20 de abril de 2026

Não temos vida fora do virtual.


   Na sexta-feira passada fui fazer o meu DNI (Documento Nacional de Identidad). O equivalente ao Cartão do Cidadão espanhol. Aqui, o DNI faz-se nas esquadras da polícia, chamadas comisarías. Estava eu já há um bom tempo à espera, porque tenho aquele hábito de chegar sempre aos lugares com vários quartos de hora de antecedência, e reparo que sou o único que não está a mexer no telemóvel. Ao meu lado esquerdo, uma família: pai, mãe e dois filhos: todos com os respectivos smartphones; ao meu lado direito, uma senhora de meia idade, de telemóvel na mão. Ao lado dela, uma mãe com dois filhos. O mesmo. 

   Não, não venho aqui armar-me em defensor da velha guarda dos que levam livros para todo o lado, porque não o faço. Eu simplesmente, muitas vezes, deixo o telemóvel no carro porque preciso daquele espaço de tempo, nem que seja uma simples hora, sem estar conectado; sem ouvir as notificações do WhatsApp, do X, do Instagram. E digo-vos que não me causa nenhuma ansiedade. É algo que até me dá prazer, que me desanuvia. Infelizmente, não posso permitir-me (ninguém pode) a ficar assim horas e horas a fio, porque fico com a dúvida de que o meu marido possa precisar de mim, ou que algo se possa passar. Mas é bom. Experimentem. 

   Creio que já não conseguimos ter uma vida fora do virtual. Quando penso nisso, fico desanimado e com pouca esperança, porque estes espaços (não me refiro aos blogues, na actualidade) podem consumir-nos muito tempo e energia, energia que poderíamos utilizar noutras actividades mais proveitosas, além da toxicidade que há.

16 de abril de 2026

Trezentos euros mais “leve”.


   Quem é que ontem gastou 300 euros -ou melhor, mais exactamente 292,46€- na mudança do óleo, da água do limpa pára-brisas e filtros do carro? Fui eu, mas não digam a ninguém. Os carros começaram por ser um luxo. Passaram a ser indispensáveis, e hoje em dia são de novo um luxo, pela manutenção e pela subida do preço dos combustíveis. Eles andam no Irão às turras e nós é que pagamos as favas.

14 de abril de 2026

De macho a macaca.


   Não sei se já repararam que as beeshas estão todas a sair do armário. Eu já sabia disso, mas tenho-me dado conta especialmente com os actores brasileiros: o Reynaldo Gianecchini, o Miguel Falabella, entre muitos outros. São tantas a sair que nem me lembro do nome de todas. Destes dois, por acaso, nunca desconfiei. Andavam bem metidos no fundo do guarda-roupa. E há tantos, mas tantos, num processo idêntico. Passam de machos a autênticas mariconas. Transformam-se verdadeiramente. Não é apenas o “sou homossexual”, ponto final (que nem isso ninguém é obrigado a dizer). Começam a usar trejeitos, a vestir cores garridas, a comportar-se de uma forma estranhíssima, e eu só consigo pensar “coitada desta gente, o que deveriam sofrer”. Viver-se como não se quer deve ser horrível, como também é horrível não conseguirmos esconder o que somos -o meu caso-, o que sempre me acarretou um preço demasiado alto, que paguei, com juros e correcção monetária. Se eu tivesse conseguido disfarçar, teria sofrido muito menos. E isto leva-me a outra conclusão: temos de agradecer aos inúmeros gays que deram a cara e o corpo às balas, durante décadas, para que agora as macacas comecem a sair todas como cogumelos. O Carlos Castro, por exemplo, que foi ridicularizado durante décadas.

12 de abril de 2026

Os ficheiros do caso Carlos Castro.


    Aquando da morte do Carlos Castro, eu deixei a minha primeira reacção no dia seguinte, aqui. Foi algo simples, mas muito sentido. No fundo, foi o que me ocorreu naquele momento. Os anos passaram, e já se passaram quinze anos (parece que foi ontem), e o caso ficou arrumado. É daquelas situações horrorosas que nunca esquecemos completamente. Há dias, o jornal Observador decidiu fazer um podcast sobre o assassinato do cronista, revelando dados inéditos. Eu tive tanta curiosidade em ouvir os seis episódios que os devorei de uma assentada. Recuperei a assinatura digital do jornal só para ter acesso ao conteúdo.

   Agora, como há quinze anos, a minha opinião é a mesma, quer dizer. Nada justifica aquela barbaridade. Estou convencido de que o tipo não era gay, o Renato, e de que se aproximou do Carlos para conseguir algo no mundo da moda, uma vez que ia a castings atrás de castings e não conseguia nada. O Carlos apaixonou-se, obviamente. Um miúdo de 21 anos, atlético. Pensou que seria bom enquanto durasse: ver-se na companhia daquele miúdo aqui e ali fazia-o sentir-se bem. No entanto, naquela tarde fatídica, alguma coisa aconteceu, que nunca foi esclarecida. Dos implicados, um morreu e o outro não quer falar. Na minha opinião, que vale o que vale, houve uma mistura de frustração, com nojo e com algum desequilíbrio mental associado. O pior de tudo é ver que há quem esteja do lado daquele assassino. É o que vou lendo pelas redes: que, “coitadinho”, foi enganado pelo velho; chegam a dizer que nem deveria estar preso. As pessoas perderam realmente a noção do que dizem. Nada justifica um homicídio, e menos ainda naquelas circunstâncias e com aqueles requintes de perversidade. Está preso e bem preso, e que fique assim por muitos anos mais.