2 de julho de 2015

Grandma.


   Ontem, decidi ir até à casa da avó paterna. Desde o falecimento do avô que não a via. Completou, na passada sexta-feira, oitenta e sete anos, idade louvável, o primeiro aniversário sem o avô em perto de setenta anos de vida em comum. Achei-a bastante magra, mais do que lhe é normal, tratando-se de uma senhora que nunca se alimentou bem. Diagnosticaram-lhe, há uns anos, anorexia nervosa. Disse-me que, além dessa patologia, sofre de uma depressão crónica. O humor da avó sempre foi instável. É provável que o seu quadro clínico tenha sofrido alterações com esta perda tão devastadora. Se raro é o dia em que não penso no avô, ainda que não fôssemos próximos afectivamente, porque o éramos fisicamente, consigo imaginar as inúmeras lembranças que povoam a sua memória.

     A casa é grande e por todo o lado se respira quem por lá passou: a bisavó, um tio falecido, agora o avô, fora tantos outros familiares que em algum momento das suas vidas estiveram sob aquele tecto. Já não se ouve barulho. Apenas o dos passos arrastados da avó. Não tem problemas de maior, fora os que mencionei acima, mas os anos pesam. Lúcida, como sempre, perspicaz, senhora de uma inteligência rara, dificilmente qualquer mensagem, por subliminar que seja, passa sem que dê conta. Embora nunca tenhamos sido amigos, a relação avó-neto foi turbulenta. A avó e a mãe frequentemente se zangavam e eu era como uma arma de arremesso. Influenciado pela mãe, passava longas temporadas sem visitar os avós. A par disso, a avó tem uma preferência manifesta por uma prima, talvez por ser mulher, talvez por ser filha do seu filho predilecto. Não sinto muito carinho da sua parte, mas, e antes tarde do que nunca, começo a ganhar-lhe afecto. Não quero sentir os mesmos remorsos que sinto em relação ao avô por não me ter inteirado a tempo do seu estado, por não me ter despedido. Nem eu sabia que, à minha maneira, o amava.

     O pai está mais velho. Quarenta anos nos separam. É um senhor grisalho, bem aparentado, de meia-idade, que vive com a mãe. Não sei que voltas deu que ficou sozinho. Creio que paga os erros de dois casamentos falhados, maioritariamente por sua culpa, não toda, em parte substancial. Mudou-se para casa da avó, e hoje, apesar de ter a sua vida e os seus negócios, procura dar atenção à mãe.
    Almoçámos os três e fiquei toda a tarde em sua companhia. Tentei, conscientemente, não tocar em assuntos melindrosos. Inevitavelmente falou-se do avô, de algum passado (são tão ou mais saudosistas do que eu). Ao final do dia, não senti que cumprira um dever, não. Senti que passara bons momentos com o meu pai e a minha avó, que ainda os tenho. E as visitas serão mais e mais frequentes. O tempo perdido não recupero, bem sei; estão vivos, bem de saúde. Tenho esse compromisso comigo e com eles.

     A morte do avô fez-me ver - algo tarde, como em tudo - que perdemos as pessoas. Aquelas de quem gostamos e aquelas que pensamos que não gostamos, mas que, volta e meia, a sua perda não nos é indiferente. O meu problema foi nunca ter sido confrontado com uma perda. Tive-as, claro, e até de familiares com um grau de parentesco bem próximo. Não voltar a ver o avô era hipótese que não me ocorria. Olhando para a avó, e hoje sei-o, percebo que talvez não mais a possa ver daqui a dois, três anos. Não lhe cobro mais afecto como cobrei durante toda a vida. Irritava-me que não gostasse de mim como da minha prima, esforçando-me por lhe mostrar que era melhor do que ela, fosse no colégio ou em qualquer outra actividade. Caprichos que de nada valem.

        E para a semana que vem visito-os novamente.

27 de junho de 2015

Actualidades.


   A semana tem sido rica em acontecimentos. Desde dois mil e treze que não fazia uma compilação de actualidades, e só ainda o fiz por uma vez. Há assuntos que não deixam ninguém indiferente e, como tal, merecem-me alguma abordagem.
 
   Começando pela interrupção voluntária da gravidez que tanto deu que falar, pensando eu e todos vós que o assunto estaria definitivamente encerrado, para o bem e para o mal. Desengane-se quem assim crê. Sendo uma questão fracturante, até para mim, anos após a regulamentação há quem queira, no parlamento, discutir de novo os contornos que envolvem a IVG, nomeadamente, segundo consta, submeter as grávidas ao visionamento da ecografia, seguindo-se uma assinatura. É natural que os médicos assim ajam, porque parece que, quanto à ecografia, já acontece. O seu papel é o de salvar vidas, pretendendo, a bem ver, desmotivá-las, quem sabe conseguindo um recuo. Esquecem-se, porém, de que as mulheres não são programas informáticos e de que uma decisão destas envolve sempre alguma dor. É evitável. No que diz respeito à isenção das taxas, não me causa tanta celeuma se o Estado resolver aplicá-las. Incumbido de proteger a vida, é razoável que não participe de ânimo leve na cessação da mesma. De resto, o diploma deve ficar como está. Não sou contra ou a favor da IVG (que é diferente do aborto e convém dizê-lo, mantendo-se este como conduta tipificada no Código Penal). Persisto no status quo. Tenho um certo conflito de consciência que me faz não ser indiferente à vida que ali está - que o é, embora se possa discutir se há dor, se não há. Todos os estágios são instrumentais para o desenvolvimento de um ser humano. Eu não estaria aqui sem a minha primeira semana de gestação. Por outro lado, não posso cerrar os olhos ao direito que a mulher tem de dispor do seu corpo. Há um conflito de direitos, e que a consciência de cada um se decida pelo que valerá mais. Atente-se que falamos de interrupção voluntária da gravidez. Não de casos de perigo para a vida da mulher, de malformação do feto ou até mesmo de uma gravidez fruto de um crime contra a autodeterminação sexual da mulher.
 
     Os últimos dias foram marcados, também, por sucessivos atentados terroristas na Tunísia, em França e no Kuwait. Uma leva em três frentes, o que nos leva a duvidar do factor coincidência. Parece, e tudo indica que sim, uma acção concertada, visando provocar o alarme mundial e o maior número de baixas. A escalada de violência no conflito entre o ocidente e o oriente, religioso, social, e a ascensão de grupos terroristas, sobretudo desde o início do século, prova que o desenvolvimento da sensibilidade humana, verificando isso nos ordenamentos jurídicos dos países, maxime dos ocidentais, não está directamente relacionado com um mundo mais seguro, pelo contrário. Facções islâmicas, contrárias à maioria dos fiéis, moderados, prosseguem na jihad contra tudo e todos, sob o olhar apático da comunidade internacional.

    Ainda lá fora, desta feita nos E.U.A, o Supremo Tribunal decidiu-se pela não inconstitucionalidade do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, abrindo portas, assim, a que todos os Estados da Federação o permitam. Uma decisão histórica, sim, atendendo à repercussão que esta medida teria por todo o planeta. Convém relembrar, contudo, que a velha Europa, nesta matéria, dá uma importante lição ao seu velho aliado do outro lado do Atlântico: países como os Países Baixos, desde 2001, ou até mesmo Espanha e Portugal, desde 2005 e 2010, respectivamente, removeram dos seus ordenamentos todos os obstáculos à celebração do matrimónio entre pares do mesmo sexo. Ao Estado não compete colocar barreiras legais que obstem ao reconhecimento dos direitos das pessoas. Tampouco os sentimentos são do Estado, mas da pessoa, e a esta o Estado se subordina.
     Que outros países se inspirem e lhe sigam as passadas.

    Finalmente, por cá, foi posto a circular na internet um vídeo que exibe uma tradição bárbara, selvática, que emerge do lado mais sombrio do humano: não se distinguir dos demais animais pela razão, mas pelos seus instintos cruéis. Um pequeno felino, numa vila pelo país, é colocado no alto de um mastro, ficando à mercê do fogo, caindo, por fim, de uma altura apreciável e envolto em chamas. O vídeo, e naturalmente, a todos indignou. O Ministério Público abriu - e bem - um inquérito. A coisificação dos animais pelo nosso ordenamento conheceu um importante revés quando o legislador resolveu incriminar os maus-tratos a animais de companhia, numa decisão aplaudida e memorável. Cumpra-se a lei e persiga-se os criminosos.

     Por último, e porque a omissão faz-se sentir, uma palavra de apoio para a família Barroso Soares. Independentemente da cor política, a Dra. Maria Barroso, opositora determinada ao Estado Novo, senhora da arte e da cultura, encontra-se em estado muito crítico no Hospital da Cruz Vermelha Portuguesa, depois de uma queda aparatosa em sua casa. Nonagenária, não é difícil presumir que o seu quadro clínico é delicado. Espero, e faço profundos votos por isso, que a Dra. Maria Barroso possa recuperar, contra as expectativas até do seu sobrinho, Dr. Eduardo Barroso, conhecido do avô e do pai, que referiu à Comunicação Social que o estado da senhora sua tia é "irreversível". A Dra. Maria Barroso crê em Deus. As minhas crenças, aqui, em nada importam. Pois que Ele a ajude, que aos Seus olhos nada é impossível.

23 de junho de 2015

Dos Regimes.


    Há tempo que venho sendo confrontado com as vantagens e desvantagens dos regimes republicano e monárquico, e para isso contribuiu a minha participação em fóruns iberistas. Residia em mim, como até há alguns meses não me esforcei minimamente por dissimular, um anti-iberismo primário, fomentado pela desconfiança e pelo receio, mais até do que por argumentos racionais. Percebi, contudo, que os laços que nos unem a Espanha são bastante profundos e que estreitá-los é inevitável, como um filho que por mais que faça busca sempre as suas raízes. Portugal é um dos reinos históricos de Las Españas, o único que conseguiu manter a sua autonomia e independência pela história, e as hipóteses em que a união se colocou, através de políticas matrimoniais ou de conquistas pela guerra, foram mais que muitas.

    Em Espanha, vigora um regime monárquico, reconhecido pela Constituição de 1978 e devidamente outorgado em referendo pelo povo espanhol. Os críticos do regime aludem a Franco, que deixou Juan Carlos como seu sucessor, restaurando-se a monarquia com a sua morte. Em boa verdade, Espanha não conheceu o corte abrupto que por cá tivemos, falando-se, e bem, em transição para a democracia. O primeiro monarca pós-ditadura, que recentemente abdicou da coroa, foi uma figura central no processo para a democracia. Ainda assim, não é difícil encontrar quem defenda as cores da bandeira republicana espanhola no país vizinho, contrapondo-se aos mais tradicionais e conservadores que sabem que o monarca, em Espanha, é símbolo de união e coesão entre todos os espanhóis, num país que se vê em mãos com levas sucessivas de movimentos secessionistas. Uma República enfraqueceria, certamente, a união de um Estado que por si só é já frágil.

      Realidade diferente da que temos por cá. Cem anos sobre a implantação da República, mais cinco, há vozes que se erguem pela Monarquia, sim, que parece definitivamente afastada, até no quadro constitucional que a não permite. Salazar não nutria especial apreço pelos monárquicos, ainda que tenha assentido que os exilados Bragança regressassem a Portugal. Mais modesto do que o seu homólogo espanhol, acredito que tenha confiado nas fundações firmes do republicanismo em Portugal.

       Li, ontem, um artigo de um jornal que versa sobre os gastos com os ex-Presidentes da República. Não seria difícil imaginar que certos privilégios manteriam. O que me indignou, porém, foi a verba associada à manutenção dessa família presidencial informal, que ascende ao milhão de euros. Republicano convicto por não aceitar, sob qualquer pretexto, privilégios de nascimento, cargos vitalícios e hereditários, sujeitos predestinados, acima dos demais, irresponsáveis e invioláveis face ao direito, recuso-me, como cidadão e contribuinte até, a compactuar com esta situação que me parece incomportável, roçando o obsceno. Ocupar a chefia do Estado, por sufrágio directo e universal, advém de um mandato conferido pelo povo. Findo este, o cidadão não deveria acumular mais do que a subvenção a que tem direito por lei e, nomeadamente, o lugar que lhe cabe no Conselho de Estado, como se sabe, vitalício para os ex-Presidentes, compreensivelmente. Gabinetes, assessorias e demais regalias pagas pelo Estado, assim legislasse eu, sairiam dos seus bolsos. Nada justifica, nem um eventual prestígio ou dignidade da função exercida, que cada ex-Presidente - que falamos não de Presidentes em exercício de funções - gaste uma média de trezentos mil euros anuais, quando tanto se falou, e fala, em contenção.

        Se a República se funda nos valores da igualdade, da liberdade, da rotatividade dos cargos públicos em mandatos limitados, surgindo em Roma, num conceito substancialmente diferente do actual, temos, presentemente, regimes republicanos, parlamentaristas, semipresidencialistas ou presidencialistas, que importam o que de pior há noutros, sendo que estes resquícios em nada contribuem para a dignificação do regime que propugnou o fim dos privilégios e a paridade entre os seus cidadãos.

19 de junho de 2015

Dias.


       A silly season está prestes a irromper pelo país. Pelas plataformas virtuais já é bem evidente. O que se quer são sumos frescos, tardes à esplanada, leituras sob uma qualquer sombra. Os anúncios de Verão não tardam. As mesmas histórias de hóteis lotados, incêndios florestais, adolescentes levados nos leitos dos rios ou na força das ondas. As contratações dos clubes, a dança de treinadores, os novos plantéis. Os programas da tarde, enfadonhos, nas praias. E vem, de seguida, a Volta a Portugal, mais as novas grelhas televisivas a marcar o fim da estação quente.

       Ando em período de avaliações. Dias e dias na faculdade, livros daqui, apontamentos dali. Trabalhos a entregar. É costumeiro para a época. Não me surpreende.

     Tenho passeado bastante, bem mais do que em anos anteriores. Passo menos tempo a estudar, ou mesmo em casa, divagando por aqui e ali. Não raras vezes vou à Padaria Portuguesa, na Avenida João XXI, sentando-me a beber algo fresco. Volta e meia, uma fatia de bolo, um café pontual, cheio, como vem sendo hábito, embora tenha reduzido o consumo desse estimulante. 
        
         Estou na fase de transição para adulto a tempo inteiro. Tenho enviado o meu currículo. A média final de licenciatura é um ponto forte a meu favor, mas já se sabe como o mercado de trabalho gira em torno de uma lógica feroz. Quero, efectivamente, emancipar-me. Ter o meu próprio espaço, gerir os rendimentos obtidos. E estou em boa idade para o primeiro emprego, a meio de uma pós-graduação em especialidade, o que faz pender na hora da decisão. Sou exigente, assumo. Não procuro ser advogado ou professor, reduzindo-se as saídas profissionais. Digamos que o que me motiva é entrar no mundo laboral, não me preocupando, por ora, com a função ou cargo a desempenhar; exijo, apenas, que se enquadre nas áreas que domino e que faça justiça ao meu percurso estudantil.

       A blogo ressente-se. Uns que vão, outros que surgem com novos espaços. Não será assim na vida? Não espelhará a blogosfera o que se passa lá fora? Quer-me parecer que sim. 
        E que venham os temas leves, polvilhados, um nadinha, com assuntos de âmbito mais formal.

Este bolo é delicioso, embora prefira o de bolacha. Chocolate, meh!