5 de fevereiro de 2017

Trump.


   Recordo-me de aludir ao tropeção que os estadunidenses dariam caso a escolha recaísse em Donald Trump. A primeira semana de mandato assim o tem demonstrado. Trump surpreendeu. Rogávamos aos céus por um assomo de sensatez inesperado, da sua parte ou da parte dos conselheiros que o acompanham. Está a revelar-se exactamente como se apresentou na campanha eleitoral, levando a que, do mundo das artes à política, todos, unanimemente, condenem as suas medidas.

    Os EUA são uma terra de imigrantes, à semelhança de outros grandes estados, como o Brasil ou a Argentina. Negá-lo seria um erro só justificado pela ignorância. Milhões, movidos pelo American dream, ao longo dos séculos XIX e XX, desembarcaram nos portos estadunidenses, construindo as suas vidas por lá, constituindo família, enriquecendo o tecido económico do país, dando-lhe pujança, ajudando na sua afirmação como grande potência.

    Afortunadamente, o poder judicial tem sabido, nestas primeiras horas, impor-se às políticas totalmente discriminatórias e até - perdoem o excesso - de cariz nazi. Trump, na sua perseguição aos imigrantes, confundindo-os com terroristas, reporta-me a Hitler, quando, progressivamente, foi restringindo direitos e direitos aos judeus. Excluir um grupo de pessoas com base na sua nacionalidade, ou religião, ou seja o que for, é obsceno. Merece a nossa mais veemente e ostensiva reprovação. Trump não é só contra os ilegais; Trump é contra quem vem por bem, buscando tão-só novas oportunidades.

    A ascensão destes movimentos de teor totalitário, também pela Europa, assusta-me. O mundo está a mudar, efectivamente. Longe ficaram os tempos da tolerância, do derrube de muros, da solidificação dos laços entre os povos. A história repete-se. Ainda nem há cem anos travámos as mais duras das guerras, fomentadas pelo ódio, pelo preconceito. Os grandes populistas munem-se da palavra para excitar as piores paixões humanas- e Trump nem é grande orador. No seu discurso de tomada de posse, foi tão lacónico e superficial que me deu, entre outros sentimentos, pena. Pena pela sua manifesta incapacidade e pena também dos seus compatriotas, pelo erro que cometeram, e do qual, estou seguro, se aperceberão tarde ou cedo. Confio num impeachment. Dizem que eles até estão de novo na moda...

14 comentários:

  1. Continuando assim ele não dura 2 anos na presidência.

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  2. Ter uma pessoa como ele a governar uma das maiores potências mundiais é tenebroso. Vamos a ver se alguém o faz saltar foram caso contrário, vamos caminhar sob gelo fino nos próximos tempos...

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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    1. O sistema de voto estadunidense pode levar a estas deturpações, como fazer-se eleger o candidato que não tem a maioria dos votos dos cidadãos. Diz respeito ao sufrágio indirecto. Vota-se nos eleitores estaduais. Depois, cada estado tem mais peso do que outro, enfim.

      Os EUA sempre foram proteccionistas. Estarão mais agora, mas a verdade é que também o eram com Obama, nomeadamente. São um país muito voltado para si mesmo.

      Evidentemente. Trump conquistou o voto da classe média, onde, tradicionalmente, se ganham ou se perdem as eleições. Mais do que o eleitorado republicano, Trump conseguiu seduzir os descontentes com a crise social.

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  4. O mundo está a ficar doido, mas quantos devem ter votado nele e agora saem à rua em manifestação?! Ninguém à rua a seu favor? lololol

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  5. as forças reacionárias estão se fortalecendo dia a dia no mundo... não sei bem o que pensar.... mas sou esperançoso!

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  6. Apesar de não desejar aos americanos a "sorte que lhes calhou no sapatinho", porque esta peça acabou por ganhar por escassa margem, o que me leva a querer pensar que nem todos os estadunidenses sejam feitos da mesma massa, não deixa de ser um bom exemplo para os franceses com uma Marine Le Pen a tentar colar-se à campanha deste personagem de pacotilha.
    Oxalá a mensagem não caia em saco roto.
    Uma boa semana
    Manel

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    1. Bem a propósito, essa senhora proferiu, há dias, das afirmações mais populistas de sempre: que é a candidata do povo contra o dinheiro, dixit.

      Espero que os franceses se lembrem de Trump na hora de votar.

      Obrigado, Manel. Uma boa semana para si também.

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  7. Ouvi dizer uma vez que a história é uma espiral. Voltamos aos mesmos problemas com outros cenários. Parece que é uma máxima cada vez mais verdadeira...

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Um pouco da vossa magia... :)