4 de outubro de 2019

Diogo Freitas do Amaral (1941-2019).


   Fui tristemente surpreendido, ontem, com a notícia do falecimento do Prof. Doutor Diogo Freitas do Amaral. Imaginava-o doente, porque me lembrava dos seus problemas ósseos, não me ocorrendo que estivesse já no fim da linha.

   O Prof. Freitas do Amaral, como foi sobejamente referido, é um dos pais da nossa democracia, um dos obreiros do actual regime, ao ter participado, através da Aliança Democrática, com a qual chegou ao Governo, na revisão constitucional de 1982 que diminuiu a carga ideológica da nossa Lei Fundamental. Na qualidade de fundador do CDS, desempenhou um papel importantíssimo no período de 1976-1986, actuando como contrapeso à esquerda e, sobretudo, à extrema-esquerda, ele, que era um homem do centro, e que chegou a dizer na última fase da sua vida política que "esteve mais à direita quando o país estava demasiado à esquerda e mais à esquerda quando o país estava demasiado à direita". Se não foi assim, foi parecido.

   O CDS surgiu como um partido de centro. Aliás, a sigla significa precisamente Centro Democrático Social. Foi Paulo Portas quem lhe imprimiu o cunho populista, eurocéptico, diferente daquele que esteve na sua origem. Veio, muito graças ao empenho do senhor professor, congregar uma direita saudosista do Estado Novo, conservadora, cristã. Freitas do Amaral foi sempre um bom democrata-cristão, que sabia, todavia, pensar por si. Manteve-se coerente às suas convicções e teve a coragem, e devemos reconhecê-lo, de mudar quando achou que devia mudar.

  Em 1986, concorreu às eleições presidenciais mais disputadas da história da III República, conseguindo mais votos, mas não os suficientes para ganhar à primeira volta. À segunda, não fosse o apoio das forças da extrema-esquerda e Mário Soares não teria ganhado. Há até o célebre episódio em que Cunhal exorta aos comunistas para que votem em Soares tapando com a mão a foto do candidato socialista. A derrota foi-lhe pesada e representou o fim de um ciclo político. Eu diria que as eleições de 1986 figuram como o seu zénite na vida política nacional. Passaria, mais tarde, pelas Nações Unidas.

  A par de político, destacou-se como enorme académico. Eu estudei por três dos seus manuais, a História das Ideias Políticas e a Direito Administrativo. É um nome incontornável do direito administrativo português. Dedicou-se não só à sua área de formação, o Direito, como também à História. Deixou-nos obras de referência, entre as quais uma biografia de Dom Afonso Henriques que terei de adquirir. A sua bibliografia é vastíssima.

  Empenho e coragem, como mencionei acima, são características que lhe assentam bem. Foi assim na política, quando passou do CDS ao PS, foi assim na vida académica, quando saiu da Clássica de Direito e fundou a Nova. O apoio ao PS, gradual, começando com uma contundente crítica à invasão do Iraque, custou-lhe o ostracismo do CDS. Recordo-me de terem retirado a sua fotografia da sede do partido. Ontem mesmo, quando se soube do seu falecimento, não senti verdadeiro pesar por parte da actual dirigente, Assunção Cristas. Aquelas suas palavras pareceram-me mais de circunstância do que do coração. Em seu favor, diga-se que ela chegou recentemente ao partido, há uns dez anos. Não terá convivido politicamente com Diogo Freitas do Amaral. Bom, e nem a idade lho teria permitido.

   Morre um dos últimos. Andamos a vê-los partir, as figuras de referência do nosso regime. Freitas do Amaral é mais um dos que se vai, e que se junta a Sá Carneiro, Adelino Amaro da Costa, Álvaro Cunhal, Mário Soares, Maria de Lurdes Pintassilgo e tantos outros.

    O velório está marcado para hoje, nos Jerónimos, e é provável que tente passar por lá.

Skate Kitchen.


   Teria terminado bem o festival Queer 23 sem esta desgraça, mas não tive juízo e adquiri um último bilhete para a sessão de encerramento.




  Skate Kitchen era o nome do perfil de Instagram que um grupo de miúdos criou para mostrar as suas habilidades com a prancha. Além da actividade física com os skates, aquelas miúdas são precursoras de uma geração de raparigas que já não se vêem como um simples "adereço" masculino. Elas têm vontades e movem-se pela satisfação dos seus prazeres, inclusive com pessoas do mesmo sexo, se for caso disso. Este filme é claramente uma ode ao hedonismo juvenil egoísta que vem assumindo uma faceta cada vez mais acentuada no feminino. Por algum motivo nunca vemos aqueles jovens na escola. Vemo-los em casa, no parque a praticar, escondidos a fumar droga, mas nunca numa sala de aulas. Depois, claro, mal ficaria na moldura um filme juvenil que não abordasse as desilusões amorosas, as experiências (homo)sexuais, os problemas com os pais, com os pares, as transgressões. A narrativa não justifica 106 minutos, uma vez que não tem nada de tão denso que permita ao realizador estender-se por quase duas horas. O que se retém no final, mais do que paz e amor, tudo acaba bem, são as cenas acrobáticas de skate pelas avenidas de Nova Iorque, bem dirigidas pela direcção. É, aliás, duvidoso que este filme tenha lugar num festival LGBT e que, para mais, figure na noite de encerramento. Se atentarmos no argumento, vemos um rapaz que é alvo da disputa de duas miúdas que são das mais amigas daquele grupo, das mais confidentes. Experiências homossexuais, "per se", não imprimem um cunho LGBT a uma narrativa, mesmo considerando que uma das miúdas era lésbica e vivia bem com isso.

    Não houve frase emblemática porque me perdi entre as manobras.

3 de outubro de 2019

Can You Ever Forgive Me?


   «A minha gata foi a única alma que me amou. Talvez desde sempre.»

  Em primeiríssimo lugar, não se compreende como é que um filme tão bom não tenha estreado em Portugal. Baseado numa história verídica, Can You Ever Forgive Me? fala-nos de uma biógrafa de famosos que já nada vende, Lee Israel, e que se apercebe do seu verdadeiro talento literário ao acrescentar post scripta a cartas de famosos, tornando-as raras pelo seu conteúdo íntimo. Com a ajuda do amigo Jack Hock - "igual a cock" - vende-as a coleccionadores.

    A longa é ambientada em 1991, e é do mais envolvente que há, desde logo por nos mostrar uma Nova Iorque clássica que ainda se permitia a sonhar, longe da paranóia e da deriva securitária que a dominariam no início deste século. Lee Israel é o espelho da decadência. Lésbica, viciada em álcool, é uma intelectual em fim de carreira que "gosta mais dos gatos do que de pessoas". Damos conta de uma tendência para a trafulhice desde cedo, quando a vemos apropriar-se de um casaco que não era seu, o que não terá feito por desespero - como as falsificações, para poder pagar as suas contas. Na verdade, Israel já pouco se importava com o politicamente correcto, com as convenções sociais. Há muito que o descaso e a indiferença haviam entrado na sua vida, solitária vida, dividindo um apartamento sujo com uma velha gata de 12 anos, doente. Jack Hock, a outra personagem, é um velho dandy, sombra do que fora, algo entre um descendente de uma nobreza inglesa e uma bicha promíscua. Em termos de escrúpulos, tem tantos ou menos, mas o encanto destas duas personagens, maravilhosamente interpretadas por Melissa McCarthy e Richard E. Grant, que estiveram, inclusive, nomeados para os Oscars deste ano - faz com que sintamos pura afeição. Conheceram-se num bar "de esquina" e a amizade surgiu da profunda solidão que os atravessava. A forma de com ela lidar é que era diferente: Lee tornara-se quase uma reclusa de si própria, aborrecida consigo e revoltada com o mundo, ao passo que Jack dormira com "Manhattan inteira". A cena final de ambos, quando se vê Jack no último estágio de HIV/SIDA, é particularmente comovente, e um banho de talento daqueles dois actores.




   A narrativa foi bem construída e os diálogos são inteligentes, sólidos e convincentes. Não estamos perante um drama no sentido estrito da palavra, mas de um drama com laivos cómicos. É que a actividade daqueles dois se torna hilariante em alguns momentos. Longe de serem dois criminosos, são duas pessoas que se movimentam para sobreviver, claro que recorrendo a esquemas sórdidos e reprováveis. A intenção da realização e da produção foi a de nos fazer simpatizar com Lee Israel e Jack Hock, e conseguiram-no. O tom jazz, que se alia à magnitude de uma Nova Iorque fria e elegante, tornam este filme num dos melhores a que pude assistir nos tempos recentes. Woody Allen ficaria orgulhoso.

    De realçar a subtileza com que a homossexualidade feminina foi tratada, sempre com uma enorme discrição e até saudável ingenuidade.

2 de outubro de 2019

Porth Authority.


   «Às vezes, amamos pessoas que não são nossas para amar.»


   Como é que um rapaz heterossexual, cisgénero, assume estar apaixonado por uma moça trans, particularmente se no seu grupo de amigos parece existir certa homofobia / transfobia? Com claras inspirações na cena indie que dominou o cinema americano na década de 90, a narrativa perde-se demasiado no conjunto, esquecendo o individual. Conhecemos pouco de cada uma das personagens, em detrimento dos grupos, daquelas facções urbanas que se movimentam em NYC, e claramente há dois grupos, que coincidem com dois núcleos: o de Paul e dos colegas de abrigo, heterossexuais, rudes, suados, street boys, violentos, que se dedicam a expulsar incumpridores dos seus apartamentos (Paul foge à categorização; aliás, o seu olhar perante aquele novo mundo colorido, no qual é introduzido por Wye, é demonstrativo da sua curiosidade, sem juízos morais) e o de Wye, LGBT, composto por dançarinos, que se movimentam em circuitos nocturnos e dividem casa, naquilo que será uma irmandade. Em Direito, diríamos que vivem em economia comum. Identifico um certo estereótipo, como se os LGBTs tivessem necessariamente de conviver com o assédio, pela negativa, de pessoas daquele perfil que descrevi. Os papéis sociais estão demasiado estereotipados em Porth Authority, e também se pede que o cinema ouse, inove, modifique.




  Muito embora tenham escolhido uma actriz transexual para interpretar Wye, Leyna Bloom, numa escolha acertada, o filme explora pouco o universo trans. Na verdade, parece que a história pessoal de Paul é que está no centro da narrativa, e que o seu verdadeiro mote - a dificuldade que uma transexual tem para se impor nos diversos domínios da vida, incluindo no amoroso - se desvanece diante das peripécias do rapaz. Por exemplo, a reconciliação de Paul com a meia-irmã parece ter mais importância do que o seu reatamento com Wye, que nem chegamos a saber se se vem ou não a verificar. A realização esteve mais preocupada em trocar-nos as voltas, pondo o rapaz branco, cisgénero, masculino, a procurar enturmar-se no grupo de dançarinos LGBTs, composto maioritariamente por negros e mulatos.