15 de janeiro de 2015

Mansidão.


   Passei pela faculdade. Um dos anfiteatros, vazio, serviu de refúgio. Por instantes, recordei-me dos anos anteriores, nestes meses de provas escritas e de orais. Visitas à biblioteca eram inevitáveis, conquanto preferisse estudar em casa.

   De sempre senti uma atracção por espaços sem gente, escuros. Corredores vazios entre portas mal fechadas. Salas frias, desabitadas, cheirando ainda à madeira do soalho. Ouvir os meus passos, de costas voltadas para um mundo que evito quando posso. Tendo a Björk por companhia, detive-me por lá. Aproveitei e meti algumas aplicações em dia. Não sou chegado a tecnologia. Engraçado que, em criança, estava na vanguarda do que ia saindo. Escolhia os cantos mais sossegados para tirar as minhas consolas e ficar a jogar. Nada emprestava. Via a mãe em cada brinquedo que me ofertava. Estimá-los era como mantê-la junto a mim. Passá-los a outrem seria ceder o seu amor a mãos alheias, expô-lo ao perigo, à deterioração. 

   Numa das investidas ao mundo comum, cruzei-me com o rapaz com quem troquei olhares ao longo do semestre. Estava com a tradicional pasta castanha na mão, a barba aparada pelo traçado do queixo, como faço, e a falar ao telemóvel com um sorriso leve no rosto. A postura própria de quem não tem um intelecto que o atormenta com insistência.
    Tirei um leite com chocolate na máquina de bebidas.

    Quis que me chamasse, muito embora não saiba o meu nome, como não sei o seu.

    De novo, eram vidros o que me rodeava. Que comprimiam o meu vazio. E nem a luz que os atravessava conseguiu encontrar-me.

10 de janeiro de 2015

Charlie Hebdo.


    A tragédia que se abateu sobre o jornal satírico francês Charlie Hebdo comoveu o mundo ocidental, numa proporção surpreendente. Que, como quase em tudo o que é explorado e mediatizado ao limite, caiu num mero lugar-comum. Fotos que se publicam, com mensagens subliminares, no mais das vezes porque sim e porque o vizinho, colega, também o fez. Massacre bem sucedido, presumíveis autores abatidos, o importante, ex post, é tirar as devidas ilações. 

   França. Uma das nações que mais se debateu pelo valor da liberdade, nascido da Revolução de 1789, exportada para o mundo através do constitucionalismo do século XIX. A operação terrorista teve um duplo efeito: silenciar, exterminando, um jornal e provocar o aparato num dos corações da liberdade. Na medida, se é possível fazermos aqui algum tipo de comparação, dos ataques de 2001 ao complexo do World Trade Center, em que se atingiu o vértice do mundo ocidental, Nova Iorque.

   A liberdade que Paris deu a conhecer ao mundo manifestou-se em direitos, reconhecidos pela imensa maioria dos Estados de direito democrático. Portugal reconhece-os no seu extenso capítulo de direitos, liberdades e garantias da Constituição de 1976. A liberdade de expressão é um dos mais significativos. O que aqui está em causa, podendo nós discordar pontualmente dos limites que a cada um se devem impor, é a liberdade de poder expressar o pensamento através da escrita, da arte, com previsão legal. A liberdade de criação artística e intelectual, autonomizada na nossa Lei Fundamental, decerto se encontrará na Constituição francesa, implícita ou explicitamente. Nas palavras de Melo Alexandrino, ilustre professor de Direitos Fundamentais, um dos meus melhores mestres, só excepcionalmente a liberdade de expressão cede perante outros direitos, sejam eles quais forem. E a parte oposta tem o ónus da prova, de sustentar que houve, ali, uma violação clara dos limites que, porventura, existem em todos os direitos. Não há direitos absolutos.

    Aqui tivemos um quadro que vai muito além de qualquer restrição ou intervenção restritiva do Estado no que toca aos direitos fundamentais. Houve um silenciamento pelo medo, reprovável a todos os níveis, inadmissível. Valores que propugnamos, os que enumerei no terceiro parágrafo, foram constrangidos. O direito não cede perante o terror. Sucedendo-o, podemos rasgar os nossos textos constitucionais; iria mais longe, suprimir todo o nosso ordenamento jurídico, assente no respeito pela dignidade da pessoa humana, e remetermo-nos à barbárie.

   O que se retira destes infelizes acontecimentos, e que já vou verificando, é o agudizar da intolerância religiosa. O fundamentalismo, empunhe a bandeira religiosa que empunhar, leva à apreensão. A fobia ao Islão, que já grassava pelo ocidente, aumentou exponencialmente. As consequências virão, como em 2001, quando George W. Bush, aproveitando os ataques terroristas aos E.U.A, declarou a guerra contra o terror. A operação da polícia francesa, no dia de ontem, é um indício. Mobilizou-se um número de efectivos policiais absurdo. O país está em alerta máximo. Toda a Europa.
   O muçulmano pacato, o homem médio que quer viajar, seguir a sua vida tranquilamente, encontrará obstáculos à livre circulação; deparar-se-á com o preconceito, a ignomínia, o desconhecimento, estimulados, promovidos por estes mártires do terror, suportados, também eles, pelas tradicionais organizações terroristas, como a Al-Qaeda e o mais recente Estado Islâmico.
  A intolerância gerará mais intolerância e dificilmente sairemos deste circuito fechado de ataque / resposta. Caminhamos no sentido dos nossos antepassados, promovendo-se guerras entre cristãos e muçulmanos. Mil anos depois e aprendemos tão pouco com os nossos erros.
    A religião, não obstante o respeito que nos merece, gera paixões destrutivas. Passaríamos melhor sem ela.

7 de janeiro de 2015

Do frio e da vida.


    Manhã fria. Em criança, julgava-me adulto quando o ar expirado, em movimentos divertidos, ingénuos, rivalizava com a longa cigarrilha da mãe.

     "Olhe, mãe, olhe, também fumo!"

    Agora, tudo o que sinto são os pés assentes numa idade adulta que foge ao meu controlo. O impacto do ar gélido na testa, as mãos enregeladas, fechadas sobre si mesmas, procurando os bolsos desesperadamente (ou as luvas, por dentro do casaco). O piso, humedecido, torna-me instável, caminhando pesada e lentamente pelo passeio. Melhor fora que me agasalhasse bem. Enfrento, num assomo de absurdo, as minhas fragilidades. Um exercício perigoso, excitante. Jogo arriscado entre a juventude, que irrompe volta e meia, e a precaução típica de quem está acostumado a agir com a razão como conselheira.

     O mês será longo, envolto em anseios, conjecturas, na certeza da indefinição da vida.
     Nunca como agora me senti tão por minha conta. A isso, tenho por seguro. Quisera eu crescer em anos o que, impulsionado por sequências desastrosas, mais da responsabilidade de outrem do que minha, terei de amadurecer por ora.
      Com efeito, a vida é uma sucessão de maus momentos, atenuada por hiatos de aparências.

3 de janeiro de 2015

Calendário.


   O Namorado (Namoro com um Pop Star) teve uma ideia original. Na senda dos calendários de bombeiros que surgiram aqui e ali, pensou que poderia adaptar esse formato à realidade da blogosfera. E assim foi. Doze bloggers participaram com as suas fotos. O calendário foi elaborado - e bem, terminando num trabalho organizado, cuidado, detalhado. O esforço é notório. Parabéns ao mentor.

   No que diz respeito às fotos, conseguiu-se, no meu entendimento, que reflectissem o mês / estação em causa e a personalidade dos intervenientes. Há um equilíbrio entre a originalidade, que ficaria a cargo de cada um, e alguma exigência pontual, normal em tudo o que envolve regras. Todas diferentes.

    Iniciativas como estas, e outras, são de louvar. Promovem a interacção e são um estímulo a que possamos nos distrair. Uma palavra também à disponibilidade dos bloggers, de salutar.

  Deixo-vos com o calendário. A versão completa encontrarão facilmente no blogue do Namorado (link acima). Podem imprimir e alegrar o vosso espaço com um calendário como outro qualquer, normalíssimo, com a vantagem de ser... único e divertido.