Eu adoro comprar livros. Lê-los, evidentemente, mas comprá-los, mesmo que demore anos a pegar neles, é algo que não posso evitar. Recentemente soube que isto tem um nome qualquer, e que não é necessariamente mau, ou seja, não é um mero vício; digamos que vou comprando livros cujos temas me interessam. É como estabelecer uma espécie de baliza mental; de biblioteca dos meus gostos. Não é acumular. Os livros nunca são demais.
Esta introdução para dizer que, às vezes, quero livros antigos e descatalogados, que compro a privados através de plataformas como o OLX ou alfarrabistas. O último que comprei foi um sobre Portugal e Castela na Idade Média. Frequentemente, encontro dedicatórias dentro dos livros. Uma recente levou-me a pensar: o que levará alguém a desfazer-se de um livro que lhe foi dado com carinho, mesmo que esse carinho tenha deixado de existir? Afinal de contas, existiu num determinado momento no tempo. E um livro é um presente tão especial, que fico sempre com aquela ideia de que quem dá um livro tem verdadeiro afecto. Por isso, nunca dês um livro a alguém que desconfies que é capaz de se desfazer dele, vendendo-o a outrem que depois o põe à venda numa plataforma qualquer. Um livro é amor, é testemunho de amor, e isso deve ficar, mesmo que o resto já não esteja.

Que texto bonito. Parabéns.
ResponderEliminarObrigado. :)
EliminarTenho opinião contrária à tua
ResponderEliminarCreio que um livro pode ser uma partilha e se tem uma dedicatória foi algo bonito e onde deve ser partilhado. Antes as pessoas tinham diários e ficavam ofendid@s se alguém os lia, hoje em dia tens o face e o instagram
Poderia ser como um dia eu ficasse cansado do meu blogue e alguém quisesse dar-lhe continuidade :)
Tantos blogues bons que se perderam
Abraço amigo
Não sei se me expliquei bem; o que não me parece bem é que alguém se desfaça de um livro que, um dia, alguém lhe deu com tanto carinho, mesmo que esse carinho tenha deixado de existir.
EliminarUm abraço, amigo.
Eu percebi ;) mas lá está. Eu daria/partilhava um livro que me tivesse sido dado/oferecido com ou sem dedicatória :)
EliminarAbraço amigo
Olá, Mark.
ResponderEliminarJá percebeste que estou em modo recap dos teus posts mais recentes :). Que bem que sabe ter tantos pensamentos para ler!
Eu sou muito materialista. Por esta razão, um livro com uma dedicatória, que me tenha sido oferecido por alguém que já não faz parte do meu presente, carrega toda a história dessa relação de amizade que um dia existiu. No meu caso, quem diz um livro diz um postal, qualquer coisa que me tenha sido oferecida.
Até hoje, mantive uma única relação séria e duradoura, que foi também a primeira, e confirmo manter os presentes que recebi do meu ex-namorado, entre plantas, livros, outras coisas. Aliás, enquanto escrevo, apercebo-me de que estou atualmente a ler o Sensibilidade e Bom Senso, da Jane Austen, livro que me foi oferecido por ele em 2021 (terminámos em 2022). Certamente que esta abordagem é possível porque não guardo qualquer ressentimento.
Tudo isto para dizer que seria incapaz de me desfazer de um livro com uma dedicatória da natureza daquela que fotografaste. Não por ser um livro, contudo. Representa o que existiu, mas permanece comigo, ainda que tenha mudado de forma.
Livros oferecem-me muitos, a maioria maus. A pior parte nem é a falta de uma dedicatória, portanto. É a aleatoriedade. Troco sem dó por outro. Afinal a oferta mantém-se... risos.
Obrigado, Mark, toma mais um abraço!
Atentamente, Diogo.
Olá, Diogo.
EliminarDeixa-me começar pelo fim. O “atentamente” foi tão formal que mais parecia um e-mail, ahah. Estou a brincar.
Eu não creio que isso seja ser materialista. Isso é ter memória histórica, e é bom. Eu saí com um rapazinho durante o verão de 2013. Aliás, os posts desse verão são quase todos sobre ele. Foi rigorosamente um amor de verão, porque ele, em setembro ou outubro, mandou-me às urtigas. Ainda saímos uma vez perto do Natal. Deu-me uma caixinha de música que comprara na Gulbenkian e eu dei-lhe um CD de música clássica.
A caixinha julguei-a desaparecida irremediavelmente com tantas mudanças e atribulações, e certa vez vi-a dentro de um cesto, daqueles cestos antigos de as crianças levarem o lanche. Estava lá. E é claro que não me desfiz dela, porque é um pedaço do meu passado, e naquele momento foi-me dada com carinho (embora ele se tenha portado bastante mal comigo).
Um abraço.
Olá, Mark!
EliminarPois foi (risos!). Estava numa pausa no trabalho e não sai do meu papel. Lá foi um "atentamente".
Entendo. Tens razão. O materialismo leva-nos muito para a noção de "bem" e aqui não é o caso. Contudo, gostaria de ser menos apegado a objetos. Era o meu ponto.
Eu lembro-me desse rapaz! Fui nesse ano para a universidade e estava especialmente atento aos teus posts sobre a vossa interação. Praia! Não era?
Não me recordo de como terminou. O que aconteceu? Portou-se mal contigo, como?
Um abraço. :)
Olá, Diogo.
EliminarO “atentamente” foi engraçado. Ahah
Sim, era o P. Chamava-se Pedro. Fazíamos piqueniques, íamos à praia, íamos passear pela cidade e por museus. Tudo muito inocente. E depois, quando eu chegava a casa, escrevia sobre isso.
Terminou porque ele se afastou de mim. Foi estudar agronomia para Santarém e foi deixando gradualmente de me falar e de responder às SMS. Muitos anos depois, vi-o na bilheteira do cinema do El Corte Inglés com um rapaz. Seria o namorado, não sei. Nem sei se ele me viu. Na altura custou-me muito o seu afastamento, porque eu gostava dele.
Um abraço.
Imagino que tenha custado muito, o afastamento, Mark. Contudo não tenho dúvidas de que o Pedro gostou de ti :).
EliminarAo ler a tua resposta lembrei-me da Teoria da Vinculação. Estilos de apego podem variar muito de pessoa para pessoa e os individuos homossexuais carregam grandes traumas de apego.
Estilos de vinculação muito desorganizados, entre o ansioso e o evitativo. Talvez não estivesse preparado para o compromisso que tu representavas e o afastamento trouxe-lhe mais segurança.
Um abraço.
Diogo
Custou muito, Diogo. Ele foi o meu primeiro amor “a sério”. Gostava dele mesmo com todas as suas imperfeições. Ele era carinhoso e gentil comigo.
EliminarE sim, olhando para trás, a esta distância, és capaz de ter razão: ele algo deve ter gostado de mim, porque ninguém o obrigava a sair e a estar comigo. Essa teoria -de que nunca ouvira falar- faz sentido. Fiquei intrigado com ela. Irei pesquisar mais acerca disso.
E também é certo: muitos de nós carregamos traumas. Eu mesmo. Com o bullying durante anos, tornei-me uma pessoa desconfiada, que evita o contacto social.
Um abraço, e obrigado pelas tuas palavras. És muito gentil.
Podemos manifestar diferentes estilos de apego, mas os homossexuais são, arrisco a dizer, na sua maioria, “portadores” de um estilo de vinculação ora ansioso, ora evitativo. Há uns bons anos, quando fiz terapia, a psicóloga explicou-me que pessoas com um apego mais distante e evitativo tendem a interessar-se por pessoas com apegos mais ansiosos (o meu caso ahahaha) e vice-versa.
EliminarPodes ficar em paz com a história que tiveste com o Pedro. Ele gostou realmente de ti. Noutra idade imagino que tivesse funcionado para ambos; teriam entendido melhor como cada um funciona, as necessidades e abordagens de comunicação distintas.
Como se conheceram? Eras mulher para Grindr? (Brincando para aligeirar)
Olha um pouco para a teoria da vinculação. É sobre a infância, claro. Evitativo e ansioso são respostas diferentes para o mesmo problema. Aprendizagens diferentes.
Conheci-o através do fb. Por acaso nessa altura ainda não tinha Grindr. Vim a ter anos depois.
EliminarEstive a ler algo, esta tarde, sobre a Teoria da Vinculação, e faz sentido, sim. Tem que ver com a necessidade de atenção do bebé e a resposta do adulto responsável. Mas eu já sabia que grande parte dos nossos traumas vêm desse período altamente sensível da primeira infância. Analisando-me a mim mesmo, identifico várias características com origem em traumas nesses primeiros anos. E o pior de tudo é que temos de carregar com isso para sempre.
Eu só instalei Tinder e Grindr com 21 anos. 21 para 22. Comecei tudo muito tarde, portanto. Quando estava num último ano da faculdade um rapaz de outro curso meteu conversa comigo pelo Facebook! Foi boa a sensação de ser desejado, mas achava-me muito especial, e não dei seguimento à coisa. Estúpido.
EliminarMuito citada, permanecendo relevante. Como disse, uma pessoa mais mais "avoidant", com outra mais ansiosa, podem funcionar verdadeiramente bem, mas tem de existir muita maturidade, comunicação, etc. Acredito até que podem evoluir ambas para apegos seguros, uma vez que aprendam a autorregular-se e a entender a atitude do parceiro.
Um abraço, Mark.
Não foi nada tarde, até porque nessas apps dificilmente se encontra alguém que queira algo sério (falo por experiência própria): o Grindr é o que se sabe, nem vale a pena…; o Tinder é como uma montra, tal e qual. Vales pelo que aparentas fisicamente.
EliminarTanto é assim que conheci o meu marido da forma mais simples e, permite-me, bela: junto ao Padrão dos Descobrimentos, em Lisboa. Ele estava de turismo, e eu nunca ia para Belém, até porque o meu passe não cobria aquela zona da cidade. E naquele dia, aborrecido, fui. E ele estava lá. Trocámos olhares. Até hoje.
Um abraço.
Encontras, sim :)
EliminarGrindr imagino que não, mas eu não usei realmente o grindr, nem sequer marquei qualquer encontro. Tinder funcionou muito bem para mim, diria que há um pouco de tudo, e, na verdade, colocas o que quiseres na montra.
Que bonito, Mark! Não só permito, como também a acho bela :)
Então tiveste mais sorte do que eu, que nessas apps só me saíram tarados. Bom, também depende muito daquilo que cada um procura; para o que eu queria, não me serviram de nada.
EliminarNo Tinder, se bem me lembro, muitas vezes dás match e a coisa fica por ali. Não há mais interacção.
Bom dia!