Suponho que no ano passado terei escrito uma publicação semelhante, quiçá mais concisa. Agora que penso nisso, creio que publiquei uma única frase: “nunca o invejoso medrou nem quem ao pé dele morou”. Medrar, e em galego inclusive, significa crescer. Há pouco, a propósito do atavismo português, comentei que uma das causas que me parecem justificar o atraso estrutural de Portugal no contexto europeu é a cultural, de que pouco se fala, mas que explica muito. À inércia e ao comodismo, junta-se a inveja, um dos verdadeiros males que impedem que cada um faça por si deixando de olhar para os outros, para o seu êxito, ou ainda alimentando-se dos seus fracassos.
O traço da pessoa cronicamente invejosa é fácil de determinar. Regra geral, a pessoa invejosa é mal-sucedida. Os planos frustraram-se-lhe a determinado momento da vida, em razão do avançar da idade ou da incapacidade de melhorar, provocando-lhe uma amargura permanente que se reflecte, por exemplo, na maledicência. A pessoa invejosa diz mal de tudo e de todos, queixa-se permanentemente, procura bodes expiatórios para os seus problemas e os conjunturais, lança boatos, propaga mentiras.
A pessoa invejosa é, sobretudo, solitária, e a sua solidão advém-lhe da incapacidade de partilhar a alegria com os sucessos de outrem. Não significa isto que a pessoa invejosa não tenha a necessidade de manter relações com os demais, mas essas relações não perduram no tempo, são frágeis, instáveis, o que a leva constantemente a estabelecer outros vínculos, efémeros, pontuais.
Depois, a pessoa invejosa pode ou não ser cobarde. Geralmente, é-o. Faltam-lhe vários atributos para poder progredir, ou tão-somente para poder provocar um verdadeiro dano a alguém. Resigna-se na sua condição, e fermenta, ano após ano, ao estar fatalmente sozinha, todas as características más que reúne em si.
Não as devemos temer, nem dar-lhes importância excessiva. Devemos mantê-las à parte, cautelosamente afastadas, onde devem estar, e jamais deixarmo-nos influenciar pelo que dizem ou fazem. Ao invés, a compaixão, porque finalmente são pessoas que sofrem, ainda que o procurem dissimular, deve ser o sentimento presente quando a elas nos referimos ou quando com elas tratamos.