26 de maio de 2015

Museus.

       
      Tal qual acordado, no domingo decidimos ir ao Museu dos Coches, depois de definitivamente ter assentido na ideia. À chegada, a fila para os bilhetes assustou-nos um pouco. Estariam mais de trezentas pessoas, número mais do que suficiente para dar a volta a todo o edifício, contornando-o e ainda sobrando espaço para uma franja significativa de pessoas. Perante aquele aparato, aconselhou-me a desistir. Contudo, uma tarde tão convidativa, sob uma luz quente, convenceu-me a insistir e a colocar-me pacientemente atrás de toda aquela gente. Decisão sensata. Rapidamente a fila foi diminuindo, à medida em que iam entrando, não chegando a estar por ali mais de meia hora.

          Levantámos os bilhetes, dois, e lá entrámos. Estava excitadíssimo. Para quem é um amante confesso de História, estar tão próximo daquelas carruagens é como recuar no tempo. Saber que monarcas que tanto venero foram transportados naqueles coches, saber que alguns deles levaram D. João V e o seu primogénito, D. José, até aos seus devaneios amorosos, saber que num deles ocorreu a fatalidade que mudaria a história do país, fascina-me.

       O espólio de carruagens é imenso. Tirei mais de duas dezenas de fotos, sem flash, evidentemente, muito embora tenha visto cidadãos indiferentes, de máquina na mão, disparando à vontade e com isso provocando danos, alguns irreparáveis, num património que é de todos. Houve desordem, e os funcionários não conseguiram, claramente, estar com o olho em cima daquela multidão. 
       O museu não está completamente organizado, pode ser;  falta a parte interactiva, é provável; os coches não estão, na sua maioria, devidamente assinalados quanto à data e respectivo contexto histórico, sim. Valeu a pena de qualquer modo. Os coches são aqueles, a visita foi gratuita, não invalidando que não passe por lá um dia destes. Até porque tenciono fazê-lo.                                                                                                 
                                                                                                                                                                   
O coche da visita de Filipe II a Portugal.
O meu favorito - o coche de D. João V. 
Este "modelito" do século XIX também é giro. :)
O coche em que D. Carlos foi assassinado, no Terreiro do Paço, em 1908.

        E há muitos, muitos mais. Estas são apenas algumas das carruagens que encontrarão no novo espaço que alberga estas maravilhas.
        Saímos do Museu dos Coches ainda o Sol raiava. Aproveitando, e uma vez que também não conhecia, fomos ao Museu da Electricidade, logo ali. Mesmo não estando tão entusiasmado, gostei sobremaneira. Tomei conhecimento de detalhes que nem me ocorriam. Entrámos dentro de caldeiras, inteirámo-nos do processo de geração da electricidade. Nem o cheiro característico a carvão foi esquecido. Também gostei da parte didáctica, dos aparelhos que nos mostravam a electricidade em si - um dos quais permite-nos senti-la. Nunca vi tanto circuito eléctrico junto.

A vista de baixo para cima é impressionante!
Literalmente "no meio" das caldeiras!

Não esqueceram os mínimos detalhes. Cheira a carvão. Até os olhos se ressentem!
Colocamos a mão na bola e a electricidade segue o nosso movimento.
            
      Foi um início de semana excelente. Recomendo qualquer um dos museus que visitei, ambos com temáticas distintas. Em razão de estarem perto, quem for a um aproveita e dá uma passadinha no outro. Neste fim-de-semana, estou a pensar em visitar o Panteão Nacional, um dos monumentos que cobiço há anos. Veremos.

23 de maio de 2015

Passeios.


    As aulas aproximam-se do fim e, com elas, avolumam-se os trabalhos. Fim de ano lectivo é sempre a mesma dor de cabeça. A particularidade da área que elegi assenta no facto de ser bastante laboriosa. Se já o era antes, persiste no mestrado. Não sei até que ponto sinto saudades dos velhos e bons testes!... Nunca estamos contentes, essa é que é a verdade.

     Ontem, depois de ter estado envolto toda a tarde nas ideias para um trabalho a apresentar, resolvi sair com o amigo. Uma tarde bastante casual. Não saímos da cidade e tampouco fizemos qualquer percurso alternativo. Começo a dar razão aos turistas que nos visitam e que ficam fascinados com a beleza da nossa capital. Efectivamente, Lisboa tem uma luz encantadora, um estilo arquitectónico, na baixa, que lhe confere um aspecto tão envolvente, sem descurar a parte de Alfama, dos bairros tradicionais, por onde caminhámos recentemente, verdadeiramente deliciosa.

  Descemos desde a parte alta da urbe até ao centro. Decidiu levar-me a comer um gelado. Irresistivelmente, comemos outro, desta feita dois McFlurry, a contrastar com os primeiros, de amêndoas. A minha estreia anual com gelados, que adoro.

     Neste fim-de-semana, estou a pensar em ir ao novo Museu dos Coches, recém inaugurado. Só temo a afluência. Estive no antigo, corria o ano de dois mil e um, com o pai, na época em que ainda sorria despreocupadamente. Tenho curiosidade em ver como ficou. A ideia, da mulher de D. Carlos, a rainha D. Amélia, foi genial. Manter um espólio tão rico longe da vista das pessoas seria um atentado. Da primeira vez que o visitei, fiquei deslumbrado com cada carruagem, sobretudo com as ricamente decoradas. Reinado de D. João V. Nunca como naquelas décadas entrou tanto ouro em Portugal, o suficiente para fazer d' O Magnânimo o monarca mais rico da Europa. Será, com certeza, uma excelente tarde. Só espero que não seja moderno demais, dado que alberga um património bastante antigo. Receio esta corrente modernista que se faz sentir em todo o lugar...
       Fica a sugestão a todos quantos se interessem. Pertinente é aproveitar os dias amenos, agora que o bom tempo parece começar a querer despontar.

19 de maio de 2015

Fair Play.


      Os acontecimentos dos últimos dias levaram-me a reflectir acerca do futebol e das suas repercussões nas pessoas. Em como um desporto, que em boa verdade não passa disso, jogado num campo, com uma leva de homens ou mulheres correndo atrás de uma bola, suscita tanto ódio, ressentimento, incendiando os ânimos e provocando um rasto de destruição com danos patrimoniais, e morais, em alguns dos casos.

     Há muito que o futebol se tornou um negócio de milhões, afastando-se do seu propósito primitivo: distrair, alienar os adeptos por umas horas, o tempo de uma jornada; ou por mais, por uma temporada, um ano, o suficiente para esquecer a vida dura que aguardava fora do estádio. Salazar percebeu-o e estimulou esse gosto pelo desporto-rei, enaltecendo-o, associando-o ao regime. Assim foi durante décadas. Ludibriado pelas glórias alcançadas, o povo passava à margem da guerra colonial, que então começava, da pobreza que grassava no interior do país, do isolamento internacional que remetia Portugal a um canto obscuro da Europa.

     A febre de domingo evidencia a tendência para a rivalidade que o futebol provoca, aliada a uma política securitária que tem atingido proporções nunca antes vistas. O vídeo propagado pela internet é uma mera gravação que demonstra o que acontece um pouco por todo o país. Uma combinação suprema de abuso de autoridade, de desrespeito pelo princípio da proporcionalidade, de irresponsabilidade de cidadãos que levam os seus filhos para o palco onde todos os excessos são cometidos, fomentados pelo consumo negligente de álcool e, sobretudo em camadas mais jovens, de drogas. Claques criminosas actuam em bandos, entoando cânticos de incentivo à violência, arrasando instalações, arremessando objectos pelas ruas em confrontos policiais. Festas que mal terminam. Festejos esses que podem lesar, dificultando, no limite, a passagem de veículos prioritários em marcha de urgência, como ambulâncias ou carros de bombeiros. Não podemos esquecer, ainda, os actos de puro vandalismo sobre o património nacional, no ano passado, nomeadamente.

        As manifestações de júbilo e de euforia não podem pôr vidas em risco. Compete aos órgãos legislativos, como a Assembleia da República ou o Governo, estudar a viabilidade da aplicação de actos normativos que regulem situações destas, que se repetem ano após ano, impunemente. O bom senso o obriga. Comemorações devem ser permitidas com conta, peso e medida, respeitando-se os direitos alheios.

15 de maio de 2015

Acordo Ortográfico.


    Entre notícias que povoam a imprensa escrita e os noticiários televisivos, dando-nos conta de adolescentes assassinados e de demais casos de violência juvenil, o fim do período de transição que marca o início da vigência, sem reservas, do Acordo Ortográfico, pouco passou despercebido. Uma vez mais, bem como aquando da ratificação e consequente promulgação do diploma, variadas vozes se insurgiram contra o que, em suas opiniões, é um atentado à língua portuguesa.

      Se bem me lembro, abordei o Acordo Ortográfico há muitos anos, chegando ao limite de o aplicar. Voltei atrás, não por qualquer discordância relativa à pertinência do tratado, mas por dificuldades em adaptar-me às novas regras; dificuldades essas no sentido de, esteticamente, não ter conseguido ultrapassar algumas barreiras cimentadas pelo hábito. Digamos que ainda me é custoso escrever "ator". Porém, tenho sido um apoiante inequívoco do Acordo Ortográfico e não é difícil desabar o amontoado de críticas que lhe são dirigidas.

      A língua portuguesa não é um idioma exclusivo de Portugal e perante novidade alguma estamos. Desde o século XV que a língua de Camões deixou de nos pertencer, quando a soubemos impor, o mais das vezes pela força, a outros povos, que a assimilaram e adaptaram à sua realidade. Deu, inclusive, origem a novos idiomas desditosos, alvos fáceis de um preconceito linguístico que ainda hoje se faz sentir. Novas entidades surgiram do império colonial que construímos, incorporando e oficializando o idioma pelo tempo. A distância geográfica tratou de acentuar as diferenças, estimuladas pela influência dos vários povos em contacto com essa língua franca. Hoje, entretanto, podemos falar de uma língua portuguesa unitária que é falada de distintos modos, conferindo-lhe beleza e riqueza lexical e fonética.

      No início do século passado, depois da revolução republicana e fruto dos assomos reformistas dos revoltosos, a língua portuguesa passou por uma reforma unilateral elaborada por Portugal, vigorando a partir de então no país europeu. À época, um país lusófono, independente, já existia - o Brasil, que não foi consultado acerca desse procedimento. Extirpou-se da língua portuguesa a maioria da sua raiz etimológica latina, perdendo farmácia o seu dígrafo ph, nomeadamente. Em resultado da atitude individualista do governo republicano, a língua portuguesa, já comum a dois países, ficou com duas ortografias opostas, originando o ciclo de acordos e reformas que pautou todo o século XX e o início do nosso século, tendo em vista a uniformização linguística possível.

         Nos dias que correm, a língua portuguesa é idioma comum de mais de duzentos e cinquenta milhões de pessoas, seja como língua materna ou como língua de contacto diário, oficial, através dos estabelecimentos de ensino, dos meios de informação ou dos organismos estatais dos oito países que a adoptaram nas suas legislações e no quotidiano administrativo. Dividida em duas ortografias oficiais, a portuguesa, seguida também pelos PALOP e por Timor-Leste, e a brasileira, queda enfraquecida nos esforços para a sua afirmação como língua útil a ser ensinada e aprendida por estrangeiros não lusófonos e até no êxito das políticas portuguesa e brasileira procurando a sua oficialização junto de organizações internacionais, como a ONU, que a têm preterido por não saber por qual variante decidir-se.

         A situação da língua portuguesa, mantendo-se o impasse, é precária, num mundo globalizado em que há outros idiomas, tanto ou ainda mais pujantes, que vão se afirmando. A língua inglesa não está uniformizada, é certo. Contudo, compará-la no prestígio ou na importância ao português é insensato. O castelhano, conhecido internacionalmente por espanhol, está uniformizado na sua ortografia. O francês goza de igual força, não obstante algumas diferenças que separam a variante europeia da canadiana. Como referi acima, a uniformização é possível, com uma percentagem de harmonia ortográfica rondando os cem por cento.

       Não seria de esperar que Portugal, com tiques revivalistas de gloriosa potência colonial, aceitasse ceder uma só letra procurando estabelecer e definir regras comuns para o idioma que propagou pelos continentes. O Acordo foi rejeitado embrionariamente. Inverdades surgiram e foram disseminadas sem conhecimento de causa. Recordo-me, por ora, do célebre facto, que muitos julgaram, e julgam, passar a fato, sem que se dêem ao trabalho de ler o Acordo e procurem inteirar-se do que é a dupla grafia (há palavras que, dada a pronunciação diferente, não podem ser uniformizadas). Juristas escreveram artigos na ânsia de adiar o inevitável, procurando protelar o fim do período de transição...

       O Acordo Ortográfico não está imune a críticas. Pelo contrário, bombardeado que é! Carece de ser reformado, de uma revisão. Há incoerências, há pontos a debater e a modificar, mas não prescindo da sua aplicação. É imprescindível, para a unidade da nossa língua, que procuremos chegar a consensos com todos os países-irmãos, sem arrogância, sem pedantismo. O maior património de que dispomos é este idioma, a ponte que nos leva das Américas ao Oriente. Não jaz na Europa a possível salvação de Portugal, e sim no estímulo dos laços histórico-culturais com os territórios que outrora dominámos. E a língua é essa travessia. Caso contrário, arriscamo-nos a pagar um preço demasiado elevado. 
     Queremos uma língua portuguesa. Uma. Dispenso uma miríade delas, com outras designações e completamente desvirtuadas ortograficamente. Vale o esforço, assim creio.