1 de junho de 2013

Da infância.


    Nem sempre ia para o colégio. Por vezes, os pais preferiam passar o dia comigo, levando-me a passear entre reuniões da empresa e conversas de adultos que aprendi a compreender e a aceitar. Um mundo natural para alguém que cresceu no limiar da inocência com a complexidade dos crescidos, ouvindo palavras  à partida incompreensíveis, desabafando com as sociedades da Playmobil que aprendera desde cedo a construir na carpete do quarto dos brinquedos. Lá, as crianças brincavam nos baloiços ante os olhares complacentes e divertidos dos pais, homens e mulheres tão comuns que até sujavam a roupa ao comer um gelado, que bebiam sumos de mil sabores no meio de gargalhadas espontâneas e conversas sobre o futuro. Um mundo onde era tão natural sentar as crianças nos colos e confortá-las quando esfolavam o joelho em quedas precipitadas das bicicletas. A realidade na qual entrava e de onde saía quando me puxavam pela mão e me sentavam nas traseiras do carro.

   A mãe seguia nervosa no banco do acompanhante. Enquanto observava as carreiras de árvores que a velocidade deixava para trás, ouvia os seus queixumes ao telefone. Perdera uma conferência importante porque me prometera a tarde. O dia que nunca lhe cobrei, embora os passeios do colégio se tornassem repetitivos. Mudavam os lugares, contudo, a falta de carinho verdadeiro era uma constante. Amor que não tem o preço de uma mensalidade fixa, que não se troca como um cheque por um recibo bem descrito.

   Abracei o Gil com força. Um dos peluches mais giros que me comprara. Felpudo, tinha as medidas da protecção de que necessitava. A minha mão quase se perdia na sua, maior, descontrolada. A mão de quem ama e quer, certamente, mas não talhada para compreender as necessidades de uma criança, habituada a assinar papéis e a apertar o cinismo que rodeia quem faz do dinheiro o epicentro da vida.

     Quando cheguei a casa, apresentei o Gil ao Simba e contei-lhe, ao último, como correra o dia. Quis dizer-lhe que fui feliz, que a mãe me levara ao parque dos escorregas, que me deixara correr ao menos uma vez na vida, despreocupando-se com a camisa que nunca chegou a suar, nem a conhecer uma nódoa de molho de morango. Que pela primeira vez fora uma criança como as demais, num planeta em que os bonequinhos não são mais felizes do que os humanos. O que deixei no desenho e arrumei na gaveta dos sonhos.

28 de maio de 2013

Três em um.


    Como há vários assuntos que pretendo abordar, todos eles que me merecem um mero comentário, resolvi compactá-los num único texto. Comecemos por um jogo de futebol. Insólito, eu sei. Bom, estava num estabelecimento comercial, logo, foi impossível evitar. Refiro-me em concreto à final da Taça de Portugal. Como deverão saber, a equipa previamente vencedora, o Benfica, perdeu. Seguiram-se episódios muito pouco correctos num espectáculo desportivo, nomeadamente, no acto de receber as medalhas pela participação, vários jogadores do SLB não se dignaram a cumprimentar o Presidente da República (é a segunda vez que falo de Cavaco Silva em poucos dias - outro insólito!). Como não o fizeram por motivos pessoais ou políticos, revelaram uma falta de educação gritante. A maior responsabilidade será, evidentemente, do staff da equipa. Não se admite que ninguém tenha avisado os jogadores de que iriam disputar a segunda competição mais importante do futebol português, ocasião na qual participa, por inerência, o Presidente da República. Se os jogadores saem mal na fotografia, a instituição SLB sai ainda pior. Lamentável, até para alguém que não gosta assumidamente de futebol, como eu.

     Segundo assunto quente: co-adopção. Uma lei que dá e dará muito que falar. Apesar de ainda faltar a votação na especialidade, votação final e promulgação, um dos passos decisivos já foi dado na Assembleia da República. Ontem, entre livros de Processo Civil, tive curiosidade e assisti ao debate na RTP1 sobre esta matéria. Participaram, entre outros, Isabel Moreira, deputada do PS, e Marinho Pinto, bastonário da Ordem dos Advogados. Marinho Pinto teceu comentários inaceitáveis nos dias que correm, revelando um preconceito e um desconhecimento indignos de alguém com tamanha responsabilidade na classe que representa. Revelou desconhecer o que é amar alguém, educar, criar, acompanhar e transmitir valores, misturando os conceitos de biologia com a realidade que já existe - há crianças que moram com casais compostos por pessoas do mesmo sexo. Esta lei pretende salvaguardar os direitos dessas crianças a terem um vínculo jurídico com ambos os membros do casal, a sua família, aqueles que essas mesmas crianças reconhecem como seus pais e mães. A consideração que já nutria por Isabel Moreira aumentou e em muito - foi saneada na faculdade por um professor de quem também fui aluno, episódios de censura que ainda subsistem no nosso ensino superior.

      Derradeiro tema, porventura o mais importante: o jantar de sábado. Foi um serão muito agradável. Sou uma pessoa reservada e senti-me entre amigos. Um ambiente leve, informal, só possível devido à personalidade de dois magníficos anfitriões, João e Margarida, que tudo fizeram para tornar aquela noite num momento que a todos, certamente, agradou. Conheci várias pessoas com quem tenho contacto há anos e, pela primeiríssima vez, outras tantas. Sinto-me grato por isso.

24 de maio de 2013

Os limites.


   Já dizia Winston Churchill que a democracia era um mau regime, todavia melhor do que qualquer outro conhecido e já experimentado. O conceito de democracia, em sentido lato e para o senso comum, resume-se ao sufrágio, às liberdades individuais, e pouco resta. Retira-se da democracia a palavra direito - e todos a invocam sem excepção - mas existe uma outra palavra associada a este regime: dever. Parece simples e perceptível.

   O direito à palavra, à opinião, à informação. Direitos consagrados na Lei Fundamental, pilares de qualquer Estado de Direito, de uso frequente e abundante. Justificam-se neles todos os excessos cometidos. Quantas e quantas vezes o respeito que compete ao Direito zelar não é preterido em nome da liberdade de expressão... Perde-se a conta.
    Miguel Sousa Tavares referiu-se ao Presidente da República apelidando-o de "palhaço". O mal está desde logo no termo que usou, dirigindo-se à mais alta figura da hierarquia do Estado. Na minha visão, não terá ofendido Cavaco Silva; desrespeitou, isso sim, o órgão de soberania, eleito democraticamente por sufrágio universal e directo, representante máximo da República Portuguesa. Aí está o problema e o crime, possivelmente. Ninguém pediu a MST que respeitasse Cavaco Silva - que merece, certamente, todo o respeito que qualquer cidadão nos merece; pediu-se, implicitamente, que respeitasse, ele e todos, o Presidente da República. "Palhaço" será mais do que jocoso e desagradável; é, no meu entender, manifestamente excessivo. A jurisprudência portuguesa tem sido muito cautelosa quando se depara com estas questões, valorizando a liberdade de expressão e informação face ao crime de ofensa à honra do Presidente, contemplado no nosso Código Penal.

   Há liberdade de expressão sem ofensa gratuita e pessoal, fugindo ao campo da mera e saudável discordância política. O cidadão médio conseguirá expressar as suas opiniões de forma minimamente cordial. Se não há democracia sem o direito à palavra, também não haverá se perdermos todo o respeito pelos órgãos que elegemos, promovendo e incentivando o insulto, a injúria vil, atacando a própria República, sendo o seu Presidente o símbolo maior da unidade de Portugal. MST excedeu-se e retratou-se, como homem inteligente que é. Por mim, é quanto baste.

17 de maio de 2013

O final de uma etapa.


   O semestre está a terminar. Contrastando com a maioria das licenciaturas, podemos falar apenas do final de uma etapa. A etapa das aulas e das primeiras avaliações. No modelo adoptado na minha faculdade, necessitamos de fazer a frequência final a todas as disciplinas de modo a concluirmos as cadeiras, o que redobra a exigência e a dificuldade. Não há dispensa de exame seja qual fora a nota. Evidentemente, o mercado de trabalho não é alheio a tudo isto, preferindo os licenciados naquela casa. É comum dizer-se que um mero catorze equivale a muitos dezoitos noutras paragens... Assim o é, posso assegurá-lo.

   Temos recebido os últimos testes. Já não sinto - como sentia - as "borboletas" no estômago. Torna-se uma rotina. Se ganhamos alguma coisa, uma dou como garantida: controlo das emoções. Ficamos mais fortes ou pelo menos dissimulamos melhor a fraqueza. As mãos não tremem mais como dantes.
   Notas. As minhas notas têm sido bem melhores do que esperava, num ano de si difícil, o famoso ano dos cadeirões. Num raciocínio anatómico, este ano poderá ser considerado a espinal medula do curso. Inevitavelmente, descemos, e descemos até comparativamente ao primeiro e segundo anos.


   Hoje aconteceu-me algo insólito desde que estou na faculdade. Um professor, neste caso, uma professora, elogiou a minha nota publicamente, realçando que se destacou, a nota, da quantidade «absurda», nas suas palavras, de negativas. Muitos ficariam eufóricos; eu fiquei incomodado. De repente, fui alvo de todos os olhares, até de colegas que raramente reparam em mim. A turma em peso, um silêncio sufocante, alguma inveja que escapa entre sorrisos de circunstância... Enfim, horrível. Por vezes, questiono-me se os conhecimentos que aquelas pessoas adquirem - refiro-me aos professores - ocupam o lugar do bom senso e da discrição. Eu não faria isto a um aluno; provavelmente elogiá-lo-ia a sós, numa conversa no final da aula. Algo particular. Cá fora, foi a vez dos elogios dos meus colegas. Senti-me um extraterrestre.

   Além das provas que se aproximam, terei de entregar um trabalho expositivo e de investigação à célebre cadeira de Mercados, lembram-se? Pois é, uma dor de cabeça.

     I will survive.