1 de Setembro de 2014

September.


   Tenho más relações com os últimos meses do ano. O inevitável regresso às aulas, sempiterno estudante, o Verão que termina, não tendo este sido um dos mais agradáveis, o retorno dos emigrantes aos países de acolhimento, e dezenas de acidentes de viação, a queda da folha, sobretudo antigamente, quando a estação tinha data para começar e findar.

    Uma mãe que passeia a sua filha no carrinho de bebé. À passagem por mim, a menina, de olhos grandes e negros, duas azeitonas pretas, fixa o olhar no meu. Acha-me piada e sorri. Pouco atrás, surge a correr um menino mais velho, de bola entre os pés, de chuteiras. E uma irmã de vestidinho cor de rosa. Num rompante, imagens do meu passado, dos passeios com a avó por jardins, quando via os meninos jogando futebol e eu com o Simba debaixo do braço. Se disparavam a bola na nossa direcção, refugiava-me nas calças da avó, espreitando, assustado, pela remoção do perigo. A avó devolvia a bola aos meninos. Por vezes ficava a observá-los à distância, admirando a destreza que não tinha, que não invejava, afinal, eu precisava de protecção, cada vez mais, seguindo no caminho oposto da natureza humana, que busca a crescente autonomia.

    Senti-me só. A avó envelheceu, eu cresci. Cresci mais do que queria caso me fosse dado a escolher. Um dia destes não a terei por perto. O Simba estará num dos imensos sacos, a salvo do pó e do esquecimento, guardando nas garras de pelúcia as recordações de uma infância doce, marcada por alguns conflitos internos, imperceptíveis aos sentidos, à consciência.


    As folhas tricolores envolvem a base de pedra calcária do bebedouro. Sobrepõem-se movidas pela brisa do final de tarde. A pressão do esguicho de água é fraca. Debruço-me. Molho o colarinho da camisa na superfície em sulco. Um pinscher vem ao meu encontro. Afago-o. Gosta de carícias fortes, reclama e pede brusquidão. Revolvo-lhe o pêlo e agradece impulsionando as patas dianteiras nas minhas pernas.

     As árvores fazem-me sentir ainda menor. Sobreviver-me-ão em séculos. 
   
    Filho de um acto irreflectido, mal calculado. Desejo inconsequente. Imaturo. Irresponsável. Leviano. Eles são como sou. E passarão, como eu, a histórias a contar pelos plátanos.

28 de Agosto de 2014

As medusas.


    Pelo extenso areal, um tecido mole, gelatinoso, cuja origem adivinha mil e uma milhas. História mal contada, indiferente aos gritos estridentes e despreocupados de miúdos que se sentem a salvo. Amontoado de nada, dantes corpo de vida marinha, livre, temida, venenosa, sabe-se lá letal.

    Uma e outra, quatro e cinco, muitas mais. No mar, colorado de castanho pelo tom das rochas, a vida despontava a cada olhar. Vida que veio à superfície, arrastada pela corrente da maré. Banhistas refugiam-se nos pedregulhos ainda não cobertos pela água; outros, saltam, abrindo brechas que desvendam o fundo. Mães que pegam, atemorizadas, nos petizes de pouca idade. Diriam que se tratava de um tubarão. Mas não. Uma alforreca moribunda. Fraca para se guiar, aguardando as redes, carrascas, que ditariam o seu fim. A angústia se de escolher uma praia concessionada.

    Afinal, o que suscita nas pessoas um ser tão inofensivo fora do seu habitat natural? O espaço que lhe pertence. Tido como intruso por quem faz do mar o seu passatempo, ocupando-se por breves instantes, os suficientes para se tomar por dono.
    Mulher loura, espampanante. A pele destruída por anos de sol descuidado, enrugada pelos braços. O moreno de uma vida ociosa, que descortino entre uma casa na capital e compras por Paris. A necessidade da auto-afirmação, frustrada em nova, não deixou que as jóias ficassem por casa. Rivalizavam com o louro platinado dos seus cabelos. Os seios, pendendo sobre o tronco, eram o toque final de um quadro que poderia considerar de horror. Vociferava, alarmada, pela presença dos cnidários. Seria a primeira a pegar num pequeno galho e a revolver o que restava do animal, à medida em que mais se acumulavam.

    Modificar o que não nos pertence, para alegria de dezenas que puderam, finalmente, usufruir das suas férias. Um menino, ousado, de calção de banho azul-bebé, aproximou-se da medusa, morta, e tocou-lhe as ventosas, enquanto a mãe, distraída, acertava com alguém "o jantar que não pode ser adiado". Os pés, pequeninos, chapinhavam na fraca rebentação. Saltitava ao pisar pedrinhas afiadas. Ninguém dera por aquela, tão perigosa! O instinto levou-o, infrutiferamente, a colocá-la de novo na água, procurando, quem sabe, devolver-lhe a vida. Aqui, dizem, reside a esperança da Humanidade.

     Correu na direcção dos pais, orgulhoso do seu feito, são como fora. O castelinho de areia, que deixara para trás, era engolido pelas ondas escassos minutos depois.
     A tranquilidade reinava de novo, entre trincadas na maçã.

24 de Agosto de 2014

Onze Perguntas, Onze Respostas.


   O Paulo, do blogue Sonhos Desencontrados, deixou-me um simpático desafio: o de responder a onze perguntas, sendo eu um dos cinco que nomeou. Estes desafios eram muito comuns aqui há uns quatros anos, de tal forma que, às tantas, nos recusávamos, melhor, me recusava. Estamos na silly season, também pela blogo, regressei a Lisboa, agora que parece que o Verão vem (menos mal... para quem ainda vai tirar uns dias), por isso, cá vai.

1. O que você não sai de casa sem?

O telemóvel, sobretudo. Cada vez são mais raras as vezes em que deixo o tablet em casa, logo, não tarda e é um dos objectos indispensáveis. Tenho imensas saudades do tempo em que a internet era apenas um reduto. Agora, com os smartphones e os tablets, persegue-nos. Há dias, vi algo que me assustou... uma capa de tablet para levar para... a praia... para a água, impermeável. Por favor, deixem as pessoas viver!

2. Qual é o seu animal favorito?

Eu gosto de todos os animais, adoro animais. Infelizmente, não posso ter mamíferos e / ou aves em casa. Se pudesse, teria um/a gatinho/a. Ando a magicar para ter um/a, mas não posso mesmo. :( Tenho uma tartaruga gorda há dezanove anos.

3. Qual é o seu sapato favorito?

Suponho que foi um lapso. "Calçado", presumo. Bom, um sapato casual, com atacadores, jovem. Não gosto muito de ténis, embora tenha, mas têm de ser pouco desportivos.

4. Produto de maquilhagem indispensável?

Não me maquilho. Cuido da pele, mas não é maquilhagem.

5. Qual é o seu maior sonho?

Bom, deixei-me de pieguices de amores & pessoas especiais, que não há. A humanidade é, por inteiro, a pior espécie animal que habita o planeta. 
Um emprego bom, concretização profissional. Ter a mãe perto de mim por longos anos, e os avós. Ir tendo saúde. Já são alguns sonhos. :)

6. Qual o seu maior defeito?

Apercebo-me de um que provoca algum sofrimento: a indecisão. Sou a pior pessoa para tomar decisões, seja no quotidiano ou em matérias importantes. Sou muito, mas muito pouco prático. Demoro uma eternidade a tomar uma decisão simples, como sair ou ficar, restaurante A ou B, camisa verde ou azul, mestrado ou Ordem, etc.

7. O que é que mais lhe irrita nas pessoas?

Quem sou eu para julgar...

8. O que mais gosta de comer?

Arroz de pato. É tão bom, assim gratinado por cima, humm. E bacalhau com natas, à Brás... Chega!

9. Doce ou salgado?

Doce.

10. O que te deixa feliz?

A felicidade não existe, como já expliquei por aqui, mas, deixando-me de concepções filosóficas, sinto-me bem numa tarde de Verão, numa esplanada, a comer um gelado, sem preocupações. E deixar-me-ia muito feliz viver fora de Portugal.

11. Escolha cinco blogues para responderem a este desafio.

Regra da praxe: nunca escolho. Deixo à consideração de cada um. Se nomeasse, seria bem mais de cinco blogues. :)

18 de Agosto de 2014

A planície.


    A viagem não seria longa. Vê-la assim, bem disposta, animou-me pela manhã.

   Acordámos cedo. Os pertences ficaram arrumados na noite anterior, com o cansaço apoderando-se do meu corpo. Os calções e as t-shirts, imaculadamente engomadas, que coloquei com todo o cuidado no fundo da mala; de novo, a sua ajuda foi essencial para que soubesse, pela milésima vez, de que essa roupa fica por cima, ao contrário das toalhas e peças interiores, que poderão preencher a base.
   Não me sentiu animado, talvez porque não esteja, diria em relação aos dias, que a temperatura melhora. Pedi bom tempo e fui ouvido.

    Quando partimos, a cidade dormitava. O carro ainda atravessava o espesso manto da fria poeira matinal, com alternâncias de sol, tímido, e sombra, estática. O dia brindava-me com um quadro de Verão. Permaneci assim, fitando a vida lá fora, lutando pela minha do lado de dentro do vidro.

     Não acelerou. Falámos durante o percurso. Do que faríamos e onde estaríamos. Identifiquei a paisagem após uma hora e meia. Sobreiros, orgulhosos, deixando pender, abaulados, os ombros verdes e robustos. Algumas cercas de arame, indistintas, por onde o matagal já revelava primaveras grandes e altas que não foram cortadas, estavam esburacadas por todo o comprimento. A dialéctica do sinal de perigo transportou-me para um monte isolado, desconhecido, com animais selvagens, bovinos, ameaçadores. Afinal, litoral, baixo ou alto, a maior de todas as regiões portuguesas mantém a sua identidade.

     Por fim, um oceano azul, ao fundo, reflectindo a cor da atmosfera nas suas águas infinitas, desmentia a minha imaginação. Uma camada de um azulão espesso, que fechei entre os indicador e o polegar. Contei uns cinco centímetros de sonho. As casinhas baixinhas, caiadas, continuam iguais, passe o tempo que passar. O parapeito arranjadinho, sob janelas de cortinas discretas e calhas em cruz, de madeira, com vasos de flores de que adivinhei o perfume. Comércio escondido. As bugigangas não carecem de estar expostas, que os olhos do consumidor vêem, mas a mão fica a meio caminho do bolso.

    Lugarejos pequenos em que todas as ruas dão ao centro. Depressa chegámos ao hotel, simpático, familiar. Quartos e apartamentos. Não será o nosso destino final. O gerente, dono, anafado e bolachudo, com um farto bigode, de camisa azul-pálido e calças de fazenda, apareceu cinco minutos, ou mais, depois da empregada ter-nos dito que iria chamá-lo. Senti o odor agradável do fresco assim que entrámos no hall. Vi o meu rosto reflectido nos mosaicos barrentos do chão. Tirei os headphones. Achou-nos piada e fez-nos uma atenção no preço. Não é insólito. Um homem adulto afugenta a simpatia dos anfitriões. Uma mãe e um filho inspiram desejos de protecção nos cavalheiros de meia-idade.

     Subimos ao quarto. O senhor mandou um rapaz carregar as malas. Ficando só, dormi cerca de uma hora. Desci à hora combinada para o almoço, no restaurante contíguo ao hotel.

     Pus a indisposição de parte e decidi que iria permitir-me estar feliz.