É raríssimo ver televisão. Já em criança, antes do boom da internet verificado no final dos anos 90 do ido século XX, não era comum ficar na sala de estar em frente ao aparelho que mudou o mundo. Preferia ficar a ver a mãe a tratar das suas papeladas, ou o pai. Em todo o caso, se me dessem um livro para as mãos tinham sossego garantido por horas, isto quando não estava entretido com as sociedades que criava com os meus bonecos. Posso garantir de que eram melhor organizadas do que as actuais.
Ontem, liguei a televisão do quarto. Oh, espanto e admiração! Não estivesse ainda a recuperar da entrega do trabalho e o aparelhito não conheceria qualquer interesse da minha parte. Mudo para o canal do Estado e acho piada àquele programa apresentado pelo humorista Luís Filipe Borges. Gosto de humor e gosto daquele que, sendo inteligente ou não, me faça rir. Essa é a premissa e rio da anedota mais patética quanto da história mais subtil. Gargalhar urge. O que não tolero é machismo e sexismo. Azar o meu, que no dia em que ligo a televisão após meses, dou com uma das situações que mais repugnância me causa. No início do dito talk-show, à entrada de uns senhores acompanhados dos respectivos filhos, o dito Boinas dá um beijinho às meninas; mas, quando confrontado com a presença de um rapaz, igualmente pequenito, que confundiu com um menina, diz a típica frase hedionda que me agonia:
«Ah, é um rapaz, então é um 'passou bem'!»
Eu sou do tempo, em pequenino, em que os amigos homens da mãe, tios, avôs e demais me davam um beijinho, independentemente de eu ser um menino.
Não beijam um rapaz porque é do sexo masculino, tratando-o como se estivessem perante um homem adulto. São estes preconceitos enraizados profundamente na sociedade que me arrepiam até ao último centímetro da minha pele. Céus, é uma criança pequena. Não foi a primeira vez que vi algo semelhante. Já vi, inclusivamente, ao vivo e a cores. Nestas atitudes é visível o preconceito, o machismo ridículo e o estímulo para que aquele menino reaja de igual forma quando chegar à maioridade. Também ele achará apenas aceitável a demonstração de afecto para com o sexo oposto. Já chegámos ao cúmulo de distinguir o género das crianças para efeitos de um mero cumprimento.
Chegará o dia em que um pai só dará um beijo às suas filhas, optando pelo aperto de mão aos filhos homens, não vão eles dar em amaricados. É melhor mesmo não ligar a televisão.