5 de setembro de 2010

Amar-te...



Os dias de Sol do início de Setembro revelam um Verão que começa a dar sinais do seu fim. As tardes ganham um ar dourado, mágico e calmo. O ambiente propício à nossa viagem pelo sul de Espanha. Recordo-me de percorrermos o Algarve até chegarmos à Andaluzia. Tenho saudades do azul de final de tarde, dos campos de mato pálido e do ar quente e abafado de um Setembro promissor. Foi tão difícil convencer a mãe a deixar-me ir contigo. Ainda sorrio quando me recordo da birra que fiz, temendo o pior. «São tão novinhos ainda! Há quanto tempo tirou a carta?» - dizia, desesperada. Tive de lhe contar que, apesar de tudo, tinhas dezanove anos e até eras responsável. Para além disso, conduzias bastante bem. Foi um passeio, um passeio longo, é certo, mas não mais do que isso. Foi o meu melhor Verão. O mais desejado, o mais recordado, o mais vivido. Vivi como uma pessoa comum. Apanhei frio, uma vez que as noites arrefeciam, apesar de me pedires que vestisse o casaco; comi mal, apesar de pararmos para jantar; respirei poeira da estrada, apesar de saber que não me faz nada bem. Não te aponto nada. Sempre te preocupaste comigo e revoltava-te saberes que poderia adoecer por uma eventual culpa tua. Porém, eu precisei de arriscar, de ultrapassar o meu limite. Se a mãe soubesse... Foi tão bom viver sem regras, sem horas, sem etiquetas do que é bom ou mau, certo ou errado.
No fundo, amei-te. E...
Amar-te é desejar estar perto de ti.
É olhar para as tuas fotografias e sentir um arrepio por toda a pele.
É querer beijar-te até se esgotar o ar que respiramos.
É querer abraçar-te por tempo indeterminado.
É não ter medo da morte...
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...se com a sua vinda ficasse eternamente perto de ti.

4 de setembro de 2010

Caixa de Música



Ainda me recordo daquela caixa de música. Uma caixa pequena mas elaborada, simples e com adornos feitos em tinta vermelha. Nela, cuja bailarina dançava ao som dos meus pensamentos, nascia uma música suave, melodias de outros tempos, actuais como nunca. Um som baixo, embora audível. Os pensamentos dançavam no compasso de cada nota. A sensação que me toma é a de que cada música vinda destas caixas mágicas é triste, nostálgica, despertando memórias adormecidas com o tempo. O passado retorna e condiciona o presente.
Guardo a caixa de música, oferecida em pequeno, num lugar especial. E, às vezes, abro-a e rodo a sua corda. A bailarina começa a dançar. O vestido que traz parece que ganha vida e cor, iluminada pela luz do meu abajur. O pequeno espelho que reveste o interior da caixa realça o sentimento misto de passado e presente. A música traz-nos o passado; o espelho, esse, surge destinado a fazer-nos ver o presente. Talvez tenha sido esse o propósito. O sentimento de alienação ganha um outro sentido. Os pés continuam na terra, mas os sonhos voam à velocidade da luz. Da nossa luz, daquilo que a música nos faz despertar.
Quando, por fim, a música acaba e a caixa se fecha, a vida toma o seu sentido original.
E nós tomamos o sentido que a vida nos imprime. Para sempre.

3 de setembro de 2010

Um Jantar Diferente



Ontem de tarde, eu, a mãe e a amiga da mãe (ai, amiga da mãe já começa a chatear. A P.) decidimos organizar um jantar em casa. Desde que estamos de férias jantamos sempre em restaurantes, o que se torna cansativo, para além da necessidade que todos temos de comer alimentos confeccionados de outra forma, digamos, mais caseiros. A mãe não sabe cozinhar; a P. diz que quando era solteira quem cozinhava era a mãe, depois de casada tem empregada; e eu não entendo nada de cozinha. Chegámos à conclusão que até seria divertido. Claro que tínhamos pequenas ideias de como se confecciona um prato.
Depois da praia, fomos ao supermercado comprar tudo o que fazia falta para o nosso jantar. Comprámos macarrão, tomate em calda, vinho para temperar, noz moscada, etc, etc, etc. De seguida, fomos ao talho. Gostei tanto. Nunca tinha entrado num. A coisa mais parecida que tinha visto foi o talho do El Corte Inglés, mas este era um pouco diferente. Um dos homens estava a cortar qualquer coisa e fazia imenso barulho. É incrível como ele consegue cortar a carne de forma tão rápida sem machucar os dedos. Comprámos frango do campo.
Já em casa, começámos a preparar aquele que viria a ser o nosso jantar. Lavámos a carne bem lavada e fomos colocando os ingredientes, um por um. A parte mais caricata surgiu na hora de ligar o "fogão". A mãe e a P. estavam na sala a beber Martini e eu fiquei de ligar aquilo. Ora, eu não me recordo de ver um "fogão". Em casa, desde que me lembro, sempre tivemos placa eléctrica. Aquilo tem botões e bicos e sei lá o quê! Virei o botão e fui até à sala ao encontro delas. Passado um pouco, cheirava imenso a gás. Sou tão estúpido. Não deduzi que o gás estava a sair. Mas eu não sei! Não tenho experiência disso. Rimos tanto. Abrimos a janela para arejar a cozinha. Já com a ajuda da P., colocámos a comida "ao lume". De salientar que risquei quatro fósforos e só ao quarto consegui.
Bom, o jantar estava óptimo! Nunca pensei que conseguíssemos. Eu não como carnes vermelhas há uns anos. A minha alimentação é baseada em peixe e leguminosas, essencialmente. Às vezes, como carnes brancas, mas raramente. Tudo seguido de perto pelo nutricionista da mãe. Aliás, eu não aconselho ninguém a fazer restrições alimentares sem consultar um médico.
Foi um jantar diferente. Uma experiência nova. Confesso que não fiquei muito inclinado a repetir. :)

1 de setembro de 2010

O Sonho de Um Novo Império



O Império Romano há muito que preenche o imaginário dos europeus. A sua imponência e o seu poder fascinaram de tal forma a Europa, que o seu desejo foi o de alcançar tamanha glória e brilho. Ao longo do tempo, a vontade de tornar a Europa de novo o centro do mundo, de forma a espalhar a sua hegemonia aos outros povos, tem sido o objectivo de várias individualidades. E até o era mesmo quando a Velha Europa mostrava as suas cartas a todos os povos do planeta.
Comecemos com Carlos Magno, fundador daquele que se considerava o herdeiro do extinto Império Romano do Ocidente. Carlos Magno viveu nos séculos VIII e IX e tinha como grande desejo a conquista da Península Ibérica aos povos muçulmanos, desejo que nunca conseguiu concretizar. Quem sabe onde a sua ambição o levaria? De qualquer forma, o Sacro Império Romano-Germânico foi uma potência europeia até ao século XIX, embora nunca tivesse alcançado a majestosa Roma Antiga em termos de prestígio e poder.
Outro bom exemplo da vontade de recriar de novo um Império inspirado no Império Romano é-nos dado por Napoleão Bonaparte. Napoleão, depois de se autoproclamar Imperador da França, pretendeu unificar a Europa (e o mundo) sob a sua égide. Tal como Carlos Magno, vivia obcecado, desta leva com a conquista da Inglaterra. Por ela decretou o Bloqueio Continental e invadiu Portugal (pensando dividi-lo, como foi acordado no Tratado de Fontainebleau). Também colocou o seu irmão no trono de Espanha, José Bonaparte, para além de uma campanha contra a velha aliada, a Rússia. Tal como o seu antecessor, fracassou no seu intento.
Já no século XX, o melhor (pior...) exemplo vem directamente da Alemanha, com Adolf Hitler. Hitler, com o seu sonho imperialista, cometeu algumas das maiores atrocidades da História, ficando conhecido como o obreiro do Holocausto. Justificou na sua GrossDeutschland, a necessidade de exterminar milhões de seres humanos. Tal como Carlos Magno e Napoleão Bonaparte, perdeu o seu jogo (para o bem da Humanidade).
Mais recentemente, a União Europeia é um sonho, mais moderado, de trazer de novo a supremacia europeia. O sonho de uma Europa Federal paira sobre os governantes europeus. Entre uns E.U.A poderosos e (ainda) a primeira potência mundial; uma Rússia que desde a queda da União Soviética perdeu o fôlego, mas continua a fazer valer a sua voz e uma China que cresce exponencialmente a cada dia, a União Europeia surge desta vontade de dar à Europa a voz perdida algures no fim da I Guerra Mundial. A prova disso foi o Tratado de Maastricht, que imprimiu um cunho político à construção europeia. O revés da Constituição Europeia, disfarçado e aparentemente ultrapassado com o Tratado de Lisboa, demonstra a fragilidade da Europa política.
A História tem provado que a Europa é um mosaico de vários povos, culturas e tradições. A sua união política é meramente utópica. É impossível unificar o que é diferente. Claro que existe a necessidade de se aprofundarem os laços comerciais e económicos entre os países europeus, todavia, tudo o resto é um insignificante sonho imperialista.