14 de março de 2022

Um até já, talvez.


   Pode ser definitivo, pode ser que não. Estou-lhes a ser realista. Neste momento, atravesso o pior período da minha vida, o de maior dor -a dor maior-, o maior medo que se tornou real. Não estou em condições físicas e psicológicas de ir escrevendo, ou seja, de me comprometer com qualquer assiduidade nas publicações. Imagino que muitos dos que me odeiam estejam felicíssimos, mas também esses passarão por isto, e outros até já passaram. Por isso, pensem duas vezes antes de se divertirem à minha pala. Não estou a justificar nada. Sei que deixei de escrever e que há uma pouca gente que me merecia uma “explicação”. Aqui está.

    Talvez volte, quando me recuperar deste terramoto. E, voltando, serei pior do que alguma vez fui. Nada mais me dará medo na puta da vida. Vá, fiquem bem.

26 de fevereiro de 2022

Crónica de uma guerra anunciada.


   Nada me leva a favor dos EUA e do seu imperialismo sobre várias nações do planeta. Sabemos que ambos, quer os EUA quer a Rússia, se comportam da mesma forma de há várias décadas a esta parte. Movimentando-se na cena política internacional apoiando líderes simpáticos à sua causa ou ideologia e ditaduras conservadoras ou socialcomunistas, criando alianças militares, intimidando países terceiros. O fim da Guerra Fria trouxe um desanuviar de tensão entre as potências hegemónicas, porém, passámos de duas para uma, e os EUA puderam reafirmar a sua superioridade militar, económica, política, cultural. A Rússia passou a um papel secundário, ou menos ainda, com a ascensão da China. Nunca o encarou bem, e todas as tentativas americanas de estender a sua influência no leste europeu foram encaradas como uma ameaça pelos russos. Para os americanos, mais do que se defenderem da Rússia, procuram defender-se do Irão e da Coreia do Norte, criando escudos antimísseis nos países aliados da OTAN/NATO. Às portas da Rússia, portanto.

    Há um princípio basilar do direito internacional público que é o da soberania estatal. Afastando-nos dos propósitos e expectativas de americanos e russos, todos os países são, ou deveriam ser, livres para conformar o seu destino como queiram, firmando as alianças que queiram. Se ocorrem golpes de Estado, são questões internas de cada Estado soberano, e devem ser resolvidos pelo seu povo. Portugal teve um golpe de Estado em Abril de 1974, EUA e a Espanha franquista cogitaram invadir o país temendo que os marxistas tomassem o poder e creio que ninguém hoje apoiaria essa solução. É exactamente o que se passa no leste europeu: há, na Ucrânia, um governo desfavorável aos russos, há o problema da aproximação da Ucrânia ao ocidente, e a Rússia, numa intimidação absolutamente inaceitável, não o permite, ou seja, a soberania dos países do leste europeu é uma farsa. O ascendente da Rússia mantém-se e a política de intimidação não chega sequer a assumir um carácter moderado, dissimulado. Ontem mesmo a Rússia ameaçou contundentemente a Suécia e a Finlândia com consequências militares caso adiram à NATO. Já não falamos de ex-repúblicas soviéticas. Ainda que o fossem.

   Ideologias de lado, só há um caminho que me parece correcto, respeitador da soberania do povo ucraniano e do direito desse mesmo povo de viver em paz e de poder decidir sobre o seu futuro. É nisso que consiste a autodeterminação dos povos. Tudo o que se afaste um milímetro destes princípios não atende à vontade do povo ucraniano, justifica a guerra sem o aval das Nações Unidas (no fundo, apoiando agora o que anteriormente se criticou nos EUA) e abre o precedente de que qualquer Estado pode intimidar ou inclusivamente invadir outro se considerar que há razões que o justifiquem. É um atropelo ao direito internacional, é o caos nas relações entre os Estados.

24 de fevereiro de 2022

A guerra.


   Afinal, as fontes de informação que nos davam conta de um ataque iminente estavam certas. Putin invadiu realmente a Ucrânia, dando início a uma guerra desproporcional, injusta e ilegítima, que viola e integridade territorial e a soberania internacionalmente reconhecidas de um Estado soberano e compromissos que a Rússia firmou, como em 1994, em Budapeste, comprometendo-se a respeitar a soberania ucraniana em troca do envio para Moscovo do arsenal ucraniano herdado da União Soviética.

    O senhor Putin representa uma ameaça à paz na Europa e à humanidade, dado que não sabemos onde isto irá terminar e quais os seus diabólicos planos. Minorias étnicas e linguísticas russas há-as em vários países da região, inclusive nos países bálticos. Um deles activou mesmo um dos artigos da OTAN/NATO. Temos a guerra à porta das nossas fronteiras, tomando-as como as da UE, um espaço de livre deslocação de pessoas, e importa saber qual será a posição assumida pela União Europeia se o senhor Putin tiver outros objectivos para além do controlo político das regiões separatistas do leste ucraniano. Mas ainda considerando a própria Ucrânia, gostaria de saber se conseguiremos conviver com a fragmentação de um Estado soberano como os nossos -e aqui falo como europeu e cidadão da UE- que desde 2014 vê a Rússia a invadir o seu território, apossando-se dele (Crimeia) sem que nada fosse feito.

  Lamento profundamente que tenhamos chegado a este cenário de confronto directo em que inevitavelmente os que mais sofrem são os menos implicados em todas estas questões: a população civil e, dentro dela, as pessoas mais fragilizadas. É já há vítimas civis, ainda agora a guerra começou. Simultaneamente, repudio em absoluto o apoio manifestado por alguns grupos de cidadãos simpatizantes de Putin e/ou do seu estilo de governação, num insensível desprezo pelo sofrimento do povo ucraniano.

17 de fevereiro de 2022

Despertaram para um problema social e cultural.


   Eu tenho sido, nas minhas redes, das vozes mais activas das que conheço que se manifestam sobre o flagelo social e cultural que é a violência doméstica, machista e sexista. Em Espanha, inclusive, fazem uma distinção, que em Portugal não se faz, entre violência doméstica e de género, e posso-lhes dizer que a sociedade espanhola está bastante mais atenta às situações de violência infelizmente tão comuns em países do sul da Europa, católicos, que passaram por ditaduras conservadoras. Nesse sentido, quando vejo que há uma multidão que se insurge quando sabe de casos mediáticos, revolta-me. Durante uns dias, não se fala doutra coisa, até que sabemos de mais uma mulher agredida, abusada sexualmente, mutilada, assassinada, incrementando umas estatísticas vergonhosas com as quais, aparentemente, convivemos bem.

   O caso em concreto não me merece comentários. Não vejo trash tv, nem em Espanha, o que se dirá de Portugal. Recebo ecos do que se passa em Portugal uma vez que subscrevo jornais digitais portugueses. Continuo a ser português e a interessar-me pelo meu país. Não sei se agrediu, se não agrediu, vi umas imagens deploráveis, e o que me ocorre dizer é o seguinte: que se persigam, de uma vez por todas, os agressores, os que convivem bem com o machismo e a submissão da mulher ao homem; o sexismo encapotado que continua a julgar os comportamentos da mulher, o que faz, com quem vive, quantos parceiros tem, o que veste. É necessário corrigir condutas, todos os dias, educando, denunciando, abordando o fenómeno. Uma voz que se levanta de tempos a tempos é uma voz que compactua nos períodos de silêncio.