A minha mãe faleceu em 2022, numa unidade de cuidados paliativos. O seu companheiro de dezasseis anos faleceu cinco dias antes. Daquelas coincidências terríveis. Eu já vivia em Espanha. Aproveitando-se desse facto, de eu estar longe e de a minha mãe estar nos últimos dias, os filhos do companheiro dela, sujeitos que nunca conheci, entraram dentro do apartamento e começaram a furtar-me objectos. Não me furtaram nada de valor, porque boa parte das minhas coisas, felizmente, não estava naquele apartamento, mas sim num armazém, devidamente guardadas. No apartamento, no quarto onde eu dormia, havia as minhas roupas, CDs, alguns objectos de infância que gostava de ter comigo, o meu computador e livros. Eu vim para Espanha sem nada, para passar uma ou duas semanas. Acabei por ficar, inesperadamente. Comprei roupa nova, outro computador, etc.
Quando, por fim, a minha mãe faleceu, já tinham dado início ao espólio. Aliás, começou quando faleceu o pai deles. Não perderam tempo. Assim que soube que o homem tinha morrido, e já antevendo a situação, lá consegui o número dessa gente e expliquei-lhes a situação: que me guardassem as coisas, que em poucos dias iria a Portugal buscar tudo. No dia marcado, tinha todas as minhas coisas, e as da minha mãe, nas escadas do prédio, como se fossem lixo. Tudo espalhado. Um cenário inimaginável. A minha mãe morrera apenas sete dias antes. Eu estava de luto e com tudo o que era nosso assim. Voltei a Espanha, com uma carrinha e os meus pertences (entretanto passei pelo armazém e trouxe o que quis; deixei o que não quis). Quando comecei a ordenar as minhas coisas e as da minha mãe, dou por falta de objectos. Objectos sem nenhum valor económico, e sim sentimental: uma almofada do Vitinho, um candeeiro de bebé, uma Super Nintendo Mini (que não tinha valor sentimental), entre outras coisas. Livros não, claro. Até me enviaram a mais: alguns que eram do pai.
Dou muito valor aos meus objectos de infância, sobretudo. A tudo o que tenho, modo geral, mas sobretudo àqueles que estão directamente relacionados com essa fase da minha vida. E posso dizer que tenho cerca de 70% de tudo o que alguma vez foi meu desde que nasci. É significativo em alguém com 40 anos. Relativamente àquilo que me furtaram ou que desapareceu com tantas mudanças (quer as que fiz em Portugal, quer as que fiz em Espanha, que foram duas), tenho procurado comprar, a privados, artigos iguais ou semelhantes, entre os quais figuram os da foto que vos deixo. Isto a propósito das minhas caixas de CDs. Não uso CDs. Entretanto, dei por falta de alguns. Ainda hoje, quatro anos depois daquele terror que vivi, vou-me dando conta de objectos que foram ficando para trás.

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