Ontem passaram-se vinte anos desde a morte de Gisberta. Eu escrevi sobre a Gisberta em 2011 (texto que poderão ler aqui). Creio que a história pessoal e as circunstâncias da morte de Gisberta são sobejamente conhecidas pela população em geral, e a LGBT+ em particular. A Gisberta foi uma transexual brasileira, imigrante em Portugal. Figura destacada na noite portuense por ser uma mulher bonita e elegante no trato, caiu no mundo das drogas e da prostituição. Algures em 1996 contraiu o HIV, talvez pelas drogas, talvez pela prostituição que exercia na Rua de Santa Catarina. A degradação começou, e a queda foi abrupta. Gisberta deixou de ter dinheiro para ter uma casa e acabou na rua, como sem-abrigo. Ia a associações de apoio a pessoas sem recursos, onde comia e podia fazer a sua higiene. Padecia de tuberculose. A sua situação de seropositiva evoluíra entretanto para SIDA.
Foi num cenário de total miséria humana que, algures no início de 2006, um grupo de delinquentes começou a parar no edifício em obras onde Gisberta se abrigava. Da curiosidade inicial, vieram os ataques. A determinado momento, agrediram-na. Vinham todos os dias bater-lhe, ofendê-la, sujeitá-la a sevícias (foi sodomizada com um pau). Gisberta, cada vez mais fraca, só lhes pedia que a deixassem em paz. Quando, certo dia, já não se mexia, julgaram-na morta e atiraram-na para um poço para se desfazerem dela. Gisberta estava viva. Morreu afogada.
O caso ganhou uma enorme repercussão nacional e internacional. Gisberta é, hoje, merecidamente, um símbolo da causa LGBT+. Não será despiciendo dizer que é uma mártir. Foi agredida, violada e assassinada por ser uma transexual; uma pessoa que estava numa situação de absoluta pobreza, doente, enfraquecida. O que aconteceu a Gisberta pode ocorrer a qualquer um de nós. É difícil subir, conquistar um espaço seguro e uma vida digna; é muito fácil cair-se em desgraça e perder tudo.
Eu não esquecerei jamais a Gisberta.

É uma história muito triste, lamentável e só demonstra a nossa falência enquanto sociedade. Que jovens, agora homens feitos, estão atualmente? Como interagem com a diferença? Com aquilo que não entendem? E embora Gisberta tenha sido um alvo por ser trans, a verdade é que era um ser humano, e foi morta, assinada, por jovens adolescentes, a quem nunca foi transmitido o significado de empatia pelo próximo. Nem pelos pais, nem pelos professores, nem pela comunidade em geral. Mais uma vez digo: falência da sociedade.
ResponderEliminarQuando comecei a escrever este texto, tinha na ideia abordar o tema dos “jovens” que a mataram, que na altura foram pouco mais que admoestados. Depois cheguei à conclusão de que não queria. Há vinte anos ou agora, são assassinos. Terão de carregar com a morte de um ser humano às costas pelo resto das suas vidas. Como estão ou o que são hoje, é-me indiferente. Nem quero saber.
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