2 de março de 2026

João Paneleiro.

    

      Hoje vou contar-vos uma história que nunca vos contei.

    A minha mãe nasceu e criou-se no Alentejo, em Estremoz. Anos 60. Um país fechado sobre si próprio, pesado, silencioso.

    Ela tinha um primo -não sei bem em que grau- chamado João. Era homossexual. Chamavam-lhe “João Paneleiro”. Era assim, cru, sem pudor, como se o nome fosse uma sentença.

   Imaginem o que era ser homossexual no Alentejo profundo dos anos 60.

    Metiam-se com ele. Gozavam-no. Humilhavam-no. Mas, quando se vive sob discriminação constante, aprende-se a sobreviver. E ele sobrevivia com uma espécie de insolência luminosa. A minha mãe viu-o muitas vezes fazer isto: quando o provocavam, dava uma palmada no próprio rabo e respondia: “Aqui ó, na rata!”

       Era o seu escudo. O seu bordão. A sua forma de não se deixar esmagar.


        Nunca o conheci. Sei apenas que morreu. E, no entanto, sinto por ele uma ternura estranha, como se fosse uma memória herdada. Porque a sua história não é assim tão diferente da minha.

        Eu não tinha um gesto teatral para responder. Não tinha um bordão. Mas enfrentei os homofóbicos que me amarguraram a infância e a adolescência. Também aprendi a resistir.

        Portugal, nessa época, era uma miséria em quase todos os aspectos. E essa é uma mágoa que carrego quando penso em Oliveira Salazar. A cultura da abnegação, o elogio da pobreza, o virtuosismo da resignação… tudo isso atrasou o país em décadas.

      A tal “casa portuguesa”, com pão e vinho sobre a mesa, pobrezinha e orgulhosa, que a Amália cantava. Enquanto o povo vivia mergulhado na ignorância e em condições indignas, mesmo para os padrões da época.

       Isso é algo que não lhe consigo perdoar. Jamais.


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