29 de maio de 2017

Mil.


   Pensei em se deveria assinalar o feito. Nada de extraordinário. Trata-se de um patamar sem qualquer importância. Eu atribuo à estética do número. 1000. É redondinho. Acresceu um dígito. Esta é, então, a milésima publicação do blogue, que terá, seguramente, mais textos do que fotos ou vídeos. Orgulho-me disso. São centenas de artigos, de crónicas e de alguns ensaios (o possível num blogue) originais. Será interessante, daqui a uns aninhos, compilá-los numa obra qualquer. Lá para os quarenta, cinquenta, que é quando dizem que atingimos a maturidade. Como presumo que estamos sempre em constante aprendizagem, acredito que serei um tipo interessante daqui a vinte anos.

    Uma tarde molhada, que inviabilizou por completo poder assistir a um concerto dos Clã, que adoro ( « devia ser como no cinema, a língua inglesa fica sempre bem, e nunca atraiçoa ninguém » ). Com o percalço da chuva, não deixou por isso de ser agradável. Visitei a exposição de Almada Negreiros, patente na Gulbenkian até dia quatro do mês que vem, uma visita que andei a protelar. Como referi numa outra plataforma, vale bem a pena. São dois pisos de telas e esboços, bem divididos e devidamente identificados com as legendas. É um espólio numeroso. Exige calma e paciência, até pelo aglomerado que se gera. Foi das visitas de que mais gostei. O amigo que me acompanhou despachou-se prontamente, enquanto que eu me demorei o tempo suficiente. Vi tudo com atenção.

    Almada Negreiros foi um artista extraordinário, multifacetado até na pintura. A determinado momento, a sua versatilidade enquanto pintor reportou-me aos heterónimos de Fernando Pessoa, com quem, aliás, privou de perto. Enquadrando-o no Modernismo português, Almada Negreiros inspirou-se nas correntes europeias e em nomes maiores das artes plásticas espanholas. Morou em Madrid, tendo essa estadia se reflectido numa parte considerável do seu legado.

    Deixo-vos algumas fotos, o que não é menos caricato por constarem numa publicação em que destaco outras novecentas e noventa e nove praticamente sem elas.




           


25 de maio de 2017

Portugal está na moda.


   Já li esta frase algures, esta semana, e achei curiosa. Não sei até que ponto estaremos na moda, mas estamos a viver momentos de optimismo, sem euforia. O Presidente da República disse, há um dia ou dois, que temia que a manifesta recuperação económica levasse os portugueses a um estado de alienação. Até ao momento, não o sinto. Estamos, é certo, a sentir emoções inéditas. No desporto e na música, jogamos cartas; temos um alto dignitário no cargo de maior relevo entre as organizações internacionais; após décadas de marasmo e de anos de pesados sacríficos, vislumbramos a saída da crise, constatamos o crescimento económico e até no turismo, a diminuição do desemprego, o aumento dos salários e das pensões. A última boa notícia prende-se à recomendação da Comissão Europeia para que o Conselho da União Europeia retire o país do Procedimento por Défice Excessivo, o que acarretaria, ao menos na psique nacional, um alívio. A decisão está para breve.

   Creio que, enquanto colectividade, estamos a recuperar algum do amor próprio perdido. O português médio subvaloriza-se. Temos uma alma maior do que o corpo. Demonstrámos, pela história, feitos heróicos, soberbas façanhas. Nos últimos anos, convenceram-nos de que não éramos bem europeus, e que não poderíamos mais viver como tal. Aliás, a Europa sempre nos foi meio estranha. Só começámos a olhá-la quando nos afastámos do mundo. Jamais foi a nossa prioridade. Estarmos na periferia ajudou-nos a manter as fronteiras praticamente intactas desde Alcanizes, há setecentos e muitos anos, e a contornar os principais conflitos estalados no continente. Deu-nos fôlego para as aventuras d'além-mar, onde provámos, sem grande esforço, ser os melhores. Desengane-se quem crê que ser português não nos custou suor. Conquistámos o direito a sê-lo. Os nossos novecentos anos comprovam a luta, nem sempre justa, para escapar às forças centrípetas da península.

    Encaro os tempos que se avizinham com confiança, todavia com prudência. Provou-se que a austeridade não era o caminho certo, e que devolver às pessoas o que lhes era devido teve um efeito positivo na economia. Porque os números falam por si. A matemática é uma ciência exacta. Longe de querer agradar com populismos, o Governo acreditou ser possível contrariar uma corrente ideológica que via, em medidas que devem ser excepcionais, uma orientação política definida, como se não mais nos restasse do que viver em infinita contenção e sob permanentes ameaças de descalabro das contas públicas e de bancarrota.

    Espero que a moda seja um indicador de mudança, também na nossa atitude, mais obstinada, chauvinista, que em dose certa pode produzir pequenos milagres.

19 de maio de 2017

O Ornitólogo.


   Desconcertante filme a que assisti, ontem, no canal TVCine 2. As obras que ostentam a chancela João Pedro Rodrigues são quase sempre polémicas, oníricas. O Ornitólogo não foge à regra. Conheci este realizador em pequeno, com o épico O Fantasma. A um miúdo, o filme perturba, sobretudo porque foca um submundo duvidoso de fantasias insondáveis e fetiches. Odete surpreendeu menos. Morrer Como Um Homem, o pior dos três, teve direito a que fosse ao cinema com o pai, que é extremamente à-vontade com a temática LGBT. É esta, aliás, a característica comum aos filmes de João Pedro Rodrigues.

   O Ornitólogo começa com um homem solitário, que trabalha justamente como ornitólogo, que parte numa expedição para estudar o processo de acasalamento e de nidificação de uma determinada espécie de aves. Durante uma travessia de caiaque, sofre um acidente provocado pela ondulação, sendo posteriormente resgatado, inconsciente, por duas turistas chinesas que fazem o caminho de Santiago. Após tomar conhecimento da fé de ambas, toma um chá tradicional chinês e acorda amarrado por cordas, com uma pujante erecção nas suas ceroulas brancas. Procura desamarrar-se. As cordas que envolvem o seu corpo acentuam-lhe as formas masculinas. A temática sadomasoquista, já explorada em O Fantasma, surge aqui, revigorada e adaptada, em meio com a fé cristã. Fernando não é apenas o ornitólogo; é o mártir. As turistas querem castrá-lo ao terem tomado conhecimento da sua apostasia.

    Consegue fugir, levando alguns dos seus objectos. Assiste à festa dos rapazes, numa madrugada, no meio de uma floresta do interior transmontano, e ao sacrífico de um animal. O folclore e as seitas pagãs misturam-se com o desejo. Um dos rapazes vislumbra-o ao longe e desculpa-se aos seus pares, em mirandês, com a necessidade de se afastar. Fernando, protegido pela penumbra e abrigado sob uma pedra, recebe a providencial urina do careto, pelo rosto e pelos lábios, vinda de cima.

    Pela manhã, observa a arte pastorícia de um rapaz surdo, a quem indaga pelo desaparecimento dos seus pertences. Nadam juntos. Deitam-se na areia, escrevem os seus nomes com um pequeno caniço. Jesus, é este o nome do rapaz. Fernando empresta os seus binóculos para que Jesus possa ver uma ave com maior precisão. O rapaz encosta-se no seu peito. Beijam-se avidamente, rebolando pela areia. A paixão assolapada é bruscamente interrompida quando, à partida, o rapaz tira uma camisola com capuz do seu saco, que Fernando identifica como sua. Ao ser confrontado, Jesus puxa de uma navalha. Envolvem-se numa luta corporal e Fernando consegue desferir-lhe um golpe certeiro no coração, que mata o pastor.

     Persiste a caminhada de Fernando na floresta, em busca de uma saída que o leve ao carro. Pontualmente, recebe SMS no telemóvel, um dos objectos que havia recuperado, de alguém que está preocupado com a sua saúde. Fernando toma comprimidos. Ao longo do filme, não conseguimos identificar para quê. Consegue albergar-se numa tenda improvisada. Cuida de uma pomba branca, símbolo da paz e da castidade, que recupera misteriosamente de um trauma na asa. Encontra o seu documento de identificação com a fotografia picada e as impressões digitais borradas, o que evidencia que foi usado num ritual. Os instintos vocacionais de Fernando são testados no sermão aos peixes.


     Não é difícil perdermo-nos no decurso do filme. Há um encontro fortuito com três amazonas que falam latim e um milagre, quando Fernando assume as vestes de Santo António e traz o irmão gémeo de Jesus, Tomé, ou o próprio Jesus, à vida. A trama termina com Fernando enquanto Santo António, incorporado pelo próprio realizador, passeando-se numa rua da Galiza, pelo que me pareceu, com o jovem careto.

      A longa-metragem é uma história de sobrevivência, de cruzamento entre o sagrado e o profano, de um homem, com a sua libido, que passa por uma experiência transcendental que o modifica para sempre. O homoerotismo, desde logo pelos planos minuciosos, é uma constante. O actor principal, Paul Hamy, foi escolhido a rigor. Em cada detalhe do filme verificamos o desfiar dos estereótipos associados, e muito justamente, aos homossexuais.

      Gostei particularmente do filme, pese embora todo o meu preconceito com o cinema português, demasiado monótono para a minha busca constante por estímulo.

14 de maio de 2017

Amar por todos.


    Uma noite inesquecível para Portugal, semelhante àquela que vivemos nem há um ano, com a vitória no Europeu de futebol. Porque estes eventos, ainda aos que não lhes atribuem qualquer significado, colocam-nos sob a mira de milhões, dão-nos alento, são quase que o grito que damos ao mundo. Existimos. Conseguimos ser os melhores.

     Eu, particularmente, não aprecio a Eurovisão, mas deixei-me embalar no bonito poema que Luísa Sobral escreveu para que o irmão o cantasse. Há aquele coração dela que pode amar pelos dois, sobretudo pelo dele, por todos os problemas que vieram a público. É um poema que, cantado, acompanhado pelos violinos, ganha uma dimensão que não parece resultar das suas palavras aparentemente tão simples.

     A língua portuguesa brilhou em Kiev. Pôs estrangeiros a chorar ao som da voz de Salvador, muitos dos quais não compreendendo nada. É a linguagem universal da música, a capacidade de nos comover. Amália teve a experiência pela União Soviética e pelo Japão, quando entoou grandes poetas portugueses.

      Amar Pelos Dois conseguiu, ainda, transportar para a Europa toda a alma portuguesa, nostálgica, melancólica. É o triunfo do Portugal português, sem adornos, sem danças histriónicas e maquilhagens pesadas. Um homem e um microfone. A voz e a sua expressão corporal tão peculiar comunicaram com a Europa de lés a lés. Não precisámos de mais. Limitámo-nos a ser o que verdadeiramente somos: simples.

      A nossa língua e o Salvador estão de parabéns. E a irmã do Salvador. A vitória é-lhes inteiramente merecida. Obrigado por levarem a portugalidade até à Hungria, à Lituânia, à Geórgia e a tantos outros. Imprimimos o nosso nome na história do maior evento musical anual europeu.