Há dois anos estava prestes a começar uma nova etapa. Se existia algum receio e se o coração batia aceleradamente de dia para dia, as expectativas não eram menores. Pelo contrário, adensavam-se à medida em que o dia se aproximava. Tudo era alvo da minha curiosidade: as praxes (fenómeno ao qual sempre me opus com convicção); a rotina académica; o odor dos verdadeiros manuais universitários, tão diferente do dos livros de Português, História, Psicologia, Geografia e demais do Secundário, e as novas amizades que inevitavelmente faria.
Encarei a nova vida com o optimismo típico de alguém que inicia algo.
A oposição às praxes, que relatei, na altura com uma indignação latente, é hoje uma memória que trago em mim com carinho. Os primeiros passos no amplo corredor, já enquanto aluno, sentindo a responsabilidade aumentar a cada degrau que subia, materializavam o objectivo que, afinal, é comum à grande maioria dos estudantes.
O acesso virtual ao horário e às turmas, aos programas de cada disciplina e respectivos manuais, foi algo com o qual me debati na intensa manhã do primeiro dia de aulas. O nervosismo tomava conta de todo o meu corpo. As pernas tremiam inexplicavelmente, o leite com cereais ganhava a consistência de um prato cheio de iguarias tradicionais que enfartam à segunda garfada.
A monotonia, mais tarde, acabou por derrotar a esperança e colocar-me no ridículo. Passei de nível de ensino, é certo, mas continuei no planeta Terra, no mesmo continente, país e cidade. Fora evitável criar tantas ilusões que jamais se concretizariam. Que mania eu tenho de sonhar!
O ano passado já reflectia os estragos provocados pela impiedosa realidade. Continuei a acreditar que o segundo ano poderia ser mais interessante, surgindo algo que se repercutisse na minha vida. Não cheguei, todavia, a entrar no balão mágico da fantasia. Vi-o ao longe, tentadoramente desafiando-me para alcançá-lo, mas soube manter a serenidade.
As aulas começam na penúltima segunda-feira deste mês. Em mim não mais moram desejos, excluindo o de continuar a trilhar o caminho que tenho seguido até então relativamente aos estudos. Já não corro atrás de qualquer resquício de esperança.
Aprendi a relativizar tudo: começarei, inevitavelmente sorridente, de estojo novo, arquivador e canetas, blocos de folhas e lapiseira, borracha e corrector.
Post-it, coloridos, preferencialmente.