Dediquei um artigo, em Maio deste ano, ao sistema constitucional estadunidense, como prefiro denominar por uma questão de correcção histórica, linguística e geográfica, e à candidatura de Donald Trump, que poderão consultar
aqui. Supus que seria o primeiro de uma leva de publicações atinentes às eleições presidenciais dos EUA, que desde há muito extravasaram as fronteiras daquele país. Eleger o Chefe de Estado e de Governo da potência hegemónica significa designar um homem ou uma mulher que liderará, sem grandes obstáculos, os destinos do planeta. A ONU demitiu-se do seu papel a partir do momento em que se fez a guerra sem o seu aval.
Comparar Hillary a Trump será, reconheço, confrontar o programa e o ideário de uma mulher que, embora com todos os defeitos que lhe apontemos, possui a credibilidade necessária inerente às responsabilidades que pretende assumir com um homem surgido do mainstream, uma figura populista, demagoga, que, todavia, está muito bem posicionada para suceder a Obama. E é exactamente aqui que pretendo chegar. Trump é uma piada que, passo a passo, se afirmou, munindo-se da natural apetência dos EUA para comandar, dos discursos galvanizadores que encontraram acolhimento junto dos descontentes com a política do Partido Democrata desde que Obama, em 2008, chegou à Casa Branca. Não é leviano levar Trump a sério, temer as consequências que advirão da sua eleição. O candidato expôs os seus argumentos, alguns deles profundamente desadequados, que ferirão, certamente, a consciência do cidadão médio, em propostas que granjearam os estadunidenses, a ponto de as sondagens o apontarem como presumível futuro Presidente dos Estados Unidos da América. Tecnicamente, há um empate entre ambos. A candidatura de Trump, para os mais distraídos, não paira, qual substância etérea, sobre nós. É uma realidade, uma realidade que poderá materializar-se em votos, no dia do escrutínio popular, e numa vitória.
Temos dois candidatos e temos medidas que pretendem implementar. Partindo destas premissas, vejamos qual dos dois melhor serve os interesses da nação americana. Não me competirá a mim aferir da pertinência de se eleger um ou outro. Posso, entretanto, colocar-me no lugar de um cidadão americano, homem médio, que quererá a ventura do seu país e pouco intervencionismo externo. Os EUA têm, tendencialmente, um raio de acção no seu espaço geopolítico. Assim se explica a existência das alianças militares, como a OTAN, e do tradicional antagonismo com a Rússia. Independentemente do nome que resultar da eleição, desengane-se quem crê que o papel de ingerência que os EUA desempenham desde o final do século XIX, com o conflito com Espanha, e, mais ostensivamente, desde o final da I Guerra Mundial, conhecerá um refreamento com Trump. O candidato republicano já demonstrou não querer hostilizar a Rússia, sendo certo que os seus comentários agressivos à China não auguram nada de bom. E tenho para mim que, como bom republicano, na senda de Bush pai e filho, estimulará um conflito algures.
Desconstruir Trump é, aparentemente, simples. Defende o uso da tortura, é favorável à manutenção de Guatánamo, alega que construirá um muro a limitar o acesso dos mexicanos ao território estadunidense, desconsidera imigrantes, mulheres, doentes terminais. O seu discurso, entretanto, não se restringe às medidas mais caseiras, no sentido de incendiárias, e presumo que será aí, no que idealiza quanto à economia e à política de emprego, que seduzirá os seus compatriotas, ao querer taxar as maiores fortunas e ao prometer penalizar todas e quaisquer empresas que decidam abandonar o país. O proteccionismo e o nacionalismo, aliados, constituem o embrião do seu aparente sucesso.
Hillary, em contrapartida, será mais interventiva na política externa. Internamente, reafirma os direitos das mulheres, que protegerá; na saúde e na economia, apresenta propostas moderadas e realistas, despidas da paixão que Trump imprime a tudo quanto se refere.
Em suma, Mrs. Clinton é uma candidata razoável, que melhor saberá gerir o mandato. Imagino-a a servir os interesses da indústria de armamento do país, e acredito que Trump fosse mais peremptório na hora de tomar decisões adversas aos lobbies bélicos. O perigo de se eleger Trump reside na imprevisibilidade de alguém que, como referi em Maio, não revela sentido de Estado. A descredibilização do país nos palcos internacionais é, também ela, uma possibilidade com a qual os eleitores terão de contar. Os debates, pelo que pude assistir, não esclareceram os indecisos e nem convenceram os cépticos; perdemo-nos entre tantos ataques ao carisma e à honra, que pouco aproveitam à disputa séria, credível e intelectualmente honesta. Mas falamos de Trump, e com Trump interessa o momento, nem que tal tenha o preço alto de mil impropérios.