31 de março de 2011

Páginas de Um Diário (17 de Fevereiro de 2006)


Querido Diário,

Neste momento que te escrevo são duas e vinte da manhã e tenho o rosto molhado. Sim, estive a chorar.
O pai saiu de casa antes do jantar e disse que não voltará. Pouco antes disso, da parte da tarde, o pai discutiu com a mãe na sala de estar. Não falaram alto, mas deu para perceber que algo não estava bem. O Pedro saiu do seu quarto e foi lá ver o que se passava. Eu espreitei pela porta e vi-o a descer as escadas.
Já jantámos sem o pai. Ele veio ao meu quarto, sentou-se na cama e contou-me o que se passa. Disse-me aquelas frases banais, de circunstância, de que vai continuar a ser o meu pai, de que nunca me vai deixar, de que, enfim, separa-se da mãe e só. O meu lugar mantém-se igual. Não sei porquê, mas algo me diz que as coisas não são bem assim e que tudo se vai alterar. Pressinto-o. Nem sei para que lugar ele foi. Levou uma mala com algumas coisas e saiu de vez.
Durante o jantar nem uma palavra se falou sobre a discussão. Jantámos os três em silêncio. O Pedro lá olhava para mim para ver se eu estava bem e pouco mais.
Apetecia-me falar com alguém, explodir, gritar! Sinto-me impotente! Não posso fazer nada para mudar o que já está feito. Resta-me esperar, esperar pelos desenvolvimentos...
Queria desaparecer daqui, fugir, embora não saiba para que lugar. Gostava que o Luís me viesse buscar e me levasse para qualquer lugar. Sei lá, fugíamos ou algo do género. Oh, seria estúpido! A mãe colocaria a polícia à nossa procura e rapidamente nos encontrariam. Ou então podíamos ir para Espanha, França, sei lá, para bem longe daqui. As fronteiras estão abertas. Seria tão fácil...
Sabes, a cabeça pesa-me apesar de não ter sono algum. Sinto as pálpebras pesadas e doridas. A almofada está molhada. Acho que vou dormir com o Simba, bem agarrado a ele. O teu lugar é que é mesmo insubstituível. És o meu fiel confidente e ouvinte. E sempre o serás ( pelo menos até terminarem as tuas páginas ).

Adoro-te,
Beijinhos,

M.

13 comentários:

  1. acredito que não tenha sido fácil transcrever esta página Mark. Um abraço e obrigado por partilhares algo tão privado

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  2. Recordações de um dia triste...

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  3. Isto prova que quem mais sofre com os divórcios são as crianças. Os meus pais também tinham problemas e também sofri com as discussões deles e outros episódios de amantes e afins.

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  4. Speedy: É... ainda hoje me custa um bocadinho, mas enfim... já foi...

    Pinguim: Muito triste. E o pior foram os dias que se seguiram...

    Miguel: Sofri mesmo muito. No Dia do Pai do mesmo ano, ou seja, um mês depois, chorei tanto com saudades do pai...
    Por vários motivos, considero 2006 como o pior ano da minha vida até hoje.

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  5. Espero que este momento da história da tua vida esteja superado. 1 abraço!

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  6. Paulo: Está, creio. Bom, mais ou menos.
    Um abraço e obrigado pelas palavras.

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  7. O meu pai abandonou-me a mim e à minha mãe logo quando nasci, por isso não tenho memórias dele e para mim, é como se nunca tivesse existido e para dizer a verdade, nunca fez muita falta. Por isso nunca tive nem acho que vou ter uma experiência destas mas imagino que deverá ser muito duro ver o nosso ídolo, a nossa referência, o nosso pai, afastar-se de nós, depois de tanto tempo juntos e das relações que criaram.

    Mas como dizem, o tempo cura tudo.

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  8. Lobo: Fico triste ao saber isso. Não imaginava que tivesses crescido sem pai, apesar de, certamente, teres tido muito amor e todo o carinho da restante família. :(
    Foi duro, sim, bastante. O pior mesmo foi quando a mãe casou com outra pessoa. Mas, ainda antes disso, o divórcio e todo o processo...

    Sim, o tempo ajuda a "esbater um pouco as feridas..."

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  9. Estas tuas páginas de diário são tão lindas Mark...

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  10. Memórias de um dia díficil! Lamento pela situação que passaste. Não conheço essa sensação pelo que não imagino o pânico e tristeza que pode gerar!

    Abraço,
    Ikki

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  11. Ikki: Foram dias complicados... Bastante complicados... É a tristeza, a impotência e o desespero...

    Abraço.

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  12. Nunca tive de passar por esta situação, mas quando era pequeno houve uma fase em que os meus pais discutiam muito e alto e lembro-me de estar na cama a chorar e a tentar não os ouvir.

    Para o melhor ou para o pior, dizem que o tempo ajuda a sarar as feridas. Mas acredito que isto ainda hoje mexa muito contigo. Ainda pensas que poderiam voltar a estar juntos?

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  13. Coelhinho: Mexe comigo, sim. :( Ainda hoje, apesar de já terem passado mais de cinco anos.
    Não, é completamente impossível. Ambos refizeram as suas vidas com outras pessoas. E, pensando bem, talvez seja melhor assim. Já não estou habituado a vê-los juntos...

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Um pouco da vossa magia... :)