13 de novembro de 2020

Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC).

 

   Há uns anos, foi-me diagnosticada uma forma de TOC. O transtorno obsessivo-compulsivo está longe de ser uma doença romantizada, como frequentemente é retratado. Comporta imenso sofrimento aos que dele padecem e a quem com os seus portadores vive. Condiciona, como quaisquer transtornos, o dia-a-dia; provoca alterações comportamentais que assumem contornos de verdadeiros desvios à norma. De igual modo, o TOC não consiste apenas em lavar as mãos a todo o momento, ou em alinhar milimetricamente os lápis que estão dispostos sobre uma secretária. Pode englobar tudo isso, mas não apenas.

  No meu caso, comecei a manifestar os primeiros sintomas de TOC no início da adolescência. O que começou por ser um cuidado redobrado, acrescido, se quiserem, com os meus pertences, passou a ser um inimigo com o qual me debatia constantemente. Em mim, o TOC fez com que não conseguisse lidar com o desgaste normal dos pertences, aparelhos tecnológicos, etc, pelo uso. Passo a explicar com um exemplo: se um de nós deixar cair o telemóvel ao chão, naturalmente fica zangado. Apanha-o, verifica os estragos; se funcionar, ainda que com pequenos ou insignificantes riscos, amolgadelas, tanto melhor. Não se pensa mais nisso. Não em mim. O menor risco fazia com que tivesse de o fazer desaparecer, fosse como fosse. A páginas tantas, já nem utilizava os meus pertences com receio de os estragar; não folheava um livro para não correr o risco de rasgar uma página. Conseguem imaginá-lo? Provavelmente não.

   Um fio puxado na roupa, uma tinta que se desvanece pelo toque continuado dos dedos, uma sujidade inesperada nuns sapatos. Tudo me fazia reagir desproporcionalmente. Ver quaisquer objectos meus deteriorados era como atingir-me directamente.

    Procurei ajuda, que passa sobretudo pela terapia. Estou melhor, bem melhor do que no auge dos meus quinze anos. Recuei no tempo e consegui ao menos ter um vislumbre do episódio que poderá ter despoletado este transtorno em mim: quando teria quatro, cinco, seis anos, o neto de uma senhora em quem era confiado até os meus pais regressarem estragou-me deliberadamente um afia-lápis que a minha mãe me comprara. Aquele afia-lápis pertencia a um conjunto de três: um vermelho, um verde e um amarelo. Tinham o formato de baldinhos de tinta, em que o pincel, uma peça à parte, terminava numa borracha. Foi exactamente o cabo desse pincel que o miúdo inseriu no afia, fazendo-o rodar. Estragou-mo. Quando mo devolveu, lembro-me de os comparar, aquele, estragado, com os outros, e de ficar perturbado, a ponto de ainda subsistir na minha memória dito evento. Estará aí, direi eu, a génese deste meu, digamos, problema.

   Mais recentemente, passei a preocupar-me excessivamente com a limpeza da casa. Ver um pêlo do cão no chão é o suficiente para que corra a limpar. À custa de um cuidado constante, não há pêlo do meu cão no chão. Os meus cuidados com a limpeza da casa vão além do comum, sei-o; entretanto, não é algo que possa evitar, e atribuo-o logo à minha condição. 

  O TOC não tem cura. Aprendemos a viver com ele e a minorar os seus efeitos. Esta é a minha experiência. Não assumam que o têm sem um correcto diagnóstico médico. 

2 comentários:

  1. Fizeste me lembrar aquele filme "dormindo com o inimigo" com a julia roberts

    Abraço amigo e cuida te

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    1. Sim, mas aí seria outra coisa, digo eu, como psicopatia.

      Um abraço.

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