10 de março de 2014

Uma tarde pela cidade.


    Faltei à última aula do dia. Prática, o que implicou uma falta na assiduidade. Sinceramente, não me importo. Dormi mal de noite e a pouca paciência perdeu-se por entre a tinta da caneta. Ver os raios quentes de sol pelas pequenas e estreitas janelas do anfiteatro novo suscitou-me a ideia de sair e passear. Voltar a casa não seria a solução. Quis apanhar ar fresco e os meados de Março proporcionam tardes amenas.

   Apanhei o metro, mudei no Marquês, tomei a linha azul e saí no Terreiro. Estive, por instantes, no cais das colunas. Lisboa está cheia de turistas e, indiscutivelmente, de rosto lavado. O povo português, ao menos na aparência, tem mudado. Os looks são mais descontraídos e jovens. A tecnologia, em tabletssmartphones e afins, domina a paisagem. As famílias saem mais e estranhei ver tanta afluência quase à hora de almoço. Um casal, com o filho adolescente, trocava impressões sobre o rio. Estrangeiros tiravam fotos à ponte e a si mesmos, com poses divertidas a puxar para o dinâmico. Os tradicionais vendedores de garrafas d'água e traficantes de mau aspecto. Muitos indianos. Asiáticos. Uma metrópole de várias cores.

   Desci uma das escadinhas laterais e avancei até ao areal. Crianças brincavam com os pés à entrada da água turva, sob a supervisão dos pais. Outras faziam castelos com as mãos. Casais de namorados amontoavam-se. E aí a diversidade foi mais evidente. Um casal de lésbicas trocava carícias e sorrisos. Afastados, dois rapazes, claramente namorados, conversavam. Levei ténis. Peguei numa pedrinha e escrevi o meu nome na areia molhada.


   Voltei ao meu percurso, caminhei em direcção ao Cais do Sodré e subi. O estômago alertou-me da sua presença. Entrei num restaurante simpático e acolhedor, numa daquelas ruas sinuosas, e escolhi um menu. Almocei tranquilamente. Ainda tirei umas folhas da pasta arquivadora e estudei um bocadinho. A mala que comprei pelo Natal é confortável no ombro e tem arrumação. Meses depois, só hoje a olhei com olhos de ver.

   Regressei à margem do rio, já bem alimentado. Deu-me uma enorme vontade de chorar. Ontem, tive igualmente uma crise de choro. Tenho andado especialmente melancólico nestes últimos dias. Raio de herança que a mãe do pai havia de me deixar... Nem quero imaginar que a mãe venha a saber disto. Preocupá-la-ia desnecessariamente e quero tudo nesta vida menos perturbá-la.

    Deixei-me ficar por ali durante a tarde. Comprei uma empada de galinha num barzinho de esquina, em direcção à estação do metro, e bebi um sumo. Já na minha linha, quase me deixava adormecer.

       Sinto uma certa paz interior, por agora. Fez-me bem.

7 de março de 2014

Finalistas.


   Aproximando-se o final do ano lectivo, e da licenciatura, começam a ficar impacientes. À entrada da faculdade, pela porta traseira, publicitam ostensivamente o tão aguardado baile de finalistas e, imagine-se!, viagem. Tinha conhecimento da prática costumeira do primeiro; desconhecia, de todo, a segunda. Para alguém que nem trajou, a indiferença ao baile não poderia ser maior. Recordo-me de um evento semelhante pelo final do secundário, e detestei. Tive de fazer bocas e sorrisos quando o que me apetecia era fugir. Não sendo hipócrita, só consigo chegar ao final do dia com uma revolta enorme. A mais, pegando nas palavras de uma colega: "Já basta aturá-los o ano todo!". Faço minhas.

   Devido às cadeiras optativas, mudámos de subturma. No meu caso, fiquei na mesma, mas houve quem saísse, e outros que entraram, dos quais um casal de namorados (?) deveras irritante. Basicamente, falo-vos de duas pessoas aborrecidíssimas, convencidas e prepotentes. Gostam de sobrepor as suas respostas às dos colegas, rivalizando na participação oral das aulas. Imagino nos testes... Eu intervenho pouco, como já disse anteriormente a propósito de um assistente chato. Falo quando devo falar. Por curiosidade, ando mais interventivo, não sei se pelo aproximar do fim ou se por um súbito interesse, que vem tarde. Acontece que já choquei com o casalinho nas minhas participações, ora com ele, ora com ela. Desde o primeiro ano que não me acontecia algo semelhante! A desconfiança é mútua. Para piorar, sempre houve o péssimo hábito de catalogar os alunos, isto é, comenta-se por portas e travessas quem são os melhores e a minha subturma ganhou a fama de ser a melhor do ano. Vim a saber, por terceiros, que falam acerca de o casalinho ter ficado comigo e com mais um aluno, porventura bom, mas bastante mais humilde do que os três, assumo. 

   Não gosto de guerrinhas e já tenho ficado calado para evitar confrontos, que não houve nenhum. Não gosto deles, simples. Evidentemente, não deixarei de intervir, prejudicando-me. Quando achar que o deva fazer, fá-lo-ei. Só não tento mudar de subturma porque pagaria uma taxa e considero absurdo despender quase três dígitos à faculdade apenas por capricho ou mero mal-estar. Eu aguento. Preferia dar o dinheiro. A fama de 'turma dos marrões' é que não me agrada nada. Maio, chega rápido! O regulamento de avaliação foi alterado, como referi por aqui, abolindo-se os testes ao longo do semestre. Graças! Assim, temos um teste a cada disciplina, em Maio. Faço-os, recebo as notas e vou à minha vida. Com estas criaturas seria insuportável. Comparariam as décimas!

   A viagem de finalistas será, ao que sei, em Cabo Verde ou na Tunísia. Não vou. E aplico, uma vez mais, as palavras da colega. Poderia considerar caso se tratasse de outros destinos. Salvo o devido respeito que cada terra me merece, não fiquei empolgado. Se a mãe pudesse viajar comigo é que seria!... Sem bailes toscos, pejados de álcool e tabaco, engates, na modalidade hetero, e bebedeiras de cair ao chão. Estou fora. Penso antes no futuro e nos passos seguintes. 

    Nada terminará no início do Verão. Só um ciclo. Iniciar-se-á outro, que espero mais interessante.

4 de março de 2014

Pela Europa.


   Desde a Guerra da Bósnia e do Kosovo que a Europa não assistia a momentos de tamanha tensão no leste europeu. Aproveitando-se das fragilidades da governação ucraniana, a Rússia decidiu, unilateralmente, colocar forças militares na Crimeia, uma república autónoma pertencente à Ucrânia. De maioria russa, a Crimeia optou, após a constituição do Estado ucraniano, manter-se unida ao recém-formado país. De facto, os laços que unem a Crimeia à Ucrânia passam por um pequeno istmo. A cultura russa é predominante.

   No meu entender, só há uma justificação para esta tomada de posição agressiva da Rússia: um desrespeito à independência da Ucrânia, resquícios de um domínio que se extinguiu há pouco mais de vinte anos. A Ucrânia, bem como outros países daquela região do globo, era uma das repúblicas constituintes da União Soviética. Com a dissolução desta última, surgiram vários países que alteraram a geopolítica da Europa de leste. A Rússia, herdeira do regime soviético, olha agora para aquela miríade de países como seus Estados-satélites, como outrora o foram a Roménia ou a Polónia, por exemplo. É de conhecimento geral o desconforto da Rússia quando a NATO alarga as suas fronteiras à sua zona de influência ou mesmo quando há uma certa aproximação dos países de leste à União Europeia. Relembro que há pouco se discutia, na Ucrânia, uma manutenção das relações com a Rússia ou, por sua vez, uma viragem a ocidente, tendo em vista uma futura adesão às instituições europeias.

    Mais do que uma violação dos direitos humanos, está em causa o desrespeito pela soberania de um Estado e a ingerência, a todos os termos reprovável, nos assuntos internos de um país vizinho, violando-se as disposições legais, nomeadamente a Carta das Nações Unidas. A solução para o problema da Crimeia passará, talvez, por um referendo à sua população em que se questione, de modo claro, o que preferem: a independência, uma união política com a Rússia ou até mesmo o status quo com a Ucrânia. Arriscamo-nos a uma guerra sangrenta, ainda evitável. Dos muitos erros que se cometeram na antiga U.R.S.S., um deles foi transferir a Crimeia para a República Socialista da Ucrânia, após estar unida à República Socialista da Rússia. Sendo a sua população russófona, esta decisão teve repercussões de que ainda hoje a Crimeia se ressente. São as consequências das más previsões de tiranos, que decidem despoticamente nos seus palácios. Assim o fizeram em África com os resultados que todos conhecemos.


    Por sua vez, os escoceses preparam-se para decidir o seu futuro no seio do Reino. Unidos a Inglaterra desde o início do século XVIII, a Escócia desde sempre manteve a sua identidade e cultura próprias. O processo é pacífico, demonstrando o fair-play com que os súbditos de Sua Majestade lidam com estas questões. Evidentemente, o governo inglês foi peremptório ao afirmar que a Escócia perderá o direito a usar a libra esterlina, como sua moeda, se adoptar uma posição favorável à independência. Faz todo o sentido. Como Estado soberano, competiria à Escócia emitir moeda própria. Não se trata de uma ameaça descarada, em jeito de ofensiva, como o governo madrileno tem vindo a fazer de forma a amedrontar o povo catalão. Além da saída certa da União Europeia, o que até faz algum sentido, as ameaças prendem-se com o veto espanhol, ou do que restaria de Espanha, a uma posterior adesão da Catalunha independente. A isto se chama coacção moral. A par disso, ouço posições de Rajoy contrárias ao referendo, arguindo a favor da sua inconstitucionalidade. Será uma inconstitucionalidade à luz da Constituição espanhola, mas, não se sentindo os catalães como espanhóis, de pouco releva o que dita a Lei Fundamental imposta por Madrid. Nem todos os séculos de opressão fizeram soçobrar o nacionalismo catalão. Madrid esquece-se, porém, de que a Catalunha não é a Galiza, nem os catalães permeáveis ao imperialismo castelhano nas mesmas proporções que o inerte povo galego. A Catalunha não precisa de Espanha; Espanha precisa, e muito, da Catalunha. Sabem os espanhóis, e sabemos nós, de que seguindo-se à Catalunha viria a Galiza, o País Basco, Ceuta e Melilla seriam entregues a quem de direito, Marrocos. Olivença já foi por mim abordada.

 
    As Nações Unidas expressam claramente o Princípio da Autodeterminação dos Povos. A coberto deste, vários países conseguiram a independência contra as antigas potências colonizadoras. Mas o princípio, do qual podemos extrair uma norma jurídica, não se esgota nas questões coloniais. Os povos devem escolher o seu destino e, à semelhança do referendo que vai ter lugar na Escócia, impõe-se desde já um na Catalunha e, eventualmente, na Crimeia.
    Sufocar nacionalismos históricos nunca deu bons frutos. Que se retirem ilações dos erros do passado.

1 de março de 2014

Terror.


   Gosto de filmes de terror. Dos clássicos, preferencialmente. Os filmes de terror das últimas décadas perderam uma parte do segredo do seu sucesso. Nem sempre a tecnologia surge para ajudar. Os efeitos em demasia originam filmes histriónicos, claramente desprovidos de qualquer realidade. E, para mim, mesmo o género terror  tem de ter, necessariamente, um pouco de realidade ou de obscurantismo. Nada que envolva monstros ou similares me assusta. Se tiver a certeza de que se trata de algo puramente imaginado, perco a excitação.

    Dois desses filmes são dos meus favoritos. Carrie (1976), do Brian de Palma, e, claro, O Exorcista (1973), de William Friedkin. No que diz respeito ao primeiro, confesso que me entristece mais do que assusta. Em boa verdade, não assusta. Trata do bullying, um fenómeno que, acredito, na altura era desconhecido. A miúda, numa interpretação magnífica da Sissy Spacek, tem poderes de telecinese, o que lhe permite mover objectos e provocar catástrofes... A sua mãe, uma louca religiosa, é encarnada por Piper Laurie de forma sublime. Ambas foram indicadas ao Oscar.

  O Exorcista, sim, já me amedronta. Envolve uma área praticamente desconhecida por todos, sem demonstrações científicas da sua existência ou inexistência. A par de Carrie, vi-o também muito novinho, fugindo ao controlo parental, e nas duas situações tive dificuldade em adormecer. Há aspectos rudimentares, como a cena em que Regan gira a cabeça nuns incríveis 360º graus. É perceptível de que se trata de uma boneca. Hoje, provavelmente, fariam em computador e tudo pareceria mais credível. Mas até essa aura mística torna o filme irresistível. É assim que ele é bom e perturbador. Ninguém fica indiferente ao rosto de Regan possuída pelo demónio Pazuzu. Da primeira vez, tinha catorze anos. Soube que iria passar na televisão, na RTP1, creio, consegui manter-me acordado e lá liguei a tv do quarto. Impressionou-me muito. Não é aconselhável a menores de dezasseis. Falo por experiência. Se ainda sou imaturo, à época fiquei aterrorizado e, por dias, aquela figura sinistra não saía da minha memória.

   Ontem, correndo a programação dos canais TvCine, soube que iria ser transmitida a sequela, O Exorcista II - O Herege (1977). Já havia lido, e ouvido, que era mau. Aguçou mais a minha curiosidade.
    Por favor, não vejam. É horrível! O enredo é péssimo! Não é à toa que está considerado um dos piores filmes de todos os tempos. Fiquei assustado, sim, de facto, com a qualidade. A Linda Blair saiu-se tão mal. Se eu sou contra as continuações, até em filmes infantis, defendo que nestes casos são evitáveis a todo o custo. É difícil repetir-se as fórmulas do êxito. É aquilo e não mais. O realizador, posteriormente, alegou que também era pai e não queria mais torturar uma criança, o que é visível n'O Exorcista, além de que quis enfatizar o bem e não o mal. Disse que o seu pecado foi não ter dado ao público o que ele queria: terror, medo, muito medo. Pois, se calhar foi. Melhor faria se o riscasse do seu currículo. Em filmes do tipo, as pessoas querem ficar assustadas, numa espécie de masoquismo. Querem olhar para trás enquanto se dirigem ao quarto, querem ficar com o coração a bater aceleradamente ao mínimo ruído, querem gelar o sangue a uma sombra ou vulto. É lógico.

   Na minha indiferença ao cinema, em geral, conheço poucos filmes de terror. Há meses, vi um que me deixou perturbado, nem tanto por medo. Hunger. Um grupo de indivíduos que é raptado e transferido para um subterrâneo por um psicopata, sem que o saiba. Deixou-lhes apenas água e um bisturi. Assim ficaram por semanas e semanas. Já se imagina o resto... Por último, no início do ano, vi o REC e o REC 3, de origem espanhola, que também têm o seu pedaço de suspense e terror.

    Estão à vontade para me aconselhar filmes. Alguns, porventura, conhecerei; outros, nem por isso. :)