19 de novembro de 2023

A actualidade política espanhola.


   Não sei até que ponto o cidadão médio português está a par da actualidade espanhola. Espanha é um caldeirão social, já se sabe. Desde 2017, pelo menos, com a declaração unilateral de independência por parte da Catalunha, que quase todo o discurso político gira em torno dos independentistas e do perigo de sedição. Discute-se agora uma lei da amnistia. Houve eleições há uns meses, o partido mais votado foi o PP, porém, não conseguiu a maioria dos deputados do Congresso para conseguir governar. A investidura de Alberto Feijóo saiu falhada. Há uns dias, o líder do segundo partido mais votado e actual Presidente do Governo logrou a investidura ao conseguir o apoio dos partidos independentistas. Pedro Sánchez quer fazer passar no parlamento espanhol uma lei de amnistia para os envolvidos no 1 de Outubro de 2017, o mesmo que se dizer Puigdemont e demais “conspiracionistas” da DUI (declaração unilateral de independência).

   A já dividida sociedade espanhola ainda o está mais: entre os que apoiam a lei da amnistia e os que acreditam que esta põe em causa a unidade de Espanha, e a mim entristece-me e inclusive indigna-me ver tantos portugueses de responsabilidade, políticos designadamente, a apoiar a tal unidade de Espanha, ignorando que Portugal existe como entidade soberana e independente por contraposição a essa unidade; negando às demais nações peninsulares o direito à liberdade, a liberdade de que Portugal desfruta porque se insurgiu contra a hegemonia espanhola que impede que catalães, bascos e galegos possam escolher entre manter o vínculo a Madrid ou seguir o seu próprio caminho. É hipocrisia, é ignorância, é má vontade e é submissão ao Estado espanhol. 

4 comentários:

  1. Não falo pelo cidadão genérico, mas a mim pareceu-me que que a cobertura dada pelos media à situação em Espanha tem sido bastante completa e até mais desenvolvida do que tem sido a regra - o que acontece em Espanha passa-se nas nossas costas e não lhe ligamos muito.
    Não foi o que aconteceu desta vez, em que temos tido uma informação detalhada sobre a situação.
    Quanto a mim encontro-me dividido, porque, se por um lado, creio que o futuro está na união, e não na separação, por outro, tenho um ponto fraco no que à Catalunha se trata.
    Sei, e já aqui expus anteriormente, que a situação na Catalunha no século XVII, foi fatal para a sua independência, pois, para os castelhanos tratava-se manter a Catalunha ou Portugal na coroa (ambos seria algo que, na sua decadência, já não conseguiam), e eles deram preferência por manter a Catalunha.
    Claro que esta opção deu-nos a hipótese de nos tornarmos independentes.
    Era muito difícil para o império espanhol, ainda que poderoso (apesar de se encontrar já no seu ocaso), manter as duas regiões em simultâneo, por isso optaram pela mais rica, creio eu.
    Não que tivéssemos uma vida fácil, que não tivemos, antes pelo contrário. Foi extremamente difícil para Portugal manter a sua independência, pois tivemos 23 anos de lutas contínuas nas fronteiras, fomos obrigados a alianças ruinosas com a Inglaterra e a França, e os 60 anos, até ao início do século XVIII, foram cruciais e muito difíceis para Portugal.
    Foi necessário criar uma economia e um sistema de governo mais ou menos independente, tivemos que reorganizar o exército e a marinha, tivemos de construir um sistema defensivo, para o qual não tínhamos meios económicos suficientes, e toda a sociedade teve de se adaptar a uma independência a que não estávamos habituados.
    A população teve de sofrer privações de toda a sorte, foram massacrados, sobretudo a fronteiriça, dada as incursões frequentes que tivemos que aguentar. Elvas e Estremoz, ao centro, Almeida a norte, bem o sabem.
    A Catalunha não teve tanta sorte, pois todo o poderio do império foi dirigido para esta região, a qual não conseguiu aguentar a pressão, tendo soçobrado.
    Sorte para nós, azar ara os outros. Quando estou em Barcelona ainda ouço frequentemente dizerem-me que Portugal é independente graças a eles, o que, de certa forma é verdade, mas não na totalidade, pois passámos muito mal nessa meia centúria e tivemos que nos adaptar a duras penas.
    Mas o meu coração está com os catalães, sobretudo quando os vejo a desfilar nas ruas, com uma mágoa e uma raiva amargurada e meio calada pela falta de independência, o que lhes dói de sobremaneira, pois veem a sua economia, que é das mais fortes de Espanha, a aguentar outras regiões mais desfavorecidas.
    Compreendo as aspirações destes povos, contudo não vejo grande futuro na independência destas regiões, como a Catalunha, o País Basco ou outra região qualquer. Não no século XXI.
    Nós próprios temos uma independência nominal e relativa, pois estamos à mercê dos movimentos económicos globais, e estamos a ser reduzidos a uma generalização que nos vai cerceando a nossa identidade cultural, em prol de outra mais vasta, que tudo e a todos invade.
    Se é melhor? Se é pior? Não sei, o futuro dirá, mas quando aí chegarmos já será tarde demais para arrepiar caminho.
    Por isso tudo creio que, de forma pragmática, estes movimentos independentistas estão algo condenados, por muito que o meu coração penda para os catalães.
    Cumprimentos
    Manel

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    1. Olá, Manel.

      Foram 28 anos de duras batalhas na longa Guerra da Restauração (1640-1668), até ao reconhecimento da nossa independência já com o último dos Habsburgo na coroa de Espanha, Carlos II. E como bem disse, houve de reorganizar, firmar alianças (designadamente com a Inglaterra e a França), entregar Tânger e Bombaim em troca do apoio, sofrer o assédio constante dos espanhóis nas regiões fronteiriças, como bem referiu (Estremoz, Campo Maior, etc). No fim, ganhámos.

      A ajuda da Catalunha foi indirecta. A verdade é que são tão nação como Portugal -e a Galiza e Euskadi-, não tendo conseguido a sua soberania no século XVII porque, como também foi referido, os Habsburgo dirigiram toda a sua artilharia para os suster. Tiveram azar e nós muita sorte.

      Por tudo aquilo que passaram, e passam, nomeadamente, durante o franquismo, a migração de milhares de castelhanos, extremenhos e andaluzes, bem assim como pela supressão e estigmatização da sua língua e cultura (que já vinha de trás, dos decretos de Nova Planta), não consigo acreditar numa união mal forjada. Espanha, se fosse um Estado civilizado, permitiria à Catalunha que se pudesse decidir quanto ao seu futuro dentro do Estado, à semelhança do que fizeram o Reino Unido na Escócia ou o Canadá no Quebec.

      Embora viva neste Estado, nada me une a ele. O meu marido é galego, sente-se galego e fala galego comigo. Espanha é uma construção artificial, que como todas sofre tensões desde o seu interior, uma vez que foi erguida sobre nações pré-existentes, que prontamente sufocou, e ainda hoje, com os direitos culturais e linguísticos aparentemente protegidos, continua a haver preconceito e ignorância.

      Cumprimentos,
      Mark

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  2. Não estou mesmo por dentro
    Abraço

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    1. Não perdes muito. Somente é por uma questão de cultura geral, porque de resto não perdes nada.

      Um abraço,
      Mark

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