Hoje vou contar-vos uma história que nunca vos contei.
A minha mãe nasceu e criou-se no Alentejo, em Estremoz. Anos 60. Um país fechado sobre si próprio, pesado, silencioso.
Ela tinha um primo -não sei bem em que grau- chamado João. Era homossexual. Chamavam-lhe “João Paneleiro”. Era assim, cru, sem pudor, como se o nome fosse uma sentença.
Imaginem o que era ser homossexual no Alentejo profundo dos anos 60.
Metiam-se com ele. Gozavam-no. Humilhavam-no. Mas, quando se vive sob discriminação constante, aprende-se a sobreviver. E ele sobrevivia com uma espécie de insolência luminosa. A minha mãe viu-o muitas vezes fazer isto: quando o provocavam, dava uma palmada no próprio rabo e respondia: “Aqui ó, na rata!”
Era o seu escudo. O seu bordão. A sua forma de não se deixar esmagar.
Nunca o conheci. Sei apenas que morreu. E, no entanto, sinto por ele uma ternura estranha, como se fosse uma memória herdada. Porque a sua história não é assim tão diferente da minha.
Eu não tinha um gesto teatral para responder. Não tinha um bordão. Mas enfrentei os homofóbicos que me amarguraram a infância e a adolescência. Também aprendi a resistir.
Portugal, nessa época, era uma miséria em quase todos os aspectos. E essa é uma mágoa que carrego quando penso em Oliveira Salazar. A cultura da abnegação, o elogio da pobreza, o virtuosismo da resignação… tudo isso atrasou o país em décadas.
A tal “casa portuguesa”, com pão e vinho sobre a mesa, pobrezinha e orgulhosa, que a Amália cantava. Enquanto o povo vivia mergulhado na ignorância e em condições indignas, mesmo para os padrões da época.
Isso é algo que não lhe consigo perdoar. Jamais.
Bem verdade, mas o que mudou nestes últimos 50 anos?!
ResponderEliminarQuantos gays nascidos nos anos 90 e 2000 continuam a ser expulsos de casa pelos próprios, olhados de lado pelos vizinhos e familiares?!
Quantos são mal falados por outros gays ressabiados?!
No tempo de Salazar era tudo tão mau, mas o que mudou?! Nos dias de hoje o casamento gay já é permitido e quantos continuam a ser humilhados?!
Abraço amigo
Repara, meu amigo; esta minha publicação não é uma crítica cega e incondicional a Salazar. Esta, como eu disse, é uma mágoa que carrego relativamente à sua figura. Em outros aspectos, admiro-o.
EliminarContudo, é inegável que Portugal dos anos 60, 70 era um atraso. Eu tenho visto vídeos da época e é medonho verificar a ignorância do povo e as condições em que as pessoas viviam. Não falamos de há 100 anos. Há 50. Portugal era um atraso completo, e deu um enorme pulo. Naturalmente que décadas de atraso relativamente aos outros países não se corrigem assim, porque os outros países também eles continuam a crescer. Andamos sempre um passo atrás.
Salazar cometeu muitos erros.
Um abraço.
Amigo desculpa eu o meu comentário, que ontem ouvi a filha de um actor na SIC que sofreu de Buliyng por parte de uma colega, os pais tiveram que a mudar de escola e a perseguição continuou.
EliminarImagina?! Qual Extrema Direita?! É mesmo a questão dos valores e que de 2015 para cá tem sido de bradar aos céus. Não te lembras da outra dos bolos e da outra que dizia que havia mais cores?! Quantas máfias e traficantes tens a operar em Portugal?!
É só recuar a 2015
Abraço amigo
Eu sofri tanto bullying homofóbico. Só que na minha altura (finais dos anos 90 / inícios de 2000) não tinha nome. Não se chamava bullying, ninguém queria saber. Era apenas um paneleiro de merda que metia nojo. Curiosamente, não ia para casa chorar, nem fazia mimimi. Aguentava tudo.
EliminarPorém, as marcas ficaram, e hoje dou por elas em muitas facetas da minha personalidade. Tristemente.
Vou "meter-me" na conversa, mas não consigo ficar de fora. Também fui vítima do agora chamado "bullying". Levava porrada, era gozado, excluído e não tive outro remédio sem ser seguir em frente. No final dos anos 80 e depois durante a década de 90 (Séc XX), a sociedade via estas atitudes como "preparatórias" para a vida, o "ganhar calo" e "dores de crescimento". Se por um lado, me tornou desconfiado, e com capacidade de evitar certas situações, também se levou a ser muito traumatizado. Com a vida, com as pessoas, e com os sentimentos.
EliminarMete-te, mete-te. É isso que faz a blogosfera, a troca de ideias. Há muito tempo que deixou de haver troca de ideias aqui.
EliminarEu costumo dizer que a única coisa que não me aconteceu foi ser agredido. De resto, era ofendido de tudo; nem sequer podia ir à casa de banho. Formava-se um séquito de miúdos para ver se eu tinha pénis ou vagina. A ignorância era enorme. Também me assediavam. Curiosamente (ou não), muitos dos que me maltratavam, depois apalpavam-me e queriam que eu lhes fizesse coisas sexuais. O maior homofóbico no fundo gosta. Sempre foi assim. E eu estudei no privado. Mas não sei se foi melhor do que no público. Era gozado diariamente das 9h às 18h.
Deixou-me profundos traumas, que se verificam no meu relacionamento com as pessoas. Sou desconfiado, tenho dificuldade em criar empatia pelas pessoas, sou hipervigilante, etc.
Infelizmente creio que aconteceu com a maioria dos gays tudo isso já mencionado. Mas não deixa de ser curioso que os papás e mamâs não quiserem os filhos fossem a a tropa, mas agora todos veem a academia e dão palpites e os gays que adoram... Creio que nos dias de hoje com tantos mimimi as pessoas tornaram se mais violentas e ou então há mais informação
EliminarNão sei
Abraço aos 2
Enfim
Antes havia menos mimimi, mas também se sofria bastante. Hoje em dia os pais e os educadores estão mais atentos. No meu tempo, o que é que eu podia fazer? Ninguém me defendia. Nem sequer havia aquela percepção, por parte dos adultos, de que o que os miúdos me faziam estava errado. Não havia informação, não havia nada. A ignorância era tremenda. Havia miúdos que me perguntavam se eu tinha vagina, se eu era assim por causa do meu pai, entre outras coisas absurdas. Além da maldade, era um quadro generalizado de profunda ignorância.
EliminarNos locais mais pequenos "ser gay" ainda é motivo de escárnio e de humilhação. Os vocábulos mais brejeiros associados à homossexualidade, continuam a ser utilizados como factor de discriminação, sempre com o objetivo de ferir, achincalhar, de humilhar e isso não mudou muito. Mudou alguma coisa, é verdade, mas ainda existem muitos comportamentos homofóbicos e com o crescimento da extrema direita, verifica-se que algumas pessoas estão sem filtros, e muitas já utilizam a ameaça física.
ResponderEliminarExtrema-direita e extrema-esquerda, quer dizer. Aqui não podemos branquear nada. O PCP era, historicamente, profundamente homofóbico. Os comunistas opunham-se ao casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. No Avante, e eu não me esqueço, um casal homossexual foi violentamente agredido.
EliminarEu não vivo em Portugal há seis anos. Os anos vão passando e a minha experiência no país vai ficando lá atrás no tempo. Posso dizer-te que Espanha, onde vivo, nesse aspecto está mais à frente.
Sim, o PCP é bastante homofóbico, apesar de alguns comunistas dizerem o contrário.
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