12 de fevereiro de 2011

Uma Senhora Velhinha


As mãos, cuja pela encarquilhada revela a bravura de uma vida, apertam-se mutuamente. A cabeça pesa, o corpo não responde aos movimentos de outrora. Da janela da cozinha, vislumbra o mundo que lhe parece tão distante. Não, aquele não é o seu mundo. Os pés arrastam-se casa fora, sinais de um tempo passado. O tempo, esse, tudo leva à sua passagem. E os dias são a dor, e as noites são tão longas...
Ouve-se o tic-tac do relógio. As paredes amareladas reflectem a situação que encobrem no seu manto pesado.
Na cozinha, um caldo quentinho aguarda pelo jantar. Pode esperar. Ela come por comer. As molduras da sala estão quase todas vazias, salvo uma ou outra que já não espelha a realidade. Sentada no sofá, ouve os ruídos do exterior.
"Quando era pequena brincava e sorria. Quando era pequena corria e saltava. Quando era pequena o mundo e eu éramos um só."
O cãozinho rodeia a dona. O seu arfar demonstra a incompreensão que o alheia da realidade. Os passarinhos cantam do lado de cá de um vidro sujo, um submundo dentro do mundo. 
E as horas passam tão devagar. Ouvem-se passos tímidos lá fora. Virá alguém?
E as horas passam tão devagar.
Uma dor súbita surge no peito. Perde o equilíbrio e cai no chão.
"Quem vem apaziguar a minha dor?"
O cãozinho lambe a dona tentando acordá-la do seu sono profundo. Os passarinhos silenciaram o seu canto. O silêncio invadiu o espaço que cheira a solidão.
Jaz um corpo no chão. Jaz uma vida que pereceu no meio do desprezo.
Jaz a sociedade moribunda e fétida.

10 de fevereiro de 2011

Conta-me Como Foi


Conta-me como foi o teu passado. Conta-me pormenores da tua infância, dos momentos que mais gostas, dos teus pratos favoritos, da música que aprecias. Conta-me coisas e coisinhas de ti, detalhes de um nada que é tudo e de um mundo por descobrir.
Conta-me, também, como me abraçarias com os teus braços lânguidos e esguios enquanto eu adormecia no sabor do teu colo. Conta-me como me protegerias do mundo e mantinhas inalcançáveis os nossos sentimentos mais profundos.
Não me mantenhas nesse estado iniludível. Disfarça o que queres e diz-me o que quero e não temo ouvir. Conta-me as carícias imperfeitas que te fizeram, os pedidos insensatos ao ouvido, as súplicas de uma paixão efémera. Conta-me essas aventuras que viveste antes de mim, os beijos dados num pedaço fugaz de coisa nenhuma, mero subterfúgio de uma vida inútil. Mantém-me preso às tuas palavras, ao som desse desejo que teima em não se revelar.
Conta-me as horas vividas em que não estava. Faz-me pertencer a esse passado que quero, ao desejo de pertencer-te mais e mais até atingirmos o presente. Insere-me nessas recordações, transformando-me  num pouco de ti associado à tua vida.
Conta-me, por fim, o segredo das tuas palavras inoperantes, a nobreza desse discurso escorrido e desse olhar que é Ares e ternura, filho da maresia forte e do vento calmo. Conta-me os meandros desse poder do teu abraço seguro, das tuas mãos frias e do teu olhar que faz florescer o ânimo, deixando a dolência para trás em caminhos esquecidos.
Conta-me como foste. Dir-te-ei quem serás.
Conta-me como não fomos. Mostrar-te-ei quem seremos.

9 de fevereiro de 2011

Receio (In)fundado


Como referi recentemente num post, eu tenho imenso medo de tirar sangue... Amanhã, vou fazer análises ao sangue, o que exige que retirem das minhas frágeis veias uma boa quantidade daquele líquido vermelho que só de olhar para ele provoca-me arrepios na pele. Bem sei que uma criança de uns meros quatro anos é mais corajosa do que eu, aliás, não é a primeira - e não será certamente a última vez - que vejo uma criança perfeitamente calma e descontraída a tirar sangue, enquanto eu sofro, faço caretas, birras e tudo o mais. Vou com uma prima, o que não ajuda propriamente... Tirar sangue não é um programa interessante, logo, não tive cara para convidar fosse quem fosse.
"Olha, vou fazer análises amanhã, queres vir?"
Pelo amor de Deus!
Só espero que seja um/a enfermeiro/a experiente e que o faça de forma rápida e totalmente indolor. É que a minha pele é sensível e eu não pretendo ficar com uma negra no braço durante dias.
Às vezes tenho a sensação de que preciso crescer um pouco. Estou muito verde. Não é normal que um rapaz da minha idade fique com medo de tirar sangue. É que é sempre o mesmo problema! E depois começo a suar e a testa fica molhada, o que eu odeio porque faz com que as pontas do cabelo enrolem. Fico possesso quando, logo pela manhã, vejo o cabelo todo...  estranho.
No outro dia, disseram-me um truque fantástico: pensar em algo de bom. Ora, quando sinto a agulha a penetrar os tecidos do meu corpo, só consigo pensar que todo aquele sangue está a ser sugado para dentro da seringa. Tenho de agarrar na mão de alguém, ou melhor, têm de agarrar na minha, o que é constrangedor porque faz com que as pessoas fiquem a pensar mil e uma coisas, normalmente as piores...
Depois de fazer as análises, vou comprar os cadernos novos para o segundo semestre. Não sei se opto por cadernos ou por um dossier. Estou inclinado para o dossier. Dá outro charme e é bem mais prático. Porém, detesto cores discretas e os dossiers minimamente aceitáveis para um rapaz universitário são de cor azul ou verde horroroso. Além destes, há de rapariga e de criança. Podiam fazer qualquer coisa intermédia entre o masculino e o feminino... Fica a sugestão.
Para terminar o rol, estive a rever o Titanic que passou num canal do cabo. Apesar do filme deixar-me um pouco apático, das duas ou três vezes que já o vi, hoje fiquei mais, hum, sensível. 
Vejamos: a Rose era uma menina bem e o Jack era um rapaz humilde.
Não sei, sinto o filme como algo... próximo.
Não sei de onde tirei estas ideias.

6 de fevereiro de 2011

Um Dia Amarelo Em Tons Lilás


Sábado de manhã. Acordar cedo para encontrar os livros adequados para levar a Setúbal. Livros de Direito para um estudante que anda para o torto. Encontrei-os, afinal, o tempo de tédio não é assim tanto que me permita esquecer de algo com o qual terei de lidar já para a semana a seguir à que se aproxima.
De tarde. A mãe levou-me à estação dos comboios (trem, para os meus leitores brasileiros), após muita inquietação e tentativas de me demover da ida a Setúbal. Depois de muitas explicações, incluindo, claro está, a de que ia para a casa de um colega que já esteve em nossa casa e com o qual fui às compras no Natal, lá tive a permissão de viajar. Apanhei o comboio (trem) e, ao chegar à estação, já o R. estava lá. Dissera-lhe previamente o horário e a que horas chegaria.
Não sei se já estivera antes em Setúbal. Não me recordo da cidade, mas é interessante. O R. cumprimentou-me e andámos bastante até chegarmos à sua casa. Ele vive num prédio normal, humilde, tal como suspeitava. Não tem elevador. Subimos as escadas, ele colocou a chave na fechadura e cedeu-me a passagem. Após um «com licença» humilde, entrei. A casa cheirava a comida, um aroma suave e acolhedor. Cheirava a «casa». A mãe estava na cozinha que fica de frente à sala. Surgiu e veio cumprimentar-me com dois beijinhos depois de limpar as mãos molhadas a um pano de cozinha. É simpática e nova, apesar do trabalho (digo eu) tê-la estragado um pouco, o que é visível na pele do seu rosto. Deverá ter a idade da mãe. Elogiou o meu cabelo, ao que eu correspondi com um «obrigado» e um sorriso discreto. O R. olhou para o chão e sorriu discretamente. Passado um pouco, apareceu uma criança, uma menina, a sua irmã. Tem nove anos. Deu-me um beijinho e foi a correr para o quarto. A casa dele é humilde, mas na qual nada falta. Fomos para o seu quarto.
O quarto dele é o típico quarto de um rapaz, tão diferente do meu exuberante e excêntrico quarto. Tem uma cama, um móvel para o pc, uma mesa-de-cabeceira e um roupeiro. O móvel para o pc tinha uns carros grandes de colecção numa prateleira, um boneco do Sporting, alguns livros e pouco mais. Na parede, um quadro com uma grande caravela pintada preenchia as paredes despidas. Senti-me tão bem no seu quarto. Pareceu-me tudo tão perfeito, tão real. Imaginei que ele era o meu namorado e que íamos estudar numa tarde  de sábado. Ambos nos sentámos na sua cama e assim ficámos. Apetecia-me tudo menos estudar, apesar de ele estar interessadíssimo no estudo e não tanto em mim. Pensei para mim mesmo: "Mark, ele tem oral para a semana, sê compreensivo. Se não gostasse de ti não te teria convidado, não achas?" A verdade é que até ele notou algum desconforto da minha parte, perguntando-me mais do que uma vez se estava bem e se queria alguma coisa. Eu mantinha os meus pensamentos... "Beija-me, estás à espera do quê?", "Pega-me na mão!", "Diz qualquer coisa sem ser da porcaria do estudo!!!", mas em vão. Foram duas horas de estudo intensivas. De namorada de sonhos passei a camarada de estudo, 'tás a ver?.
O pai dele chegou. Senti uma voz masculina em casa. Ouvia também os passos da irmã pelo corredor do apartamento, não obstante os avisos da mãe de que o irmão precisava de estudar.
Pouco passava das 20 horas, a mãe bateu à porta, abriu-a e disse para irmos jantar. O R. deu-me uma palmadinha nas costas e cedeu-me passagem, encaminhando-me para a minúscula cozinha. Sim, eles comem na cozinha, só colocam um garfo e uma faca na mesa, usam guardanapos de papel, copos diferentes, toalha de plástico com desenhos de maçãs e cerejas e com as garrafas de água, vinho e Coca-Cola espalhadas. O R. apresentou-me o pai. É um homem vulgar, humilde, mas afável. Notei que estavam meio constrangidos com a minha presença. Depois de nos sentarmos à mesa, demonstraram uma enorme preocupação comigo, perguntando-me se o jantar era do meu agrado e se me sentia bem. Do pai era «menino» para aqui, «menino» para ali. São pessoas educadas e humildes. O jantar foi peixe no forno.
Surpreendeu-me e encantou-me, todavia, a forma simples como se comportam. Comem descomplexadamente, de forma natural. Senti-me um forasteiro por ali. São pessoas tão, tão normais. É uma família estruturada, onde há amor, carinho e compreensão de todas as partes. Não há riquezas, nem luxos, mas há o essencial: amor. Falam meio alto, enchem os copos, debruçam-se sobre a mesa para agarrar em qualquer coisa, enfim, como milhões de lares portugueses. Tão diferente do que sempre vivi...
Nessa noite pude constatar a beleza do R. Como referi anteriormente, ele não é um deus grego e para muitos de vós até pode parecer um rapazito qualquer, mas tem qualquer coisa que mexe comigo. Uma pureza, uma ingenuidade gritante. Gostava de lhe poder perguntar o que ele sente por mim, gostava de indagá-lo sobre a natureza da nossa relação, afinal, para me convidar para ir à sua casa é porque existe algo. Não é comum que um rapaz trate outro como ele me trata a mim se não existir qualquer coisa. Apesar de ele não avançar, ele não me trata como um rapaz heterossexual trata outro. Eu tenho a certeza de que ele sabe o que sinto. Ninguém é tão parvo a esse ponto, porém, quais serão os seus sentimentos?
Depois do jantar, decidi que era melhor ir embora. O pai dele prontificou-se para me trazer a Lisboa e até ficou meio ofendido (pareceu-me) por eu não aceitar. A mãe despediu-se de mim, agradecendo-me a amizade para com o R. e dizendo que «ele fala muito em ti e diz que és dos melhores alunos da turma». No entanto, não pude recusar o convite de me levar até à estação. 
Saí do carro e o R. foi comigo para tirar o bilhete. Quis pagá-lo e dar-me o dinheiro do outro, mas eu recusei. Disse que não era justo que eu gastasse dinheiro com ele. Justifiquei como um acto de amizade e relembrei-o do presente de Natal. Há atitudes que não têm preço algum.
Deu-me um abraço à homem. Faltavam dez minutos para o comboio. Saiu.
Telefonei à mãe e ela foi buscar-me à estação em Lisboa.
Foi um dia banal, com mais expectativas da minha parte.
Um dia amarelo que pintei em tons lilás.
Um dia que pintei de mil cores e que terminou com uma.