10 de outubro de 2015

Rainy.


      Gosto dos dias cinzentos. Proporcionam-me bons momentos de introspecção. Quando as manhãs nascem escuras e frias, invernosas, é como se o dia tivesse sido concebido à minha medida.

      Levantei-me bem cedo, enquanto todos dormiam. Fui para a rua. Caminhei, chapinhei nas poças, senti os pingos escorrendo-me pelo braço esquerdo, que ergui, molhando um pouco da manga da camisa branca. Sob o guarda-chuva negro, avancei pelos semáforos, de luzes reflectindo-se no piso húmido, dando algum alento à avenida. Vi o meu rosto no vidro de uma loja de antiguidades. Já sou um homem feito. Sentir-me adulto, responsável, não implicou - não que o tenha percebido - um caminho de certezas e de significados. Continuo perdido, ainda à espera de um rumo. Há quem se demore por um grande amor ou por uma oportunidade profissional irrenunciável. A nada disso me refiro. Aguardo, isso sim, por uma justificação, uma razão que explique a minha existência. Acredito que a maioria aceita a sua sem esperar, em contrapartida, por qualquer resposta. Eu preciso-as.


       Fico extenuado. Se invoco a Deus, não as obtenho. Se me socorro dos homens, tudo o que recebo é um chorrilho de palavras aparentemente contraditórias. Sou tomado pela trágica lassidão que me impede de argumentar, trazer factos, confrontar com o que não faz sentido. Resigno-me no momento.
     A vida cansa-me. Por vezes quero fazer tanto que faço tão pouco. O meu corpo não acompanha os comandos do cérebro. Fervilham em mim mil ideias.

      Entrei numa pastelaria. Observei os candeeiros lustrosos, iluminando o salão principal, a montra de iguarias irresistíveis. Pedi uma meia de leite e uma torrada simples, com pouca manteiga. Nas mesas circundantes, casais tomando o pequeno-almoço em alegre cavaqueira. Ao longe, uma mesa composta de senhoras já de certa idade, sorrindo, entre cada trago no chá. Podia ver-se as chávenas fumegando. Senti-me rodeado de amizade, confiança, entrega, ainda que estivesse só. Acalentou-me.

         Regressei sem as respostas. Não será calcorreando as ruelas da cidade que as encontrarei. É provável que nem as haja. E que o mistério da vida (e o seu encanto, se é que o tem) resida na incerteza sobre o eu, o outro e o futuro.

18 comentários:

  1. Uhmmmmmmmmmmmm

    Cheira-me que foste ao meu "petit chateau" ;)

    Um chá uma torrada com este tempo, é do melhor que há :)

    Adoro essa pastelaria. :)

    Abraço amigo

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    1. Prefiro leite ao café da manhã. :)

      Lisboa tem locais muito agradáveis para comer qualquer coisa.

      um abraço, amigo.

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  2. Tal como outras perguntas que os seres humanos vão fazendo ao longo do Tempo, a pergunta que tu fazes não tem resposta, procurando nós por ela. Ela virá ter contigo quando chegar o momento certo.

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    1. Há perguntas para as quais não encontramos respostas. Talvez não estejamos aptos para isso.

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  3. Gosto dos dias cinzentos, gosto das reflexões, gosto de uma cafeteria, gosto de pensar pensar e ver q nunca temos certas respostas ... pelo menos não as que desejamos ter. A graça da vida reside justamente nisto.

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    1. Presentemente, estamos na minha estação preferida (que foi, outrora, o Verão). As noites aumentam, o frio também, gradualmente. Se há época do ano em que fico especialmente melancólico, é nestes meses que antecedem o Natal.

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  4. Uma das coisas que mais gosto de ti é o que deixas neste teu posto, a subtileza dos detalhes, e a importância do que para alguns é insignificante.

    No que escreves acabas por falar de ti de uma forma que eu admiro.

    Eu adoro dias cinzentos, com chuva e prateados, um reflexo do tempo. Se bem que este, hoje, necessitava de um pouco mais de luz.

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    1. Acabei o dia pelas ruas da cidade, à noite, apreciando a beleza das cores nocturnas misturando-se com o espelho d'água deixado pela chuva.

      Obrigado, No Limite.

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  5. em dias de chuva, gosto de estar em casa no quentinho. hoje, foi um martírio, acordei com um temporal e calcei as galochas. afinal, não choveu e vê-se uma nesga de céu azul.
    mas eu gosto de dias assim, um bocadinho melancólicos, cinzentos. acho que faz parte de nós, portugueses, esta cor e este fado.
    crescer, não crescer, inseguranças mil, enfrentar o mundo de frente, tudo parece difícil, mas à medida que o tempo avança, ultrapassas obstáculos. eu dou por mim a pensar em coisas que fiz no passado que me custaram 'horrores' e agora rio e penso como me portei dessa forma. afinal, até eram simples (seriam agora, no presente, simples, mas naquela altura, não. foram terríveis. cresci? amadureci?, ou já não me importo tanto e deixo que aconteça? é isso, pensamos de mais).
    boa semana, Mark.
    bjs.

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    1. Eu gosto de observar as ruas, a cidade, nestes dias de chuva. Lisboa tem outra beleza nos dias cinzentos.
      Em pequeno, só gostava do Verão, pela praia, piscina. Já maior, mantive. Agora, pelo contrário, prefiro os dias molhados, o céu carregado, a neblina. Como se me aceitasse, por fim. Evitava tudo o que me tornasse mais melancólico.

      O segredo do "bem viver" é pensar pouco. Assim conseguíssemos. :)
      Querendo ou não, a vida obriga-nos a aprender as lições. No meu caso em particular, tem sido boa professora, ainda que não o pareça...

      um beijinho e boa semana, Margarida.

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  6. Viver não tem grandes segredos. O maior deles é pensar pouco e bem, cuidar da saúde e assegurar a sobrevivência. Do resto o tempo cuida. Mas concordo que é difícil. Tem duras batalhas, sofrimentos. Deveríamos trazer manual de instruções.
    Gostei do lirismo de seu texto.

    Abraços!!

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    1. Complicado será agir de forma correcta. Pensar pouco, no meu caso, é quase impossível. Esses "segredos" aparentam ser simples, mas não são. :)

      Obrigado, Ty.

      abraço.

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  7. Já dizia Fernando Pessoa: "Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol.
    Ambos existem; cada um como é."

    Muito legal ler teu relato, quase deu para sentir o clima frio no rosto, sem falar na vontade experimentar as torradas! ;-)

    Não sei... "andando atrás de você", fiquei pensando que muitas vezes mais importante que as respostas, é a direção que estamos seguindo... nesse sentido, espero que possa continuar caminhando sempre, pois assim com certeza algum dia chegara às respostas que tanto procura.

    Abração.

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    1. O frio não durou muito. Os últimos dias têm sido bem mais amenos. E não voltou a chover. :(

      Bom, alguma direcção estarei seguindo. Um destino, seja qual for, é certo. Falta saber qual.

      abração.

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  8. Acho as suas palavras fantásticas! Consigo imaginar cada passo e pensamento. Rs

    Grande abraço!

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  9. Outro texto magnifico :) "Crónicas anunciadas de um homem só" :)

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Um pouco da vossa magia... :)