Hoje assinala-se o Dia Internacional Contra a LGBTfobia. Se fosse há dez anos, eu não diria nada e provavelmente até me oporia a esta celebração. Actualmente, não. Vejo um ressurgimento do ódio contra as pessoas LGBT, que me preocupa, mais ou menos como sucede com os comentários misóginos e machistas de uns jovens adultos do sexo masculino, e de outros menos jovens. Estamos a regredir em valores e ética depois de décadas de progresso. Não podemos permitir que assim seja. Espanha, o país em que vivo, continua a estar na linha dianteira do combate à LGBTfobia, e orgulho-me disso. Portanto, sim, este dia não só continua a fazer sentido como mais do que nunca tem sentido, verificando a degradação dos últimos dois / três anos no que respeita à situação das mulheres e das pessoas LGBT.
Olá, Mark.
ResponderEliminarAté ser adulto, nunca prestei grande atenção ao dia; quando fiz 18 anos, em 2013, estávamos na última década de progresso nos direitos das pessoas LGBT. Embora vivesse perto de Lisboa, na prática, a grande cidade pouco estava incluída nas minhas rotinas, fora as visitas de estudo. A primeira marcha LGBT em Setúbal - capital do meu distrito - teve lugar em 2025. Pese embora não entendesse a importância de dias como este e, em boa verdade, diria que só este ano fixei o “17 de Maio”, assistia com grande emoção às conquistas de direitos que íamos fazendo e que eram discutidas em programas como o Prós e Contras, na RTP, com a Fátima Campos Ferreira. Assistias?
Temos de agradecer à esquerda, que nos defendeu (e eu não voto muito à esquerda, não…). Recordo algumas frases da Isabel Moreira, que explicava a um Nogueira Pinto filho que só quando os homossexuais puderem aceder ao casamento serão realmente “iguais”. Que qualquer outra solução - uniões civis, etc., então defendidas pelo PSD - perpetuaria a diferença.
Hoje, assistimos a uma agenda política contrária (sim, política; o poder virou). Arrisco dizer que a sociedade não acompanhou o progresso legislativo que se deu até ao final da década de 2010 e, agora, assistimos ao reflexo disso mesmo. As pessoas estão a deixar de ter vergonha, porque encontram representantes ultramontanos nas redes sociais, nos parlamentos… penso muito nas crianças LGBT que após um período de alívio, reportam o ressurgimento do bullying direcionado à sua orientação e identidade sexuais.
Em 2028 cá estaremos, Mark, para o 17 de Maio.
Um grande abraço,
Diogo
Olá, Diogo.
EliminarLembro-me do “Prós e Contras”, sim. Até me lembro de um célebre debate sobre a co-adopção por cônjuge ou unido de facto do mesmo sexo e de uma resposta da Isabel Moreira a um tipo que dizia que o filho lhe dissera, sobre o assunto: “Oh pai, ter dois pais? Isso é um disparate”. E a Moreira ripostou-lhe algo como: “Se ele fosse meu filho, pensaria diferente”. Acho que o programa terminou. Durante muito tempo foi um grande espaço de debate público.
Estamos a assistir a um retrocesso. Depois de décadas de conquistas, o reaccionarismo está de volta; os miúdos, rapazes, mais conservadores, homofóbicos. Começo a ler, na internet, insultos como “maricas” e “paneleiros” como algo normal, corriqueiro, com imensos likes. Assusta-me. Assusta-me porque eu fui uma enorme vítima da homofobia social, sobretudo, por parte de miúdos da minha idade, e de alguns adultos, e sei bem os traumas que isso me causou. Estou profundamente marcado.
Não desistiremos.
Um enorme abraço.
Eu disse 2028, mas queria dizer 2027, claro :)
EliminarAs pessoas deixaram de ter vergonha, Mark. Diria que sempre esteve lá, contudo. Nunca passou. As pessoas é que tinham vergonha.
Temos no parlamento uma defesa silenciosa desses comportamentos através dos deputados grunhos que integram o grupo parlamentar do Chega, e desses miudos e não-tão-miúdos incels que destilam ódio no conforto das redes sociais.
Também fui uma grande vítima da homofobia social e devo dizer-te, Mark, que não esqueço, não perdoo, a raiva está cá.
Não desistiremos.
Diogo
Já não tens o “Prós e Contras”, mas a RTP tem um novo formato de debate, o “Grande Debate”, com o Carlos Daniel. Pesquisa pelo programa na RTP Play. Antes deste formato teve também o “É ou não é”. A diferença face ao “P e C” é não ter público.
EliminarRecordo-me perfeitamente dessa intervenção da Isabel Moreira e de muitas outras como “este é um assunto jurídico”. Devemos-lhe muito.
Bom, em defesa tua, apenas te antecipaste: espero que estejamos cá também em 2028. :D
EliminarIncels, isso mesmo. Faltava-me a palavra. Conhecia-a, tinha-a debaixo da língua, mas não me veio à cabeça quando te respondi da primeira vez. Terrível. Eu realmente não sei o que se passa. Damos dois passos em frente e um atrás.
Eu sofri muito. Não gosto de o dizer de forma leviana, porque pensam logo que te vitimizas ou te fazes de coitadinho, mas realmente foi assim: sofri muito. Era humilhado, ofendido, ridicularizado praticamente a todo o momento, desde que entrava no colégio até que saía - e isto que estudei no privado. Depois, onde vivia, alguns adultos também respeitavam bem pouco a minha inocência, no sentido em que se metiam comigo quando deveriam ter juízo e deixar uma criança em paz.
Carrego a raiva comigo, tal como tu, mas eu talvez vá mais longe: eu procuro-os nas redes sociais e vingo-me, enviando-lhes mensagens e dizendo-lhes tudo o que penso. Fi-lo também com um caso que não teve nada que ver com homofobia: a tonta da directora do primeiro externato em que estudei, que certa vez me deu um tabefe, mas um tabefe tão forte que ainda sinto a dor, e pior: eu não estava fazer nada. Era hora de almoço. Estávamos vários sentado numa mesa redonda, e os miúdos davam-se pontapés entre si, por debaixo da mesa. Eu não. Mas talvez por dar mais nas vistas, fui eu quem levou a estalada, mas uma estalada de estalar realmente. Depois, mais tarde, talvez temendo que fizesse queixa aos meus pais, chamou-me ao seu gabinete. Encontrei-a num grupo de fb de antigos alunos. Disse-lhe tudo o que ia na alma. Lavei-me por dentro. Bem sei, não é dignificante e é comportamento que não me conduz a lado nenhum, mas é mais forte do que eu.
Um abraço.
Filha! Estamos cá em 2028, pois!
EliminarEstou a aceder a umas memórias bem difícieis. Pelo 3ºCiclo rezava todos os dias antes de sair de casa para que nada de mal me acontecesse, para que não fosse vítima de chacota, para que não fosse exposto junto de colegas, etc. Era muito mau. Há marcas até hoje.
Não encontrei ainda valor em dirigir-me a nenhum deles, mas há uma ação de que não me orgulho:
Há uns anos recebemos na empresa onde trabalho uma candidatura da mãe de um deles. Fiz questão de responder com o meu nome, explicando que não iríamos prosseguir com a candidatura. Foi um gesto pequenino, mesquinho. Usei o meu poder de forma nada ética. Se voltaria a fazer? Prefiro não comentar.
Essa Diretora! Como foi possível?! Que te respondeu a "senhora"?
PS: Tenho a certeza de que o filho desta senhora seria gay.
Eu dava naturalmente mais nas vistas, e aqui nem me quis referir explicitamente ao facto de já ser um menino mais delicado. Há algo em mim que capta a atenção, e não o digo com orgulho nenhum. Há pessoas que passam desapercebidas e outras que não, por boas e más razões. Eu estou entre as últimas. E foi por isso que, mesmo sem ter feito nada, fui eu quem levou a estalada.
EliminarA “senhora” ainda era da velha guarda. O 25 de Abril não chegara ao seu colégio. Não era apenas a directora; era a proprietária. Vinha do tempo em que se batia nas crianças. Não me recordo ao certo do que me disse, mas sei que me pediu desculpas. Acho que, por isso, não fiz queixa dela. Ou fiz queixa dela e depois desculpou-se. Não me recordo. Sei que eu fazia queixa. Fiz da minha professora, que também tinha zero talento para tratar com crianças. Nisso, eu já estava à frente. Queixava-me aos meus pais, e a minha mãe era uma loba a defender-me. Além de que era um externato, quer dizer. Os meus pais não pagavam para eu ser maltratado, era o que faltava.