Eu sou muito atento, e tenho uma capacidade de reter informação mesmo quando não necessito dela. É normal que saibamos onde estávamos quando caíram as torres gémeas, mas quem é que se lembra de onde estava quando caiu a ponte Hintze Ribeiro? Lembro-me de ter chegado a casa do colégio, quando comecei a regressar sozinho e a prescindir do transporte escolar. Liguei a televisão e soube do acidente que ocorrera na noite anterior. Uma ponte, algures no norte, caíra, vitimando dezenas de pessoas. Na altura, aventaram-se diversas explicações: as fortes chuvadas dos dias anteriores, que aumentaram o leito do rio e arrastaram areias dos alicerces da ponte; porém, pouco depois soubemos que houvera extracções de areia ilegais, que poderão ter ajudado à erosão. Outro factor, quiçá o mais determinante, foi o da falta de manutenção. Há muito que se sabia que a ponte necessitava de uma reestruturação profunda, que estava velha e gasta. O seguro morreu de velho. Às vezes -demasiadas- é preciso que haja uma tragédia para que se faça algo. Entretanto, demitiu-se um ministro, e pouco mais se soube. Ninguém foi julgado.
Senti a necessidade de assinalar esta efeméride porque foi uma tragédia que me marcou particularmente; que retive. E não sou ingénuo relativamente aos motivos por detrás disso: não só o número de perdas humanas, mas principalmente o desmoronar de uma estrutura. Um certo encanto pela engenharia, e talvez algo mais: um paralelismo com a minha vida, que começaria a desmoronar aí, em torno de 2001, ou, pelo menos, a descarrilar. Mas hoje não é tempo de se falar de comboios, senão de pontes, e desta ponte.
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