27 de janeiro de 2015

A queda.


        Quando o que antevemos não é necessariamente bom ou cómodo, a tendência, pelo menos da minha parte, é olhar para trás. Um tanto de personalidade e outro de hereditariedade compõem um resultado final que não será menos do que uma angústia permanente.

   Nesse exercício de retrospectiva, encontro momentos bons e ternos, na imaturidade e irresponsabilidade, ingenuidade, próprias de uma criança que crescia num mundo de idílico, rodeado do carinho parental, de paz inquieta. Também não era educado para viver por si. Para crescer e enfrentar os desafios, as peripécias de um jogo inevitável e tão envolvente. Mantido como se não crescesse, se não tivesse de se cuidar, de prover às suas necessidades.

     Um dia o castelo ruiu. Os alicerces nos quais se sustinha desabaram. Ficou-se pelos escombros, tentando, num primeiro momento, remover o entulho que o sufocava. Foi conseguindo, a custo, com dor, queixumes daqui e dali, mas alcançando a superfície. Depois havia que reconstruir o que caíra tão inesperadamente. Talvez em outros moldes, erguendo novo edifício, desta feita com materiais conquistados. Nem assim. E aí a tarefa revelou-se complicada.

    
        Permanecer no vazio, enfrentando as tempestades que provêm de uma inércia desconfortante, foi o que restou da leva de batalhas perdidas. Sem vencedores e somente com um derrotado.

20 comentários:

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    1. Um resumo minimalista. :)

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    2. Se precisares de falar já sabes. Estou "aqui"!

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    3. Muito obrigado pela gentileza e preocupação, Namorado.

      Eu estou bem. Acredita que sim. :)

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  2. Quem sabe juntando cada pedrinha você consegue construir de novo seu castelo. Aos poucos, devagarzinho.

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  3. Epícteto diz-nos:

    "Aquilo que nos afecta não são tanto as coisas, mas sim as opiniões que formamos sobre as coisas."

    Parece-me que no teu caso, este pensamento assenta-te bem. O teu texto faz-me recordar um velho saudosista, qual "Velho do Restelo", que reconta as sagas vividas pelos nossos antepassados quanto Portugal esteve no auge do seu império, na sua Era Dourada.

    És um derrotado porquê? Tu és um justo vencedor. Tens [alguma] saúde. Tens conforto material. Tens liberdade de expressão. Tens um tecto para viver. Tens direito a sonhar e consegues tornar os teus sonhos realidade, basta lutares por eles, em vez de simplesmente te resignares. Tens a capacidade de te mobilizares por ti, não estás prisioneiro do teu próprio corpo. És livre para fazer o que bem entenderes. Se não o fazes, talvez seja porque receies o desconhecido, talvez seja porque aches que não valha assim tanto a pena. Mas de uma coisa podes estar certo. Se não tentares, se não te decidires a dar esses passos, nunca saberás. Seja para o que for. ^^

    E vê se te libertas desse pessimismo, que te fica mal. Tu és muito mais do que isto, fofo. A sério. Valoriza-te. Tu és mais do que isto, porque eu conheço-te e sei que sim. Não tenhas medo. E se precisares, já sabes que podes contar sempre comigo para te ajudar a enfrentar o medo também. Não me esqueci da promessa que fizemos no verão passado! Espero cumprir aquele sonho um dia destes! ^^

    Abraço grande. :3

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    1. Eu sou saudosista, João. Lutar contra isso seria infrutífero, e nem quero. Há um costume, mau, no meu entendimento, de se defender que o que importa é pensar no presente e no futuro. Que, como dizem, "o passado lá está, lá está". Recuso-me a aceitar isso. Lá estará, sim, mas nada nos impede de viver nos momentos que guardamos na memória, desde que isso não nos faça negligenciar o presente e / ou o futuro. Não será o meu caso. :) Não estou de braços cruzados sobre os joelhos, chorando. Terei esses momentos, sim, como todos, mas não farei deles uma constante.

      Tens razão. Não devo me dar por derrotado numa guerra que não findou.

      O pessimismo não é como uma roupagem que se veste e despe, ao sabor das tendências. E valorizo-me, claro que sim. Não está aqui em causa qualquer falha na estima pessoal, quebra na confiança. Absolutamente. Sei o que valho, mesmo que não faça gáudio disso.

      Houve erros, não necessariamente meus, que me prejudicaram. Que ninguém me tire os sorrisos do passado. São meus.

      Obrigado, João, pelo carinho e pela ajuda, e um grande abraço. :)

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    2. Eu compreendo-te bem Mark. Sabes disso. Posso por vezes dizer as coisas de maneira demasiado directa ou frontal, mas sabes que muita coisa fica por dizer, pois tu também me compreendes e sabes ler nas entrelinhas. Julgas que os meus pais ainda hoje não me magoam? Pois magoam e muito. Ainda hoje estão em guerra em tribunal por causa dos bens materiais. Pensei que depois da morte do meu irmão, essa questão se tornasse irrelevante, mas, bastou cada um deles refazer a vida ao lado de novos companheiros para darem início a novas trocas de acusações, novos jogos, chamadas para a minha avó quase diariamente - um ou outro a dizer isto ou aquilo, sempre a dada altura da conversa a meter alguma acha para a fogueira. É chato, é stressante é desgastante e deprimente. Comportam-se pior que dois miúdos da escola primária e isso entristece-me. Envergonha-me e magoa-me. Faço os possíveis para me isolar disso. O problema é deles e só deles, não meu. A minha vida é para ser vivida por mim e eu quero vivê-la de uma forma mais rica e feliz, junto de pessoas que me estimem, que gostem de mim, que me compreendam e acarinhem. O resto virá por acréscimo. Vou lutar pelos meus sonhos, um dia de cada vez. E amar-me acima de tudo, porque se não me amar acima de tudo, tudo o resto será ilusório.

      Um forte e carinhoso abraço, querido Mark. Obrigado por este momento.

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    3. João, eu bem sei que tens uma situação familiar complicada. E lamento. Provavelmente o que se passa é que és mais optimista do que eu, ou com outro ânimo em "tocar" a vida para a frente. Mas estás à vontade para me passar um pouco desse entusiasmo. :)

      A morte trágica do teu irmão não se compara com os meus "pequenos" problemas.

      Felizmente, os meus pais já não guerreiam por nada. Em tempos idos, sim.

      um abraço forte.

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  4. Quando caires 7 vezes, levanta-te 8 :)

    Grande abraço amigo

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    1. Um abraço fraterno, amigo Francisco. :)

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  5. Eu faço minhas as palavras do João.
    Por muito que o desmintas, tens andado numa fase muito pessimista. Claro que só tu sabes exactamente da tua vida, mas daquilo que já deixaste transparecer nos teus escritos, a vida não tem sido ingrata para ti, quer no plano económico, quer no campo da realização pessoal (estudos).
    Claro, estás mais maduro, estás a sair de uma campânula que sempre te protegeu, e por vezes sentes-te pouco preparado para isso.
    Será isso?

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    1. João, depende. "A vida não tem sido ingrata para ti (...)" Talvez tenha sido, caro amigo. Os problemas não se resumem aos planos financeiro e profissional (estudantil, no caso).
      Tenho os meus problemas, como todos. Cada um sabe de si, e Deus de todos.

      Cometeram erros sobre mim. As consequências têm se verificado. O texto tampouco é um desabafo. Será mais uma exteriorização.

      um abraço.

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  6. as quedas ajudam-nos a sermos mais fortes. depois, resta-nos aprender a lidar com isso. e todos aprendemos. o meu conselho (enfim, quem sou eu para os dar... :)) é que tentemos fazer por isso, sair um pouco da saia acolhedora, um pouco do regaço - mas com o cuidado de o manter por perto, sem magoar os entes queridos. darmos espaço a nós, à nossa vida, a sermos o que somos, porque somos um ser único. o passado faz parte. nós somos passado, somos o agora e seremos o futuro que construirmos. e viver um dia de cada vez, :)
    bjs.

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    1. Olhar para o futuro e cuidar do presente, sem esquecer o passado.

      Sem dúvida. Sinto-me mais forte do que o era aquando da separação dos meus pais - o facto mais trágico que se abateu na minha vida. Desde aí que tenho procurado sobreviver ante os destroços em que me deixaram.

      Obrigado, Margarida.

      um beijinho.

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  7. Acho que todos nós teremos um dia o nosso castelo a ser arruinado! Acredito que faça parte do nosso crescimento e do nosso amadurecimento, na verdade acredito que é isso que "os antigos" chamam crescer! Também acredito que temos imensa dificuldade em aprender a lidar com as coisas "não boas" que acontecem em nosso caminho, por vezes, vemos algo que "não bom", como uma derrota ou mesmo algo a termos vergonha... (falo por mim mesmo).

    Mas a verdade é que não há derrotados, aliás... derrota seria se ficássemos parado ali sem reação, mas isso raramente acontece... No fundo somos vencedores, como dizemos por aqui, "levantamos, tiramos a poeira fora e damos a volta por cima. Imagino que o texto seja muito pessoal, por isso só vou comentar que não reconheço em ti esse perdedor, vejo um lutador... talvez ainda um pouco machucado, talvez ainda um pouco "desorientado" pelo choque, mas ainda assim um lutador!

    Infelizmente nem tudo as vezes se encaminha como gostaríamos ou da melhor possível, mas, no seu tempo eu tenho certeza que vai encontrar teu caminho e escrever tua história! E creio que tens material, e possibilidades, de escrever uma bela história viu!

    Grande abraço!

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    1. Muito obrigado, Latinha.

      Sim, é provável que seja apenas um lutador machucado. Boa perspectiva. :)

      um abraço enorme!

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  8. Creio ter entendido as entrelinhas.
    Sim, na grande maioria dos divórcios, os derrotados são os filhos. O casal em si centraliza toda a revolta e comédia, como se de uma peça de teatro se tratasse, esquecendo que existem frutos.
    Vive, Mark.
    Vive. Não cometas os meus erros, p.f.!

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    1. Leste bem as entrelinhas.

      um abraço, Paulo, e obrigado.

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Um pouco da vossa magia... :)