3 de maio de 2021

XIII Aniversário.

 

    Passaram-se treze anos desde o dia em que inaugurei o blogue, e este ano farei uma exposição diferente das habituais que têm por único mote assinalar a efeméride. Dar-lhes-ei conta de uma mudança que provavelmente foi perceptível para a maior parte dos que me acompanham. Uma mudança que teve repercussões nas poucas interacções que ainda mantinha após o longo período de incerteza que envolveu a chamada blogosfera.

    Durante anos, fiz parte, como quase todos, de um esquema que gradualmente me foi provocando alguma repulsa. Apercebi-me de que a maioria não escrevia por gosto ou apetência, mas tão-somente para receber aquilo que considerei ser estímulos ao ego, comentários de bajulação, que não justificavam o que entendia dever ser a prioridade numa rede social não tão imediata, e disso me fui dando conta com algumas participações de pessoas que verdadeiramente liam e interpretavam, opinavam de modo esclarecido, contribuíam para desenvolver ou aprofundar temas que apresentava.

     Ter-me-ia sido mais fácil recolher-me ao silêncio (quando nada tens de bom para dizer, nada digas), mas não. Passei a ser absolutamente transparente nas minhas posições sobre o que lia, criticando, admitindo que roçando até a aspereza, também de certa forma para provocar alguma reacção. Ser o revés daquilo que se esperava, ainda daquela lógica da adulação virtual que não mais me fazia qualquer sentido, afinal, se seguia determinados espaços e se as pessoas os têm públicos, com a opção de comentários disponível, porque não escrever o que se me ocorria dizer?

    Fui alvo de todo o tipo de ataques de índole pessoal, inclusive de mortos que ressurgiram sabe-se lá de onde para me procurar achincalhar (um deles com quem tive um desaguisado em 2010 e que, onze anos depois, surgiu do nada para tirar ilações não sobre mim, que isso é possível e legítimo à luz do que escrevo, mas sobre a minha vida pessoal). Quando comentava os blogues e ia além dos limites do outro, fazia-o tendo em conta a interpretação prévia àquilo que acabara de ler; não é verdade que não possamos conhecer alguém somente pelo que escreve, sobretudo quando quem escreve elabora textos de cariz íntimo, pessoal. Como eu acabo por passar a ideia de mal-educado e arrogante, quem leio assume, perante mim, um esboço, e começo a formular uma concepção acerca da personalidade daquela pessoa. Nalguns casos, são blogues que acompanho há mais de uma década.


    De todas as inimizades -se é que é um termo apropriado neste contexto- que fui colhendo aqui e acolá, custa-me relativamente apenas a de um rapaz, e ele sabe quem é, que conheço... já lhe perdi a conta... e que reconhecia como sendo um amigo real. No demais, concebo que cada um possa reagir como quer. As publicações que me visaram, e serei de novo absolutamente transparente, foram recebidas por mim com tranquilidade e algum humor. Há três pessoas que me importam e que sei que me amam, a minha mãe, o meu pai e o meu marido. Tudo o que sobeja, com excepção de algumas poucas pessoas (o tal rapaz que referi ali está incluído, e um querido amigo que anda ausente, o M.), são contactos pontuais. No caso dos blogues, há uma plataforma, há um texto. Há ainda uma caixa de comentários. Comento, se quiser, sem ânimo de procurar rebaixar e sem me preocupar excessivamente com o reflexo em quem lê.

    O blogue continuará a existir, como já o disse, enquanto me fizer sentido. Escrevo -e também o disse- para mim. Não necessito sequer que me leiam. Eu sou eu e sou ainda o meu entorno querido, independentemente de ser malquisto pelo resto, que é... resto.

     Obrigado aos que continuam aí, não obstante.


Mark

7 comentários:

  1. Treze anos é tempo!...

    Não soube o que se passou, mas acho que cada um escreve o que quer e comenta o que quer. Escrever para que posteriormente venha alguém bajular não me parece muito saudável. É um engano.

    Não entendo essa utilização das redes sociais que há quem faça. Os problemas resolvem-se nos psicólogos, ou não é? :)

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    1. No fundo, cada qual faz do seu espaço o que quer. :) Se a alguns ajuda a aumentar a autoestima, tanto quanto melhor. Em mim teve um efeito parecido, no passado.

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  2. Creio que a escrita só por si, como exercício mental inicial (que depois se pode ou não passar a uma linguagem expressiva e entendível por outros), é algo útil para nós próprios, para ordenarmos as nossas ideias, e até para as podermos entender nós mesmos.
    Os pensamentos surgem-nos desordenados e muitas vezes sem nexo, mas, posteriormente, muitos de nós sentem a necessidade de lhes dar corpo, coerência, coordenação, até para nos ser possível comunicá-los.
    No entanto a escrita, só pela escrita, pessoal e isolada, parece-me algo estéril, mas, julgo, não inútil; é afinal o debate com outras mentes que nos aportam outras formas de ver os problemas que, creio, nos traz outro prazer, ainda que de uma índole diferente.
    Prazer porque este debate pode fazer-nos avançar no mundo das ideias e da conceção que temos do mundo, através da partilha e da aprendizagem.
    É aqui que encontro o verdadeiro prazer mental – o da partilha e da aprendizagem.
    Chamo a este processo o nosso crescimento e o nosso desenvolvimento interior, um processo que para uns pode levar uma vida, para outros nunca se processa de forma cabal, e que, afinal, para cada um de nós, toma contornos diferentes.
    Eu, um leitor compulsivo e um falador inveterado, quando tenho companheiro/a à altura, sinto que me completo quando posso debater como mentes tão interessantes com que, por vezes, tenho a sorte de me deparar.
    Não obstante, a discussão passa a ser-me inútil quando os seres humanos estão só interessados neles mesmos, tomam-se como “detentores da verdade universal”, e só se afirmam através do "contrariar o outro". Estes são os seres pequenos, medíocres, inúteis que enxameiam o nosso quotidiano e nos fazem a vida parecer vazia.
    Nesta altura paro e remeto-me ao silêncio, pois ali deixou de haver o que quer que seja que me interesse. Discussões inúteis deixo para quem gosta de perder o seu tempo com elas. Já não me resta assim tanto tempo.

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  3. Ao contrário, no seu blog, senti que havia do outro lado uma mente curiosa, culta, interessada em debater e partilhar, e fiquei encantado, um encantamento que dura até hoje.
    Muitas vezes não estou nada de acordo consigo, por vezes digo-o, outras vezes calo-me, pois são coisas pessoais, e nas quais, aprendi, não me devo imiscuir.
    Posso ter uma forma pessoal de ver algum problema que aqui traz, mas creio que não devo sequer sugerir-lha, pois somos todos diferentes e não é profícua a discussão inútil, quando as nossas convicções se encontram definidas.
    E nunca, mas mesmo nunca, faço essa discussão em público, algo que faz as pessoas extremar posições, fecham-se à razão, resultando numa recusa ao diálogo.
    É verdade que não o leio tão amiúde, mas quando o faço, faço-o sempre com muito prazer, e continuo a pensar que o seu blog é muito pessoal e, por isso mesmo, cativante e diferente dos restantes.
    E aprendi que aquilo que aqui traz é fruto de uma raciocínio seu aturado, amadurecido no seu interior, e representa a sua própria pessoa. Nunca o vi a faltar à sua verdade e ao que acredita. E por isso o felicito.
    Sempre gostei de o ler por isso mesmo.
    Expõe o seu interior e isso é digno de nota nos dias que correm, em que as pessoas se dedicam a superficialidades, ao politicamente correto, aos chavões vazios de significado, por isso se tornam efémeras e substituíveis.
    E vou aprendendo consigo, sobre a sua forma de ver o universo, que lhe é peculiar, o que me fez, desde início, respeitá-lo. Ainda que algumas vezes, como lhe disse antes, não esteja totalmente de acordo.
    No entanto os parabéns por este seu espaço, que continua a ser uma forma muito útil de partilhar a sua pessoa.
    Espero que continue, como tem sido seu hábito durante estes anos todos, e não se incomode com as amizades ou inimizades dos outros. Seja verdadeiro a si mesmo, é esse o seu “carisma”.

    Já sabe que não sei escrever comentários curtos e inexpressivos, é próprio de mim, por isso não vale muito a pena desculpar-me, pois não sei ser doutra forma.
    Espero que continue bem na sua nova vida. Felicito-o e desejo-lhe tudo de bom
    Manel

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    1. Manel,

      Deixar de o ler, de o ver por aqui, foi do que mais falta senti. Contradigo-me, é certo, porque digo que não me importam os comentários e as reacções, e como “dou a volta” a isto agora? :) Sabe que a sua reacção sempre me foi importante, precisamente pelo desafio da conversa, da troca de ideias, às vezes até da simples interacção.

      Creio que me falta uma boa camada de hipocrisia. Não lhe chamarei “frontalidade”, que já vem sendo um chavão, mas não consigo deixar de manifestar o que sinto e penso, e uma vez que me assumo, como o Manel, um falador inveterado, com uma mente sempre animada e ansiando estímulo, interagir, ainda que seja na maior das solidões, escrevendo para um universo que não conheço e não controlo, é-me indispensável.

      Dei por mim a reflectir sobre o seguinte: “Caramba, se não gosto deste texto, desta ideia, do rumo deste blogue, vou dizê-lo sem filtros”. Claro está que a maioria de nós vive centrada no seu umbigo. Não nos conseguimos abstrair nem por um momento do nosso Eu que se manifesta em tudo quanto realizamos, e a insegurança leva-nos a rejeitar e se possível censurar o que nos afronta, ou parece afrontar, e possivelmente poderá diminuir, a nossos olhos ou de quem o lê. Eu passei pelo mesmo. Houve tempos em que não aceitava as críticas de todo. Reagia mal, na defensiva, como se diz. À medida em que ganhamos segurança, passamos a ser mais permissivos às opiniões, mais condescendentes e tolerantes. É verdade que, quanto a mim, a paz interior ajuda. Não a tive por décadas, e de momento, não estando totalmente pacificado comigo, e ainda menos concretizado, estou-o mais do que há dois anos por esta altura.

      Ser-lhe-ei totalmente sincero: fi-lo também para provocar. Dava-me um certo gozo desafiar os limites dos outros, afrontá-los, mas fazê-lo anonimamente, que nunca fiz, não seria honesto, e seria, isso sim, uma cobardia. Ainda procurei, numa situação em concreto, que o outro o visse e percebesse, sem sucesso. Fui demasiado longe, aí sim, quando fui além do que lia, procurando tirar ilações de circunstâncias pessoais de quem escrevia, e depois fui vítima do mal que semeei. Fizeram-me o mesmo, e reagi mal. É a insegurança, menor do que antes, ainda presente.

      Não me preocupo com as inimizades em si. Preocupo-me antes com a necessidade de o fazer. O que ganho criando inimizades? O valor da sinceridade merecê-lo-á, e atente-se no seguinte: não digo com isto que sou uma boa pessoa. Poderei ser a pior das pessoas, porém, ainda aí não o consigo dissimular.

      Obrigado por ter aparecido e por dar mais sentido a este exercício de escrita e autoconhecimento.

      Um abraço.

      PS.: Lembra-se do livro que me deu? Pouco tempo depois, vim para Espanha. Deixei-o em Lisboa. Na semana passada, a meu pedido, a minha mãe enviou-mo para cá. Irei lê-lo assim que termine o actual.

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  4. Parabéns e que venham + 13 :)

    Abraço

    P.S . Não precisas de publicar se não quiseres

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    1. Por que razão não o publicaria? Era a ti que me referia com o rapaz cuja amizade me custou perder. Quero que saibas que gosto de ti, e a amizade, da minha parte, mantém-se inalterada. Fui bruto contigo, foste-o comigo. É justo.

      Um grande abraço.

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Um pouco da vossa magia... :)