17 de maio de 2018

The Guernsey Literary and Potato Peel Pie Society.


   Ontem, como é usual, fui ver mais um filminho. Quase por exclusão de partes, escolhi este, de título comprido, sim, e algo confuso. Sem querer desvendar muito, mas já levantando um pouco a ponta do véu, conta-nos a estória de uma jovem escritora inglesa, londrina, citadina, que passa a corresponder-se com um habitante da ilha de Guernsey. A ilha de Guernsey foi a única parcela de território britânico efectivamente ocupada durante a II Guerra Mundial. Os alemães impuseram fortes restrições aos seus habitantes, inclusive a nível alimentar (daí vem o potato peel pie, que, para quem não domina o idioma de Shakespeare, significa torta de casca de batata). Os nazis levaram os animais da ilha, por forma a alimentar os seus soldados nas fileiras da guerra. Aos cidadãos de Guernsey, legítimos proprietários do gado, restavam poucos produtos hortícolas. Tempos duros, de carências várias. Durante os anos de ocupação, constitui-se um grupo de leitura informal entre alguns deles. Passavam o tempo e estimulavam os hábitos de leitura. O nome do filme vem integralmente daí.

   Juliet Ashton, a jovem escritora, tinha prazos a cumprir e uma vontade inabalável de singrar na literatura. Até então, os livros que publicara pouco ou nada haviam vendido. Pressionada pelo editor e encantada pelo que lhe contara um dos participantes daquela tertúlia, viajou para Guernsey. No continente (o nome que davam à Grã-Bretanha) deixou o noivo, um belo americano, sob a promessa de regressar ao fim de «dois ou três dias». A vida surpreendê-la-ia...

   É um drama, com forte correspondência com a realidade. A ilha de Guernsey foi realmente ocupada pelos alemães. Os actores principais conseguiram, quanto a mim, encarnar bem aquelas personagens. Lily James, enquanto Juliet, dá vida à escritora tímida, sonhadora, batalhadora e determinada. Doce. Michiel Huisman, por sua vez, é Dawsey Adams, um homem rústico, mas mais sensível do que aparenta. Outro ponto alto do filme são as suas deslumbrantes paisagens pela ilha. Um encanto. A fotografia é uma mais-valia. O final, não sendo surpreendente, não deixa de ser terno. É daqueles típicos finais que nos levam a torcer, na bancada, pelo casalinho que ali, em circunstâncias curiosas, se formou. E já me alonguei, não? Não? Então, vejam-no. Gostarão.

16 de maio de 2018

Beirut.


   A Guerra Civil Libanesa arrastou-se por anos. O país, ínfimo, com pouco mais de dez mil quilómetros quadrados, congrega várias minorias religiosas, com predominância por cristãos e muçulmanos. É o país com a maior diversidade religiosa do Médio Oriente. Como se calcula, os confrontos vêm-se sucedendo. O último, de grandes proporções, teve lugar em 2006. A instabilidade político-social persegue o Líbano, à semelhança do que acontece, com maior ou menor visibilidade, nos seus países vizinhos.

   É neste contexto que começa Beirut, em 1972, quando um diplomata norte-americano, durante uma festa de recepção a um congressista, vê a sua casa invadida por um grupo de rebeldes islâmicos. Durante o tiroteio, a sua mulher é atingida por uma bala perdida, perecendo-lhe nos braços. Mason Skiles, o diplomata, sai do Líbano e tenta reconstruir a vida, montando uma firma com alguns sócios, até que é convidado, dez anos depois, em 1982, a regressar ao Líbano, a Beirute, para mediar uma difícil troca de reféns. A princípio desconfiado por ter sido escolhido, vem a entender o porquê de apenas ele poder ser o mediador naquela situação. A sua vida cruza-se com a de um dos sequestradores.

   Um típico filme de acção e suspense, como depreenderão. Eu gostei, sobretudo por ser ambientado na década de 80 e por discorrer sobre factos históricos. No final, o herói americano ganha sempre, e sobressaindo enquanto justiceiro que repõe a ordem e faz justiça. Em todo o caso, os actores têm um desempenho positivo e o filme, em si, é francamente bom. Atordoa um pouco, devo dizer, ver as diferenças entre a Beirute de 1972 e a de 1982, completamente dizimada, no meio do colapso social total. Edifícios e infraestruturas destruídos, com milícias cristãs e muçulmanas tendo o controlo sobre a cidade, cada uma na sua zona de influência. Isto quando o Líbano, antes da guerra civil que se prolongou até 1990, ser uma pequena Suíça na região. Uma vez mais, a agenda americana a semear o caos, a estar por detrás de conflitos intermináveis que acarretam a perda de milhares e milhares de vida humanas civis e a paralisação total da economia de um determinado território.

   A cena final, com a star-spangled banner ondulando, vitoriosa, no que parece ser uma base dos EUA, é a confirmação inequívoca de que aquele filme é, e pretende ser, uma visão americana sobre a guerra civil do Líbano. Prescindia-se bem dela, da cena, bastante desapropriada, numa estória em que não há vencidos e nem vencedores. Aliás, há uma vencedora, sim: a guerra. Décadas depois, é substantivo que o Médio Oriente continua a conhecer tão bem.

15 de maio de 2018

Cultural Sunday... on Saturday (take 18).


   Sábado, dia de Eurovisão. Receei, em determinada medida, que a afluência de pessoas prejudicasse a minha mobilidade na cidade. Arrisquei, assim mesmo, e pus os pés a caminho. Decidi-me pelo Museu Geológico de Lisboa, da parte da manhã, e pelo Museu da Carris, de tarde. A meio, fui à descoberta de uma capela fantástica, quinhentista, em Alcântara, que passa despercebida, mas que convém conhecer. O interior, discreto, nem por isso deveria merecer menos atenção da nossa parte. Falo-vos da Capela de Santo Amaro.

   O Museu Geológico de Lisboa reúne uma importante colecção de exemplares. Fiquei impressionado com as ossadas de dinossauros em alguma profusão. Mas não só. Os minerais e as rochas, uma das quais com 3.800 milhões de anos, compõem o vastíssimo espólio. Também encontrarão vários fósseis de amonites, do Jurássico e do Cretácio, sobretudo. Foi precisamente no final do Cretácio que se deu a extinção em massa - uma delas, a mais conhecida - que levou ao desaparecimento destes animais e de muitos outros. Dos dinossauros, nomeadamente. O museu está dividido por três salas, duas delas extensas, em comprimento, ladeadas por vestígios geológicos e arqueológicos. Uma ocupa-se da presença humana pré-histórica. Fiquem com algumas fotos.


Na segunda foto, uma tíbia de Braquiossauro datada em 150 milhões de anos.
  
   Fazia-se cedo para o Museu da Carris. Entretanto, e porque não sabia como seria com os transportes (suspeitava que lotados...), não perdi tempo a chegar a Alcântara. A pequena capela, edificada em 1549, recebeu a minha curiosa visita. Não esperem o deslumbramento. É uma capela simples. Está lá, sobrevivendo ao tempo e às catástrofes que atingiram Lisboa.



Lindíssima, não acham?



   Museu da Carris, finalmente, às 14h em ponto. Logo à entrada, ficarão a saber que a companhia foi criada no Rio de Janeiro, em 1872, e que só depois foi transferida para Lisboa. Dado curioso, se considerarmos que o Brasil já era independente há cinquenta anos. Na fase inicial de transporte de passageiros, o mesmo era efectuado com recurso à tracção animal, aos chamados "americanos". Só depois, com a electrificação, é que foram introduzidos os eléctricos ("bondes", no Brasil), seguidos pelos autocarros ("ônibus", no Brasil). Embora o museu seja dedicado à Carris, encontrarão informação diversificada sobre o Metropolitano de Lisboa, afinal, veio revolucionar as deslocações na capital. A parte mais engraçada, quanto a mim, está no núcleo III (o museu está dividido por núcleos, em blocos, sendo que o percurso entre cada um deles é efectuado por elétrico; um monitor do museu leva-nos até ao núcleo seguinte, e assim sucessivamente). E o que há no núcleo III? Os veículos em si, eléctricos e autocarros, que nos serviram ao longo de tantas e tantas décadas.



   Um museu interessantíssimo, que adorei conhecer. Bem como o museu anterior, não é gratuito. Poderão, legitimamente, indagar-se: "Que interesse terá um Museu da Carris?" Todo. Se forem saudosistas e quiserem recordar parcelas do vosso passado - e todo o lisboeta tem um passado ligado à Carris e ao Metro - considerarão a visita como extremamente oportuna.


   Mais fotos, já sabem, através das minhas demais redes sociais.
   Para o sábado seguinte, as visitas estão devidamente programadas. No sábado que se seguirá ao próximo, é provável que me aventure para lá dos limites da cidade. Talvez sim, talvez não. Esperem para ver, que sei que há quem o faça e me acompanhe tão atentamente.

Todas as fotos foram captadas com o meu iPhone. Uso sob permissão.



13 de maio de 2018

Eurovision Song Contest Lisbon 2018.


   Não sou fã do certame. Vi, salvo erro, umas quatro edições na minha vida: uma em pequeno, outra no ano em que os meus pais se separaram (porque distraía a cabeça...), a do ano passado (em que ganhámos, pela primeira vez desde 1964) e esta. A deste ano porque a organizámos. Foi, de certa forma, ainda no seguimento da vitória do Salvador.

   Falou-se, na altura, na incapacidade de Portugal em sediar um evento de tamanha projecção e grandiosidade. O país é pequeno, relativamente pobre e anda em constante contenção financeira. A verdade é que a RTP aceitou o desafio e arregaçou as mangas. Resultado: uma edição fantástica, com elogios velados e unânimes. A Europa rendeu-se à nossa capacidade de receber, de bem receber. Os turistas sentem-se em casa. Desfrutam do nosso sol e da nossa paz social. A par do espectáculo em si, na Altice Arena, a Eurovision Village, no Terreiro do Paço, com um forte dispositivo de segurança, cumpriu com o que faltava: por alguns dias, Lisboa mergulhou na magia do maior evento musical da Europa e do mundo. A Eurovisão, que, repito, não me seduz, tem um magnetismo próprio, atrai milhares de pessoas às cidades que a organizam e outros tantos milhões prende através da caixinha mágica. É aquele momento do ano, goste-se ou não.

   Passarei à margem das canções. Não é isso que me traz aqui, que me leva a escrever sobre a Eurovisão. Há-as melhores e piores. Uns gostam mais de umas, outros de outras. Provámos, em 2017, que era possível conquistar a Europa com um poema simples, sem aparatos, luzes e fogos. Hoje, ou melhor, ontem, que já passa da meia-noite, não o conseguimos. E o poema e a música eram, quanto a mim, substancialmente melhores, mais tocantes. A Europa é de modas. Ainda assim, geralmente querem-se músicas alegres, divertidas, que não sejam particularmente complexas. O chamado bubblegum pop, não obstante haver casos de metal - a Hungria levou este estilo musical nesta edição. Recordo-me, em 2006, justamente no ano da separação dos meus pais, de os Lordi terem ganhado com uma canção de hard rock, o que demonstra em como a Eurovisão também é uma vitrine de tendências e de riscos que se assumem. Há depois, mas não entrarei por aí, o lado dos compadrios, que, parece-me, se tem vindo a mitigar. Temos mais países ocidentais a conseguirem conquistar os lugares cimeiros. A votação do júri pode equilibrar. E depois, naturalmente, as afinidades e as relações de proximidade influenciam as escolhas do público. Portugal deu os doze pontos a Espanha, referindo este exemplo, quando poderia citar outros.

   Creio que estamos de parabéns, sobretudo a estação pública e as suas apresentadoras. Catarina Furtado, Daniela Ruah, Sílvia Alberto e Filomena Cautela. Estiveram as quatro muitíssimo bem, umas mais do que outras. A vida é mesmo assim. O tempo já acusa certo desgaste em Catarina Furtado. Daniela Ruah surpreendeu enquanto apresentadora, ela, que é actriz, e Filomena Cautela superou-se, afirmando-se definitivamente como uma das nossas melhores apresentadoras de televisão da actualidade.

    Últimos na tabela, para não desabituar, primeiros no esforço e no reconhecimento do mérito.