o para mim, num género de mantra.

    A verdade que fica, impoluta, é esta: amo-te.

11 de março de 2026

Vera Lagoa (1917-1996).


  Vera Lagoa foi o nome pelo qual ficou conhecida a jornalista Maria Armanda Falcão. Vera criou e dirigiu o jornal O Diabo desde 1976 até à sua morte. Figura incontornável do jornalismo português das últimas décadas do século passado, Vera foi uma mulher de personalidade fortíssima. O seu activismo começou cedo, quando o pai, um militar de carreira, oposicionista ao Estado Novo, foi deportado para a Madeira e depois para Cabo Verde. Oficialmente, Vera Lagoa não tinha mais do que a antiga quarta classe.

  Fez inimizades com políticos, e tinha amigos fiéis. Ramalho Eanes e Pinto Balsemão foram dois dos seus alvos. Sobre o primeiro, escreveu um livro em 1980, “Eanes nunca mais!”, e foi a primeira pessoa a ser processada por um Presidente da República. Condenada a pagar uma indemnização ao antigo Chefe de Estado, chegou a dizer, sobre o assunto: “É muito feio viver-se às custas duma mulher”.




     Dizia que os comunistas eram os heróis do seu tempo, mas após o 25 de Abril tornou-se anti-comunista primária, nas suas palavras. Conotada com a extrema-direita, definia-se independente, nem de esquerda, nem de direita, porque nenhuma lhe interessava.

    Vera Lagoa morreu de ataque cardíaco em 1996, na decorrência de doença cardíaca provocada por quatro atentados à bomba de que sofreu, designadamente um no seu jornal O Sol, reivindicado por forças terroristas de extrema-esquerda operacionais na década de 80. É uma mulher que, além de me suscitar admiração, me intriga e fascina.

10 de março de 2026

A saúde mental.


    Os problemas de saúde mental foram, durante décadas, negligenciados pela sociedade, em geral, e inclusivamente pela medicina, em particular. Como se fossem algo menor. Só recentemente, nas últimas décadas, começámos a entender os problemas de saúde mental como uma faceta mais do bem-estar de qualquer indivíduo; que, quando existem, devem ser tratados, acompanhados. Quem não se lembra do tempo em que literalmente nos metiam um género de picador de gelo no lobo frontal para destruir conexões cerebrais e, assim, tornar-nos mais “calmos”? Chamava-se lobotomia, hoje em dia está considerada um dos períodos mais negros da história da medicina, e curiosamente foi desenvolvida por um português.

  Eu padeço deste há muitos anos a esta parte de problemas de saúde mental. Durante anos, demasiados anos, sem qualquer tipo de acompanhamento ou medicação. Já há uns sete, seis anos, comecei a fazer medicação para controlar determinada sintomatologia, nomeadamente as minhas mudanças de humor e, na altura, uma agressividade derivada em grande parte da minha frustração com situações em concreto pelas quais passava naquele momento. Essa medicação supôs uma enorme alteração para mim, na medida em que fiquei mais calmo e com o humor mais estabilizado. Psicoterapia não faço porque não sinto essa necessidade. Frequentei alguns psicólogos e até psiquiatras e não senti que beneficiasse dessas sessões. Coisa distinta é a medicação, que de facto me é essencial para conseguir manter o mínimo de normalidade e tranquilidade.

    As causas deste meu quadro de saúde mental são por mim conhecidas: disfuncionalidade familiar, discriminação que começou numa idade precoce e componente genética. Digamos que se juntaram todos os factores. As minhas avós, de ambas as partes, não eram exactamente um modelo de estabilidade mental; já os meus pais herdaram algumas características, e por inerência eu também.

9 de março de 2026

António José Seguro.


  Eu não votei no actual Presidente da República. Entretanto, em Portugal, ao contrário do que sucede aqui em Espanha, o Chefe de Estado é eleito democraticamente pelos cidadãos, pelo que me resta desejar um mandato auspicioso a António José Seguro, o que, por conseguinte, seria bom para Portugal e os portugueses, onde me incluo.

     Gostei do seu discurso de tomada de posse. Foi coerente com o que demonstrou na campanha eleitoral, estabelecendo prioridades, apontando desafios e comprometendo-se a procurar encontrar soluções, em cooperação com os demais órgãos de soberania. O tempo dirá se é letra morta, ou não. Por enquanto, será o meu Presidente da República. Demos-lhe margem de acção. Que desfrute deste período de glória, enquanto ele durar.

7 de março de 2026

Os sobreviventes.


   Eu, o Namorado e o Francisco somos como aqueles resistentes das séries apocalípticas. Entendamos a blogaysfera como o mundo. Algures por 2016/2017 d. C., caiu um meteorito que arrasou estes meios (o meteorito Tik Tok, entre outros), e apenas sobreviveram uns. Somos nós. Andamos assim, no meio do mundo pós-apocalíptico, a tentar reconstrui-lo. Ajudamo-nos mutuamente, visitando os espaços um dos outros, e fazemo-lo, creio eu, de forma altruísta. Pelo menos falo por mim. Eu não visito os seus espaços porque espero que eles visitem o meu. Eu visito os seus espaços porque gosto de saber como vão e o que fazem, da mesma forma que gosto de interagir com eles. De 2008 a 2010 o meu blogue não recebia visitas, porque eu também não visitava ninguém. Era um exercício de escrita essencialmente para mim.

   Claro que, como em todas as séries, há alguém que destoa. Aqui também. Há um personagem que se crê melhor do que os outros, que não lê ninguém e que apenas gosta que o sigam e o comentem. E que, de quando em vez, faz umas visitas de circunstância, “para não parecer mal”. Entretanto, se ainda existe uma blogaysfera, se ainda há sobreviventes que insistem em que este espaço merece a pena e que há que ser reabilitado, esses somos nós os três, e mais ninguém.

6 de março de 2026

António Lobo Antunes (1942-2006).


   A morte de António Lobo Antunes deixa um silêncio profundo na literatura portuguesa. Parte um dos maiores escritores da nossa língua, uma voz única, intensa e implacável, que transformou a experiência humana, a guerra, a memória, a culpa, a família, o amor e a solidão em literatura de uma força rara.



   O eterno Prémio Nobel da Literatura que nunca o recebeu. Uma injustiça enorme cometida contra um dos maiores escritores de sempre da língua portuguesa. Em todo o caso, ele também dele não necessitava, e enjeitou-o, inclusivamente.


5 de março de 2026

A queda da Ponte de Entre-os-Rios, 25 anos.


   Eu sou muito atento, e tenho uma capacidade de reter informação mesmo quando não necessito dela. É normal que saibamos onde estávamos quando caíram as torres gémeas, mas quem é que se lembra de onde estava quando caiu a ponte Hintze Ribeiro? Lembro-me de ter chegado a casa do colégio, quando comecei a regressar sozinho e a prescindir do transporte escolar. Liguei a televisão e soube do acidente que ocorrera na noite anterior. Uma ponte, algures no norte, caíra, vitimando dezenas de pessoas. Na altura, aventaram-se diversas explicações: as fortes chuvadas dos dias anteriores, que aumentaram o leito do rio e arrastaram areias dos alicerces da ponte; porém, pouco depois soubemos que houvera extracções de areia ilegais, que poderão ter ajudado à erosão. Outro factor, quiçá o mais determinante, foi o da falta de manutenção. Há muito que se sabia que a ponte necessitava de uma reestruturação profunda, que estava velha e gasta. O seguro morreu de velho. Às vezes -demasiadas- é preciso que haja uma tragédia para que se faça algo. Entretanto, demitiu-se um ministro, e pouco mais se soube. Ninguém foi julgado. 

    Senti a necessidade de assinalar esta efeméride porque foi uma tragédia que me marcou particularmente; que retive. E não sou ingénuo relativamente aos motivos por detrás disso: não só o número de perdas humanas, mas principalmente o desmoronar de uma estrutura. Um certo encanto pela engenharia, e talvez algo mais: um paralelismo com a minha vida, que começaria a desmoronar aí, em torno de 2001, ou, pelo menos, a descarrilar. Mas hoje não é tempo de se falar de comboios, senão de pontes, e desta ponte.

4 de março de 2026

Decência.


   Ultimamente, multiplicaram-se as mensagens, e por conseguinte as opiniões, sobre uma tal de monogamia, poligamia, e por aí fora. Quando há muitas opiniões sobre um mesmo assunto, geralmente também há muita estupidez. A multiplicidade de designações não oculta o que cada coisa é na sua génese. Não, a dita monogamia não é uma construção social. Há animais monogâmicos, e ainda que não os houvesse; o que nos distingue dos demais animais é a razão. É a mesma razão que nos impede de termos relações sexuais com os nossos pais, por exemplo. Portanto, não há relacionamentos que não sejam monogâmicos. Há pouca vergonha, ou falta dela; há falta de valores espirituais e morais. Há falta de respeito, por si próprio e pelo outro. Há falta de decência. E o que se aplica à dita não-monogamia, também se aplica às pessoas que não gostam de assumir compromissos. Não é porque queiram ser livres. Fazem-no -e estão no seu direito- porque são pessoas completamente desorganizadas emocionalmente, várias vezes com um histórico de múltiplos parceiros, com dificuldade para fixar a atracção por um sujeito e em criar um projecto de futuro a dois. É a tal crise de valores. Mas o que antes era um comportamento desviante, agora começa a ser tolerado. Não admira que haja quem se vista de cão e ande, com as suas parafilias, a ladrar na rua e a comportar-se como tal. Às vezes nem é preciso o traje canino. Há quem muito ladre, e pouco acerte.

3 de março de 2026

Timothée Chalamet.


   Desde que o vi em Call Me By Your Name, de 2017, tornou-se, também para mim, uma espécie de sex symbol. Eu acho-lhe piada. Tem um certo ar de rufia. Podia bem ser o boy next door, e talvez seja por isso que me atraia. E a vocês, diz-vos alguma coisa ou nem por isso?




2 de março de 2026

João Paneleiro.

    

      Hoje vou contar-vos uma história que nunca vos contei.

    A minha mãe nasceu e criou-se no Alentejo, em Estremoz. Anos 60. Um país fechado sobre si próprio, pesado, silencioso.

    Ela tinha um primo -não sei bem em que grau- chamado João. Era homossexual. Chamavam-lhe “João Paneleiro”. Era assim, cru, sem pudor, como se o nome fosse uma sentença.

   Imaginem o que era ser homossexual no Alentejo profundo dos anos 60.

    Metiam-se com ele. Gozavam-no. Humilhavam-no. Mas, quando se vive sob discriminação constante, aprende-se a sobreviver. E ele sobrevivia com uma espécie de insolência luminosa. A minha mãe viu-o muitas vezes fazer isto: quando o provocavam, dava uma palmada no próprio rabo e respondia: “Aqui ó, na rata!”

       Era o seu escudo. O seu bordão. A sua forma de não se deixar esmagar.


        Nunca o conheci. Sei apenas que morreu. E, no entanto, sinto por ele uma ternura estranha, como se fosse uma memória herdada. Porque a sua história não é assim tão diferente da minha.

        Eu não tinha um gesto teatral para responder. Não tinha um bordão. Mas enfrentei os homofóbicos que me amarguraram a infância e a adolescência. Também aprendi a resistir.

        Portugal, nessa época, era uma miséria em quase todos os aspectos. E essa é uma mágoa que carrego quando penso em Oliveira Salazar. A cultura da abnegação, o elogio da pobreza, o virtuosismo da resignação… tudo isso atrasou o país em décadas.

      A tal “casa portuguesa”, com pão e vinho sobre a mesa, pobrezinha e orgulhosa, que a Amália cantava. Enquanto o povo vivia mergulhado na ignorância e em condições indignas, mesmo para os padrões da época.

       Isso é algo que não lhe consigo perdoar. Jamais.