30 de setembro de 2010

Um Simpático Velhinho



Ultimamente tenho ido lanchar a uma pastelaria simpática perto de casa. É um sítio calmo, tranquilo e bem frequentado. Além do mais, dá para estudar e ler um pouco. Nos últimos tempos, reparei que um velhinho vagueia pela pastelaria todos os dias, uma vez que o encontro todos os dias. Ora se levanta, ora se senta, ora dá a volta à pastelaria, ora sai, ora torna a entrar... Por vezes, reparo que se senta e coloca a cabeça sobre os braços, cerrando os olhos já por si tristes. Um destes dias, tomei coragem e perguntei à senhora da pastelaria quem era o velhinho. Disse-me que era o seu padrasto e, devido ao facto da sua mãe, também idosa, ter sido internada, ficou a tomar conta dele. Dá-lhe as refeições e pouco mais.
Porém, o que me suscitou mais a atenção foi constatar que ninguém se importa verdadeiramente com o velhinho. Há atitudes que revelam imenso sobre as pessoas. A senhora quando tira uns minutos sem movimento para lanchar, senta-se numa mesa no lado oposto ao lugar onde está o velhinho. Nunca a vi dirigir-lhe uma palavra, perguntar-lhe se queria alguma coisa, prestar-lhe algum auxílio... O mesmo se aplica ao marido dela. Anda por ali, bebe e bebe, senta-se com amigos e nem tem a dignidade de convidar o pobre do velhinho para se sentar na sua mesa. Tenho muita pena dele.
Hoje foi o limite. Vi o velhinho a chorar disfarçadamente na mesa, ocultando as lágrimas com as mãos enrugadas e cansadas. Fiquei tão revoltado!... Pedi o meu chá, pedi-lhe licença e sentei-me na mesa do velhinho. A mulher e o marido ficaram perplexos, para mais quando lhes lancei um olhar de reprovação. Reparei que o velhinho ficou feliz por falar com alguém. Perguntei-lhe o nome, falei-lhe da faculdade, até de futebol (tentei...) falei porque soube que era um tema que o agradava. Foi uma hora que não fez diferença para mim, mas que certamente fez toda a diferença para ele. Quando, por fim, disse-lhe que me ia embora, os seus olhos ficaram tristes, quase adivinhando a solidão que o esperaria de novo. Prometi-lhe voltar amanhã e lá estarei de certeza.
Os idosos não são um pedaço de lixo, um pedaço de algo que não serve para nada. São pessoas que viveram as suas vidas e que chegaram a uma idade que lhes deveria conferir algum respeito. Uma sociedade que não respeita os seus idosos não merece ser respeitada.
Eles já lá chegaram. Nós, se tivermos saúde, também chegaremos. Aquilo que eles sofrem, se tudo continuar assim, é aquilo que nós sofreremos.

10 comentários:

  1. Ñõa percebo o porque da sociedade não valorizar os idosos, no fundo na valoriza o conhecimento que eles tem para nos dar. Estagiei um mes num lar de idosos e adorei, senti que eu e os meus colegas trouxe-mos sangue novo aquele sitio, que fizemos a diferença no fundo e no fim saimos de lá muito mais ricos de espirito!

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  2. O que eu dava para ter o meu avô perto de mim. Ele tá lá no norte e passam-se anos. Não entendo como é que essa gente trata assim os idosos, mete mesmo raiva. Fizeste tu e muito bem em fazer isso e dar atenção ao senhor.

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  3. Foi um gesto muito bonito da tua parte Mark. Se já achava piada ao teu modo de pensar, conquistaste-me com o teu modo de sentir. Abraço

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  4. Este texto revela muito da nobreza dos teus sentimentos. O que fizeste é muito belo.
    Tanto se cuida das crianças e tão pouco se cuida da velhice.
    Que tristeza!

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  5. Foi uma atitude muito bonita da tua parte, Mark. Fizeste muito bem. Agora vê lá é se a dona da pastelaria não te chateia.
    Ah, eu uso o bem-haja não por uma questão de formalidade, para mim não o é. Uso-o porque gosto da expressão, porque se usa pouco hoje em dia e porque no fundo eu sou um antiquado xD Acredita que não é por uma questão de formalidade. Se eu quisesse ser formal sê-lo-ia de outra forma.

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  6. O meu reflexo: A sociedade é muito injusta. Os idosos são tratados como se fossem coisas descartáveis. Isso é revoltante. Muito bonito o teu gesto para com os idosos. :)

    Tomás: Vence a distância e visita-o. :) Aproveita cada momento.

    Speedy: Obrigado pelas tuas palavras. :) Abraço.

    Pinguim: Também sinto isso. Os idosos e as crianças são os mais frágeis em qualquer sociedade, mas os idosos tendem a ser cada vez menos alvo de preocupações por parte dos nossos governantes. Associa-se - erradamente - idosos com a morte. E as pessoas preferem esquecer essa inevitabilidade...

    Francisco: A dona da pastelaria não me importa. :) Acho-a uma mulher insensível.
    Oh :) quanto ao "bem-haja": eu estou à espera que me digas "um abraço". xD Gosto imenso do "bem-haja". É elegante e subtil. :))

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  7. foi muito cool da tua parte. sempre gostei de idosos mais do que crianças e isso sempre deixou toda a gente perplexa. But, who cares?...

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  8. Também gosto muito de idosos. :) Tenho imensa pena quando os vejo tristes ou maltratados. Não entendo o porquê da nossa sociedade desprezar os mais velhos. Nas sociedades orientais, a velhice é um posto; aqui é um fardo. :(

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  9. Na verdade, custa tão pouco fazer sorrir alguém! E até foi em parte por causa dos idosos que escolhi a minha profissão. Entretenho-me sempre a falar com alguém mais velho.

    Aliás, acho que as pessoas idosas estão sempre desejosas de ter alguém que as oiça. Mas oiça de verdade!

    Abraço.

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  10. É verdade, eles gostam imenso que estejamos atentos ao que dizem, às suas histórias e aos seus relatos de quando eram jovens. E todos poderíamos dar um pouquinho de tempo para essa tarefa que é de todos nós.

    Abraço, Blog Liker. :)

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