20 de julho de 2010

Ventos de Mudança



Até pode ser um falso alarme, mas tudo indica que um novo ciclo está a começar na minha vida. Porém, temo ser precipitado e falar antes de tempo.
A mãe e o seu marido andam numa fase menos boa. Discutem, de forma discreta, mas eu noto perfeitamente que o clima não é o mesmo que se vivia há uns anos atrás. A mãe gostava muito dele e tudo fazia para que eu também o respeitasse, essencialmente. Mas a verdade é que eu nunca gostei dele e nunca me esforcei para disfarçá-lo. Existia um clima de alguma tensão, mas era suportável.
Há algumas semanas tudo piorou. A mãe e o marido afastaram-se gradualmente e eu apercebi-me de que algo estava mal. Ontem foi a gota d'água. Cheguei a casa, uma vez que estive toda a tarde em Sesimbra com uns amigos e as primas, e ouvi-os a discutir. Nunca tinha ouvido a mãe a alterar o seu tom de voz. É sempre tão educada, resolvendo todas as questões pendentes com uma diplomacia invejável. Fui para o meu quarto e, apesar de saber que é horrível fazê-lo, não consegui evitar um impulso para ouvir a discussão. Escutei, assumo, e foi a primeira vez na vida que o fiz. Falaram de tudo. E ele disse claramente à mãe que eu não gostava dele e que ele sabia-o. E a mãe respondeu-lhe: -"Muito bem, já nem eu gosto de você."
Disse-o de forma fria, completamente sem qualquer tipo de emoção. Ele saiu do escritório, pegou no comando do carro e abandonou a casa num ápice. Tive de esconder-me, não fosse aperceber-se  da minha presença, o que provocaria uma situação ainda mais constrangedora. Não consegui evitar um sorriso de alegria que, simultaneamente, surgiu no meu rosto. Quis dar uma gargalhada alta e audível, tamanha era a alegria que despontou na minha alma.
Não sei se acontecerá, mas sinto que aquela relação já acabou. Se acontecer, de facto, será um dos dias mais felizes da minha vida. Eu não gosto mesmo do homem. E tenho uma personalidade muito forte: nada do que ele faça poderá mudar o que eu sinto. Não queria propriamente que a mãe e o pai voltassem, até porque é bastante improvável, mas já ficava muito satisfeito se esta separação com este homem se concretizasse. Era um enorme alívio e seria um dos pormenores mais importantes para que a minha vida fosse inteiramente feliz (se é que na Terra podemos ser inteiramente felizes...).
Acreditem, ter um homem em casa que não nos diz nada não é fácil. Ele nunca se intrometeu directamente na minha vida, mas sei que não gostava muito da minha forma de ser... Intrometia-se nas minhas amizades, nos meus telefonemas... Um dia, vi-o com o meu diário na mão que, por um descuido, deixei aberto na sala de estar. Veio ter comigo para mo devolver, no entanto, aposto que leu algo sobre mim. No dia seguinte, fez uma piada muito sem graça sobre algo que não podia saber de outra forma que não tivesse sido pelo meu diário. Senti um calor forte na cara. Ele invadiu a minha privacidade e cometeu um crime, ao ler linhas da minha vida pessoal que em nada lhe dizem respeito. Todavia, nada lhe disse e contei à mãe. Ela desvalorizou e disse-me para ter mais cuidado. Teve razão. A culpa foi inteiramente minha. Contei também à mana, a Leninha, e sei que ela, que também não gosta dele, chamou-o à atenção. Que homem horrendo.
Pode ser que as minhas preces tenham chegado a um bom lugar. Pode ser que um novo vento de mudança traga aquilo que tanto anseio.

5 comentários:

  1. Não deve ser nada agradável viver debaixo do mesmo tecto com alguém de quem não se gosta...
    Claro que não tenho que emitir opiniões, nem devo; só espero que tu possas vir a ser o mais feliz possível, qualquer que seja a resolução do caso.

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  2. Muito obrigado, Pinguim. Claro que podes emitir opiniões. Vindas de uma pessoa por quem, muito sinceramente, tenho elevada estima, qualquer opinião é bem-vinda. :)
    Sim, é muito difícil lidar com uma pessoa que nada nos diz, apesar de significar alguma coisa para a mãe.

    Abraço.

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  3. Mark,
    Nós, latinos, somos muito apegados á família, principalmente antes de sairmos de casa para cursar faculdade (espero que tenha escolhido coimbra...). Depois ocorre um inevitável distanciamento. Isso é natural e acontece com todos nós.
    Por isso, não se preocupe com sua mãe. Ela é grandinha.
    Mais que isso, quanto menos você se intrometer na vida dela (e do restante da sua família) menos eles vão se sentir confortáveis para se intrometer na sua.
    Você, como eu, tem "telhado de vidro". Manter distância é o melhor que temos de fazer.
    Abraços.
    Marcelo Pires.

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  4. Sim, tem razão, mas eu também acho que a mãe merece uma pessoa bem melhor. :) E quero o bem dela, como é evidente. Mas ela já gostou muito mais dele. É uma questão de tempo...

    Abraços, Marcelo.

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  5. Bom blog, continua *
    Beijinho :)

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