19 de julho de 2018

Lean on Pete.


   Impossível não nos comovermos com o trajecto de vida acidentado de Charley. Charley cresceu sem mãe, tendo por pai um homem disfuncional e negligente, que assumiu, ainda assim, a tarefa de cuidar sozinho do filho. Referências familiares, só as de uma tia com quem não mantém contacto há anos e que vem a saber morar no Wyoming. Um terrível acidente em casa, com o progenitor, leva a que Charley se aventure sozinho no mundo. Nesse percurso errático, a sua vida cruza-se com a de um velho cavalo, que salva do abate, e que se torna seu companheiro na procura por um porto de abrigo.

  A fotografia do filme é excelente. Mostra-nos a solidão que a América pode conter nas planícies áridas e aparentemente infinitas do Oregon.
  Charley só se tem a si e ao novo amigo. A saga que o levará até à tia é dura, traumatizante. Um fardo demasiado pesado para os ombros de um miúdo de quinze anos que, entretanto, é um exemplo de garra, de sobrevivência, de superação e de bondade. Charley é um miúdo bom, talvez um pouco amargurado, todavia as agruras da vida não lhe deformaram o carácter, e vamo-lo percebendo no decurso da narrativa.

   Fala-se de sujeição, de acomodação, de carência. O destino, o que fazemos por ele ou o que fazem dele por nós, pode-nos conduzir a situações-limite. Foi assim com Charley, foi assim com a menina obesa - e digo-o para a distinguir - que Charley conhece numa casa que descobre no meio do nada, quando, apenas acompanhado do equídeo, procura por água.

   Aparentemente cliché - mais um filme de um miúdo com o seu animal - Andrew Haigh, que se afirma aqui como um dos melhores realizadores da sua geração, soube dar o pulo para uma estória comovente, sublime, brilhantemente dirigida e até, a determinado momento, aflitiva. De ternura, também, de dedicação. Descobrimos o valor da amizade no meio de um tanto de errado. As cenas entre Charley e Lean on Pete, de cumplicidade e mútua dependência, contrastam de modo notório com a impiedade da vida nas ruas e no deserto que pode ser a costa oeste dos EUA. Um road movie encantador com um ligeiro toque a western. E Charlie Plummer é um actor mui promissor, confirmando-se o talento.

18 de julho de 2018

Nico, 1988.


   Mea culpa, mea maxima culpa. Não conhecia Christa Päffgen, ou Nico, como era conhecida no mundo da música. Nico foi uma cantora alemã, nascida em 1938, a quem a II Guerra Mundial, particularmente no final, haveria de marcar indelevelmente. Nico assistiu aos bombardeamentos sobre Berlim, que teriam reflexos mais tarde, já compositora, levando-a a, como verão no filme, carregar consigo um gravador portátil, em busca por um som nítido que a reportasse àquele que ouvia em garota, vindo dos aviões e dos escombros. O som da destruição. Creio ser necessário fazer certo enquadramento na vida de Nico antes de explorar o filme, o que pude ver na obra de Susanna Nicchiarelli.

   Nico viveu os loucos anos 60. Entrou na banda Velvet Underground pela mão do seu grande amigo Andy Warhol, acabando por abandoná-la, iniciando uma carreira a solo. Drogada, suja, desiludida, traumatizada. Nico é o espelho da degradação humana mais evidente pelo uso reiterado de drogas e álcool. Quando a vemos, com dificuldade acreditamos que foi uma mulher belíssima, modelo, colaborando com a Vogue, nomeadamente. Os traumas vêm da infância, como referi, e da perda da custódia do filho, dadas as suas condições de vida precárias. Filho esse concebido numa relação casual com Alain Delon, também marcado pela instabilidade e, a julgar pelo argumento de Nicchiarelli, com reiteradas tentativas de suicídio, a última das quais pouco tempo antes de Nico falecer subitamente numas férias em Ibiza, no Verão de 1988.

   O filme gira todo em torno de Nico, nos seus dois últimos anos de vida (1986 - 1988). Ela é o epicentro da narrativa. A actriz que a encarna, Tryne Dyrholm, fá-lo de modo soberbo. A interpretação é de um realismo e de uma verosimilhança ímpares. Intuímos que não será fácil recriar uma mulher, para mais artista, com tamanhos problemas pessoais. A estória, crua como a vida de Nico foi, não cai em melodramatismos baratos. Nico viveu como quis, e viveu intensamente. Compôs e cantou as suas mágoas. Há alguns momentos em palco, e, ao tomarmos conhecimento do teor das canções, percebemos que Christa e Nico se confundem. Uma entoa as dores da outra.

   Avessa ao comercial, temperamental (sobretudo em período de ressaca da heroína, que a perseguia e que ela perseguia quando não tinha), Nico amava profundamente a Ari, o filho. Amava-o como sabia, a meio de toda aquela disfuncionalidade que a vitimaria precocemente, aos 49 anos. Quis reatar o vínculo que se perdeu algures na meninez de Ari, com os estragos de ambos a não o permitirem. Vale muito a pena.

15 de julho de 2018

Campeonato do Mundo de 2018 (V e última parte).


   O Campeonato do Mundo terminou com a vitória de uma das favoritas iniciais, a França, num jogo com seis golos. O factor surpresa, que perpassou a competição, não se repetiu na derradeira final de Moscovo. Pelo que fez ao longo da prova, a Croácia merecia ter erguido o troféu. Jogou melhor, não desistiu - mesmo a sofrer por 4x1 - e procurou igualar o marcador até ao último minuto. Não nos esqueçamos de que esta Croácia vinha de três prolongamentos e de duas decisões nas marcas de grande penalidade. Foi um campeonato do mundo muito desgastante para o país dos Balcãs. 

  A França foi crescendo em favoritismo. Não fez um torneio deslumbrante. Na fase de grupos, não impressionou em nada. Nas fases finais, após afastar a Argentina, nos oitavos, por quatros golos, e o Uruguai, nos quartos, por dois, e com o afastamento do Brasil, é que começou a cimentar aquele que seria o trajecto até ao troféu de 1974, que o anterior acabou por ser roubado, não tendo sido recuperado.
  Duvido, muito sinceramente duvido, que Portugal conseguisse dobrar esta França. A selecção de Didier Deschamps, de 2018, é substancialmente diferente da que Portugal encontrou na final de Saint-Denis. Deschamps que, ele mesmo, se junta à restrita lista de homens campeões do mundo enquanto jogadores e treinadores, igualando o brasileiro Mário Zagallo e Franz Beckenbauer, alemão. Mbappé, eleito o mais jovem jogador do torneio, também é, com Pelé, o campeão com menos idade. Tem 19 anos, e nasceu exactamente em 1998, ano em que a França foi campeã, em casa, pela primeira vez.

   Se, quanto à Inglaterra, julguei que estava a ir mais além do que o esperado, a Bélgica e a Croácia, na minha opinião, tiveram um desempenho global superior ao da França. Modric, excelente, enormíssimo atleta, leva, e merecidamente, a bola de ouro de melhor jogador do Mundial de 2018. O domínio que tem da bola e a sua capacidade de ler o jogo e de desvendar soluções a meio campo tornam-no num dos melhores do mundo, titular indiscutível na equipa merengue. O que Modric teve, que Portugal não tem, é um conjunto de peso. A selecção croata é de uma qualidade inquestionável. Um plantel de luxo.

   E deixo Portugal para o fim. O que é que falhou? Tudo. Houve outras desilusões, porventura maiores, como a Alemanha ou a Espanha. Portugal nunca se afirmou como candidato. É, foi-o, um outsider. Jogámos mal, como sempre, na fase de grupos, e despertámos, diz-se, no jogo com o Uruguai, que provou ser melhor. Quem ganha, ganha quase sempre com mérito. Podemos dizer que a França jogou melhor do que Portugal na final do Euro 2016, mas o golo que entrou foi nosso. E por isso somos campeões da Europa e a França não pôde fazer a dobradinha. Há que ser lúcido. Temos jogadores que não justificam a aposta de Fernando Santos. Jogadores dos quais esperávamos mais em campo. Se chegámos aos oitavos-de-final, devemo-lo a Ronaldo, que nos permitiu sonhar mais um bocadinho. E Ronaldo está a envelhecer. A sua saída para a Juventus, que muitos julgam uma má opção do Real, está mais do que estudada e calculada. Ronaldo marcou menos golos na última época, sendo o melhor marcador de sempre do Real Madrid. O clube é altamente competitivo, e Ronaldo, por um pequenino pormenor que ninguém domina - a idade - teria quebras sucessivas, e naturais, no rendimento. Retirou-se a tempo da liga mais competitiva do mundo. Na selecção, quando Ronaldo sair, antevejo décadas iguais àquelas em que nem sequer chegávamos às fases finais. Certamente que muitos se lembrarão delas. Não temos alternativas. Não temos promessas. Não temos nada. Apenas a incerteza de um futuro cinzento no que respeita a estes grandes torneios da UEFA e da FIFA.

   A mim, o Campeonato do Mundo deixará saudades. Recordo que apenas num jogo houve um empate sem golos: no quinto jogo do grupo C, da fase de grupos, quando a França (curioso dado…) e Dinamarca já estavam ambas apuradas para os oitavos. Foi quase um jogo de gestão de esforço.
   Acompanhei todos os jogos, literalmente todos, com duas semanas a três por dia: às 13h, 16h e 19h. No dia 16 de Junho, houve quatro jogos, com um às 11h. Uma maratona, que fiz por gosto. As ligas de clubes não me atraem. Gosto razoavelmente das ligas espanhola, inglesa e italiana, bem assim como da Liga Europa e da Liga dos Campeões, o campeonato da Europa de clubes. Gosto, gosto, apenas pelos Euros e pelos Mundiais. Junte-se-lhes a Copa América. Acompanhei a Centenário, de 2016, e acompanharei, claro está, se vivo for, a de 2019. Teremos um Euro 2020 inédito, com jogos em doze países, e um Mundial 2022 no Médio Oriente (Qatar), disputado em Novembro e Dezembro para contornar o Verão daquela região do globo.
   Parece-nos muito, e de facto muito se passa em quatro anos, mas o relógio é impiedoso. Já começou a contar.

12 de julho de 2018

Do Vale dos Caídos.


   Há muito a esta parte que se fala na exumação e posterior trasladação dos restos mortais de Francisco Franco do Vale dos Caídos, monumento erigido pelo franquismo, que honra a memória dos nacionalistas que tombaram na Guerra Civil Espanhola. Ganharam os nacionalistas, como sabemos, ganhou Francisco Franco sobre os republicanos comunistas, que ansiavam implantar em Espanha um regime pró-União Soviética. O monumento, hoje, é encarado em duas perspectivas: numa, como um memorial franquista, local de culto a Franco; noutra, como compromisso com a História. Franco, não tendo deixado disposto onde queria ser sepultado, foi-o, logicamente, no Vale dos Caídos, como principal protagonista do conflito no país vizinho. Em Espanha, sabemo-lo, não houve uma ruptura com a antiga ordem, à semelhança do ocorrido em Portugal. A transição à democracia não teve o alvoroço do corte abrupto português, que varreu, por assim dizer, quase todos os vestígios do fascismo, se considerarmos que o Estado Novo foi um regime fascista. Já abordei o assunto anteriormente, não sendo oportuno, para não me perder, fazê-lo de novo agora. Por conseguinte, e embora Franco não goze de nenhuma consensualidade em Espanha, da mesma forma que Salazar não a tem em Portugal, contornaram-se, por lá, todos aqueles excessos pós-revolucionários. Para termos uma ideia, Espanha prepara-se para legislar contra o fascismo, o que Portugal fez no período entre 1974 e 1976. É bem elucidativo.

   Perfilho certo princípio: não devemos brincar com os mortos. Os mortos estão acima do bem e do mal. Francisco Franco será, sempre, objecto de culto e epicentro de revivalismos, esteja ou não sepultado no Vale. O túmulo de Salazar, por cá, discreto e na sua terra, também conhece romarias. Elas são frequentes. Direi mais: é um direito das pessoas. O nosso ordenamento herdou a reacção extremada revolucionária, mas se o comunismo não é proibido, e matou tanto ou mais do que o fascismo, não se entende o porquê de tamanhos trejeitos autoritários - ó paradoxo - em relação ao fascismo. Numa sociedade democrática, a menos que estejam em causa atentados à dignidade humana, cada um deve ter a liberdade de aderir à ideologia que melhor estiver em conformidade com a sua consciência. Demonstram não estar confortáveis com o passado, quarenta anos depois. Demonstram, aliás, um medo irracional de umas quantas ossadas. O caminho, se querem evitar ímpetos extremistas semelhantes aos da Europa central, não é este. Correm o risco de colher o efeito contrário. A deriva é tão ou mais evidente quando pretendem retirar os despojos não apenas de Franco, mas também de Primo de Rivera, ditador espanhol de 1923 a 1930.

   Sem intenção de me imiscuir num assunto que não me diz respeito, porém no exercício da minha liberdade, e bem como referi acima, esperava-se uma atitude mais racional e conciliadora. Se Franco, sobretudo Franco, ainda não era um mito, sê-lo-á em breve. Agradar a uma parcela da sociedade espanhola, gerando-se divisões noutra, acicatará os ânimos e a ira de muitos. Podem reformar o monumento, como querem, erguendo o tal espaço de « reconciliação » e « reconhecimento das vítimas da ditadura », sem alterar o percurso histórico e sem profanar a História e um corpo. É que estas reacções, nomeadamente de Sánchez, recentemente chegado ao poder, surgem num momento muito oportuno, quando uma certa ala da esquerda política olha para a geringonça portuguesa enquanto exemplo a seguir e a aplicar.