5 de abril de 2010

Jonathan Rhys Meyers

Ontem fui almoçar a casa da avó. O típico almoço de Páscoa em família. Estivemos quase todos presentes, exceptuando alguns tios que não puderam vir. Depois da tarde de confraternização, fui com a Leninha para a casa dela. Apeteceu-me. Estou de férias, logo, não tenho necessariamente de dormir em casa. E a Leninha é uma irmã fantástica, apesar de ter 33 anos. Tem um espírito jovem e parece-me mesmo que os anos não passam sobre ela.
Quando chegámos, colocou um DVD que comprou em Espanha da série Os Tudor. Ela sabe que eu adoro História. Eu já tinha visto um episódio há algum tempo atrás, mas só ontem é que prestei a devida atenção. O actor que interpreta a personagem Henrique VIII é o Jonathan Rhys Meyers e é fantástico. Ao vê-lo, qualquer um/a quer ser a Ana Bolena, salvo a parte em que é decapitada. Lol Eu acho-o um actor óptimo e tem uns certos atributos que o destacam imenso. :)
Não é fantástico?

3 de abril de 2010

Páscoa

É inegável a importância da matriz judaico-cristã na minha formação individual. Ela existe e está presente. Lembro-me da polémica em torno da inclusão de um preâmbulo destacando a herança cristã no projecto da Constituição Europeia. Aliás, um dos motivos que levou a laicíssima França a chumbar o referendo sobre a mesma. Não o medo de uma possível federação europeia, nada disso; o que motivou os gauleses foi o receio de um atentado à sua laicidade estatal. Lá se foi o sonho de um grande passo na construção de um novo mundo bipolar. O Tratado de Lisboa é manifestamente mais comedido.
A tradição judaico-cristã está presente em todos os sectores das sociedades ocidentais. Portugal surgiu nesse contexto religioso, com as famosas cruzadas da Idade Média que propiciaram a Reconquista Cristã. Já o Império Romano tinha sido fortemente influenciado pela Cristandade, a ponto de se tornar a única religião do Império, com Teodósio I. Por todos estes motivos, estranhei o medo infundado dos extremistas laicos sobre a matriz judaico-cristã. A História não a desmente. Todavia, o facto de reconhecer essa matriz como forte impulsionadora da história ocidental, não impede que seja laico e um profundo crítico das religiões cristãs. Apenas reconheço a sua importância no mundo ocidental.
Jesus marcou indelevelmente a história mundial. Até a contagem do tempo ganhou um outro significado. Gostemos ou não, acreditemos ou não, Ele está presente no nosso quotidiano e na forma em que nos organizamos. Somos envolvidos nas festividades religiosas a Ele associadas, onde se inclui, evidentemente, a Páscoa.
Com um significado equiparado ao Natal devido à sua importância, a Páscoa representa a Morte de Cristo. Segundo a matriz cristã, Jesus morreu para a remissão dos nossos pecados. Durante estes dias de Semana Santa, assinalamos a morte de Jesus e festejamos a boa nova da Sua Ressurreição e Ascensão junto ao Pai, Deus, O Criador.
Factos são factos. Podemos concordar ou discordar, mas eles existem. É assim que estamos organizados, crentes e não crentes.
As amêndoas, os coelhinhos e os ovinhos de chocolate surgem como forma de compor a festa em si. É o merchandising, digamos. Faz parte. Há alguém que seja totalmente indiferente a estas festas litúrgicas? Duvido. Os filmes, a televisão, até mesmo o facto de vivermos num país católico, torna a hegemonia religiosa num facto de inquestionável abrangência. As típicas mensagens "Boa Páscoa" ou "Páscoa Feliz" estão praticamente automatizadas na nossa cultura e no desempenho dos nossos papéis sociais.
Aprendi, por motivos familiares (católicos e conservadores, não em todos os aspectos...), a respeitar profundamente quem acredita e vive com fé este momento de introspecção.
Boa Páscoa a todos!

2 de abril de 2010

Ingratidão

Se fosse viva, a bivó Palmira completaria hoje 102 anos. Faleceu em 1997. Não sei bem porque motivo, lembrei-me de ir ao cemitério de forma a estar mais perto dela. Para além de duas vezes avó, era uma boa amiga. Pensei que talvez alguém da família quisesse vir comigo. Telefonei aos tios, disseram-me que não podiam; uma prima está grávida e não quis vir, outro primo foi passar a Páscoa à Serra da Estrela, o outro tinha um jogo particular de ténis com os amigos... Liguei para vinte números familiares e ninguém podia. Pensei em convidar a Ana (prima), mas não fazia muito sentido, pois ela é prima materna e a bivó é da parte do pai. Embora não tivessem qualquer laço de sangue, conheciam-se e a bivó gostava muito dela, mas decidi que era melhor não. Também não liguei para nenhum amigo porque não é propriamente um programa de tarde muito divertido. Duvido que alguém viesse. Quanto muito a Só, e e... Liguei ao pai. Mais uma vez o telefone estava em voice mail... Decidi ligar à mãe dele, à avó paterna, filha da bivó.
-"Estou sim, avó?, tentei durante toda a manhã ligar para o pai; a avó sabe onde ele está?" - perguntei eu, na expectativa.
-"O pai está no Porto. Foi passar lá a Páscoa com o tio Zé. E, para a semana, provavelmente vai à Alemanha. Passa-se alguma coisa que eu deva saber?" - respondeu, autoritariamente.
-"Não, deixe estar. Era algo sem importância. Um beijinho, boa Páscoa." - disse eu, desligando o telefone de imediato.
O pai, mais uma vez, não me telefonou a dizer que não estava cá. É capaz de ir à China sem que eu saiba.
Fui sozinho. A mãe guardou uma chave do jazigo de família do pai, mesmo depois do divórcio.
Na rua do cemitério existem imensas floristas. Comprei um bouquet de orquídeas, as flores preferidas da bivó. Entrei no cemitério. Estavam lá imensas pessoas, talvez por ser feriado e dia Santo. O jazigo fica numa zona mais sossegada, onde não estava ninguém. Abri a porta, mas não quis entrar. Depositei as flores dentro do jazigo e fechei a porta. Ainda é grande. Muitos dos familiares que lá estão nem os conheci. Dos que conheci, estão lá o tio Lourenço, o tio Heitor, o tio Antonino e a tia Milu, para além da bivó, claro. Meditei um pouquinho em sua memória e saí.
Foi uma mulher dedicada à família, sempre preocupada com o bem-estar de todos. É desta forma que retribuem todo o carinho que ela nutriu por eles em vida. Ingratos, todos eles.
Quando alguém morre, cai no esquecimento.
Esquecem-se, porém, que um dia também morrerão.

1 de abril de 2010

Paraíso Inalcançado

Deitei-me porque a cabeça pedia-me descanso. As consequências de meses de estudo não são imediatas; o corpo ressente-se mais tarde. Não puxei as cortinas, deixando o sol penetrar pelo quarto, batendo com todos os seus raios de final de tarde sobre o meu rosto. Depressa adormeci. Senti um ruído a dissipar-se, mas estava longe. Adormeci antes que pudesse decifrar do que se tratava.
Lembro-me de um jardim infinito, de um verde irreal e fresco. As flores eram de diversas cores e formas, mas recordo-me dos lírios roxos em tamanha quantidade que pareciam um tapete homogéneo de beleza e cor. Estava uma brisa suave, mas suficientemente agitada para fazer balançar o meu cabelo. A brisa trazia em si um perfume misterioso. Um aroma agradável de paz e sossego perpétuos. Não estava ninguém perto de mim. No entanto, consegui avistar algumas pessoas ao longe, no que me parecia ser um parque de diversões, mas não um parque qualquer: um lugar calmo e sereno. Olhei em redor. Senti-me abandonado, embora estivesse calmo e de bem comigo mesmo.
Quase como aparecendo do nada, vislumbro um rapaz. Tinha caracóis louros, da cor do ouro. Os seus olhos verdes diziam-me para não ter medo. Veio ao meu encontro. Parou diante de mim e, numa linguagem calma e pausada, disse-me:
-"Não tenhas medo. Aqui estás em paz..."
Não percebi onde estava nem quem ele era. Quando me preparava para falar, pegou-me na mão e começámos a correr. Corremos imenso, mas não estava cansado, nem sentia o peso do corpo. Era como se estivesse num lugar paradisíaco, em que a gravidade não tem a mínima influência, apesar dos nossos corpos estarem assentes em terra firme. Parámos junto a uma lagoa, ou talvez um lago. Largou a minha mão. Olhei para ele e comecei a caminhar em direcção à água. Vi claramente o meu rosto reflectido no espelho d'água. Era eu, definitivamente. Reconheci o meu sinal redondinho na bochecha, os meus lábios e os traços gerais do meu rosto. Olhei de novo para o rapaz e perguntei-lhe quem era.
-"Sou quem queres que eu seja. Um amigo..."
Dirigi-me ao seu encontro, deixando a lagoa para trás. Peguei na sua mão. Senti o seu aperto forte. Olhei em redor e vejo que não estamos sozinhos. Instantaneamente, apareceram pessoas vindas de todos os lados e nenhuma delas reparava no facto de estarmos de mãos dadas. Sorriu para mim e abraçou-me. Cheirava a alfazema. Senti-me incrivelmente protegido e amparado. Lembro-me de pensar nos pais, nos avós, na Só, nos amigos, nos primos; nada era suficientemente forte para me fazer abandonar aquele lugar.
Acordei. Estava no quarto da mãe. O sol já não batia no meu rosto. Chamei pela mãe. Não respondeu. Levantei-me, corri em direcção à sala de jantar e vi a Ana a colocar a mesa. Disse-me que a mãe chegava mais tarde e que já tinha avisado que não vinha jantar. Não lhe contei o meu sonho. Apenas lhe pedi um comprimido. Acordei com uma sensação estranha no estômago.
Fui para o meu quarto. Freud explicaria o meu sonho como sendo um conjunto de recalcamentos que foram exteriorizados pelo meu inconsciente enquanto dormia. Visto que o superego não permite que o faça em estado de vigília, o meu id transborda tudo quando estou a dormir. O pai dar-lhe-ia outra explicação, bem mais espiritual.
Apesar de tudo de bom que vi naquele sonho, acordei angustiado.
Não sei se gostaria de voltar a viver naquele paraíso inalcançado.