18 de maio de 2019

Extremely wicked, shockingly evil and vile.


   Não tenho boas recordações dos filmes com o Zac Efron. Vi um, uma vez, do qual não me recordo o título, e aquilo não (lhe) correu nada bem - sim, eu sei que podia ir ao Google pesquisar, mas não me apetece. Claro que o moço me despertou a atenção, na altura, e pouco mais.

   "Extremely wicked, shockingly evil and vile". Foi com esta afirmação que o juiz presidente de um tribunal da Florida se referiu a Ted Bundy, o serial killer americano, um dos mais conhecidos e sanguinários de sempre, que ceifou a vida a dezenas de raparigas. Tudo se passou nos anos 70, e Bundy, após uma série de interposições de recursos, acabou na cadeira eléctrica, em 1989, quase uma década depois do julgamento. Julgamento esse que se tornou famoso porque o assassino em série acabou por repudiar o advogado, assumindo ele o comando da sua própria defesa. Nas alegações finais, o juiz chegou ao ponto de assumir que gostaria de o ter conhecido noutras circunstâncias, e que Bundy, que acabou por se formar em Direito na cadeia, teria dado um excelente advogado. Um psicopata.

   Zac Efron esteve bem na pele de Bundy. O mesmo já não poderei dizer da sua parceira de cena. Lily Collins, que quis tanto representar a parceira sofrida que mais pareceu uma múmia. Seguramente que faria bem de múmia.




   Gostaria de salientar que o realizador contornou as cenas macabras, excepto no final. Quis mostrar a faceta mais humana de Ted, com a companheira, com a filha da companheira, e as suas inusitadas fugas dos presídios. Foi um retrato humanizado do criminoso, pérfido criminoso, que a todos enganava com o seu comportamento ordeiro e cortês, aliás, algo muito habitual em pessoas com estes transtornos.

   « Few people have the imagination for reality », como disse Goethe. Efectivamente, casos destes escapam à nossa capacidade fantasiosa. Conseguimos sempre, enquanto pessoas, ir além daquilo que o imaginário pode conceber.

13 de maio de 2019

Plaire, aimer et courir vite.


  Há um mês que não punha os pés no cinema. As aulas não me têm permitido e as frequências começam já esta semana - a propósito, não estranhem alguma ausência nas publicações, nas respostas aos comentários e nas visitas aos seus espaços. Não vou ter tempo para nada até ao final do mês.

  Plaire, aimer et courir vite, em português, "Agradar, amar e correr depressa", é o típico filme que aborda a temática gay. Não vão aos anos 80, ficam-se pelos 90, também no auge da epidemia de HIV / SIDA. E é neste contexto que um romancista (Pierre Deladonchamps) conhece um miúdo, deixando-se apaixonar, o que só percebemos para o fim, que durante o filme há uma sucessão de rapazes e de engates que nos deixa confusos.

  O filme acaba mal (ohhhhhhhh!), mas vale pela fotografia, em Paris, pelo enquadramento romântico-cultural e para quem gosta do submundo gay, além daquele processo inicial de conquista entre dois homens. O resto é realmente mais do mesmo. A abordagem poderá ser outra, mas não há, efectivamente, nada que o torne inovador. Aliás, diga-se de passagem, o "acabar mal" já é habitual em filmes gay, sobretudo quando envolvem o HIV / SIDA. Não seria fácil acabar bem no dealbar dos anos 90.


   O que verdadeiramente temos é um à-vontade com uma característica típica do mundo gay: a promiscuidade. Sabemo-lo. Só falta que tenhamos coragem de o dizer. E o realizador soube deixá-lo evidente sem recorrer quase à pornografia. Ficou tudo devidamente tratado de forma, como direi, composta, sem nos provocar constrangimentos na sala de cinema. Acima de tudo, há uma inocência, uma candura e a tal conquista que são tão bonitas.

   Os retratos crus do estágio final da infecção também nos são costumeiros nestes filmes. Aqui, uma vez mais, não somos poupados àquela realidade tão dolorosa física e emocionalmente, pelo impacto que tinha numa comunidade já de si tão discriminada. Um lado preconceituoso que o realizador, Cristophe Honoré, quis esbater com a aparente normalidade com que o filho do protagonista encarava a homossexualidade do progenitor. São quase pequenos hiatos do presente transpostos para trinta anos atrás.

   Há tempo para termos uma visão diferente daquilo que o sexo deve simbolizar nas nossas vidas. A dado momento, Arthur (Vincent Lacoste), já tomado pelos efeitos do álcool, que é quando as verdades emergem, faz-nos pensar se fará sentido nos reprimirmos tanto, afinal, o sexo, o desejo e até os actos lascivos menos reflectidos fazem parte da vertiginosa aventura que é viver tendo hormonas. Para quê tanta repressão, segundo os personagens, se a vida, no fundo, é uma banheira sem fundo de aflições?

6 de maio de 2019

Politiquices.


   Uma vez mais, assistimos a um fim-de-semana verdadeiramente ridículo da vida político-partidária nacional. E não sei se o digo mais pela eventual aliança do PSD e do CDS com o PCP e com o BE, que afinal não terá lugar, ou pela manobra estratégica do PS, na pessoa de António Costa. O que resulta disto tudo é mais uma descredibilização dos partidos e dos seus dirigentes junto do eleitorado, em ano fecundo em eleições. Um madeirense, por exemplo, terá três, entre as europeias, as legislativas e as regionais.

   António Costa conseguiu dar xeque-mate a Rio e a Cristas, que saem totalmente desmoralizados. Quer o Governo caísse, quer não, e não cairá, ao que parece, a direita - que até me custa chamar direita àquilo - perderá votos. Em ano de eleições, as pessoas não perdoariam uma crise política inesperada, com antecipação de legislativas para o Verão, quando estamos na recta final do término da legislatura. Poderia comprometer uma solução governativa que vem de 2015, e que agora, por birrice, deitaria a perder o esforço na recuperação da economia e do bem-estar das famílias. Não havendo demissão do Governo, tão-pouco perdoarão a manobra cínica do PSD e do CDS, e acredito que já se ressentirão nas europeias deste mês.

   No fundo, o PSD e o CDS defendem e reconhecem que não estão criadas as condições para repor aos professores o que lhes foi tirado nestes nove anos. E atiram a bola, passo a expressão, para o Governo. É um recuo, um recuo travestido de compenetração e seriedade, e o povo, que é o grande julgador destas coisas, retirará as suas ilações. Eu já tirei as minhas, e o voto nulo assemelha-se-me uma opção mui razoável em todos os actos eleitorais, ao menos nos seguintes. Esta política baixa, oportunista, rasteira, irrita-me. O PS, e eu recordo que apoiei esta solução governativa quando surgiu, porque o neoliberalismo de 2011 a 2015 deixou-me farto, até soube governar para as pessoas, mas o escândalo familygate, outra vergonha, deixou-o desnorteado. Costa quer salvar as europeias, que sabia em perigo pelo familygate, navegando a todo o vapor rumo à maioria absoluta de Outubro, a ver se se livra daqueles dois pesos pouco mortos que são o PCP e o BE.

   Estas manobras de uns e de outros deixam-me perplexo. De Cristas, devo dizer, não esperava muito mais, que, embora não pareça, ainda anda a apalpar terreno na política; Rio, depois de ter andado pela Câmara do Porto, de ter enfrentado a fúria de portuenses e de portistas (era persona non grata para o Futebol Clube do Porto), ainda se permite a ser completamente nocauteado, pegando numa expressão brasileira, por Costa. Costa que, aqui, manteve a coerência, diga-se: efectivamente, todos os portugueses sofreram cortes, e repor tudo o que os professores reivindicam, e que até lhes é devido, seria economicamente intolerável. Trata-se de uma ideia pura e crua de equidade. Aliás, é duvidoso que o PSD e o CDS se importassem tanto com os direitos dos professores se estivessem no poder. Há, ainda, como se verifica, uma dose enormíssima de hipocrisia que, juntada ao oportunismo, só torna tudo ainda mais lastimável. São muitos actos eleitorais, desde logo as europeias, que já sabemos que, com as autárquicas, servem sempre de cartão amarelo, ou não, ao governo, e depois as legislativas. Sente-se esse nervoso entre eles, expectável: há cabeças em jogo. A de Rio será a primeira a rolar. O ataque à liderança do PSD dar-se-á no início do próximo ano, não duvido, se o PS ganhar as eleições, o que, à distância de cinco meses, a menos que haja uma hecatombe, não me parece contornável - com esta direita, ainda menos.

    E a procissão nem saiu do adro.

3 de maio de 2019

XI Aniversário.


   Estava aqui a pensar sobre o que poderia dizer num décimo primeiro aniversário do blogue que ainda não tenha sido dito. E dei-me conta de que pouco. São onze anos, desde aquele 3 de Maio de 2008. Quando caio em mim, 2008, de facto, começa a ficar distante.

   Em rigor, o blogue está no seu ponto de rebuçado. Não me restrinjo a publicar crónicas de história ou de política, e não me reprimo por falar de música ou de cinema. No ano passado, e porque não estudava, senti que estava a levá-lo numa direcção que não me agradava, voltando, de momento, a sentir que encarrilei. Continuo a escrever, independentemente da projecção que venha a ter, ou das reacções. Ainda menos dos comentários. É um exercício de manifestação de opinião imprescindível e irrenunciável, de exteriorização de pensamentos e posicionamentos, que vive alheio ao impacto. Essa é a maior vitória: sobreviver ao retorno. Foi a falta de retorno, acredito, que afastou a muitos dos seus espaços. Ou de reconhecimento... Com mais de mil textos, é a minha plataforma por excelência, onde escrevo sem filtros, sem me poupar às palavras.

   Ser-me-ia fácil, e é até tentador, cair no autologio, como uns e outros que se julgam a última bolacha do pacote na blosgosfera e nada valem. Tenho a consciência de que, quando surgi, vim preencher um lugar inexistente. Não havia nenhum rapaz daquela idade, que eu conhecesse, que se dedicasse a escrever sobre história ou que filosofasse lá à sua maneira, boa ou má. Era tudo imediato. Deixei que a escrita fluísse e cheguei até aqui. Presentemente, este espaço representa um pequeno nicho, cada vez menor, de blogues de opinião que não são mediáticos e que, por isso, ainda são livres. Eu prezo muito a minha liberdade, a que imprimo em cada tecla. E acredito que o pior que poderia sentir seria um condicionamento a essa liberdade, uma autocensura, que tarde ou cedo surge entre quem sente que está permanentemente sob a mira dos detractores ou novos inquisidores.


   Meses atrás, coloquei uma foto de rosto no perfil, e também operei certa mudança na aparência do blogue. Tudo resultou, como expliquei, de uma percepção de que já não faria sentido manter um anonimato que, além do mais, não se coadunava com a realidade. Por outro lado, não havia razão para temer qualquer exposição. E foi, também, o coroar de um processo de amadurecimento que seguirá, estou certo disso. 
   Se tiverem curiosidade, leiam os textos antigos, dos aniversários que estão lá atrás. Encontrarão curiosidades engraçadas, detalhes, explicações e, principalmente, essa evolução entre quem fui e quem sou. Eu já o fiz, e ri-me.

   Creio que disse tudo o que esperava dizer. Obrigado por me acompanharem. Continuaremos cá, contra ventos e marés. É, fui dramático. Este texto é, de longe, dos mais animadores entre todos os que escrevi e que assinalam aniversários do blogue.

Com carinho,
Mark