20 de março de 2026

A mudança de género antes da maioridade.


   Mais do que uma questão de convicções políticas, aqui está em causa uma questão de maturidade e de auto conhecimento. Não me parece que um miúdo ou uma miúda de 12, 13, 14 anos, e por aí em diante, tenha essas capacidades em grau suficiente para decidir sobre algo definitivo e irreversível, e dou o meu caso como exemplo, o que me leva a ter alguma autoridade sobre o assunto, de certo modo: eu era bastante feminino na infância e adolescência (hoje sou menos), e cheguei a crer, quando tinha 12 anos, que era transexual, sobretudo após conhecer o caso da Roberta Close, que ali em torno do final dos anos 90 foi bastante comentado em Portugal. Se naquele momento eu tivesse optado por mudar de sexo/género, com terapias hormonais, ter-me-ia arrependido, porque hoje em dia sinto-me plenamente um homem. Teria arruinado tudo. Isto é lógico. A adolescência é um período em que crescemos física e mentalmente, e esse tipo de decisões não podem ser tomadas num período tão frágil, tão inconstante, tão volátil. Eu só lamento que haja uma esquerda absolutamente cega que põe os seus interesses políticos e ideológicos à frente do interesse daqueles jovens. Que façam o que quiserem quando tiverem maturidade para isso.

4 comentários:

  1. Olá, Mark.

    Começo pela minha identificação, não vá esquecer-me! Risos :) Sou o Diogo.

    Em criança, ainda antes de entrar na escola, também era muito feminino. Na adolescência já era menos, embora fossem expressões diferentes. Quando estava pelos meus 4/5 anos recordo-me de ter um bebé Nenuco, que pedi emprestado à minha prima e ao qual dava de mamar. Na adolescência, a expressão de género já não era a mesma, claro, embora todos conseguissem perceber que eu era gay. Indisfarçavel ahahahah.

    A transexualidade não se resume apenas à expressão de género. No meu caso, nunca me recordo de ter rejeitado o meu corpo ou o meu sexo em particular. Quando descobri a masturbação, por exemplo, não senti qualquer culpa. No mesmo sentigo, gostei de ver o meu corpo desenvolver-se e adquirir características de um homem adulto - isto por volta dos 12/13 anos.

    Muitos trans experienciam disforia de género; o sofrimento é atroz. Reintroduzir o conceito de "perturbação da identidade de género" (diploma do Chega) ou "incongurência de género" (diploma do PSD) traduz um desalinhamento com as organizações que regulam a prática da medicina e da psicologia em Portugal (que alinham com as suas respetivas ocidentais e mesmo mundiais, como a OMS). A transexualidade não é uma patologia.

    Desde 2018, pessoas com mais de 18 anos e adolescentes entre os 16 e os 18 anos - os últimos com autorização dos pais e uma declaração de um profissional de saúde (medicina ou psicologia), reconhecendo a maturidade do jovem para a tomada da decisão em causa - podem alterar o seu nome e sexo no registo civil.

    Os bloqueadores de puberdade e/ou terapia hormonal não são iniciados sem que exista uma avaliação da maturidade do jovem, e seja confirmada a disforia, sendo esse o critério para determinar o momento de início da terapia hormonal e, antes disso, os bloqueadores de puberdade. A terapia hormonal não é iniciada antes dos 16 anos, salvo em casos específicos, que são sempre avaliados. Os pais têm sempre de dar o seu consentimento.

    Tenho de ler sobre o tema e ficar atento ao documento final a ser enviado à Presidência. Contudo, afirmo que interesses políticos e ideológicos colocados à frente dos interesses dos cidadãos não é mais uma atribuição da direita do que é da esquerda. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades: pessoas de direita dirão "corrigem-se os erros", as de esquerda terão a sua oportunidade mais adiante.

    Um abraço, Mark.

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    1. Olá, Diogo.

      Naturalmente que não é um processo arbitrário. Há pareceres médicos. Também, se não os houvesse, seria surreal. Lá chegaremos… ou não.

      Assim mesmo, e respeitando e sendo solidário com a dor desses jovens (até porque sei o que é o bullying, e nesses casos há a somar o desconforto com o corpo e a identidade), parece-me que a adolescência é um processo de tal forma transitório que qualquer decisão definitiva pode traduzir-se num enorme problema anos depois, e irreversível. E há casos desses. Da mesma forma que nos é exigido ter determinada idade para movimentar uma conta bancária, casar, conduzir, etc, por maioria de razão, uma decisão de tal forma determinante e definitiva não pode ser tomada numa idade tão precoce, mesmo com avais médicos. Se estamos todos de acordo em estabelecer uma idade mínima para determinados aspectos, podemos deixar este, que não é de somenos, assim, nas mãos de pareceres médicos? Não me parece a decisão mais ajustada e correcta. Os médicos falham, e a adolescência é propícia a desajustes e mudanças repentinas.

      Relativamente às convicções políticas e ideológicas, com certeza. Esta medida das direitas tem muito de ideológico.

      Eu era muito feminino, e nesse aspecto tive uns pais fenomenais, que nunca me recriminaram e que me deixaram viver a minha infância como queria: se era Barbies que eu queria, compravam-mas. Os meus pais estavam muito à frente, talvez por virem de um meio socialmente mais aberto, por ser marginal: noite, álcool, bares.

      Um abraço.

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    2. Olá, Mark.

      Precisamente por não ser um processo arbitrário, por existirem pareceres médicos envolvidos, devemos reforçar que estes existem. Não houve irresponsabilidade no desenho da actual lei. Com efeito, os médicos erram, mas não podemos reduzir a transição ao plano das escolhas individuais de um adolescente, reconhecendo que o jovem é uma pessoa a amadurecer, que há grande volatilidade.

      A terapia hormonal não poderá ser iniciada antes dos 16 anos. Por sua vez, os efeitos dos bloqueadores de puberdade são reversíveis, embora possamos encontrar estudos que mencionam temas inalcançáveis para mim, como a "densidade óssea".

      É uma pena que não tenhamos acesso a muitos casos de reversão da transição e da consequente alteração do sexo no registo civil. O jornalismo precisa de fazer esse trabalho, mas intuo que terá grande dificuldade... até pela grandeza dos números: entre 2018 e 2025 houve 323 pessoas de 16 e 17 anos entre as quase 3300 que mudaram de nome e sexo no Registo Civil [Alterações à legislação sobre identidade de género são "retrocesso político", do Público, a 16 de Março de 2026]

      Eu era feminino, talvez não muito a certo ponto, mas bullying apenas sofri na escola, e não foi pouco. Ainda hoje alimento desejos de vingança, dos quais não me orgulho, mas é o que é: estão cá. Hoje, tudo passou :), aliás, logo na faculdade. Estou muito bem; a vida realmente melhorou muito.

      Conto um episódio engraçado da semana passada! Estava no balneário da natação e fui até aos lavatórios: imediatamente, um "senhor" que tomava banho com a porta da cabine de duche aberta, olhou para mim, e fechou-a. RISOS! Quis bater à porta e dizer-lhe que ele não me interessava minimamente! O topete! Esta autoconfiança dos homens hetero! Não queremos nada - com a maioria, bem entendido - deles! Agora que penso, tomar banho de porta aberta, num balneário masculino, também poderá dizer alguma coisa sobre ele."

      Abraço!

      Diogo

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    3. Olá, Diogo.

      Compreendo a força dos teus argumentos e a lógica, mas insisto num ponto que para mim é fundamental: há determinadas decisões que necessitam de uma idade mínima, biológica, onde haja um consenso generalizado a partir da qual a pessoa está apta. Tenho lido casos de crianças que estão a mudar de género. Ontem mesmo, em Portugal, soube, através dos jornais on-line, de uma menina (?) chamada Maria, de 7 anos. Uma criança de 7 anos sabe se é uma menina ou um menino? Se me perguntassem, aos 7 anos, eu diria que era um menino, mas se recuassem aos 4, provavelmente diria que era uma menina (lembro-me, aliás, de dizer que me chamava Vera Lúcia - e não me perguntes o porquê desse nome). Aos 12, dir-te-ia que QUERIA ser uma menina. E hoje sou um homem, sinto-me um homem, com os seus traços de feminilidade, que enquadro muito bem naquilo que sou, e que, devo dizer, até me dá uma certa vaidade possuí-los. Não é uma feminilidade chocante e aberrante que confronta a sociedade, senão pequenos traços que se confundem facilmente com sensibilidade. Gosto muito de ser como sou.

      Um abraço, e obrigado por estes debates. É muito generoso da tua parte.

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