Viver ou não em Portugal nunca foi discutível. A hipótese de sair não pairava sobre os meus pensamentos, nem tanto por patriotismo ou comodismo, mas por jamais me ter ocorrido outra situação.
À medida em que fui crescendo - e sobretudo após entrar na faculdade - fui tendo a noção de que não existem grandes elos de ligação a este país. Portugal é um país homogéneo, de costumes, religião e língua iguais em todo o território, onde o povo em si é bastante semelhante também nas ambições, vontades e ensejos. Tenho a sensação de que se fala a uma só voz; o grito sai da garganta quando chega a hora de defender os interesses nacionais, o amor à Pátria está lá quando é chamado a intervir. O pretenso orgulho de se ser português. Comigo nunca foi assim.
Ultimamente, é-me constante a ideia de morar noutro país. O sentimento de pertença que abarca mais de dez milhões de habitantes não me cercou com os seus lânguidos braços. Pelo contrário, a génese do povo português afasta-me progressivamente, como a um forasteiro que percorre terras estrangeiras. Uma especificidade deve ser relatada: não é a situação económica do país que me amedronta, fazendo brotar um instinto de salvação. O que me move é o facto de sentir que, em grande medida, não sou deste lugar. Há um composto orgânico português impassível de ser negado. Há ascendência romana, celta, porventura árabe, em mim. Há tudo o que também se encontra em todos os lusitanos. Não há, todavia, o amor ao país. Há um olhar complacente perante a História, há um orgulho salutar na língua de Camões e Drummond de Andrade, Saramago e Bilac, Mia Couto e Agustina Bessa-Luís. É tudo.
Terei as emoções de um latino, embora me seduza o pragmatismo das terras anglo-saxónicas. Um amontoado gigante, como o Canadá ou a Austrália, reinos de Sua Majestade, prende-me o olhar quando folheio avidamente as páginas das enciclopédias geográficas do Círculo de Leitores, compradas pela mãe. Os meus dedos deslizam pelos contornos das fronteiras desses países, num desejo explícito pelo imensurável, pelos quilómetros que se poderão percorrer sem que o fim esteja à vista. Um trauma, quem sabe, de ir ao norte e voltar demorando poucas horas. Um horror ao provincianismo de países pequenos, à estrutura de Estados unitários, a fuga urgente ao espesso manto da velha Europa, continente perdido.
A epifania da felicidade estará por lá, ou algo que se lhe assemelhe. Não com bandeiras expostas em cafés e bares, concertos de música popular, visitas regulares «ao cantinho que viu nascer». Haverá dor, más memórias, rancor? Com certeza que sim. Nada o é por acaso.
A adopção plena é um vínculo perpétuo, quebrando todos os laços anteriores à sua concretização. Que encontre, também eu, uma terra à qual possa chamar de minha.