28 de Setembro de 2014

The Normal Heart


   Há dias, acordei pela manhã, cedo, muito cedo, e resolvi ligar o televisor. Raramente o faço, como vou dando conta por aqui. A ponto de o ligar apenas para que funcione por alguns instantes. Mudámos de televisor para um LCD, por estética, apenas, daí que não seja agradável ter uma má surpresa...

   Passei pelos canais que me prendem a pouca atenção. Os noticiosos internacionais, nacionais, e, claro está, os canais premium de filmes. A mãe gosta de ver uns filmes, daí tê-los colocado. Dei, então, com um filme de enredo excepcional, numa realidade que está surpreendentemente perto. O Normal Heart, que vou explorar tentando não desvendar nada de substancial para quem, evidentemente, ainda não assistiu.

   O filme desenrola-se em Nova Iorque, nos meados dos anos oitenta do século passado, no momento exacto em que o cancro gay, a SIDA, como era conhecida inicialmente, começava a devastar a comunidade homossexual norte-americana, tornando-se um flagelo incontrolável e desconhecido. Todos os dias, o número de vítimas aumentava, provocando o caos e recrudescendo o preconceito.

    Entre a luta de um activista no sentido de obter apoios contra o que considerava ser uma epidemia, surge uma história de amor com um jornalista do The New York Times, aonde se dirigira para procurar ajuda esclarecida. Ned, encarnado por Mark Ruffalo, apaixona-se por um jovem jornalista, Felix Turner (Matt Bomer), décadas mais novo. Reencontram-se (na medida em que se conheciam de outras paragens...) e vivem uma bela e tórrida relação fugaz.

  Considero este filme muito bem conseguido. A crítica, aliás, foi unânime no rol de elogios. A visão tenebrosa de um doente de SIDA, passando o estágio da seropositividade, não foi esquecida. Entramos na realidade de alguém que sabe que os seus dias se findam em pouco, na degradação física, na terrível decadência provocada pelas doenças oportunistas que minam organismos tão fragilizados. Tudo esteve presente num ambiente eighties, com direito às músicas que perpetuaram uma das décadas emblemáticas do século XX.

   Não será um filme próprio para as sete da manhã. Marcou o resto do dia pelo impacto visual. É depressivo, demolidoramente triste. A junção da discriminação pré-existente com a que surgiu pela doença, a homofobia interna de homossexuais que negavam a sua orientação e, nesse sentido, qualquer probabilidade de contrair a dita enfermidade gay, e o silêncio dos políticos e da sociedade, no geral, isolaram uma comunidade que vinha se afirmando a custo. E os que continuaram a sua luta, quando já se desconfiava de que as relações sexuais desprotegidas eram a fonte de contágio epidémico, rejeitando reprimir uma sexualidade censurada desde a infância pela pressão familiar e social, aumentaram exponencialmente o número de vítimas mortais.

   Deixo-vos uma das cenas (há esta cena em melhor qualidade no Youtube, mas quem postou desactivou a possibilidade de incorporar, logo, encontrei este vídeo, que tem o mesmo conteúdo, em qualidade menor).


      

23 de Setembro de 2014

O reinício.


    As aulas começam na próxima segunda-feira. A maioria dos meus colegas iniciou as suas no dia quinze. Optaram pelo mestrado profissionalizante, procurando aptidões para a aventura que é lançar-se no mercado laboral. Preferi seguir o caminho mais óbvio no meu caso, o mestrado científico, atendendo ao conselho de alguns professores e à minha intuição, que pende mais para a área da investigação, o que poderá proporcionar-me um futuro fora do mundo jurídico, contudo, aprofundando conhecimentos. Ainda me torno um penalista...

   Estive, na sexta e ontem, na faculdade. Fui surpreendido, à chegada, com um odor a churrasco. Ocuparam um dos jardins para uma festa de horror. Uma multidão. Música alta. Os porcos eram assados no espeto, inteiros, à medida em que uns homens, que presumo contratados para o efeito, cortavam a carne e a serviam em bifanas. Os recipientes com sangue dos animais, ao lado dos grelhadores, induziram-me o vómito e o pavor. Somos assustadoramente selvagens.

    Conversei com alguns colegas. Fiquei feliz por vê-los. Estarão quase todos juntos na saga que se inicia. Nunca tivemos uma relação próxima, de amizade. Por meados do segundo ano da licenciatura, afastei-me mais ou menos de todos. O contacto tornou-se circunstancial, casual. Não havia empatia. Desconheço quem estará no mestrado que escolhi. Não serão muitos. O número é reduzido. Desconfio de alguns/mas que tiveram um percurso em tudo semelhante ao meu. Estarei entre pares.

    À saída, deparei-me com a S., uma colega invisual. Não raras vezes ficava só nos anfiteatros, pois a coragem, ou a falta dela, impedia-na de pedir a alguém que a acompanhasse até ao átrio principal ou mesmo à entrada. Demorando uma eternidade a arrumar os meus pertences na mala, quase sempre a ajudava no percurso, segurando-a pelo braço. Até que ela reprovou e, de certo modo, afastámo-nos. Mas, nos corredores, volta e meia via-a e lá trocávamos uns dedos de prosa. Como ontem à noite. Está feliz por ter mudado para o turno nocturno. "As pessoas são mais humanas", diz. Não deixei de sorrir, com manifesto desapontamento, perante as suas expectativas. Em boa verdade, um sujeito disponibilizou-se em ajudá-la, até que os interpelei e a levei pelo que faltava no caminho. Estava à espera da mãe.

     Vi o casal de namorados cujo amor vi despontar. Dois rapazes. Percebi a cumplicidade quando não havia mais do que tímidos sinais, o ano passado, assistindo às aulas do quarto ano (noite).
    Desceram a escadaria com visível encantamento. Se os sorrisos denunciassem, seriam detidos. Sob as luzes alaranjadas de uma avenida surpreendentemente cheia de vida, seguiram em direcção ao metro, lado a lado, indiferentes à chuva miudinha que se precipitava na calçada brilhante e húmida.

- Vejo duas pessoas juntas, S., mas, tal como tu, nada vejo. Ou não vejo porque os meus olhos são incapazes de ver?

- Vejo mais do que pensas. Eu sinto.

     Fazia-se tarde. Ficaria em segurança no meio de tantas caras conhecidas. Beijei-a na cabeça e corri pela chuva, transformada em aguaceiro.

18 de Setembro de 2014

Scotland.


   O princípio da autodeterminação dos povos é um dos corolários das Nações Unidas. Com o final da II Guerra Mundial e a consciencialização de que o colonialismo chegara ao fim, as potências europeias apressaram-se em reconhecer a independência dos seus domínios pelos continentes africano e asiático, sobretudo, com raras excepções, como Portugal. O colonialismo não terminou. Manteve-se, desta feita com a nefasta neocolonização americana e soviética dos territórios até então dependentes.

   A realidade escocesa é substancialmente diferente. A Escócia era um reino independente em relação à Inglaterra até o destino as cruzar. Com o desaparecimento de Isabel I, a célebre Rainha Virgem, rainha de Inglaterra e principal obreira da hegemonia britânica nos séculos que se seguiriam, após um processo algo turbulento, Jaime VI da Escócia é chamado ao trono inglês, sucedendo a Isabel, que não deixara descendentes. Jaime e Isabel eram primos direitos por via materna e paterna, respectivamente. Desengane-se quem pense que houve, então, uma união entre os dois reinos. Formalmente, a Escócia e a Inglaterra mantiveram o seu status. Dois reinos distintos compartilhando o mesmo monarca. Jaime VI passou a reinar em Inglaterra como Jaime I. Um regime de união pessoal, em tudo semelhante ao que tivemos na Península Ibérica no período que mediou o final do século XVI e meados do séculos XVII (1580 - 1640). Contudo, contrariamente ao que sucederia na península, em que a união pessoal se dissolveria após sessenta longos anos seguidos de vinte e oito de duras batalhas, a Escócia e a Inglaterra, já nos inícios do século XVIII e em pleno reinado da rainha Ana, decidir-se-iam pela união real, por fim, formando o Reino da Grã-Bretanha.

   Actualmente, a Escócia goza de amplos privilégios no Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte, embora, na prática, esteja sujeita a fortes restrições à sua autonomia por parte do parlamento inglês e da coroa, aos quais se subordina em variadíssimas matérias.
  O que a História tem demonstrado é que o sentimento de pertença, de individualidade que distingue os sujeitos, não se esbate com o passar dos séculos. Há nações históricas que assim se reconhecem e que de forma alguma se revêem nos poderes centralistas, unionistas. Não só no Reino Unido como, também pela Europa, e referindo como exemplo, em Espanha. A saudável diferença é que o Reino Unido, honrando a sua longa tradição democrática, deu a voz ao povo escocês, que hoje decidirá o futuro da Escócia. Com mais ou menos pressão política e / ou económica, e ainda com promessas de reforço da autonomia seguindo no Reino, a última palavra será da população, dos eleitores. O governo espanhol, preso à letra da sua Constituição escrita, rígida, formal, que não será mais do que uma mera desculpa, reprime a voz nacionalista dos catalães, de tudo fazendo para perpetuar uma união forçada e forjada. É a tónica dos sucessivos governos espanhóis, pós-transição, apoiados pelo povo. Consideram Gibraltar um reduto colonial - o último da Europa! - em seu território, mantendo, porém, Ceuta e Melilla, geograficamente no continente africano, naturalmente cidades indissociáveis de Marrocos e da sua integridade enquanto Estado soberano, cujas pretensões desde sempre apoiei. E Olivença. Questões que abordei neste espaço e que estão disponíveis.

    Não deixarei de confessar um apego maior à causa catalã do que à escocesa. Há uma dívida à Catalunha que Portugal só poderá pagar com um apoio convicto e perene, enfrentando os temores económicos de uma afronta àquele que é o seu maior parceiro económico. A sublevação catalã, em 1640, e a opção de Filipe III em sufocá-la, em detrimento do quadro instável que se vivia em Portugal, permitiu que restaurássemos um português no trono, precisamente o futuro D. João IV. Indirectamente, e ainda que não o prevendo, tudo devemos aos amigos catalães, que resistiram, bem como os galegos, irmãos, os bascos, e demais povos de Espanha, ao genocídio cultural imposto por Madrid.

   A manutenção da hipotética Escócia independente, ou da Catalunha, no seio de uma União Europeia insegura, arbitrária, seria complicada, tendo em conta que contraria os ímpetos federalistas que estão presentes na União desde o seu aparecimento.

   Em processos limpos e totalmente democráticos, sem boicotes e fraudes, que se dê a voz ao povo, real detentor da soberania e do seu futuro.

15 de Setembro de 2014

O Eu.


   Ando a revisitar doutrinas que conheci há anos, chegando-me por livros que li ainda sem a bagagem cultural e a idade necessárias para compreender as suas essências. Uma delas é o existencialismo, não o de Sartre, embora coincida. Kierkegaard é um autor que me fascina pelas suas ideias. Fui surpreendido com a inclusão de parte da sua obra na disciplina de Direito Constitucional, inserida nos planos de estudo de um dos melhores professores que já tive e com quem pude aprender muito do que sei na área do direito público.

    O contacto prévio com Kierkegaard, anos antes, ajudou a que estivesse familiarizado com as suas teorias, o que me permitiu certa ligeireza e à-vontade no modo com que o abordei nas provas escritas.

   Somos livres. A liberdade implica responsabilidade, eterno chavão, e angústia. Por podemos escolher, vem a ansiedade. O homem é uma síntese de alma e de corpo sustentada pelo espírito. A angústia é o resultado da relação da liberdade com a culpa. Recusando universalizar os indivíduos na espécie, Kierkegaard defende que cada um de nós existe perante Deus e que foi por cada pessoa que Ele se deixou encarnar, sofreu e morreu. Dotados de liberdade ilimitada, somos uma fusão do infinito, do finito, de temporal e de eterno, de liberdade e de necessidade. O Eu é a liberdade.

    De facto, e tomando-me como exemplo, a escolha envolve angústia. Estamos condenados a ser livres. E há um medo que advém dessa liberdade total.


     Sartre, Jean Paul, surge mais tarde. Houve uma evolução no meu pensamento. E se nunca pusera em causa a existência de Deus, o existencialismo de Sartre não mais é cristão como o de Kierkegaard. 

    Vi-me diante de uma areia desconhecida, movediça e cruelmente verdadeira. Sartre nega Deus, nega deuses, e coloca-nos num patamar de absoluta solidão, continuando a ser livres, talvez ainda mais livres do que na construção de Kierkegaard. Percebo que nascemos, vivemos e morremos sós. Somos livres num mundo desprovido de razão. Um gigante absurdo. Nem sempre o bem vence o mal, como nos ensinam nas fábulas. Retomo a angústia de se optar num mundo sem sentido. Não havendo deuses, não há a quem recorrer no limite. Seremos nós a dar um sentido sem sentido em corpos perecíveis, matéria que se degrada, sujeita às vicissitudes do tempo e das mazelas naturais às quais se somam as que voluntariamente, numa inconsciência consciente, causamos.

     Recusava-me a aceitar o nada, o irracional, o ilógico. Não reconhecendo ao nada o valor da inteligência, que buscava no divino, tudo teria uma origem que não poderia jamais passar pelo surgimento casual e espontâneo do universo. Haveria uma força motriz, precedente, intencional, criadora de todos os mundos e espécies viventes que os habitam. Daí a nossa existência terrestre ser um elo com algo que viria, e que antecederia, latente no inconsciente. Cada vez vejo com mais clarividência de que não é assim. Tudo é o acaso, incluindo o ser humano. Estamos sós perante a não existência de deuses, sós entre nós, cada um consigo.

    Caminharei a passos assustadoramente largos rumo ao ateísmo. Perder Deus será a derradeira etapa de uma descrença progressiva na humanidade e no sentido da vida. E talvez aí, sem o suporte de deuses, encontre o Eu no meio do vazio.