7 de maio de 2015

Ensaio sobre a felicidade.


   É corrente ler ou ouvir acerca da felicidade. Absorto na linguagem comum, como não poderia deixar de ser, acabo por utilizar vulgarmente o substantivo ou o adjectivo que o concretiza, feliz, quando, todavia, ao que pretendo me referir é a um estado que em nada se assemelha.

  Banalizou-se o significado de felicidade. Na medida em que se trata de um conceito relativamente indeterminado, há uma margem admissível de conformação. Cada um entende a felicidade ao seu jeito, moldando-a segundo as suas vivências, expectativas, onde a personalidade e as crenças assumem um papel importante na definição.

    A felicidade, no meu entendimento, seria um estado de paz e tranquilidade totais, na ausência completa, passada, presente ou futura, de dor ou de qualquer outro tipo de sofrimento moral ou físico. Um estado absoluto, de extremo, que não comportaria quebras, ressalvas ou deficit. Um bem-estar permanente, imperturbável. Assemelho-a às características que se atribuem a Deus, a existir, e a quem Nele acredita, cuja diminuição de uma única apenas envolveria uma negação dos poderes últimos e exclusivos da divindade. Da própria, no limite. A felicidade, então, seria tudo isto. E a realidade que se distinguisse desta, por maioria de razão, não seria.

  Assimilou-se, mal, a meu ver, a felicidade ao sentimento de reciprocidade de estima, afecto e reconhecimento vindo de terceiros, bem como aos estados em que o incómodo, de diversas ordens, não domina. Ou seja, a tudo o que implique uma leveza - alegria - aparente ou momentânea. Uma fuga, na verdade, à realidade que nos circunda, que não é idílica ou de ventura, na busca de se obter algum conforto. É uma tendência natural, creio, justificada na necessidade de abstracção. A existência humana funda-se numa luta contínua, incessante, pela resolução dos problemas e na procura da felicidade
     Luta frustrada, daí que Voltaire tenha dito, e com sábia destreza, que morremos como nascemos: sem ilusões.

29 comentários:

  1. De facto a Felicidade depende do Entendimento que fazemos da mesma. Eu consigo ver e ouvir. Não penso muito no assunto. Olha os cegos e surdos, que dizem:

    - Não sabes o quanto és feliz

    Quando falamos de emoções, é impossível quantificar. Há coisas que o Racional não consegue explicar

    Digo eu lolololol

    Grande abraço amigo Mark

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Perspectiva curiosa. Mas ainda quem vê e quem ouve tem os seus problemas, não se podendo falar de felicidade aí. Há quem esteja pior, sim, o que não nos torna, necessariamente e por esse facto, felizes.

      E um invisual pode até, no limite, ter uma existência mais digna do que alguém que vê. Lembro-me, por ora, de quem tem doenças crónicas ou vive num estado de mendicidade.

      um grande abraço, Francisco. :)

      Eliminar
  2. Excelente ensaio sobre um conceito tão difícil de definir e de tão diferentes apreciações.
    Concordo quase em absoluto com tudo o que dizes e chego a uma conclusão - a felicidade como valor absoluto é pura utopia...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. A felicidade nada mais é do que um estado inatingível, utópico por isso. Porque é absoluto e não admite reservas. Deturpámos o seu sentido.

      Eliminar
  3. exacto. o que procuras, neste sentido, é uma ilusão. não existe. talvez em termos religiosos se consiga alcançar algo semelhante (estou a pensar nas religiões orientais). o que resta são pequenos estados e a tudo o que pode contribuir para te fazer 'feliz'. sim, não ter dor, sim, não passar por dificuldades, sem preocupações, ou mesmo não ter a sensação de desalento e tristeza que surge muitas vezes.
    somos humanos, estamos, desde que nascemos, a perder: pessoas que gostamos, coisas que apreciámos, o tempo, a vida, ah, mal nascemos, o destino está traçado.
    tenho um castanheiro aqui ao lado da janela. olho para ele muitas vezes. no inverno está nu, sem folhas, agora está frondoso, uma beleza. é isto que me faz feliz. :)
    bjs.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. A religião sabe que não há felicidade alguma por cá e utiliza-a como meta, noutro plano e segundo as suas regras. Uma contrapartida das boas acções sobre as más. Criou-se "o paraíso". Local onde reinaria a felicidade.

      Conseguimos os tais pequenos estados de alegria, paz e tranquilidade possíveis, volta e meia assombrados por dor e aborrecimentos vários. Aliás, somos propícios ao tédio por natureza.

      Acredito que viver perto de tudo o que envolva plantas e animais ajude a mitigar um pouco as agruras da vida. :)

      um beijinho.

      Eliminar
  4. Para mim felicidade é aquilo que conforta a alma e que poderá ser também, entre várias coisas, um "sentimento de reciprocidade de estima, afecto e reconhecimento vindo de terceiro" - logo não concordo contigo (LOL). Não acredito porém, na "felicidade" absoluta, mas sim, em momentos que somados podem indicar se uma pessoa é/foi feliz ou não. Como em tudo na vida, a antítese (ou seja, a infelicidade), também cabimento. Quiçá para nos fazer ver, que nada é garantido e que devemos apostar sempre em melhorar a nossa postura enquanto pessoas.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Eu, ao dizer que assimilámos a felicidade a esse sentimento de reciprocidade, referia-me à equiparação que fazemos, errada, a meu ver, entre ser "amado" (o dito sentimento a que aludi) e a felicidade. Para quem acredita na felicidade, ser amado é conditio sine qua non para ser feliz.

      Da mesma forma que não acredito na felicidade, rejeito a infelicidade. Nunca saberemos o que é ser feliz, daí que não possamos experienciar o oposto. Devo, porém, dizer-te que há momentos bons, agradáveis. Conseguimos estar bem, claro que sim, mas em intervalos, maiores ou menores.

      :)

      Eliminar
  5. Mark definiste a felicidade à tua maneira, e sabes como ela é um estado de espírito mutável, varia de pessoa para pessoa, e por vezes quem tem muito não dá valor ao que tem e quem tem pouco é feliz com esse "pouco".

    Poderia escrever tanto, mas acho que consigo resumir que a felicidade ideal é viver sem ter qualquer tipo de problema, mas porque eles existem (os problemas), a felicidade é tão efémera como uma gota de orvalho, mal nasce, já se foi.

    Se tenho sérias dúvidas em relação ao amor, o que dizer da felicidade.

    Deixo aqui uma música que não me sai dos ouvidos, para mim é o que a tristeza diria à felicidade num dia de chuva, entre tantas outras coisas.

    https://www.youtube.com/watch?v=FZbUdZlAOHI

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Viver sem ter qualquer tipo de problema, pegando nas tuas palavras, amigo No Limite, não é possível. Isso seria a felicidade. Não a ideal. A felicidade. Não há felicidade com "todavias".

      É o que penso, evidentemente, e acredito que há quem ache absurdo o que defendo no que diz respeito a esta matéria. É bom podermos reflectir, tomar partido, sustentar aquilo em que acreditamos. É bom ler opiniões contrárias, reformular, acrescentar ideias. É assim que se aprende. :)

      Não conhecia a música. Obrigado!

      Eliminar
    2. Mark porque estou de férias do meu blogue mas porque me cruzei com uma frase que me fez lembrar do teu texto aqui vai:
      "A felicidade vem da capacidade de sentir profundamente, desfrutar com simplicidade, pensar com liberdade, arriscar e ser necessário" de Storm Jameson

      Diz-te alguma coisa? Eu sinto profundamente, desfruto com dificuldade, penso com liberdade, arrisco pouco e pouco ou nada sou necessário. A felicidade está a nos luz de mim, mas a vida está feita de frases desse tipo, valem o que valem :-)

      Eliminar
    3. Olá, No Limite!

      É o entendimento desse autor quanto à felicidade. Pensar livremente e gozar da simplicidade são duas condições essencias para um bem-estar. Aliás, não falta quem diga que a felicidade está no lado mais simples da vida. :)

      Identifico-me nisso: penso livremente, mas arrisco e desfruto pouco. Sinto com intensidade. Estaríamos em caminhos opostos à felicidade, segundo Storm Jameson. :D

      Eliminar
  6. Vinha aqui comentar mas os meus amigos bloggers, sempre mais rápidos do que eu, já fizeram um bom resumo.
    Parafraseando a Lili, estar feliz é o contrário de estar infeliz ;-)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Há sempre algo a acrescentar. Não te faças de rogado. :)

      Conhecia a do «estar vivo é o contrário de estar morto».

      Eliminar
  7. Olha, eu sou feliz. Totalmente? Não. É a luta pela sempre "inalcansável" felicidade absoluta que dá sentido à vida.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Para mim, o que sentes não é sequer uma parcela da felicidade, Horatius. Sentes-te bem, o que é diferente.

      Eliminar
  8. Maravilhoso. Não diria mais nem melhor.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. É apenas o que penso sobre este assunto. :)

      Eliminar
  9. Ai Mark, felicidade sem dores ou problemas não é felicidade. É uma beatitude acética e, desconfio - porque nunca falei com um iluminado do nirvana -, não-humana. Num momento em que amei e fui reciprocamente amado era infeliz - consigo olhar o momento e sentir com clareza, como então, que não era feliz. Recentemente, como sabes, uma exaustiva série de azares e agruras nunca, em momento algum, me provocou o sentimento de estar infeliz - por dentro estou numa fase em que, obstante a tudo, me sinto feliz - vá lá saber-se porquê. Portanto... Está tudo dito. O meu conceito de felicidade é precisamente o da Margarida. É, àparte a aparência do mundo e nosso mundo, olharmos um castanheiro e sentirmos 'felicidade' com a folhagem de primavera. Isto não é a alegria de um momento. É o estar sintonizado com o mundo, por dentro. Em ti, ou no tédio, o sentimento é de não-sintonia, daí se almejar o ideal, que é isso mesmo - uma idéia.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. É um outro olhar sobre a felicidade, Alex. :) Não consigo conceber, por mais que queira, uma felicidade com dores ou sofrimentos. Talvez seja um sentimento não-humano. Não nego, visto que o considero inacessível aos humanos.

      Eu daria outro nome ao que sentes de momento. Dizes que te sentes feliz. Não te sentirás. Sentir-te-ás bem, leve, solto, alegre; não feliz. Precisamente pelos azares e pelas agruras que, volta e meia, te incomodam, te perturbam, te dão dores de cabeça. Não podes desfrutar da felicidade. Se pudéssemos saber o que é a felicidade, teríamos de inventar, então, uma outra palavra para designar um estado em que não houvesse qualquer dor, problema.

      O que se consegue observando uma árvore em flor, o curso de um rio, o galope de um cavalo, será uma paz, leveza, calma. Não consigo chamar-lhe felicidade. A felicidade seria superior a tudo. Todas essas condições num grau máximo e absoluto, incessante. Um estado que não podemos conhecer.

      Eliminar
  10. Percebo, Mark. Mas repara como o teu discurso são só idéias. Idéias de felicidade. E, sob o efeito psicotrópico, já experienciei um estado de felicidade plena, divina, sobre-humana (certamente por indução física de hormonas de felicidade), sem tempo (passado ou futuro) ou preocupações - onde (utilizando uma expressão de um amigo) até o respirar é pesado (porque há uma desaceleração do ritmo cardíaco e respiratório induzido) diante de tão inefável leveza - o nirvana - senti mesmo cada átomo do corpo fundindo-se com o universo e a compreensão suprema da verdade. Dizem que os mestres orientais pela meditação alcançam esse estado. Eu tentei infrutiferamente e segui várias filosofias. Mas não trocaria esse estado pela felicidade de que eu e a Margarida falamos. Eu julgo que a infelicidade pode ter uma causa física, hormonal/quimica e que corpo e cérebro trabalham em conjunto. O reino das ideias não produz felicidade. Produz lógica, razão, mas lá está, são só ideias. Está aqui uma tertúlia interessante no teu post :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Alex, todos os discursos são ideias, ideias de cada um. Este será a minha "ideia" sobre a felicidade, como cada um terá a sua "ideia".

      Sob o efeito de psicotrópico experimentaste o delírio próprio das drogas, Alex, não a felicidade. Ainda não conseguiste captar o que penso acerca da felicidade. :)

      Como não conhecemos a felicidade, não conhecemos a infelicidade. Sabemos o que é "estar mal", porque é a nossa condição. Estamos mal diariamente. Basta caminhares muito e ficares com dor no pé para sentires o incómodo.

      Sim, está. Perdoa responder só agora, mas estava em aulas. :)

      Eliminar
  11. É sempre um tema em aberto e tem muito a ver com os estados psicológicos individuais, Mark, mas tenho para mim que felicidade é o instante, aquilo que no momento nos proporciona a maior alegria, gozo, contemplação, bem-estar... Nesse momento de um abraço, de ver um ilme, de sentir o calor daas chamas a crepitarem enquanto vês um filme em casa aconchegado no sofá ou saboreias um gelado, são momentos de felicidade... porque depois ela vai diminuir de intensidade, sem problema por isso, mas detém-se nos momentos 8que podem ser mais ou menos longos, claros)... escrevi há pouco tempo sobre isso "Indice Medio de Felicidade"...

    Gosto de te ler :)

    Hugs

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. É o teu ideal de felicidade, Daniel. :) Mas, como referi acima, para mim esses momentos são apenas momentos bons, agradáveis, deliciosos. A felicidade seria muito mais do que isso, ou isso sem interrupções. O bem-estar absoluto que não conhece a dor, o sofrimento, a angústia. Se pode diminuir, já não poderá ser felicidade. No entanto, é uma perspectiva interessante. Fazes a felicidade incidir sobre os momentos e ela seria como que o auge do prazer em cada um deles.

      Obrigado. :)

      abraço.

      Eliminar
  12. Exacto, Mark! Fazer a felicidade incidir sobre os momentos sendo ela o auge de cada um deles, mas não se trata do meu ideal de felicidade; é uma questão conceptual, porque a temas (à felicidade) como algo de idílico e muitas vezes ela está nesses momentos, numa vid simples e alegre, feliz (lá está), e não em êxtases contínuos que, de resto, seriam impossíveis à condição humana... Estarmos felizes com o que temos, com o que somos, é já uma maneira de ser feliz :)

    You're welcome, Mark :)

    Um abraço

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Sendo, para mim, um estado absoluto, será, se preferires, esse "êxtase contínuo". Eu considero-a mesmo impossível à condição humana, daí que procure definir tudo o que vulgarmente consideramos "a felicidade". É conceptual.

      Perdoa a resposta tardia. Vim responder a outro comentário e dei com este. Esqueci-me de responder no próprio dia.

      um abraço, Daniel. :)

      Eliminar
  13. Eu acho que a felicidade depende de cada um de nós, a ti por exemplo acrescentas-te a «paz» e a «tranquilidade», eu sinceramente arriscaria um pouco mais de aventura e incerteza, enfim certos sentimentos negativos têm na sua versão positiva prazeres exuberantes. E claro isto tudo com a paixão que para mim é a base de tudo.
    Em relação às versões dos sentimentos em que se calhar necessito dum exemplo: acho que o desejo/sonho no seu sentido de «felicidade» tem como negativo a melancolia.

    O teu comentário ao meu texto e a tua maneira de escrever fazem-me lembrar de certa forma os sentimentos expressados por Mahler no seguinte excerto duma sinfonia dele:
    https://www.youtube.com/watch?v=ag18Np_JInY

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Cada um terá o seu conceito, é certo. Este é o meu. Mas concordo contigo: talvez a felicidade necessite também de um pouco de aventura e audácia. Tendo a completá-la apenas com estados de bem-estar idílicos.

      A melancolia, oh! Essa velha amiga...

      Obrigado pelo excerto. :)

      Eliminar
    2. Podemos ter as nossas escolhas mas o conceito é o mesmo que é aquilo que tu disseste: ausência de dor e eu acrescento o máximo do prazer!
      Eu por exemplo prefeito fazer uma escolha infeliz: prefiro ser infeliz sofrendo do que viver sem prazer mesmo não tendo dor, não fui feito para ataraxias.
      Então somos dois pois a melancolia é a minha melhor amiga também!!

      Eliminar

Um pouco da vossa magia... :)