1 de abril de 2015

Primavera.


       O bom tempo chegou, afastando, definitivamente, o cinzentismo próprio da estação fria. A seu tempo virá a chuva ("Abril, águas mil"), o que por si só não basta para que neguemos a luz que beneficia - e em muito - o sul da Europa. As árvores ganham vida, colorindo-se os seus troncos nus de pequenas flores brancas, carregadas de pólen, aguçando o apetite voraz das abelhas que as povoam. A brisa é fresca à noite, contrastando com os dias de temperaturas amenas, por vezes roçando o exagerado, e já dizem que vamos oscilar pelas próximas semanas.

      Um amigo confidenciou-me que os alemães não são tão distantes quanto nos querem dar a parecer. Que a vida em Berlim consegue ser mais dinâmica do que a que temos por cá, considerando que não têm este Sol fantástico de que dispomos. Não indo tão longe, passando la raya, o povo espanhol sai de casa, passeia-se, ri. Pelas ruas de Lisboa vemos jovens, sobretudo. Os mais velhos mantêm-se em casa. As senhoras de idade nas suas lides. Este povo não evolui. Identifico-me com o carácter soturno da dita alma lusitana, mas cansa. Décadas de ditadura que impuseram um estilo de vida sóbrio e discreto deixaram as suas marcas aqui e acolá. Como alguém disse, e ouvi ou li, Salazar morreu há mais de quarenta anos, porém a sua despótica presença e dura herança ainda perduram. Sente-se.

    Saí, sentei-me numa esplanada. Falei e ri. Esqueci-me, por momentos, dos problemas que me perseguem. Passei, num ápice, de rapaz sério, compenetrado, a alguém que só quer estar em paz. E consegui. Depois voltou tudo, sim. Percebi uma realidade tão presente e comentada, tão óbvia, e talvez por isso tão pouco perceptível, acerca dos dias. O ontem tem uma importância relativa. Existiu, fez-se sentir, não o podemos modificar, é certo. O amanhã pertence-nos. Um novo dia tem necessariamente de nos fazer esquecer o anterior. Sendo mau, até agradecemos. "Já passou." Parece evidente, não é? Para mim não o era. É provável que ainda não o seja fixamente; penso nisso, conforta-me, anima-me. É a coragem. Existo, estou vivo, respiro, sinto, observo, sofro, e sei rir. Vi o precipício de perto e não gostei.

       O caminho deve ser este. Ganhei um pouco de tranquilidade. Espero não esporádico. Tenho de ser forte. A ver se consigo chegar a velhinho. E que lá, por fim, não me importa que seja tardiamente!, consiga estar... bem.

28 de março de 2015

Kamikaze.


  A trágica fatalidade que paira sobre a Alemanha provocou o alerta entre as companhias aéreas mundiais. Ao tradicional medo de voar, presente em alguns, junta-se assim a insegurança. O escrutínio feito aos pilotos, todos os testes físicos e psicológicos por que passam revelam-se insuficientes para garantir a tranquilidade nas viagens pelo meio de transporte tido como o mais seguro do mundo.

    Em boa verdade, a maior diferença que encontramos entre os acidentes de aviação e viação diz respeito à ocorrência de uns, mínima, se comparados, e à taxa de mortalidade, com elevado grau de probabilidade de não sobrevivência, a rondar os cem por cento, em caso de desastres envolvendo aviões.

     Sobre o acidente em concreto que ceifou a vida a centena e meia de pessoas, não se compreende como, ainda que escondendo o atestado médico da empresa, a Lufthansa, ninguém percebeu que aquela pessoa estava doente e a precisar de ajuda, acrescendo que era acompanhado, há alguns anos, visto ter um diagnóstico de depressão. Equiparo aqui, com as devidas ressalvas, os casos de agentes da polícia que se suicidam sem que colegas, os que com eles mais convivem de perto, consigam detectar quaisquer mudanças no seu comportamento. 
     Houve indícios. Segundo consta, uma namorada ouviu afirmações suas, dúbias, e tinha conhecimento do tratamento psiquiátrico a que o jovem piloto estava sujeito.

     Tratando-se de episódios isolados, e sendo os pilotos submetidos a testes rigorosos, pouco se pode fazer. A psique humana será fonte de interrogações por mais que a ciência evolua no sentido de a compreender progressivamente melhor. Se tudo pudéssemos detectar a tempo de evitar actos trágicos como este e outros, não existiriam perícias criminais, tribunais, estabelecimentos prisionais; o próprio Direito.

      O que a Lufthansa e as demais companhias áreas podem fazer é reforçar a exigência nas provas que estabelecem para a admissão de pilotos. E todo o staff destas empresas deve aprimorar os sentidos na busca - permanente - de indícios que demonstrem possível ocorrência de perigo para vida de pessoas que culpa alguma têm dos distúrbios que podem afectar qualquer um de nós. Além, como é evidente, de modificar as regras de acesso e permanência nos cockpits, medidas que, ao que tudo indica, já estão a ser tomadas.

      Andreas Lubitz quis que o seu nome ficasse para sempre conhecido. Conseguiu-o. À custa de cento e cinquenta vidas que impediu de poderem dar o conhecer os seus.

25 de março de 2015

CIGNO Awards.


    Ideia gira e original, por que não dizê-lo?, tem agitado a blogosfera. Inspirada nos Oscars da Academia de Hollywood, nem por isso perde o toque de criatividade, aliás, o que me moveu a participar sem pensar duas vezes. Quem está a par do evento saberá que tudo tem sido feito com empenho e seriedade, reforçando a vontade de colaborar.

   Num primeiro momento, a comunidade bloguística foi convidada a indicar blogues de forma a preencher as diversas categorias. Apurados os nomeados, as votações estarão a decorrer até ao dia 24 de Abril. Aos que não estão a par, por desconhecimento ou até relativa indiferença, convido a inteirarem-se do certame.

     Estou nomeado em seis categorias, o que muito me surpreendeu. A todos os que me indicaram, o meu agradecimento público. Fiquei animado ao ter conhecimento de que blogues que aprecio também figuram entre as várias categorias. Com muito mérito.

     Faço um apelo: participem! Votem nos vossos favoritos. Não importa quem ganha ou perde. Não há vencedores ou derrotados. É tudo uma brincadeira que, no fundo, o que pretende é promover a interacção entre blogues, dinamizando a blogosfera. Por outro lado, evidencia um reconhecimento patente no estilo de cada um, próprio e único. Todos somos diferentes.

    A votação decorre aqui. Terão acesso às categorias e respectivos nomeados aqui. Aproveitem e espreitem o blogue, que está muito bem concebido.





20 de março de 2015

Father Figure.


   O dia do pai há muito que perdeu o simbolismo. Há quase tanto tempo quanto o que medeia a época em que da sua parte sentia afecto e estima, e esta, despojada de atenção, de proximidade.
    Pensei que o falecimento do avô nos aproximasse. Poucas palavras trocámos a partir de então, meio sem saber o que dizer, como justificar tanto desconhecimento que se interpôs entre nós. Como vulgarmente se diz, a separação de um casal não tem de implicar um afastamento dos filhos. Entre nós houve esse progressivo desatar dos laços, agravado em muito pela ida do pai para o norte do país, onde assentou há alguns anos.

    Ontem decidi telefonar-lhe. Tomei essa decisão depois da hora do almoço. Lembrei-me do que me têm dito, e com razão, de que o que releva é que, da nossa parte, tenhamos a consciência do dever cumprido. Contudo, sempre achei que o argumento é mais fruto de uma hipocrisia qualquer do que de verdadeiros sentimentos. Se procuramos alguém para que, mais tarde, nada nos seja imputado, não o fazemos libertos dessas farsas. Assim tem sido a minha não-ligação ao pai. Não o procuro porque não sinto apego, vontade de a tudo isto contrariar, recusando-me, também, a ser falso.

   Surpresa das surpresas, o pai ligou-me. No seu dia. Atendi. Falámos. Não lhe disse que já havia programado contactá-lo. Soaria a coincidência provocada, talvez nem acreditasse. Desejei-lhe, e aí sinto alguma culpa, "um feliz dia" (fará sentido um filho que pouco fala com o pai desejar-lhe um feliz dia do pai?). Estivemos algum tempo à conversa. Perguntei pela avó, pelo seu estado. Deprimida, como sempre, quadro agravado pela morte do avô. A família não é muito unida e ela acaba por ficar só. Não fisicamente, que tem pessoas que cuidam dela e da casa; sem os filhos, os netos, presa a recordações que só lhe farão mal. Daí que pondere voltar para Lisboa, levá-la para junto de si ou mudar-se para lá.

      Ter o pai por cá seria bom. Provocaria uma aproximação. Ou não. Também essa anseio sentida. E não o será. As circunstância irão favorecer o reatar da relação. Nada mais. Não há empenho da sua ou da minha parte. Tudo demasiado... artificial.

      A ausência do avô fez com que percebesse, pela primeira vez, que não somos eternos. E que o tempo se esgota. Eu penso nas pessoas, não consigo deixar ir. Ainda que não as procure, frequentemente estão - quando não sempre - no meu pensamento. Consigo com isso mantê-las por perto. E são muitas. O pai é uma delas.

     Sou impressionável. Vivo em memórias e no que projecto para um futuro que não chega. Que nunca chegará.