29 de setembro de 2018

O Retorno.


   As aulas começaram há quinze dias. Estive três anos fora. Sim, três anos, por motivos alheios à minha vontade. Regressei, por fim, e julgo ser oportuno escrever um pouco sobre estes momentos iniciais.

   Emocionei-me da primeira vez em que entrei num dos anfiteatros, após os mil dias. Foi emotivo para mim. Depois, estranhei não conhecer ninguém. Sim, há caras que reconheço, mas de pessoas com quem nunca tive qualquer contacto.

   A faculdade conheceu obras nestes três anos. Está diferente. É quase uma experiência nova. Já não escrevo à mão; levo o meu Surface. Já sou mais disciplinado, presumo eu. Ganhei outro sentido de responsabilidade.

   Estou ainda a acostumar-me às dinâmicas. Como sempre, sento-me na fila da frente dos anfiteatros ou das salas. É algo que me caracteriza.

   Entretanto, ontem, soube do falecimento de um professor que também foi meu docente numa das disciplinas, o Professor Doutor Eduardo dos Santos Júnior. Faleceu em 2016, com 59 anos, e eu soube-o ontem, imprevisivelmente, quando comentava com um colega - um colega antigo que ainda por lá anda - sobre a cadeira de Direito das Obrigações, justamente aquela em que fui seu aluno. Recordo - e não são palavras de circunstância - um homem bom, amável, de trato fácil. Sorria frequentemente para os alunos. Explicava bem as matérias. Uma pena, uma pena. Sentava-me sempre defronte de si, a meio do anfiteatro. Não raras vezes olhava para mim enquanto falava. Eu limitava-me a admirá-lo, anuindo. Foi consigo, também, que fiz uma oral, uma saudosa oral, que me correu bem. Ajudou-me bastante, mesmo nos momentos em que me atrapalhava. Ao contrário de alguns professores que por lá andam, cujo intuito é massacrar, passo a expressão, os alunos, o Professor Santos Júnior estava ali para ajudar. Fiquei realmente consternado.

   Têm sido dias bons. Sinto-me útil, válido. Estes três anos, de certo modo, estupidificaram-me. E isso também se notou no blogue. Nós somos uma engrenagem: quando não exercitamos o corpo, perdemos a massa corporal; quando não exercitamos o cérebro, emburrecemos. Creio que ainda vou a tempo.

26 de setembro de 2018

Queer Lisboa 22.


   Bom, o Queer terminou e, como prometido, vou fazer um pequeno balanço do festival. Foi o meu primeiro Queer, em rigor, porque todos os dias, ou no São Jorge ou na Cinemateca, acabei por lá estar. Desafortunadamente, ou não, com centenas de fotografias que a produção do festival tirou, não surjo em nenhuma. Já me queixei. (risos)

   Passo, então, a enumerar os filmes que vi (em filmes, genericamente, incluo os documentários também):

- Kids;

   Se clicarem em cada título, serão reencaminhados para as respectivas críticas. De um modo geral, gostei da organização e do espírito do certame. Senti inclusão e fraternidade entre as pessoas. Muitos até se conheciam, não é?, do Queer, que já cumpre vinte e dois anos, e de outros Carnavais. Como diz um amigo meu, blogger, « o mundo gay é um bidé onde todos se lavam ». Brejeira, pouco eloquente, sem dúvida, não deixa de ser assertiva. E, bem a propósito, eu não me identifico minimamente, repito, minimamente, com a dita comunidade LGBT. Fui ao festival pelos filmes, e tão-só. Gosto de cinema, gosto de filmes desta temática, gosto de ocupar o meu tempo com actividades. Não pedi, como muitos (implorar até se aplicaria melhor aqui), que me cedessem bilhetinhos em troca de parcerias. Paguei-os, a todos, do meu bolso. Fui porque quis, escrevo sobre os filmes porque gosto, e não porque me tenha comprometido com isso.


   Como referi na publicação anterior, repetirei, sem dúvida alguma, o Queer, talvez sendo mais esmerado na escolha dos filmes. Houve três de que, manifestamente, não gostei muito. São eles: Diamantino, The Silk and the Flame e L'Amour Debout. Em contrapartida, adorei os restantes. Houve ali um documentário, logo no dia inaugural, que, tivesse eu sabido, teria trocado pelo Diamantino: o Bright Eyes, de 1986, sobre o HIV / SIDA (a ver se o encontro online). Aliás, devo dizer, adorei os documentários sobre a epidemia, inseridos no ciclo O Vírus-Cinema: Cinema Queer e VIH-SIDA. Interessam-me filmes e documentários dos anos 80, e tenho uma enorme curiosidade em saber mais sobre a realidade dos seropositivos naqueles fatídicos anos, quando tão pouco se sabia.

  Dos filmes que vi, Marylin arrecadou o prémio na categoria de Melhor Longa-Metragem, e bem atribuído. É uma estória verídica e arrebatadora do ponto de vista emocional.

  Para o ano que vem, é provável que pesquise mais sobre os filmes - não me cingindo às sinopses - e que compre os bilhetes antecipadamente, beneficiando do desconto e evitando preocupações. 
  Tive uma semana com sessões diárias. Adorei ir à Cinemateca. Foi um espaço que me cativou, intimista, sossegado. Estou em crer que serei visita costumeira. Gosto dos filmes que exibem. Gosto de cinema antigo e alternativo, se for o caso. O cinema dito comercial, massificado, de Hollywood, vai-me aborrecendo. Queer é que, esse, só para o ano.

23 de setembro de 2018

L'Amour Debout et Les Nuits Fauves (1992).


   Dois filmes a encerrar a vigésima segunda edição do festival de cinema LGBT Queer e o meu primeiro Queer. Não, não foi uma estreia. Já havia ido ao Queer, porém sem esta assiduidade. Foram nove sessões, sendo que três delas na Cinemateca (as restantes, como sabem, no Cinema São Jorge). Fiquei fã? Sim, sem dúvida, ao contrário do Motel X, que não me cativou. Bom, mas as considerações finais ficarão para ulterior publicação. Quero deter-me apenas nestes dois filmes, por ora.

   O L'Amour Debout foi uma enorme decepção. É pena que não sejam um pouco mais densos nas sinopses. O filme é terrivelmente enfadonho, aborrecido, com um guião péssimo e interpretações que também não o salvam. Chegamos ao fim sem saber qual o mote do filme. Um rapaz e uma rapariga, ex-namorados, que redescobrem o amor: ele, com um homem (parece que já tinha aventuras pontuais com homens); ela, com um homem mais velho. E então? Nem sequer há nada na narrativa que justifique o filme. É somente chato e desinspirado. As personagens são igualmente mornas e apáticas. Acho que até já me excedi para o que vi.

   Le Nuits Fauves é bom filme. Não pelas interpretações, que, exceptuando a de Romane Bohringer, vão de medianas a más, mas pela narrativa. Um rapaz, Jean, interpretado por Cyril Collard, que descobre ser seropositivo. Apaixona-se por uma modelo fotográfico de 17 anos, com a qual enceta uma relação amorosa possessiva e tremendamente desequilibrada. Jean tem uma amizade colorida com Samy (Carlos López) e costuma escapulir-se para locais de cruising gay, onde se entrega às mais loucas fantasias. É uma estória biográfica. Cyril Collard, realizador e actor principal, faleceu em 1993, com 35 anos, vítima de SIDA. No filme, a sua personagem acaba em Lisboa, curioso, completamente em paz com a doença, aceitando-a, entendo-a como parte do seu corpo a partir de então. Havia, em Jean, essa desconformidade, o que o levou a esconder a sua situação clínica de Laura; não por prazer em contaminar uma miúda inocente, mas por se recusar a aceitar a sua nova condição. No final, sabemos que Laura não está contaminada.

Cyril Collard e Romane Bohringer, numa das cenas

   Aquando da sua estreia nos cinemas franceses, o filme que viria a arrecadar quatro prémios Césares suscitou logo imensa polémica. Cyril Collard já não pôde viver o suficiente para receber os seus prémios, mas deixou-nos uma obra sobre a fúria orgânica por viver. Há uma raiva - a tal "fauve" - ao vírus, às condições em que o terá contraído. 
   Encontra-se, todavia, uma justificação para o que vai sucedendo no filme fora daquilo que a narrativa e os actores nos transmitem. A SIDA é quase como um fantasma que tudo manieta. O que acontece no filme, acontece porque o protagonista é seropositivo, e nunca porque ele seja mais um entre os demais. A magia da estória está fora dela, surpreendentemente, numa ideia estruturada do vírus. Este é o grande óbice, junto à debilidade das interpretações, para que Les Nuits Fauves seja um clássico. Cyril Collard não era um realizador fora de série.

  Uma palavra para as cenas finais do filme, gravadas em Lisboa e na Arrábida, no Santuário de Nossa Senhora do Cabo. Também a empregada de Jean era, aparentemente, portuguesa.

22 de setembro de 2018

Danny (1987) & La Pudeur ou L' Impudeur (1991).


   No meu sétimo dia de Queer, escolhi dois documentários sobre o HIV / SIDA, na Cinemateca, um tema preferencial nesta vigésima segunda edição do festival de cinema, por ocasião do ano em que se assinala o trigésimo aniversário sobre o primeiro Dia Mundial de Luta Contra a SIDA (1 de Dezembro de 1988).

   Danny, de 1987, é uma curta realizada por Stashu Kybartas. Não é um filme; é um documentário de 20 minutos sobre um amigo de Kybartas que morria de SIDA (em itálico porque, como sabemos, ninguém "morre de SIDA"). Danny Sbrochi, de seu nome, passava os dias na praia, com amigos, até ao pôr-do-sol, tinha um bom apartamento e conduzia o carro dos seus sonhos. O consumo de cocaína, que o levava a partilhar a mesma seringa com mais cinco rapazes, ou a promiscuidade, uma das duas, estiveram na origem da infecção pelo HIV que o vitimaria em 1986. O documentário ficou incompleto e saiu ao público no ano seguinte, em 1987.

  No que respeita ao impacto visual, é fortíssimo. Danny está já no estágio de SIDA, com múltiplas lesões na pele causadas pelo Sarcoma de Kaposi, um raro cancro que afecta aquele órgão do corpo humano. Faz tratamentos de quimioterapia que o enfraquecem mais. A Kybartas, vai partilhando receios e revelando pequenos sonhos, nomeadamente viver uma grande paixão sem ser atormentado pelo vírus terrível. Lembrou-me o Robert, personagem de Geoff Edholm em Buddies (1985), que vi há dias e cuja crítica publiquei aqui. Em comum, todos aqueles rapazes tinham um desejo: viver o suficiente para poder experienciar a cura, que hoje, quase quarenta anos desde os primeiros casos, em 1981, continuamos sem conhecer. No caso em concreto, Danny quer voltar para casa dos pais, para morrer junto da família. Teme a reacção dos progenitores, que não sabem da sua orientação sexual e ainda menos que está com SIDA.
  É um documentário interessante também pelas técnicas de realização. Imagens, algumas das quais de Danny saudável, que se detêm, fixas no ecrã, enquanto o som corre normalmente, talvez com o intuito de redobrar o impacto que a deterioração física do rapaz produz em nós.


   La Pudeur ou L'Impudeur  seguiu-se a Danny. Aliás, foram ambos exibidos como um único corpo. É um documentário de 1991, realizado pelo escritor, novelista e guionista francês Hervé  Guibert (1955-1991), que também veste as peles de actor principal numa campanha solitária que encabeçou por breves meses antes de morrer. Nele, Guibert, com a sua própria câmara, amadoramente, mostra-nos cenas do quotidiano, inclusive da sua intimidade. Vemo-lo a cuidar da higiene, na cama, nas consultas médicas, com as tias-avós. É, no fundo, o olhar de um homem que sabe que vai morrer e que quer deixar algo para a posterioridade. O que mais perturba, devo dizer, é vê-lo cadavérico, bastante combalido pelos efeitos do vírus e dos tratamentos, agressivos e ineficazes, já em fase final de SIDA - todo o documentário acompanha as suas derradeiras semanas. La Pudeur ou L'Impudeur é, também, uma obra de extraordinária motivação. Sem nunca desistir, ainda que por vezes fale em suicídio, Guibert procura exercitar os músculos, fazer ginástica, mexer-se, dizendo-nos, a determinado momento, que todos os dias descobre mais um movimento corporal que não consegue executar.

Hervé Guibert (1955 - 1991)

   Este documentário foi realizado simultaneamente com a escrita de Le Protocole Compassionel, onde Guibert também aborda a SIDA, e precedido por um outro, À l'ami qui ne m'a pas sauvé la vie, no qual revela a sua condição clínica. Mon vale et moi encerrou a trilogia literária dedicada à infecção. Podemos, então, inferir que a mesma o ocupou nos últimos dois anos de vida.
   É um diário muito, muito pessoal. Vemos um homem que se despe e que mostra, sem pudor, o seu corpo raquítico, pondo-se nu e pondo a nu, perante todos, os horrores da morte pelo HIV / SIDA. HIV que, sete anos antes, em 1984, vitimara outro grande vulto das letras francesas e  seu amigo pessoal, Michel Foucault.

   Sábado, 22, é o último dia de Queer. Esperam-me dois filmes.