14 de julho de 2020

Allariz, ¡qué pueblo bonito!


   No domingo passado, a convite de um casal amigo, fomos a uma das vilas mais encantadoras que pude conhecer recentemente: Allariz. Não dista muito daqui, mas ainda exige um percurso razoavelmente moderado de carro para se chegar lá.

   O que mais me seduziu em Allariz foi a sua atmosfera vibrante, natural, com um rio que a atravessa - o Río Arnoia. Por lá, jovens e menos jovens aproveitavam a claridade daquelas águas e banhavam-se. 



  
  As ruas estão impecavelmente limpas. Vim a saber, a posteriori, que Allariz foi, durante anos, governada por nacionalistas galegos, pelo BNG. Compreende-se que o discurso nacionalista aluda ao caso bem sucedido da vila para fazer propaganda pela independência da Galiza.



  Após um mui simpático lanche numa esplanada de jardim, onde pudemos beber algo refrescante e comer gelados de fruta fresca, escolhemos um restaurante à beira-rio, convidativo. A comida, excepcional; o atendimento, bom... A um português, habituados que estamos ao nosso trato formal e distante, os jeitos espanhóis poderão parecer rudes, agressivos. Eu também sou levado, e mal, a pensar assim. São apenas e tão-só diferentes de nós.



  "Primeiro estranha-se, depois entranha-se", diz o povo e digo-o eu. Para o final, o empregado já se desfazia em simpatia, convidando-nos, até, a ficar um pouco mais, assim o quiséssemos, que ainda demorariam a fechar. Os seus derradeiros gestos de acolhimento tê-lo-ão salvado, provavelmente, de uma crítica minha mais contundente pelas redes sociais. Digamos que se redimiu bem.



    Chegámos bastante tarde a casa, contudo, o passeio mais que valeu a pena. Também o Diesel se divertiu com as suas orelhas ondeando ao sabor do vento. Na viagem de regresso, mal se mexia. O cansaço havia igualmente tomado conta de si.



   Se andarem pela província de Ourense, não deixem de conhecer Allariz. Garanto-lhes de que não se arrependerão.

7 de julho de 2020

Tempos difíceis.


     Andava eu perdido nas minhas memórias, hoje à tarde, e dei por mim a reflectir no quão dramático tem sido este século, logo desde 2001, com o ataque ao World Trade Center. No mesmo ano, mais tarde, a Guerra do Afeganistão. Em 2002, tivemos o desastre ecológico aqui na Galiza. No ano seguinte, a invasão do Iraque. Em 2004 e 2005, mais ataques jihadistas na Europa, em Londres e Madrid. Perdi-me. Sei que, pelos anos seguintes, tivemos a intervenção na Líbia, ataques em Paris, na Bélgica, uma crise económico-financeira global que nos levou à bancarrota e à intervenção externa... Um sem-número de peripécias. Não bastando, agora, uma pandemia de um vírus misterioso. Ontem mesmo, li sobre ameaças de surtos de peste negra na China, uma doença bacteriana que actualmente é facilmente curável. Aonde iremos parar?

    Há um ano por estes dias, imaginávamos que estaríamos assim? De máscaras sanitárias na cara e gel nas mãos (e que tanto pão têm dado a comer a quem vive disso)? Temos mais do que razões para temer o futuro próximo. O apocalipse, retratado na sétima arte e na literatura, cada vez mais é uma fantasia que assumimos como possível, vistas as coisas. Não querendo ser fatalista, que epidemias, crises e guerras houve muitas, o que temos, efectivamente, é a escalada galopante na sucessão de acontecimentos. E ainda só levamos vinte anos! Nas guerras, dispomos hoje de arsenal bélico capaz de destruir o planeta em menos de nada. As crises levam ao endividamento praticamente crónico das famílias, ao surgimento de bolsas de pobreza que torturam as pessoas e as impedem de competir num sistema tão exigente, impiedoso e avassalador. As doenças, bom, pense-se no globalismo e na facilidade com que qualquer vírus, à mercê da democratização no acesso às viagens, tem de se propagar de um continente para o outro e o outro em poucas horas.


  Acreditávamos -os que perdiam tempo com isso- que provavelmente desapareceríamos como os dinossauros, devido ao impacto de um meteorito; quiçá quando o Sol deixasse de consumir hidrogénio, aumentasse de tamanho e, por fim, explodisse e engolisse a Terra; ou ainda com o dito aquecimento global, que inviabilizaria a manutenção da vida tal qual a conhecemos. Afinal, a hipótese parcamente especulada de doença pandémica começa a ganhar forma. Quando surge uma doença nova, multiplicam-se as exigências de vacinas. E se elas nem sempre chegarem? Veja-se o VIH/SIDA, cuja cura foi dada como garantida durante anos, e que só ao fim de mais de 30 milhões de mortos conseguimos torná-la crónica, não obstante, com todos os condicionamentos.

   De um lado, gozamos de liberdade como nunca antes se vira. Saímos e gostamos de sair. Vivemos melhor, o que se traduz em férias que os nossos avós nem sonhariam, idas a restaurantes, bares, ginásios. Do outro, é bastante provável que tenhamos de aprender a viver com restrições, mais isolados. É nesse confronto e nessa contradição -liberdade e reclusão?- que se jogará a nossa sobrevivência.

5 de julho de 2020

Nintendo Switch.


   Em Março, ainda antes do confinamento forçado e forçoso, comprei uma Nintendo Switch, a última consola de jogos da Nintendo. A bem dizer, última porque é a mais recente, que a consola já tem uns anos. Recentemente (2017/2018), a Nintendo (re)lançou a Nintendo e a Super Nintendo Classic Mini. Adquiri ambas.

    As consolas de jogos da Nintendo fizeram parte da minha infância. Tive várias, desde as velhinhas NES e SNES até à (também velhinha já) Nintendo 64. Em 2003, por pouco não comprei a Nintendo GameCube. Acabei por não o fazer porque o funcionário do El Corte Inglés nos aconselhou, a mim e aos meus pais, a comprar a PlayStation 2. Uma escolha errada, como se viria a verificar. Nessa consola da Sony, apenas joguei um único jogo, o Ratchet e Clank 2. Comprei o terceiro jogo da saga, contudo, não o terminei. Adiante. Mais tarde, afastei-me das consolas, e perdi aquele período da Wii e da Wii U. Acredito francamente que a separação dos meus pais e toda a instabilidade  e turbulência emocional do período 2006/2010 para isso tenham contribuído. A faculdade e as novas exigências levaram a que, definitivamente, deixasse de me interessar por jogos. As redes sociais serão outro motivo.



  Interiorizei que, afinal, a minha cena, em linguagem juvenil, é a Nintendo e os seus jogos, particularmente, ou apenas, os do Super Mario. Adoro o universo do Mario e dos seus companheiros. Neste momento, desde Março porque acumulo o jogo com leituras, brincadeiras com Playmobil e outras actividades, ando a jogar o New Super Mario Bros U Deluxe, uma versão moderna do Super Mario Bros 3, considerado pela crítica especializada como um dos melhores jogos de sempre (da lista, entre mais um ou outro do Mario, consta ainda o Super Mario 64, que adorei igualmente). No New Super Mario Bros Deluxe, temos, como noutros jogos da saga Super Mario, de salvar a Princesa Cogumelo das garras do arqui-inimigo do Mario, o Bowser. Para isso, claro está, há que ultrapassar uma série de níveis inseridos num universo de mundos.

   O que me atrai tanto nos jogos do Mario é a continuidade que a saga mantém desde o primeiro jogo, lançado lá por 1985. Há as eternas semelhanças nos inimigos (os Goombas, entre tantos outros), nos itens que se ganham (os cogumelos, que nos permitem crescer; as flores, que nos conferem a capacidade de lançar bolas de fogo...), nos personagens, no design... Cada jogo parece -e é- uma versão refinada e nova dos antigos, o que à primeira vista pode parecer aborrecido, mas que para mim, no inverso, é altamente estimulador. 

   Logo que termine o NSMBD, tenho outros dois à minha espera, e são eles o Super Mario Maker 2 e o Super Mario Party.

   A avaliação que faço da Nintendo Switch é positiva. Foi excelente a ideia de tornar a consola num 2em1: fixa e portátil, ou seja, é tendencialmente portátil; quando a inserimos no carregador, torna-se fixa, e assim podemos ligá-la ao televisor. Apenas me aborrece a multiplicidade de comandos quando queremos jogar com mais um jogador. A parte do tira-comandos e põe-comandos é um tanto ou quanto stressante, uma vez que há que configurá-los. Claro, o lado bom é que, caso algum se estrague, podemos comprar outro sem que isso afecte a consola em si. O NSMBD é um jogo 2D. Temos mais um motivo que nos leva a regressar ao passado, isto para quem, como eu, tem uma estória com os jogos do Mario.

    Há mais fãs do universo Nintendo e, em particular, do Super Mario por aí?

2 de julho de 2020

Da intolerância e da democracia.


   Uma actriz da nossa praça desfilou pelas avenidas de Lisboa com um deputado conotado à extrema-direita. Uma artista que se queixa de não lhe permitirem trabalhar há dois anos por ter decidido expressar livre e publicamente as suas convicções político-ideológicas. Uma actriz cujo talento é frequentemente posto em causa tão-só por se expressar nos seus espaços de opinião. Parece causar perplexidade em qualquer um. As perseguições movidas pela intolerância com posturas contrárias às maioritárias, admitindo-se que o são, comprometem a convivência saudável em democracia. Fala-se em revolução, em liberdade de expressão, de opinião, e percebemos que verdadeiramente existe, sim, uma ditadura da maioria

   Portugal tem um déficit democrático conhecido. Os portugueses foram criados em meio do medo, da censura, e aprenderam a dar uso às mesmas armas. Em Abril de 1974, fez-se uma revolução contra um regime autoritário, e por pouco não se instalou outro. Em 1975, elegeu-se uma assembleia que redigiu uma Constituição democrática de fortíssimo teor socializante, que inclusive colocava a então embrionária democracia sob tutela militar, num quadro que se manteve até 1982. Propriamente dita, a democracia portuguesa não tem nem quarenta anos. As décadas de repressão deixaram o seu rasto na ausência de uma cultura democrática. Assim mesmo, mais de quarenta anos de um regime conservador e autoritário originaram anti-corpos que se manifestam em torno de qualquer um que se identifique com o conservadorismo ou que perfilhe uma linha ideológica apartada do socialismo, inclusive da social-democracia.

   O fenómeno das redes sociais, sobretudo após 2010, ajudou a incrementar uma intolerância que tem as suas raízes na falta de cultura democrática e na longeva ditadura conservadora e autoritária. Confunde-se reacção política com desmerecimento e insulto, como se um pressupusesse o outro, como se o combate político se fizesse necessariamente às custas do achincalhamento, e nas redes sociais, para exponenciar o alcance e obter apoios.

  Não haverá democracia perfeita, sem vícios, no entanto, cabe-nos a nós, diariamente, aperfeiçoá-la. A democracia não é uma ideia que se teoriza, uma palavra que se profere e se inscreve na lei. A democracia concretiza-se na tolerância e na consagração, protecção e defesa das liberdades individuais e colectivas. Por todos, constantemente, ainda que o uso dessas liberdades por outros colida com a nossa sensibilidade e o nosso entendimento. Caso contrário, criamos uma sociedade que pretensamente se intitula de democrática, sem que contudo o seja. Fala-se de uma ditadura com vestes de democracia, que se alimenta da perseguição nas colunas dos jornais, nas redes sociais. Fala-se das novas minorias, perseguidas pelas antigas. Afinal, não assentará a história da humanidade na substituição contínua entre vítimas e verdugos?