6 de abril de 2018

Cinema Paradiso (1988).


   Começou, em várias salas do país, a décima primeira edição do festival de cinema italiano. No El Corte Inglés, com Cinema Paradiso, uma das obras-primas do cinema italiano mais contemporâneo, considerando, e daí a sua reexibição, que o filme perfaz trinta anos desde que estreou.

   Uma vez mais, ainda não havia visto o filme. Conhecia, vagamente, a fenomenal banda sonora de Ennio Morricone, sobretudo o tema Love Theme for Nata, que, se ainda não viram, acompanha o protagonista nos instantes finais, quando assiste à bobina que herdou, por assim dizer, com todas as cenas de beijos que Alfredo se via obrigado a cortar quando projectava os filmes no Cinema Paradiso, única distracção da pequena vila siciliana de Giancaldo; verdadeiro - e único - polo cultural da cidade, onde ricos e menos ricos se juntavam para rir, chorar, gritar com os sucessos cinematográficos da época, a maioria deles oriundos da longínqua América, de uma realidade tão distante das suas próprias. Como ouvi na pequena introdução ao filme, depois do pequeno cocktail no piso superior do cinema, « o cinema dá-nos o que a vida nos tira ». Eu arriscar-me-ia a ir mais longe: dá-nos o que a vida não nos permite.

   Os dias, em Giancaldo, são passados em torno do Paradiso. É por lá que cresce o protagonista, entre brincadeiras e algumas responsabilidades, as desilusões de um primeiro amor nunca esquecido, tomando o gosto pelo cinema. O filme é tão antigo - 30 anos é tempo - que seria despropositado, para usar um eufemismo, deter-me demasiado na estória, que a maioria estará cansada de conhecer. O que mais ressalta, do filme, é a magia. Cinema Paradiso fez-me sonhar durante as suas duas horas, que passaram tão depressa. Sonhar não sei bem com o quê. Teve uma capacidade impressionante de me comover, porque a narrativa é nostálgica, triste, polvilhada com momentos de humor que não nos afastam do essencial.

   Por mais que Totó fugisse de Giancaldo, acabaria por se aperceber de que a vida pouco sentido faz - e ele vagueava, entre casos fortuitos com várias mulheres - sem a força de uma amizade sincera, justamente a que teve, na infância, com Alfredo, o velho projeccionista de cinema, quase um pai de substituição, que o seu morrera na Grande Guerra - o filme é ambientado nos anos 50, no sul da Itália rural, pós-Mussolini. Totó viveu sempre entre as memórias da quase fatalidade que se abatia sobre os moradores da vila, as suas raízes, e a vida que construiu para si, em Roma. Um dualismo visível no final. A parte que há de si em Giancaldo morre com o Paradiso. Resta apenas a vaga impressão dos seus conterrâneos.

   Há incríveis paralelismos com a sociedade portuguesa. Ao observarmos aquelas personagens e o  seu habitat, o modo de agir (os espancamentos na escola, pelos professores...), as indumentárias, conseguimos ver as semelhanças com o Portugal de Oliveira Salazar, carente de modernidade, órfão de liberdade, refém do moralismo religioso. É, a páginas tantas, uma realidade tão próxima da que vivemos há décadas, e da qual os mais antigos ainda terão memórias. Os anos 70 e 80, com a evolução tecnológica, ditaram a morte do Cinema Paradiso, que acabaria por ser demolido.

   Giuseppe Tornatore conta-nos, aqui, uma estória claramente autobiográfica. Sem o prever, criou um clássico do cinema, intemporal. A sala de cinema - as duas salas, aliás - estavam completamente abarrotadas, com avós, pais e filhos. É um filme intergeracional. Um fracasso aquando da sua exibição primeira nos cinemas italianos, foi com Cannes que atingiu a glória. Actualmente, e cada vez mais, é um filme de culto. Figura entre os meus preferidos de sempre.

2 comentários:

  1. Respostas
    1. Se ainda não o viste, ou ainda que o tenhas visto, sim, recomendo que vás, porque a experiência no cinema é totalmente diferente.

      Um abraço.

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