12 de março de 2023

The Fabelmans.


   Um filme que tem muito de biográfico. As interpretações são de excelência, sobretudo de Michelle Williams. Spielberg seguramente saberá destrinçar entre o que há da sua experiência e o que resulta da inegável capacidade criativa a que nos acostumou, transportando-nos aos anos 60 com maestria; a uma família de classe média tão normal nos hábitos, nos “pecados”, nos anseios, nos desejos, incidindo no crescimento de um miúdo entre as câmaras de filmar e um terrível segredo capaz de abalar o núcleo aparentemente tão comum e inabalável, e afinal é-o, comum, porque inabalável, nem tanto. Não há estórias completamente felizes.




10 de março de 2023

Um ano.


   Um ano. Um ano de dor, de adaptação a uma nova realidade. Quando perdemos alguém que esteve sempre presente nas nossas vidas, há que aprender a viver com esse vazio, com essa falta. Cresce-se com o sofrimento. Vejo-o em mim. 

    Se fosse eu que tivesse feito isto, provavelmente faria com que as pessoas crescessem sem ter de sofrer, mas, como não sou, sujeito-me às leis universais.

27 de fevereiro de 2023

Lugo.


   Há umas semanas estivemos em Lugo. O M. já conhecia a cidade, mas eu não. Junto a Pontevedra, era a única cidade galega, das mais importantes, em que nunca tinha estado.

   Lugo é a capital da província homónima. Lucus Augusti, no seu nome romano, está circundada por uma muralha que se pode percorrer por cima, e assim ter uma visão privilegiada pela maior parte do seu perímetro. A muralha tem dois mil anos e mantém-se praticamente inalterada desde então.


A muralha romana de Lugo


    No centro, podemos encontrar a praça composta por uma coluna e uma enorme águia; é a praça do bimilenário de Lugo, construída aquando da comemoração dos seus dois mil anos de história. Li que a águia que decora o topo da coluna, de asas abertas, substituiu a de asas fechadas, transposta para o Parque Rosalía de Castro.


Uma praça que nos remonta a Roma


  O Parque Rosalía de Castro é amplo, luminoso, com um miradouro. Evoca a memória de uma das maiores escritoras nacionais, responsável pelo renascimento das letras galegas. 


Luminoso


   Perto do miradouro está a ponte romana de Lugo, engenho clássico que foi sofrendo inúmeras alterações durante a Idade Média e já mais recentemente, quando passou apenas a receber o trânsito peatonal.


Aqui vê-se um pôr-do-sol magnífico.


    Outro dos atractivos de Lugo é a sua catedral, que embora não seja tão magnânima quanto a de Santiago, é bonita.


Desde o alto da muralha, a catedral al fundo


      Lugo é uma cidade tranquila, entre o rural e o urbano, de gentes amáveis e bastante mais sossegadas do que a generalidade dos galegos, e é tida como uma das mais formosas da Galiza. Gostei bastante.

21 de fevereiro de 2023

Uma igreja (pouco) católica.


  Nunca como agora dois mil anos de história se viram tão ameaçados. As pessoas cansaram-se do controlo sobre as suas vidas, sexualidade, e finalmente dos crimes da instituição, os crimes sexuais, que todos conhecíamos de ouvir falar, e que se juntam aos crimes de maus-tratos e outros que tais. É que aqueles homens (e mulheres) que fazem a igreja podem (e são) ser tão maus como quaisquer outros. Durante demasiado tempo abusaram da sua posição de poder, de influência junto do poder político, da sociedade. Neste momento já não gozam desse poder; não podem silenciar os que os denunciam, travar as investigações, os processos criminais. Ainda bem que assim é. 

    É-me difícil encontrar um lado positivo na existência da Igreja. Sem querer trazer à colação o tema “Deus”, essa entidade é tão pessoal que não vejo a necessidade de haver intermediários na relação humanidade-entidade criadora, existindo. Como no tempo em que não nos permitiam ler a Bíblia -ler, em geral, pois tinham o monopólio do conhecimento-, e tudo quanto sabíamos, sabíamo-lo filtrado. Esse tempo terminou, o que lhe sucedeu também, e antevejo uma mudança social (e religiosa) significativa, que este escândalo não despoletou, tendo vindo ajudar a concretizar.