Associamos a tacanhez às pessoas naturalmente desinformadas, aquelas que na maioria das vezes não tiveram acesso à educação, porém, nem sempre é assim. Convenço-me de que o espírito liberal e igualitário faz parte da índole de cada um, apesar de acreditar que pode ser estimulado. Quando o preconceito vem de professores universitários que o expõem em forma de piada infame, a revolta assume contornos diferentes. Poderá o núcleo ser comum, mas a desculpabilização é bem menor. Não posso compactuar com alguém que, valendo-se da sua posição, brinque com os sentimentos e os direitos de terceiros. Todos podemos ter a nossa opinião, sem dúvida. E bom senso. O bom senso, na dose certa, faz toda a diferença.
Esta breve introdução para relatar um episódio que ocorreu numa aula de quarta-feira. Infelizmente, por ética, não posso revelar o nome do professor, nem a disciplina em causa, porque o mesmo poderia levar facilmente à sua identificação. Oportunamente talvez o faça; não enquanto for seu aluno.
Aproveitando-se de um exemplo relativo ao casamento (estava desatento, não conseguindo perceber como a conversa chegou a tais parâmetros), o docente em causa referiu, em tom cómico, que o casamento continuará a ser um contrato entre um homem e uma mulher, pese embora, e cito, "existam para aí umas leis esquisitas", aludindo claramente à lei que aprovou o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, a Lei 9/2010 de 31 de Maio. Fiquei perplexo e, por momentos, pensei que estaria a ouvir vozes. Depois, tomando consciência de que era real o que ouvira, consegui suster uma reacção de indignação, que sairia em tom de murmúrio ou algo semelhante. Ainda bem que assim o foi. Sabe-se - é público - de que a pessoa em causa pertence a um partido da direita ultra-conservadora, comungando, certamente, da sua ideologia. É um homem austero, não deixando de ser simpático, apesar de identificar uns tiques de autoritarismo em algumas das suas acções.
Não vivemos em ditadura. Ele pode, mais, deve ter as suas opiniões e ninguém o impede de as exprimir. Nesta situação em concreto, os direitos das pessoas estão sujeitos a opiniões? Será lícito questionar o direito de alguém a contrair matrimónio com outra pessoa, dirigindo-se a esse facto jurídico pejorativamente como "lei esquisita"? Afastando-nos da ordem jurídica, na ordem moral e dos valores, esta opinião numa aula, desconhecendo se está perante algum/a aluno/a homossexual, será aceitável? Questões facilmente respondidas por um qualquer leigo.
Se já não gostava daquele sujeito, a minha consideração por ele diminuiu em muito. Para o meu júbilo, teremos uma relação aluno-professor por pouco mais de um mês. Difícil será ouvi-lo e olhar para si, mas com esforço e alguma paciência tudo se consegue.


