30 de março de 2026

Ser espanhol.


   Dentro da União Europeia há livre circulação de pessoas. Isso, a priori, confere a qualquer cidadão comunitário o direito a residir noutro país da União. Porém, e verão como é assim um dia que tentem morar noutro país da UE, não é um direito absoluto; terão de demonstrar que têm meios de subsistência e um seguro de saúde, caso contrário não vos dão o certificado de cidadão da União Europeia. Bom, eu obtive-o imediatamente ao ter-me casado com um cidadão espanhol. E fiquei assim um tempo. Depois, passado um ano de nos termos casado, pedi a nacionalidade espanhola por casamento. Foi-me concedida em 9 meses. Mas também não é um “presente”. Tive de fazer um exame de castelhano, escrito e oral, e outro exame de conhecimentos sociais e políticos de Espanha. Depois é juntar a papelada toda -antecedentes penais, policiais etc etc etc- e enviar. E chegou, já há uns anos. Passei a ser cidadão espanhol, com passaporte espanhol. Nem utilizo mais o cartão do cidadão português, que, ao ser espanhol, aqui perde o valor legal. Está metido numa gaveta, nem sei onde.

    É uma coisa que mexe connosco. Mudamos de amigos, de marido / mulher, de casa, até de país, mas de nacionalidade é esquisito. Eu não deixei de ser português. Até voto nas eleições. Mas passei a ser mais espanhol do que português, não só porque sou cidadão espanhol como também porque vivo aqui. Portugal começa a ser uma realidade familiar, contudo, distante. Não me sinto em casa quando vou a Portugal. A minha casa é aqui, a minha família está aqui (marido e animais). Isto de ser espanhol, de deixar de me ver como português, ou exclusivamente português, é que custa um pouco a associar. E sobretudo espanhol. Aprendemos a ver os espanhóis como “os outros”, principalmente pelo processo histórico, pelos séculos de guerras e inimizades Portugal x Espanha, e de repente tu pertences “aos outros”. 

8 comentários:

  1. Percebo o sentimento. Claro que quando mudamos de "ares", aquilo que achávamos que era nosso, que nos pertencia, e deixa de o ser, deixa ao início uma sensação de vazio. De estranheza. Contudo, é um processo gradual, e quando olhamos para trás, percebemos que apenas nos adaptamos e não deixámos de ser quem somos na essência, mas que mudámos, evoluímos e nos transformámos.

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    1. É isso mesmo. Mas realmente é estranho quando, no meu caso, olho para mim e penso: “sou espanhol”. Tipo, really? Podes até mudar de país, mas, quando adquires outra nacionalidade, deixas de ser apenas “português” (no nosso caso), e isso é estranho.

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  2. Pensa que és um cidadão do mundo e nós portugueses deixamos te casar para seres mais feliz ehehehehehehehhehe Pura ironia e brincadeirinha
    Abraço amigo

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    1. Tu é que dizias que eu não era casado porque não tinha aliança, ahaha. Sou, sou. Os meus avós paternos estiveram casados mais de 60 anos e deixavam as alianças em casa. ;)

      Um abraço, amigo.

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    2. OMG eu disse isso?! OMG eu deveria estar parvo, as minhas sinceras desculpas

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    3. Disseste, mas não faz mal. Foi naquela época em que andámos meio às avessas. Ahah

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  3. Olá, Mark.

    Fizeste-me lembrar de uma senhora que mantinha o cartão de cidadão português na sua carteira para que não se esquecesse de que era portuguesa. :)

    O blog, com a possibilidade de escrever em português, as notícias e o teu conhecimento da atualidade; não intuo que estejas desligado de Portugal, mas é uma impressão. A tua vida em Espanha e, mais o facto de seres espanhol, ainda me surge como uma novidade.

    Curiosidade: também falas galego? Talvez tenhas dito algures no blog.

    Um abraço.

    Diogo

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    1. Olá, Diogo.

      É certo, e bem visto. Escrever em português mantém o vínculo com Portugal. O meu marido é galego e galeguista, o que também ajuda, no sentido em que ele fala galego-português. Em casa só falamos português (no seu caso, com muitas influências galegas). Contudo, eu não falo com portugueses, não vejo muitos conteúdos de Portugal, e já começo a sentir a pressão do castelhano, nomeadamente em algum léxico que, inconscientemente, incorporei no meu discurso, substituindo o equivalente em português. Isto a par das expressões espanholas (“a ver”, “bueno”, “hombre”), que já me saem como automatismos.

      Sim, sei falar galego. Inclusive tenho um Celga 3 em galego (um diploma de galego; de momento, de cabeça, não sei o equivalente naquela escala do B1, B2 etc). Assim mesmo, tenho maior domínio do castelhano, por incrível que pareça. Uso-o mais fora de casa. Acabo por nunca falar galego.

      Um abraço.

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