16 de maio de 2026

Vizinhos...

 

   Ter vizinhos é uma chatice. Que o diga eu. Tenho tido problemas com praticamente todos os vizinhos em praticamente todos os lugares onde vivi. A situação é pior nos prédios, porque estamos sujeitos a uma relação de maior proximidade, o que se verifica em ruídos, infiltrações, etc, etc. Mesmo vivendo numa casa, há problemas. As propriedades limitam entre si. No ano passado, quis fazer uma rampa de acesso à minha casa. O vizinho da frente implicou, denunciou-nos ao alcalde (o presidente da câmara), que nos embargou a obra. Ficou tudo assim, em águas de bacalhau, como se costuma dizer. Fê-lo por pura maldade, uma vez que a rampa em nada o prejudicaria. Alegou que não íamos colocar um cano de escoar as águas no cimento, pelo que se juntariam e poderiam afectar a sua propriedade... Tretas! Ele vive em frente. Há uma estrada enorme, por onde passam carros, para cima e para baixo, e além disso não há nenhum ajuntamento de águas ali. Este ano, é com o vizinho do lado, que ainda antes de termos comprado a casa, decidiu escavar toda a terra do seu terreno para aplaná-lo. Naturalmente, di-lo a normativa vigente e o bom senso também, como se precisasse, que quando é assim há que erguer um muro de contenção para não comprometer o muro do vizinho. E ele fê-lo? Claro que não. Agora mesmo andamos a tentar insistir com ele nesse sentido. Sabe dizer-nos que temos de podar as nossas árvores, sabe meter-se nos nossos assuntos, mas parece que se "esquece" daquilo que lhe compete. Enfim.

   O melhor, o melhor é comprar um terreno de vários hectares e construir uma casa bem no meio, e mesmo assim...


14 de maio de 2026

Toma lá, dá cá.


   Eu já estou velhote na blogosfera. Bom, e vou ficando também na vida real, agora que entrei nos 40. Isso agora não interessa nada. Eu sou do tempo em que se visitava um blogue à espera de se receber um comentário e seguidores; do tempo em que nem se liam os posts. Queríamos comentar porque queríamos receber comentários, ou vice-versa; comentávamos porque nos tinham comentado. Não vale a pena negar. Todos que tivemos blogues fizemos isso, e alguns ainda fazem. Eu deixei-me desses fretes há muito. Só comento o que quero; estou-me cagando se me comentam ou não. Isto porque recentemente comentei um blogue novo (novo para mim, que não o conhecia), e comecei a receber comentários vindos do Brasil, de pessoas que claramente só estão à espera que eu lhes deixe comentários. Se vêm por isso, perdem a viagem. Já foi chão que deu uvas. Já dei para esse peditório. 

9 de maio de 2026

O Diabo Veste Prada, 1 e 2.


   Nunca antes escrevera sobre O Diabo Veste Prada. Eu gostei muito do primeiro filme, que vi anos depois de ter estreado. Achei-o divertido, agitado, fresco, com interpretações fantásticas, principalmente da inenarrável Meryl Streep, a minha actriz favorita. Ela encarnou uma Miranda Priestly na perfeição. Autoritária, arrogante, exigente, ácida, mas também capaz de reconhecer o mérito individual. Hoje fui ao cinema ver a sequela, e devo dizer que me desapontou. Pareceu-me que o realizador, ou a realizadora, não faço ideia, procurou desesperadamente dar um sentido à estória. 




    Perdeu-se a acidez mordaz e provocadora de Miranda. Meryl Streep quase cedeu o protagonismo a Emily Blunt. A tentativa de encaixar o papel de Anne Hathaway na prestigiada (mas decadente) revista Runway não foi conseguido, na minha perspectiva. Foi forçado e até, diria mesmo, trivial. Contudo, o que desaponta mesmo é Miranda Priestly, que ficou apagada durante toda a sequência. Este segundo take é mais glamoroso do que o primeiro. Há uma aposta forte nos figurinos, e uma mensagem de inclusão, onde corpos que aparentemente não encaixam e defeitos físicos têm lugar. Contudo, o roteiro é menos forte e demasiado polido, contrastando com o carácter incisivo do primeiro. É um caso claríssimo de um filme que deveria ter ficado arrumado com a longa de 2006. Acontece muito. Não será o último.

7 de maio de 2026

Ter um gato, neste caso, uma gata.


    Em 2022, o meu marido trouxe-nos uma gatinha para casa. Andava perdida por um dos centros de saúde onde ele vai de vez em quando passar a consulta. Uma gatinha já adulta, talvez com um ou dois anos. É a minha Mia - a minha gata. A minha gata é a melhor gata do mundo. 

     A Mia é um anjo, e foi uma bênção na minha vida. Não pula para cima de nada, nunca me estragou nada, e temos aquela ideia dos gatos que destroem tudo numa casa. Nem às plantas se chega. Ela não sai. Está sempre dentro de casa. Jamais me arranhou, ou mordeu. Nem quando lhe dou banho, esporadicamente, porque os gatos não precisam tomar banho com frequência. 




     Ter um gato é muito mais do que lhe dar de comida e água - e a Mia tem o seu bebedouro eléctrico, uma fonte. É dar-lhe amor continuamente - e ela não me deixa um minuto; sempre está comigo. É escovar-lhe o pêlo todos os dias - e por isso há donos de felinos que se queixam da muda do pêlo, porque não sabem cuidar do pêlo dos seus animais. A Mia é uma gata que tem mais do que muita gente. É tratada como uma princesa, porque ela é uma princesa. Tem o melhor que lhe posso dar. E tem uma parte do meu coração, incondicionalmente dela.

6 de maio de 2026

A nova lei da nacionalidade.


  Ao que tudo indica, o Presidente da República promulgou o diploma da nova lei da nacionalidade. Eu não conheço o conteúdo exacto da lei, não saberei muito mais que vocês - estava informado quando cursava Direito. Pelo que li, as regras para a aquisição da nacionalidade portuguesa ficam mais restritas, o que me parece muitíssimo bem. A nacionalidade portuguesa era praticamente vendida. Ainda me lembro de uma imagem na Índia onde se dizia algo como “vende-se nacionalidade portuguesa”. Qualquer um, em menos de nada, tinha o passaporte português, que estava ao desbarato. Segundo sei, o prazo para a naturalização aumenta, bem assim como se exigirá um exame de conhecimentos da realidade social e política portuguesa. Aqui em Espanha é assim. Eu, para ser espanhol, tive de fazer um exame de língua castelhana e outro de conhecimentos socioculturais de Espanha. Beneficiei de um prazo reduzido, é certo, sendo que o meu caso não tem nada que ver com o dessa gentalha que vem do Brasil, de África e sabe-se lá de onde com o único intuito de ter um passaporte português, e por conseguinte comunitário: em primeiro lugar, já era cidadão da UE, por ser português, ou seja, a cidadania espanhola não me veio trazer nenhum benefício do ponto de vista da mobilidade europeia; em segundo lugar, um português é ibérico, peninsular. A integração em Espanha é bem vista pelo Estado espanhol, é fácil, sem obstáculos linguísticos ou culturais de relevo. Espanha e Portugal são muitíssimo semelhantes, e as autoridades espanholas sabem-no perfeitamente. Menos mal que este governo -refiro-me ao português- parece disposto a pôr termo à bandalheira dos governos socialistas, sobretudo o de Costa, que escancarou Portugal à invasão imigrante.

4 de maio de 2026

XVIII Aniversário.


   O aniversário foi ontem, contudo, como decidi publicar a minha apreciação sobre o filme de Michael Jackson (tinha acabado de sair da sala de cinema, e gosto de escrever sobre os filmes e os livros que leio a quente), decidi adiar para hoje a publicação sobre o aniversário do blogue. Dezoito anos. Um miúdo que tenha nascido no dia em que criei este espaço entra hoje na maioridade legal. É extraordinário. Bom, se eu pensar bem, tratando-se de mim, não é algo tão incomum: eu sou de preservar o que tenho, e isso é extensível ao mundo virtual. Há quem crie mil contas em poucos anos. Eu mantenho as mesmas. O meu X, antigo Twitter, começa, também ele, a ficar vetusto.

    Não tenho muito mais a acrescentar nesta efeméride do blogue que ainda não tenha sido dito nos dezassete posts de aniversário dos anos anteriores. É muito tempo, e para um espaço virtual é quase uma vida. São quase dois mil posts, a esmagadora maioria deles -e aqui sinto de facto orgulho- com bastante qualidade, bem redigidos, bem pontuados; milhares e milhares de palavras, ideias, comentários e respostas; bloggers conhecidos, e outros que nunca conhecerei - porque já não vivo em Portugal, mas, sobretudo, porque fechei a porta a isso. Aliás, nem deveria ter conhecido ninguém. Queria deixar uma palavra também para as dezenas de pessoas que, ao longo destes dezoito anos, passaram por aqui para deixar um bocadinho de si: com algumas ainda mantenho contacto, outras perdi-as de vista, muitas preferiria que nunca tivessem passado por aqui e, outras, e com pena o digo, já nem estão entre nós.

     Este blogue venceu o tempo -o principal desafio-, as crises de falta de inspiração, mudanças de casa e de vida, de país, mortes de familiares directos, uma pandemia… é bastante provável que siga comigo uns anos mais, sempre até que me faça sentido. Por último, obrigado aos que ainda estão desse lado e que também fazem com que isto tenha sentido.

Mark

3 de maio de 2026

Michael.


  O filme de Michael Jackson não foi escrito inocentemente. Michael é retratado de forma quase pueril, superficial. O script não é inovador, no sentido em que a fórmula é previsível: um menino pobre, que cresce num entorno difícil, com um pai abusador, que é descoberto por uma caça-talentos e fica famoso. Seguramente que a vida de Michael Jackson daria para muito mais. Sem omitir o que realmente aconteceu, a abordagem poderia ter sido outra.

    Em todo o caso, o mais notório é que o percurso de Michael parou em 1988, com o álbum Bad. Deliberadamente omitiram os anos 90 e os escândalos de pedofilia que atingiram o artista. Não foi ao acaso. Quando descobrimos que o actor que faz de Michael é o sobrinho dele, Jaafar Jackson, desde logo intuímos que a família Jackson está por detrás da estória, controlando-a ao pormenor. O filho mais velho de Jackson foi produtor executivo da larga metragem.





     Tudo foi polémico na vida pública de Michael. O filme não seria excepção. Tornou-se um dos mais vistos de 2026 e já superou em muito os gastos de produção. Eu, embora tenha gostado, considero-o pouco ambicioso, demasiado focado nos anos áureos de Michael e explorando pouco o seu lado mais introspectivo. O personagem como que flutua num limbo de superficialidade, faltando-lhe algo que lhe dê corpo, emoções, veracidade. Supera-se, isso sim, na caracterização, nos figurinos, efeitos, e música, claro está.

29 de abril de 2026

40.


    Quando penso que hoje cumpro 40 anos, sinto um misto de sentimentos. Por um lado, certo orgulho. Não é uma idade longeva, não, e menos ainda no século XXI, mas para uma pessoa que sempre foi enfermiça, desde criança, é um logro. Por outro lado, penso nas pessoas que já não estão, e que nesta data me davam sempre os parabéns: a mãe, o pai, a avó paterna. Cheguei aqui também devido aos cuidados deles, e da minha bisavó Palmira, que perdi mais atrás. Sinto ainda uma responsabilidade qualquer que não sei definir muito bem o que é: ter quarenta anos implica determinado comportamento que não sei se estou preparado para dar. Começo a ser um senhor. Não um senhor de idade. Isso será mais à frente, se lá chegar. Apenas um senhor. Para quem foi toda a vida um miúdo, um rapaz, um jovem, é uma nova fase, uma nova forma de olhar para mim, para quem sou.

  Não sei o que me espera nesta década. Irei tentar vivê-la da melhor forma, com a família que tenho, que se resume ao meu marido. A minha vida tem sido assim, e creio que já o disse: um período de estagnação, um terramoto, seguido de outro período de estagnação e de outro terramoto. Com extinções em massa. A última levou toda a família que conheci durante a minha existência. Há dez anos, eu era uma pessoa, uma pessoa que não existe mais. Nada resta daquele (ainda) rapaz de trinta anos: nem o entorno, nem a casa, nem as dinâmicas. Nada. Essa dúvida sobre o que virá existe sempre, porque a maior parte das pessoas tem uma linha de continuidade nas suas vidas. Eu não. 

  Não adianta antecipar o que desconheço. E entro assim, na ternura dos quarenta, que espero realmente que seja terna e calma. Necessito.

28 de abril de 2026

À consideração.


   E para a próxima vez, se voltar a ser acusado seja do que for, vai sem rascunhos a vermelho por cima, e falo muito a sério. Pouco me importa a protecção de dados e o raio que o valha.




24 de abril de 2026

Mudança de hábitos.


   O meu médico de família (que também é o meu marido) pediu-me uma ecografia abdominal, isto porque tenho esteatose hepática (fígado gordo). Eu já sabia disso, tenho alguns valores hepáticos alterados nas análises sanguíneas. Foi para controlo. Embora tenha mudado alguns hábitos menos bons, como a alimentação, em parte, continuo com o fígado dito “gordo”, então agora a mudança é radical. Eu sou muito sedentário, não ando (desde que conduzo é que não ando mesmo), não me controlo a comer, não faço exercício. Tudo mau, portanto, mas hoje decidi que as coisas vão mudar, e vão mesmo: todos os dias, de manhã, vou fazer uma caminhada de 40 minutos (já comecei hoje); ontem, agarrei em dois sacos do lixo e deitei chocolates, chouriços e bombons, tudo fora; comecei a beber dois litros de água por dia -odeio beber água-, porque a ecografia também detectou micro calcificações nos rins, e tudo o que é arroz, massas e batatas vai ser substituído por saladas e verduras. E isto é MESMO para cumprir. Isso já o interiorizei. Estou bastante determinado em melhorar o meu estado geral de saúde, e até é um bom mote para os 40 anos, que cumpro, se Deus quiser, em menos de uma semana.

22 de abril de 2026

Cristina Ferreira.


  Eu não vejo televisão portuguesa. Não tenho. Em casa tenho Vodafone, e não oferece a RTP internacional. Posso ver televisão portuguesa com apps da RTP, SIC e TVI. Não me compensa. Tenho a primeira, gratuita, e tive as outras uns tempos. São caríssimas e realmente não se justifica. Os ecos do que se passa em Portugal chegam-me pelos jornais online e as redes sociais, que hoje em dia conseguem cobrir bastante bem essa função informativa.

   Ouvi as declarações da Cristina Ferreira no seu programa matinal, sobre um caso de violação, e também não gostei. Não, não gostei, Cristina. Ela não vai ler, bem sei. Porque não é a primeira vez, nem a segunda, e dificilmente será a última, que esta apresentadora faz comentários misóginos ou pouco dignificantes. Não é não, Cristina. É mesmo. Sejam dois, três, quatro ou cinco, ou mais, num acto sexual. Ninguém se põe a jeito. Enganas-te outra vez. As pessoas são livres de ir onde querem e como querem. Ninguém tem o direito de assediar sexualmente, e por maioria de razão de cometer crimes mais graves. É lamentável que uma pessoa com poder -porque aparecer na televisão e comunicar para todo um público é ter poder- tenha tão pouco tino, juízo; que, em temas sensíveis, fale como se estivesse em casa ou numa mesa de café. E, por favor, não mexas mais na porcaria. É só pior.

21 de abril de 2026

Acusações.


   Fui alertado por um anónimo que uma certa macaca andou a caluniar-me e a injuriar-me -sem nunca referir o meu nome-. Eu desconfiei de quem fosse, porque é pessoa de quem não gosto, embora não lhe dê atenção. E li aquilo. E identifiquei-me. Reservo-me o direito de resposta.

     Primeiro, eu seguia o espaço da supracitada pessoa até 2021. Como em todos os blogues que sigo, comentava os seus posts. A partir de determinado momento, comecei a ser censurado. Eu sou uma pessoa sincera e frontal. Também nos espaços blogosféricos que sobram, os do Francisco e do Namorado, eu comento-os, e digo o que tenho a dizer, uma vez que, para mim, a amizade não é dar pancadinhas nas costas e dizer amém a tudo para encher as caixas de comentários. Essa pessoa, porque tem um ego enorme e gosta que lho cocem, deixou de publicar os meus comentários, e depois, de forma até de muito mau gosto, referiu-me explicitamente num post para humilhar-me publicamente. É para o lado que durmo melhor. Jamais utilizei nenhuma linguagem ofensiva ou deselegante no seu espaço, e creio ter anos suficientes na blogosfera que o atestam. Aliás, eu nem costumo usar palavrões no meu vocabulário. 

   Segundo, eu estive num jantar com essa pessoa. Nunca antes a tinha visto. Desde logo não gostei do que vi. Vi uma pessoa fútil, de ego gigantesco, como referi acima, pretensiosa, que queria ser o centro das atenções. Fazia-se acompanhar de um rapaz que, devo dizer, me deu certa pena. Estava calado, no seu canto, para deixar a beesha brilhar. Tudo foi alvo de comentários entre os presentes no dia seguinte. É tudo quanto sei dessa pessoa, mais um boato que me comentaram sobre um comportamento impróprio que teve com outro blogger, e que circulou por toda a blogosfera. 

   Terceiro, desde o momento em que essa pessoa me censurou e procurou humilhar-me, deixei de comentar no seu espaço, de a acompanhar, e é pessoa que -porque não deixo nada por dizer- assumidamente não gosto, mas tão-pouco incomodo. Ela está na sua vida e eu na minha. Refuto, por tanto, as acusações que me faz. Que tenha inimigos que a perturbam, é problema dela. Acho de muito mau tom que me acuse de algo sem ter nenhuma prova. E digo-o com a mais transparente das certezas: nada lhe fiz. É pessoa que não me interessa. Nunca me interessou. Nem quando me tentava seduzir por e-mail. E isto não é uma acusação, porque tenho provas disso.

     Quarto, e para rematar, o ego gigantesco vê-se quando confunde a minha antipatia com qualquer atracção minha por si (o tal crush), que, por favor, não tenho nem nunca tive, e porque não quis. Estou casado, estou feliz, e respeito muitíssimo a pessoa que está ao meu lado, na vida que construímos a dois há quase dez anos. Que apareça a primeira pessoa da blogosfera -com provas- que diga que a tentei engatar.

   Haja algo de bom no meio disto tudo: a blogosfera continua viva, no meio de tanta sujeira.

20 de abril de 2026

Não temos vida fora do virtual.


   Na sexta-feira passada fui fazer o meu DNI (Documento Nacional de Identidad). O equivalente ao Cartão do Cidadão espanhol. Aqui, o DNI faz-se nas esquadras da polícia, chamadas comisarías. Estava eu já há um bom tempo à espera, porque tenho aquele hábito de chegar sempre aos lugares com vários quartos de hora de antecedência, e reparo que sou o único que não está a mexer no telemóvel. Ao meu lado esquerdo, uma família: pai, mãe e dois filhos - todos com os respectivos smartphones; ao meu lado direito, uma senhora de meia idade, de telemóvel na mão. Ao lado dela, uma mãe com dois filhos. O mesmo. 

   Não, não venho aqui armar-me em defensor da velha guarda dos que levam livros para todo o lado, porque não o faço. Eu simplesmente, muitas vezes, deixo o telemóvel no carro porque preciso daquele espaço de tempo, nem que seja uma simples hora, sem estar conectado; sem ouvir as notificações do WhatsApp, do X, do Instagram. E digo-vos que não me causa nenhuma ansiedade. É algo que até me dá prazer, que me desanuvia. Infelizmente, não posso permitir-me (ninguém pode) a ficar assim horas e horas a fio, porque fico com a dúvida de que o meu marido possa precisar de mim, ou que algo se possa passar. Mas é bom. Experimentem. 

   Creio que já não conseguimos ter uma vida fora do virtual. Quando penso nisso, fico desanimado e com pouca esperança, porque estes espaços (não me refiro aos blogues, na actualidade) podem consumir-nos muito tempo e energia, energia que poderíamos utilizar noutras actividades mais proveitosas, além da toxicidade que há.

16 de abril de 2026

Trezentos euros mais “leve”.


   Quem é que ontem gastou 300 euros -ou melhor, mais exactamente 292,46€- na mudança do óleo, da água do limpa pára-brisas e filtros do carro? Fui eu, mas não digam a ninguém. Os carros começaram por ser um luxo. Passaram a ser indispensáveis, e hoje em dia são de novo um luxo, pela manutenção e pela subida do preço dos combustíveis. Eles andam no Irão às turras e nós é que pagamos as favas.

14 de abril de 2026

De macho a macaca.


   Não sei se já repararam que as beeshas estão todas a sair do armário. Eu já sabia disso, mas tenho-me dado conta especialmente com os actores brasileiros: o Reynaldo Gianecchini, o Miguel Falabella, entre muitos outros. São tantas a sair que nem me lembro do nome de todas. Destes dois, por acaso, nunca desconfiei. Andavam bem metidos no fundo do guarda-roupa. E há tantos, mas tantos, num processo idêntico. Passam de machos a autênticas mariconas. Transformam-se verdadeiramente. Não é apenas o “sou homossexual”, ponto final (que nem isso ninguém é obrigado a dizer). Começam a usar trejeitos, a vestir cores garridas, a comportar-se de uma forma estranhíssima, e eu só consigo pensar “coitada desta gente, o que deveriam sofrer”. Viver-se como não se quer deve ser horrível, como também é horrível não conseguirmos esconder o que somos -o meu caso-, o que sempre me acarretou um preço demasiado alto, que paguei, com juros e correcção monetária. Se eu tivesse conseguido disfarçar, teria sofrido muito menos. E isto leva-me a outra conclusão: temos de agradecer aos inúmeros gays que deram a cara e o corpo às balas, durante décadas, para que agora as macacas comecem a sair todas como cogumelos. O Carlos Castro, por exemplo, que foi ridicularizado durante décadas.

12 de abril de 2026

Os ficheiros do caso Carlos Castro.


    Aquando da morte do Carlos Castro, eu deixei a minha primeira reacção no dia seguinte, aqui. Foi algo simples, mas muito sentido. No fundo, foi o que me ocorreu naquele momento. Os anos passaram, e já se passaram quinze anos (parece que foi ontem), e o caso ficou arrumado. É daquelas situações horrorosas que nunca esquecemos completamente. Há dias, o jornal Observador decidiu fazer um podcast sobre o assassinato do cronista, revelando dados inéditos. Eu tive tanta curiosidade em ouvir os seis episódios que os devorei de uma assentada. Recuperei a assinatura digital do jornal só para ter acesso ao conteúdo.

   Agora, como há quinze anos, a minha opinião é a mesma, quer dizer. Nada justifica aquela barbaridade. Estou convencido de que o tipo não era gay, o Renato, e de que se aproximou do Carlos para conseguir algo no mundo da moda, uma vez que ia a castings atrás de castings e não conseguia nada. O Carlos apaixonou-se, obviamente. Um miúdo de 21 anos, atlético. Pensou que seria bom enquanto durasse: ver-se na companhia daquele miúdo aqui e ali fazia-o sentir-se bem. No entanto, naquela tarde fatídica, alguma coisa aconteceu, que nunca foi esclarecida. Dos implicados, um morreu e o outro não quer falar. Na minha opinião, que vale o que vale, houve uma mistura de frustração, com nojo e com algum desequilíbrio mental associado. O pior de tudo é ver que há quem esteja do lado daquele assassino. É o que vou lendo pelas redes: que, “coitadinho”, foi enganado pelo velho; chegam a dizer que nem deveria estar preso. As pessoas perderam realmente a noção do que dizem. Nada justifica um homicídio, e menos ainda naquelas circunstâncias e com aqueles requintes de perversidade. Está preso e bem preso, e que fique assim por muitos anos mais.

9 de abril de 2026

Problemas.


   A minha vida mudou substancialmente com a vinda para Espanha. Foi como se tivessem agitado a garrafa. Deu um giro de 180°. Entretanto perdi a família toda. Isso também não é novidade. Há dez anos tinha uns problemas, e agora tenho outros. Um exemplo: o carro. Há dez anos não conduzia, embora tivesse carta; agora conduzo e tenho carro: despesas, revisões, seguros. Há dez anos não andava cheio de trâmites administrativos e processos judiciais. A minha avó era viva. Não havia partilhas. Agora há. Também é certo que alguns desses processos procurei-os eu, isto é, fui ao encontro dessas chatices por obstinação. 

   Não me queixo. Longe disso. Estou imensamente melhor do que há dez anos, em todos os aspectos (ou quase todos), mas a vida nunca nos dá sossego. Há sempre alguma coisinha a atormentar-nos, a tirar-nos a tranquilidade. E eu nunca estive tranquilo. Creio que não sei o que é isso há décadas. Talvez seja coisa minha. Talvez a maioria das pessoas consiga encontrar algo de paz no meio do caos. Eu não.

8 de abril de 2026

As procissões.


   Ter conhecido Salamanca na Semana Santa permitiu-me ainda assistir a várias das inúmeras procissões que percorreram a cidade. Foram realmente muitas. Eu assisti a três ou quatro. Milhares de pessoas amontoavam-se nas ruas e praças para deixar as procissões passar. E estas -embora, segundo dizem, não tenham a opulência das andaluzas- são bonitas e ornamentadas. É um espectáculo de fé, que atrai pessoas de todo o mundo, sendo um evento de interesse internacional, e o centro histórico de Salamanca é Património da Humanidade pela UNESCO.





6 de abril de 2026

Os cinquenta anos da Constituição de 1976.


  No passado dia 2 de Abril, comemorou-se o quinquagésimo aniversário da aprovação da actual Constituição de 1976. De lá para cá, passou por sete revisões, ou reformas, e embora mantenha o espírito inicial que presidiu à sua feitura, no que respeita aos princípios democrático, de respeito pela pessoa humana, pouco ou nada resta da Constituição económica, por exemplo. Na sua versão original, era uma Constituição quase comunista, inspirada no extremismo de esquerda que se seguiu à Revolução. Quis o bom senso que fosse sendo aperfeiçoada, e a prova provada de que uma Constituição deve ser breve e sucinta, e por isso atemporal, é a nossa: prolixa, demasiado extensa, que obriga o Estado a tudo e mais alguma coisa, e que por isso mesmo, em grande parte dos casos, como nos direitos sociais, é letra morta.

     Sinceramente, não sei se a Constituição precisa de uma oitava revisão. A questão não reside tanto em dotar a Constituição de mais mecanismos e imposições para o Estado e os cidadãos, mas sim de cumpri-la, e em tempo razoável.


5 de abril de 2026

Salamanca.


   Como vos disse na publicação anterior, eu estive em Salamanca em 2005. Foi como se não tivesse estado. Além de estar muito doente naqueles anos (de uma doença que na altura nem sabia que tinha), não fui em turismo. Estive lá porque os meus pais foram visitar uma pessoa do nosso conhecimento, que estava a passar por um momento difícil. A viagem foi muito pouco edificante. Assunto encerrado.


A cidade desde o alto das torres velhas da catedral


    Falemos destes dias, em que agora posso dizer que sim, conheci Salamanca. Uma cidade lindíssima. Das mais bonitas que vi. Monumental, com duas catedrais imponentes. As universidades, que também visitei, uma delas uma das mais antigas do mundo (hermanada, curiosamente, com a de Coimbra). O centro histórico muitíssimo bem cuidado. Adorei os dois dias que estive lá. Aproveitámo-los bem. Com um detalhe: fomos na Semana Santa. A Semana Santa de Salamanca está considerada um evento de interesse internacional. Havia milhares de pessoas nas ruas para acompanhar as várias procissões (também vimos muitas). Uma atmosfera fantástica numa cidade que transpira história e cultura. Adorei conhecer a(s) universidade(s) por dentro, subir às torres da Pontifícia, às torres velhas da catedral; poder ter umas vistas privilegiadas desde o alto. Com um plus: sendo Sexta-Feira Santa, a priori as catedrais estariam fechadas para turismo, mas conseguimos aproveitar alguns momentos entre os actos litúrgicos para as visitar. 


A Universidade Pontifícia e a Casa das Conchas


   Creio que se nota o entusiasmo nas minhas palavras, porque realmente Salamanca surpreendeu-me imensamente. Não esperava algo tão magnânimo. Estivemos algo menos de 48h (porque o meu marido tem plantão neste Domingo de Páscoa), mas posso-vos dizer que, como aqui se diz, “le hemos dado caña”. Não ficou nada por ver, nada entre o emblemático e o imprescindível. Deixo-vos algumas fotos.