3 de setembro de 2015

Uma tarde.


    Quarta. Uma manhã agradável. Sabendo da visita do Miguel, a Margarida fez-me o convite prévio: almoçar com ela, a Lídia e o Miguel algures por Lisboa. A escolha recaiu sobre um restaurante simpático, pequeno, perto da Marquês de Fronteira (Rua).

    Diria, ao estar na companhia de pessoas cujo percurso profissional supera, inclusive, os anos de vida que tenho, que era manifestamente a incorporação da inexperiência. Pressa, não a tenho. A vida encarregar-se-á de me ensinar o que ainda me falta aprender. Ninguém nasce sabendo que atribulações terá de fintar, com que problemas se deparará. De certa forma, tomando conhecimento de algumas peripécias suas, senti-me ligeiramente privilegiado. Somos de gerações diferentes. Tive outras oportunidades; ainda assim, ninguém sai daqui - deste mundo - sem a sua dose de sofrimento. Tarde ou cedo, ele chega. Quem sabe e não o terei em doses moderadas, como o veneno, insidioso, que mata lentamente.

     Depois do almoço, um prato simples mas saboroso, bebemos café e pusemos a conversa em dia. Falou-se dos empregos, dos estudos, de dissabores vários. Maleitas... Um encontro em estilo de catarse.
     Conta paga, seguimos em direcção ao jardim que se encontra mais próximo. Subimos o trilho de pedras, a escada, e sentámo-nos à beira da fonte artificial. Umas águas, um bolo de sobremesa, mais conversa, algumas constatações, umas fotos, risadas, muitas.

    Mal dei pelo tempo passar. Senti o Miguel a erguer-se. Aproximava-se a hora do comboio. Acompanhámo-lo até Santa Apolónia. Despedidas feitas, foi a vez de deixar a Margarida e a Lídia às suas vidas. E eu fui à minha.


      Não foi um encontro de bloggers. A senhora que conheci nem utiliza estas plataformas. Foi um encontro de pessoas que se conheceram, um dia, e que gostam de, pontualmente, reencontrar-se, conversar, trocar uns livros. E gostei. Sem algazarra, com respeito pela intimidade, pela reserva da vida pessoal de cada um e com discrição. Elementos que considero imprescindíveis para conseguir conviver com quem me rodeia. Para conseguir dar-me a conhecer, no limite.

30 de agosto de 2015

A Mulher.


    Se atentarmos à fisionomia de cada um dos géneros que compõe a espécie humana - e a maioria das espécies do reino animal - constataremos que não é igual. O homem tem características que a mulher não tem, e vice-versa. O património genético que herdamos, não fosse o cromossoma 23, é exactamente o mesmo. Podemos, então, concluir que as nossas diferenças residem num único cromossoma, o suficiente para que tenhamos sexos distintos, a começar no imediato pela genitália, e características secundárias que também elas nos dão a clara certeza (darão?) de que estamos perante um homem e/ou uma mulher.

      Não sou sociólogo, logo, escusar-me-ei a considerações que nos remetem à origem da crónica dicotomia homem vs mulher que tem originado, por tantos milénios quantos tem a espécie humana, a discriminação social entre os géneros. Não será difícil imaginar como terá começado. Sendo o homem, regra geral, fisicamente mais forte do que a mulher, porque a Natureza assim quis, ter-se-á ocupado das tarefas mais perigosas e que exigem maior dispêndio de forças, como a caça a animais de grande porte, a pesca. A mulher, até pela maternidade, ficou-se pelo trabalho doméstico, pela árdua tarefa de amamentar, cuidar dos filhos. Pelo tempo, as naturais apetências de cada um originaram uma supremacia de um dos géneros sobre o outro, ficando a mulher totalmente à mercê do pai, em primeiro, mais tarde do marido. E tem sido assim, de uma ou de outra forma, o percurso que temos feito.

       As Revoluções Liberais quase nada fizeram pela mulher. O voto não lhe foi permitido. A sua posição, desde Roma, em que tão-pouco era considerada cidadã, sofreu parcas alterações. O lar. Obedecer, casar, dar continuidade à espécie, com raras excepções a esta linha mais ou menos óbvia. Houve mulheres que pela sua firmeza, coragem e bravura se distinguiram. Cleópatra VII, Joana D'Arc; Isabel, A Católica; Maria Stuart, A Sanguinária; Isabel I Stuart, A Rainha Virgem; Catarina, A Grande, entre tantas outras. Por cá, D. Leonor Teles, a odiosa esposa de D. Fernando, mulher firme, o que tal má fama lhe granjeou...; D. Catarina de Áustria, esposa d' El Rei D. João III, regente do reino na menoridade do futuro D. Sebastião, espanhola, senhora de fibra; D. Maria I, primeira Rainha de jure, por direito próprio, filha de D. José e herdeira legítima do trono; e por que não referir D. Maria II, nossa segunda monarca senhora, de vida cujo desfecho foi algo dramático. Ainda assim, D. Maria I necessitou que defendessem a sua causa, o seu direito a reinar, porquanto muitos teriam preferido ver sentado no trono, em seu lugar, o seu filho primogénito, José (em homenagem ao avô). Consta-se, aliás, que esse teria sido o desejo do falecido D. José, seu pai, e do próprio Pombal.  A vida destas mulheres, embora agraciadas pelo facto de terem podido exercer com influência os anos que o destino lhes permitiu, não foi imune a invejas, a vilipêndio. O preço a pagar por se competir com homens.

      Foi o século XX que, efectivamente, trouxe à mulher o reconhecimento dos seus inalienáveis direitos. As sufragistas por isso lutaram - e conseguiram. Um pouco por todo o planeta, a mulher foi alcançando o direito de voto e, lentamente, demais direitos, consagrados em leis fundamentais e em diplomas ordinários: direito ao trabalho, igualdade salarial, protecção jurídica nos casos de violência conjugal, doméstica, acesso a cargos até então vedados e a profissões tidas como exclusivamente masculinas, como os corpos de segurança, possibilidade de progressão na carreira. Em Portugal, a Constituição de 1976 consagrou, em definitivo, a igualdade formal e material entre o homem e a mulher. No ano seguinte, em 1977, o Código Civil conheceu uma reforma profundíssima que lhe expurgou as normas, ou as reformulou, que continham qualquer menção discriminatória quanto à mulher (Decreto-Lei N.º 496/77 de 25 de Novembro). Nesse sentido, livros como o Livro IV da Família e o Livro V respeitante ao Direito das Sucessões foram os principais visados pelo diploma. Dois anos depois, em 1979, o Decreto-Lei N.º 392 de 20 de Setembro veio eliminar as demais barreiras que se erguiam à mulher no mundo laboral.

     Todas estas alterações legislativas acompanharam, mutatis mutandis, a evolução social que se efectivou em relação à mulher e à injustiça que presidia à continuidade de tão desigualitário panorama legal. Nos intermináveis anos da Guerra Colonial, como acontecera anteriormente, lá fora, com a Segunda Grande Guerra, as mulheres viram-se obrigadas a tomar as rédeas das fábricas, das oficinas, dos postos que pertenciam aos seus maridos, dada a mobilização destes para as fileiras.
      Muito há ainda por fazer. Sabemos que as leis de nada valem se não forem cumpridas. E para as fazer cumprir, exige-se uma fiscalização rigorosa e perene.

       Desta vez, decidi guardar o que seria uma introdução para o fim. Deu mote a esta excursão um diálogo que ouvi entre pai e filha, há dias, enquanto caminhava. A menina, de tenra idade, uns seis anos, andava atrás do pai, ignorando a advertência deste para que se mantivesse em casa, junto à mãe. Perante a insistência da filha, e enquanto se dirigia ao capot de um carro, exprimiu todo o seu preconceito naquele lugar-comum que já ganhou uma certa, como direi, comicidade: «Isto não é trabalho de mulheres!» Surpreso ficaria, o senhor, com a quantidade apreciável de senhoras motoristas, polícias, e por aí. Quem sabe e não estimula, com a sua atitude, uma afirmação da filha? Prevê-se uma dor de cabeça. Para ambos.

24 de agosto de 2015

O Comboio da Esperança.


    É assim que lhe chamam os milhões que atravessam a Europa em busca de um sonho, um sonho de ventura, da bonança que os esperará quando avistarem, ao longe, o cume da Torre Eiffel, o Coliseu de Roma, o Portão de Brandemburgo. Para isso arriscam as suas vidas. A terra natal está lá atrás, onde ficaram os pais, os avós, as brincadeiras de criança, de barriga vazia e pé descalço, na tranquilidade só perturbada quando ao clima de paz se sucediam levas de conflitos com Estados vizinhos ou guerras civis.

     Percorrem quilómetros a pé, e por quantas vezes atravessam o Mediterrâneo em embarcações de papel, frágeis, lotadas, naufragando os desejos e os seus corpos exangues. Chamam-lhe refugiados. Os mais distraídos preferem a designação imigrantes ilegais. São tudo e são nada. Apenas pessoas sem nome, de história que ninguém quer saber. Filhos da tragédia. Por agora, tudo o que querem é deixar a Grécia, viajando pela República da Macedónia e conseguindo passar a fronteira da Sérvia. Depois, o medo do desconhecido não consegue superar o entusiasmo. E é isso que vemos nos seus rostos: a alegria, as risadas de contentamento quando conseguem obter um lugar disponível no comboio que lhes promete uma nova vida na terra das oportunidades, a velha Europa. Nem o calor que se faz sentir nos vagões cheios os demove. Enfrentam, em condições sub-humanas, a dor, a fome, as ordens de policiais que os acompanham. Aos que não conseguem, o que resta é esperar nos campos de acolhimento, instalados nas imediações das linhas ferroviárias, sujas, de cheiro nauseabundo, repletas de lixo.

    Para os líderes europeus, não passam de números. Números que engrossam as estatísticas. A Convenção de Genebra, de 1951, define o seu estatuto, os seus direitos. A generalidade dos Estados europeus é signatária. Cumprir, todavia, com os preceitos da Convenção torna-se mais complicado. Teme-se que levas de refugiados inundem a Europa sem que os Estados receptores reúnam os requisitos mínimos para os acolher. Com efeito, aumenta-se o controlo fronteiriço, inclusive nas fronteiras marítimas, mas o que fazer quando famílias inteiras com mulheres e crianças pequenas conseguem entrar no território de um Estado? Criar condições para que aí se fixem, possam estudar, trabalhar, seguir as suas vidas calmamente, longes do cenário de instabilidade que os trouxe. Sem embargo, há que olhar para o tecido económico e social do Estado receptor. Não é censurável que definam numerus clausus, negando-se a aceitar todos os refugiados que ultrapassem essa barreira legal imposta.

    A política dos homens e das mulheres poderosos pouco importa a quem nada tem, excepto uma força que germina e que os impele a procurar por uma existência mais digna.

21 de agosto de 2015

Dandy.


     Sem que o percebesse, pouco falta para a rentrée. O regresso ao trabalho, às aulas. E em nenhum ano quis tanto ter de novo uma rotina. Pouco aproveitei destas férias. 
     Fui uma só vez à praia. Bebi mais cafés do que os que devia, fui sedentário até à exaustão, quebrando uma vez por outra com uma ida ao museu, uns passeios pelos jardins da Gulbenkian ou até mesmo pela Baixa, que nunca me seduziu por aí além.

     Entretanto, vou ficando uns dias por outros em casa do amigo. Damos umas voltas, jantamos fora, vemos filmes. Acompanhamo-nos mutuamente, que sempre ajuda a passar o tempo e a colmatar alguma carência.
     Descobri que detesto o calor. Recordo-me, em pequeno, de ansiar pelo Verão, pela roupa curta, pelas idas à praia. De momento, foi-se o que restava. Que chegue logo o tempo cinzento, o frio, a chuva.

      De há uns dias a esta data tenho andado mais melancólico. Não sei bem definir. Um estado de apatia. Às vezes dou por mim a querer chorar no meio da rua. Lá ponho os óculos de sol para que ninguém veja. Algumas lágrimas escapam por trás das lentes. Nada que uma mão ágil não resolva. Não gosto que me vejam triste, detesto que tenham pena ou que fiquem muito sensibilizados. Pouco me importa se mal dissimulo a fraqueza - não tenho problemas com isso; apenas creio que é enfadonho passar a vida a lastimar e a ser conhecido por se estar triste ou por se ser uma pessoa especialmente instável emocionalmente. O que se quer é alegria, é conviver com quem nos possa divertir. Como pouca alegria transmito, prefiro isolar-me. Antes assim.

       Não obstante a melancolia, certa fúria consumista apoderou-se de mim. Tenho comprado este mundo e o outro. Nada muito dispendioso. Uma mochila nova, alguma roupa, um relógio - o maior devaneio. Raro é o dia que chego a casa sem um saquinho. Sei lá, apetece-me. O que não quero é pensar. Tenho os neurónios em água. Comprar é do mais simples: chego, escolho, pago. Simples. Sento-me no último piso do ECI, bebo um chá, como uns scones, penso no que compro a seguir. Um tanto ou quanto dandy. Depois, vou alternando entre sorrisos de saquinho na mão e lágrimas, como se o mundo fosse acabar. Não, não sofro de qualquer distúrbio de humor. Isto deve ser mais complexo do que isso. Já pensei em ir ao psicólogo - a avó paterna tem consulta no psiquiatra daqui a uns meses (uma senhora com quase noventa anos), mas não tenho paciência para tanto bitaite e laracha. Os dois dedos de testa que tenho dizem-me para poupar dinheiro em experimentos e procurar um livro qualquer de auto-análise. 
      O pai já vai na meia-idade e começa a ficar insuportável: excede-se, irrita-se com facilidade. É mal de família. Se uns temem acabar calvos, barrigudos, sentados no sofá em frente à caixa mágica; eu, muito provavelmente, acabarei a recitar tomos e mais tomos disto e daquilo, senil, num qualquer hospício perto de si, com bastante cabelinho, de preferência. Brinco (ou não).

       Por ora, preciso de me entreter para pensar o mínimo. E é isso que vou procurando, mal ou bem.