Não é novidade para os mais atentos que há uma masculinidade tóxica entre os gays, desde logo quando a maioria tem de desempenhar papéis claramente heteronormativos: o famoso activo e passivo. Os que fazem ambos são os versáteis. Tudo muito bem até aqui quando as pessoas, de forma consciente e livre, aceitam essas categorias e se identificam com elas. Não se identificando, aí começam os problemas. Por que razão assumimos que um rapaz tem de ser passivo, activo ou mesmo versátil? E se não quiser ser nenhum? O sexo anal é assim tão relevante numa relação, tão indispensável? Tenho as minhas dúvidas. O sexo é muito mais do que a penetração, e é seguramente muito mais do que o sexo anal.
Dentro dessa masculinidade tóxica, há um preconceito bastante visível com o homossexual dito passivo. Muitos gays orgulham-se de dizer que são activos, de que os outros pensem que o são, quando frequentemente nem o são. E isso está relacionado à masculinidade tóxica que que envenena não só a sociedade, como um todo, mas também a dita comunidade gay. Repetimos os estigmas heteronormativos, de que o homem é o macho, o dominador, quem manda (o activo), enquanto que o passivo está numa posição inferior, porque recebe, associado à fêmea e à debilidade. Já era assim em Roma, quando o papel passivo era estigmatizado. Julgamos -mal- que a homossexualidade era aceite na Antiguidade Clássica. Convém esclarecer: o papel activo não era socialmente censurável, porque o passivo sim que o era, e hoje em dia continua a sê-lo. Quando, no fundo, para haver activos tem de haver passivos, e não raras vezes a maioria desempenha ambos os papéis. E eu estou à vontade para falar sobre isto, porque não existe qualquer reflexo pessoal nas minhas palavras: não sou passivo, nem sou activo, e nem o sexo anal é algo de que goste. Apenas sou alguém que não vive numa redoma de vidro e que tem consciência social. Seria mais fácil se as pessoas se limitassem apenas a ser, a ser o que gostam.
Concordo com o que dizes. Existe sim, esse preconceito entre os gays. Parece que diminui a pessoa, se esta se considera mais num papel passivo. Mas isto não é sobre posições, é, e deveria ser, sobre prazer relativamente ao sexo.
ResponderEliminarTudo começa com a discriminação da mulher. Afecta também os gays, e de que maneira.
EliminarClaro que sim e os maiores Homofóbicos são os supostos "gays" que se dizem heteros lolololololol
ResponderEliminarDepois ainda há esses, os que são gays e discriminam os mais femininos ou aqueles em que se nota mais. Aconteceu-me na faculdade: duas bichonas rirem-se de mim. Mas será que não tinham espelhos em casa?
EliminarOlá, Mark.
ResponderEliminarConcordo com tudo o que disseste, em particular com a ideia de que o preconceito dirigido ao homem passivo tem origem, em grande medida, na discriminação da mulher.
Acrescento um outro conceito pertinente nesta discussão: o da homofobia internalizada. Muitos homossexuais acabam por absorver esses mesmos preconceitos, adensando os estigma em relação ao papel passivo, tanto dentro como fora da comunidade LGBTQIA+. Ser passivo, ativo ou versátil (ou ou ou/ e e e e) faz parte da coisa!
Ainda assim, parece-me importante notar que, nos últimos anos, tem havido um processo de ressignificação do termo “passivo”, à semelhança do que aconteceu anteriormente com palavras como “queer” ou “bicha”. Cruzo-me com passivas cheias de orgulho pelas redes sociais. :)
Da minha experiência, o mais bonito seria mesmo que os homossexuais entendessem que os papéis de género não serão o mais "útil" nos seus relacionamentos. Gosto de me sentir mais vulnerável, outras vezes mais dominador; ter essa liberdade é valor intrínseco da comunidade queer.
Diogo
Olá, Diogo.
EliminarConcordo. Esta nossa necessidade de ter de etiquetar tudo. Há uns anos (e nem tantos assim) perguntavam-nos, aos homossexuais, “quem é que fazia de mulher”. A ignorância era enorme.
Eu recordo-me de, no colégio, me perguntarem se tinha vagina, se tinha os dois sexos, se o meu pai “era como eu e por isso tinha nascido assim”, entre muitas outras coisas. Mais do que maldade -que também havia-, havia uma ignorância tremenda. Portugal viveu décadas na obscuridade. Agora, felizmente, tudo mudou, e eu hoje tenho a certeza de que não teria sofrido o que sofri nas mãos daqueles carrascos que me infernizaram a infância e adolescência.
Acabei por me desviar do tema central, com pontas que se tocam. Estererótipos, necessidade de encaixar em categorias, catalogar, segundo os modelos que conhecemos: homem x mulher.
Mas está tudo a mudar.
Abraço.