14 de abril de 2026

De macho a macaca.


   Não sei se já repararam que as beeshas estão todas a sair do armário. Eu já sabia disso, mas tenho-me dado conta especialmente com os actores brasileiros: o Reynaldo Gianecchini, o Miguel Falabella, entre muitos outros. São tantas a sair que nem me lembro do nome de todas. Destes dois, por acaso, nunca desconfiei. Andavam bem metidos no fundo do guarda-roupa. E há tantos, mas tantos, num processo idêntico. Passam de machos a autênticas mariconas. Transformam-se verdadeiramente. Não é apenas o “sou homossexual”, ponto final (que nem isso ninguém é obrigado a dizer). Começam a usar trejeitos, a vestir cores garridas, a comportar-se de uma forma estranhíssima, e eu só consigo pensar “coitada desta gente, o que deveriam sofrer”. Viver-se como não se quer deve ser horrível, como também é horrível não conseguirmos esconder o que somos -o meu caso-, o que sempre me acarretou um preço demasiado alto, que paguei, com juros e correcção monetária. Se eu tivesse conseguido disfarçar, teria sofrido muito menos. E isto leva-me a outra conclusão: temos de agradecer aos inúmeros gays que deram a cara e o corpo às balas, durante décadas, para que agora as macacas comecem a sair todas como cogumelos. O Carlos Castro, por exemplo, que foi ridicularizado durante décadas.

12 de abril de 2026

Os ficheiros do caso Carlos Castro.


    Aquando da morte do Carlos Castro, eu deixei a minha primeira reacção no dia seguinte, aqui. Foi algo simples, mas muito sentido. No fundo, foi o que me ocorreu naquele momento. Os anos passaram, e já se passaram quinze anos (parece que foi ontem), e o caso ficou arrumado. É daquelas situações horrorosas que nunca esquecemos completamente. Há dias, o jornal Observador decidiu fazer um podcast sobre o assassinato do cronista, revelando dados inéditos. Eu tive tanta curiosidade em ouvir os seis episódios que os devorei de uma assentada. Recuperei a assinatura digital do jornal só para ter acesso ao conteúdo.

   Agora, como há quinze anos, a minha opinião é a mesma, quer dizer. Nada justifica aquela barbaridade. Estou convencido de que o tipo não era gay, o Renato, e de que se aproximou do Carlos para conseguir algo no mundo da moda, uma vez que ia a castings atrás de castings e não conseguia nada. O Carlos apaixonou-se, obviamente. Um miúdo de 21 anos, atlético. Pensou que seria bom enquanto durasse: ver-se na companhia daquele miúdo aqui e ali fazia-o sentir-se bem. No entanto, naquela tarde fatídica, alguma coisa aconteceu, que nunca foi esclarecida. Dos implicados, um morreu e o outro não quer falar. Na minha opinião, que vale o que vale, houve uma mistura de frustração, com nojo e com algum desequilíbrio mental associado. O pior de tudo é ver que há quem esteja do lado daquele assassino. É o que vou lendo pelas redes: que, “coitadinho”, foi enganado pelo velho; chegam a dizer que nem deveria estar preso. As pessoas perderam realmente a noção do que dizem. Nada justifica um homicídio, e menos ainda naquelas circunstâncias e com aqueles requintes de perversidade. Está preso e bem preso, e que fique assim por muitos anos mais.

9 de abril de 2026

Problemas.


   A minha vida mudou substancialmente com a vinda para Espanha. Foi como se tivessem agitado a garrafa. Deu um giro de 180°. Entretanto perdi a família toda. Isso também não é novidade. Há dez anos tinha uns problemas, e agora tenho outros. Um exemplo: o carro. Há dez anos não conduzia, embora tivesse carta; agora conduzo e tenho carro: despesas, revisões, seguros. Há dez anos não andava cheio de trâmites administrativos e processos judiciais. A minha avó era viva. Não havia partilhas. Agora há. Também é certo que alguns desses processos procurei-os eu, isto é, fui ao encontro dessas chatices por obstinação. 

   Não me queixo. Longe disso. Estou imensamente melhor do que há dez anos, em todos os aspectos (ou quase todos), mas a vida nunca nos dá sossego. Há sempre alguma coisinha a atormentar-nos, a tirar-nos a tranquilidade. E eu nunca estive tranquilo. Creio que não sei o que é isso há décadas. Talvez seja coisa minha. Talvez a maioria das pessoas consiga encontrar algo de paz no meio do caos. Eu não.

8 de abril de 2026

As procissões.


   Ter conhecido Salamanca na Semana Santa permitiu-me ainda assistir a várias das inúmeras procissões que percorreram a cidade. Foram realmente muitas. Eu assisti a três ou quatro. Milhares de pessoas amontoavam-se nas ruas e praças para deixar as procissões passar. E estas -embora, segundo dizem, não tenham a opulência das andaluzas- são bonitas e ornamentadas. É um espectáculo de fé, que atrai pessoas de todo o mundo, sendo um evento de interesse internacional, e o centro histórico de Salamanca é Património da Humanidade pela UNESCO.